Antologia Halloween - Contos de Terror no Brasil - 1x08


Sinopse: Miguel, de cinco anos, filho de humildes trabalhadores rurais que vivem num pequeno sítio, em Soledade, RS, cisma, de repente, que vai para o céu. De onde terá tirado tal ideia? No sitio deles, há uma estranha formação rochosa que há tempos instiga o pai de Miguel.


Soledade, 1986
de Luiz F. Haiml

  

Como se sabe, o entardecer, no verão, não se dá rápido. E pelos interiores, em tal estação, parece decorrer ainda mais devagar, do que nos centros urbanos.

Num cantinho rural da região de Soledade, no Rio Grande do Sul, no sítio em que viviam, e do qual tiravam seu sustento, a família Silva aproveitava um desses arrastados momentos.

 João e Rosa tomavam seu chimarrão no alpendre da casa, uma habitação simples, de madeira, ampliada fazia pouco para dar um quarto só aos meninos. Após a morte dos pais, João morava ali sozinho, até conhecer Rosa. Sete anos mais velha do que ele, Rosa, antes da última cria-lhe dera Salete, e antes dessa, Miguel, que dali a alguns dias completaria cinco anos.

Enquanto a bebê, de apenas alguns meses, dormia numa cestinha perto dos pais, os três manos mais velhos – frutos do primeiro casamento de Rosa – corriam e gritavam ao redor da habitação. Salete seguia junto naquela algazarra, assim como dois incansáveis e barulhentos guaipecas. Um dos meninos, sempre ao passar pela vaca Gertrudes, plácida a ruminar num capãozinho próximo, a espezinhava com caretas e pulos. Só Miguel não estava ali, entre eles.

Rosa tentava não pensar no estranhamento do pequeno Miguel, no dia anterior. Não havia comentado o assunto com o marido, esse já andava agitado por culpa de umas dívidas cada vez mais difíceis de sanar. “Além disso” ela pensava “deve ser coisa de criança, logo passa”, “não as levarei mais à missa, pelo menos os mais pequenos, devem ter se impressionado com o jeito daquele novo padre, gritão e falando o tempo todo que o mundo vai acabar”.

João enchia a cuia quando percebeu o pequeno Miguel a ir-se já lá pelo meio da estreita trilha de saibro que se iniciava um pouco a frente da casa e seguia por uns vinte metros até a cancela que dava entrada ao lugar.

– Miguel!

– Miguel!

O menino voltou-se, calmamente, e sem pressa encaminhou-se a quem o chamara. O pai sorriu. Gorduchinho, a cabeleira toda em caracóis e molinhas, Miguel lembrava aqueles anjinhos das pinturas antigas. O menino chegou diante de João.

– Onde tu ia, meu pequeno?

– Pro céu.

– Tu tá brincando de voar, é? – João largou o chimarrão no porta-cuia, botou Miguel em seus joelhos. O garoto sorriu.

 – Vou ir pro céu... é lá. – e apontou em direção a uma grande rocha. Dentro do terreno, ficava ela há poucos passos da cancela.

 Tal rocha já estava lá desde que o lugar tinha sido comprado pelo pai de João. Moldada em saliências irregulares, de um cinzento que em algumas partes se adensava, era de não muito vasta largura. Em altura, compreendia duas vezes o tamanho de uma pessoa adulta. Não passaria de mais uma imensa pedra qualquer, se não fosse pelo formato – quase perfeitamente retangular – e por intrigar os moradores a questão de ninguém saber como ela tinha ido parar ali, a erguer-se sozinha e única em meio ao que só eram campos e matos por quilômetros ao redor, ficando a pedreira mais próxima em outro município. Decidiram, por isso, não removê-la, deixando-a fixada em seu lugar como uma espécie de monumento.

Tendo crescido à sombra de tal enigmático pedregulho, de uns tempos para cá, João dera a acreditar que, pelas arestas desse, estaria a se esconder um determinado desenho, uma figura que, por mais que João tentasse, forçando os olhos sobre a superfície irregular e áspera, nunca lhe vinha nítida.

– Vai brincar com teus irmãos então...  .

João devolveu o filho ao chão e estremeceu ao perceber que o sorriso do menino se transformara num olhar sem vida. Miguel afastou-se, cabisbaixo, para o lado da casa.

Rosa chegara à porta, tinha entrado para esquentar mais água:

– João, esse menino está estranho. Não te falei nada antes, pois tu já andas muito preocupado

                                   

                                        ***

 

 No dia anterior, na hora do almoço, tendo deixado João na lavoura pra ir tratar as crianças – a bebê ficara com uma vizinha – Rosa estranhara que Miguel não estava a esperá-la; o pequeno sempre a aguardava ansioso, pois ainda gostava de mamar no peito. E como a Rosa tinha leite de sobra, não se importava com isso.

– Onde está Miguelzinho? – perguntou a mãe ansiosa?

– Está no quarto, nem saiu de lá hoje - respondeu Carlos, o mais velho dos irmãos.

– Miguel!...Miguel!...

Sem resposta, ela se apurou ao quarto dos meninos. A inquietação lhe espinhando mais fundo ao ver o que se passava: as roupas de Miguel estavam todas sobre a cama, o menino ao lado delas.

– O que é isso, filho, porque tuas roupas estão assim?

– Não preciso mais delas.

– Por que não?

– Por que logo vou ir pro céu – respondeu Miguel olhando Rosa – lá é bom mãe.

Ela encostou o queixo na testa do menino para ver se estava com febre. Nada. Normal.

– Tá com fome, amor? Não posso demorar muito. Teu pai tá me esperando.

– Não preciso mais comer – o garoto se calou, abaixou a cabeça, sentia-se culpado por atrapalhar a mãe.

Rosa impacientou-se.

– Tudo bem, então. Mas, quando eu voltar quero esta roupa toda no armário!

Rosa não viu remédio, tentou se acalmar, tinha que ir e ajudar o marido; ergueu-se apressada e tropeçou num pequeno vulto desequilibrando-se e quase o derrubando. Era Salete.

– Filha! – Rosa apoiou-se na porta para não cair - Cuidado! – e aí percebeu a pequena maleta.

– Vou junto com ele – diz a menina, antes mesmo que a mãe conseguisse se por totalmente de pé.

– O que é isso, meu Deus? A família está endoidando!

Do quarto atrás de si, a voz de Miguel:

– Não se preocupe, mãe. Não se preocupe... .

Perdendo de vez a paciência, Rosa gritou:

– Está bem, coma quem quiser, deixei tudo na mesa! Preciso voltar!

                                     

                                      ***

 

Um dos filhos passou correndo – a cuia estava caída diante de João – as outras crianças iam surgindo de todos os lados. O mate e a água quente formavam uma massa indefinida aos pés de Rosa. A bebê despertou, começou um choro intenso. Gertrudes iniciou um mugido ininterrupto, melancólico, olhos arregalados, injetados de sangue.

João e a mulher, sem movimentos, viram os filhos se fecharem ao redor de uma pequena forma, tombada essa, bem junto à grande rocha. Não podiam ver, porém, as sombras, que das raízes do grande monólito afloravam, e, se entremeando ao corpo de Miguel, iam lhe desfazendo os traços.

Então, o grito.

– Pai, ele tá morto!

Naquele mesmo instante, naquele especifico ponto da pétrea superfície que tanto o instigava, revelou-se a João, uma imagem. Por entre as duras, rugosas arestas, surgiu um rosto. E João o reconheceu. Soube logo de quem era aquela face profundamente tomada por um sofrimento silencioso mesclado a uma indizível bondade. Num dos vitrais da sua igreja, com um olhar de imensurável ternura, o mesmo homem, cujo rosto João naquele momento via em traços bem claros, segurou uma ovelha em seu colo. Por um momento, o coração do pai ganhou conforto.

A família mudou-se. “Culpa das dívidas”, alegou o casal. 

Conto escrito por
Luiz F. Haiml

Ilustração
Juliana Daniela Schneider

CAL - Comissão de Autores Literários
Agnes Izumi Nagashima
Eliane Rodrigues
Francisco Caetano 
Gisela Lopes Peçanha
Lígia Diniz Donega
Márcio André Silva Garcia
Paulo Luís Ferreira
Pedro Panhoca
Rosside Rodrigues Machado

Produção
Bruno Olsen
Cristina Ravela


Esta é uma obra de ficção virtual sem fins lucrativos. Qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência.


REALIZAÇÃO

Copyright 
© 2021 - webtvplay
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Antologia Halloween - Contos de Terror no Brasil - 1x07


Sinopse: "Mariana do Pito-A Bruxa da Província” é uma história assustadora sobre uma velha benzedeira que realizava curas e outros trabalhos na região da Província de Cárpoles, ao Norte do Paraná, e após a sua morte, revelou sua verdadeira identidade, vigando-se e trazendo ruínas a muitas famílias ricas que duvidavam dela.


Mariana do Pito - A Bruxa da Província
de Danilo Seraphim

 

1.

E foi lá, pelos anos de “mil novecentos e uns dias que não me recordo” que vivia, em um sítio na estrada dos jabuticabais, na Província de Cárpoles, ao Norte do Paraná, uma senhora de pele enrugada e expressão judiada e cansada pelo tempo.

Diziam que ela realizava benzimentos, curas e outros “trabalhos”, a fim de que as crianças melhorassem e os doentes se restabelecessem ou as mulheres se acertassem com seus relacionamentos conjugais. Trabalhos como “garrafadas”, resolução de alguns conflitos amorosos e outros tipos de habilidades, o povo também acreditava fortemente que ela possuía. Havia até mesmo algumas mulheres que afirmavam, sem sombra de dúvidas, que a Mariana do Pito (era assim chamada porque não largava por nada, nem por um momento, o cigarro de palha que ficava na boca, mais apagado do que aceso) não errava uma. Teve até a comadre Gertrudes, que vendera dois novilhos para que a Mariana do Pito trouxesse o marido fugidio de volta pra casa. Ele não voltou, mas a Gertrudes arranjou outro bem mais novo, forte e galanteador.

Com certeza, era coisa da Mariana do Pito, ela fazia milagres, as comadres tinham certeza disso.

2.

Em uma tarde de domingo, Mariana do Pito fora chamada na casa de um rico comerciante da Província de Cárpoles. Seu filho mais velho não estava bem e mesmo com medicações ele não melhorava.

O cara não acreditava nessas coisas, e um dia antes ele havia discutido com a esposa, mas ela insistiu:

— Antenor, os remédios já não fazem efeitos, levamos em três médicos, o que podemos fazer?

— Levá-lo em outro médico, Ivonete! Não podemos deixá-lo assim, queimando de febre.

— Antenor, eu acredito nos remédios milagrosos e nas rezas e trabalhos de uma velha senhora que mora lá na estrada dos jabuticabais.

— Ei Ivonete, pare com isso por favor!

— Você não sabe de nada, homem, por favor! Ela curou o filho da nossa lavadeira esses dias mesmo.

— Meu Deus, isso não existe Ivonete, deixe de bobagens!

— Eu quero o melhor pra ele, Antenor, por favor deixe, que eu sei o que estou fazendo.

Após convencer o homem, chamaram Mariana do Pito. Ela aspirava a fumaça do cigarro fedorento, e nas mãos fazia uma guimba, misturando-a, a um tipo de pano e ia fazendo uma compressa muito peculiar. Levava aquilo à têmpora e às narinas da criança, que apenas gemia parecendo grunhir como um gatinho indefeso e a febre ardendo.

Não se sabe se foi para não aguentar mais o maldito cheiro do pito por mais algumas vezes, ou se realmente aquele estranho ritual funcionava, mas no terceiro dia a criança melhorou. É óbvio que as medicações haviam continuado a todo vapor, mas a senhora Ivonete estava feliz com o trabalho da Mariana do Pito.

3.

Outro dia, na casa de uma família tradicional da Cidade de Cárpoles, ocorrera um fato inusitado. Lá estava ocorrendo um almoço. Alguns tios dos anfitriões que moravam na Capital do Estado e outros amigos, ali estavam.

Enquanto algumas dessas pessoas aguardavam na sala para saborearem a comida, preparada pela dona da casa, eis que chega à porta uma velha, com uma saia comprida, a expressão judiada e um cigarro de palha no canto da boca. Era Mariana do Pito. Ao avistá-la, o filho mais velho do casal, de apenas dez anos gritou em alta voz: “Mamãe, é a caipora!”.

A mãe, muito mais envergonhada pelo grito escandaloso do menino, tentou acalmar o ambiente:

— Meu filho, por favor!

— Sim mamãe, foi com ela que eu sonhei, a velha feia e enrugada de pito na boca, ela é a caipora!

— Não, por favor, ela é apenas a dona Mariana e veio até aqui porque eu sempre a ajudo.

Mariana do Pito sorriu discretamente exibindo a boca sem dentes e disse à mãe da criança que não se preocupasse com isso.

Nesse momento o marido interpelou a esposa:

— Como assim, ajuda? Em troca de quê?

A esposa engasgou e respondeu:

— Ora, nada, apenas tenho pena dela e sempre ajudo.

A dona da casa retirou-se com Mariana do Pito, conversaram alguns minutos e a velha foi embora.

De fato, sua presença naquele momento aliada ao grito de pavor do menino, causaram no mínimo um desconforto já que para a criança a imagem da tal “caipora” era justamente aquela. Mas continuava correndo nas redondezas, as notícias de cura e outros trabalhos de Mariana, que com seu pito realizava proezas.

Em velórios, Mariana do Pito ficava até clarear o dia, nas quermesses do local e em algumas festanças ela estava lá, com o pito no canto da boca e tomando vinho e pinga.

Muitas famílias abastadas no lugar odiavam Maria do Pito. Chamavam-na de “macumbeira”, “velha maldita”, “bruxa” e outros adjetivos.


4.

Certo dia, a velha Mariana do Pito morreu.

A velha senhora benzedeira, curandeira, macumbeira e “outros bichos”, já havia partindo para o além.

Em um dia de domingo frio e chuvoso em Cárpoles, Vidal Diogo e sua família iam pela estrada dos jabuticabais quando avistaram ao longe um arbusto em chamas.  Parafraseando a passagem bíblica lá do êxodo, era um tipo de “sarça ardente”.

O senhor Vidal, homem religioso e de crenças sobrenaturais conservadoras, parou bruscamente seu fusca do ano. O filho mais novo que estava no banco de trás junto com os outros dois irmãos, gritou estridentemente: "Tem uma mulher se queimando lá dentro da árvore, pai!".

O homem aproximou-se mais um pouco. De fato, lá dentro do fogo havia uma mulher "ardendo em chamas". Eles se aproximaram e levaram o maior susto. A velha emitia gritos e risadas agudas e estridentes, mas ela não se queimava, apenas ria e gritava alto, enquanto sua face ia se transmudando, ora rindo, ora revelando um rosto assustador.

Eles não conseguiram identificar a velha que rodava dentro do arbusto em fogo, mas dava para notar que era uma velha muito magra e com pito no canto da boca.

De repente, mais uma risada estridente e ela desapareceu. Esse fato presenciado pela família de Vidal Diogo logo se alastrou pela província e não parou por aí.

Dois homens que eram boiadeiros e empregados no sítio do senhor Pedro Rocha estavam apartando o gado já no fim da tarde, quando ouviram algo se mexer atrás de uma moita de capim. Em poucos instantes a moita começara a pegar fogo. De repente, o mesmo grito, a mesma risada aguda e estridente.

Um dos cavalos assustou e jogou o homem longe, dentro de um buraco, o outro homem, “amigo da onça” virou o cavalo e... “pernas pra que te quero” (bom, nesse caso, quem deveria “dizer” isso seria o cavalo, né? Mas enfim...). O fugidio escafedeu-se.

O outro boiadeiro caído, levantou-se rapidamente e ao olhar para o arbusto em chamas não havia mais nada. Após o ocorrido com os boiadeiros e com a família do senhor Vidal, os comentários se alastravam:

“Mariana do pito era a bruxa que aparecia nas moitas e elas ficavam em chamas”,  mas, aquelas pessoas ricas e de altas posses que não acreditavam no assunto e teriam praguejado Mariana do Pito enquanto ela vivia, afirmando que ela era uma bruxa, agora iriam receber o troco. Era a hora do acerto de contas.


5.

Segundo a lenda, Mariana do Pito realmente se transformou em uma bruxa e muitas coisas tristes, horrendas e lamentáveis ocorreram com aquelas famílias ricas que a praguejavam e duvidavam dela. Coisas sem explicação, tais como: suicídios, assassinatos, doenças sem causas pré-existentes, um fogão que se acendeu sozinho e pegou fogo na casa inteira, e tantas outras desgraças ocorreram com algumas dessas pessoas e, então, o povo que acreditava na lenda afirmava seguramente que era: “A vingança de Mariana do Pito”.

Até os dias de hoje, na velha estrada dos jabuticabais, afirmam que, após a meia noite, quem passa por lá, às vezes vê um arbusto em chamas e dentro dele a velha bruxa pegando fogo.

Você passaria pela estrada dos jabuticabais, após as doze badaladas noturnas?! 

Conto escrito por
Danilo Seraphim

CAL - Comissão de Autores Literários
Agnes Izumi Nagashima
Eliane Rodrigues
Francisco Caetano 
Gisela Lopes Peçanha
Lígia Diniz Donega
Márcio André Silva Garcia
Paulo Luís Ferreira
Pedro Panhoca
Rosside Rodrigues Machado

Produção
Bruno Olsen
Cristina Ravela


Esta é uma obra de ficção virtual sem fins lucrativos. Qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência.


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Antologia Halloween - Contos de Terror no Brasil - 1x06


Sinopse: Criança enfrenta a escuridão na aparente segurança de sua casa.


Não Grite
de Henrique Adoni

  

Marta puxa o cobertor até o queixo de Pedro, lhe um beijo no rosto e sorri

Boa noite, lindo ela diz, ainda sorrindo

Boa noite responde Pedro, de 10 anos. Marta se afasta da cama e caminha para          fora do quarto.


Mãe! ela ouve o pequeno Pedro, então para na porta e se vira.

Sim?

Pode deixar a porta entreaberta e a luz do corredor acesa?

Você já está grandinho pra continuar dormindo com a luz acesa, não acha?

Mas quando eu quero dormir na casa de amigos você diz que ainda sou muito novo.

Sem resposta, Marta sorri.

Tudo bem, vou deixar a porta entreaberta e a luz do corredor acesa ela diz, apagando a luz do quarto e saindo. Pedro relaxa na cama. Ele estica o braço direito e acende o abajur ao lado, e passa a admirar os peixes pintados nas paredes de seu quarto.

De repente, Becky, o cachorro do vizinho, começa a latir. Pedro, por reflexo, olha para a janela, pela qual as luzes do vizinho entram, e então, olha para o teto. O sono o toma lentamente, e suas pálpebras ficam pesadas. Ele está quase fechando os olhos, mas um barulho forte dentro do próprio quarto o desperta. Ele se senta na cama, e olha para os lados, procurando a origem do som, e então a encontra: uma das gavetas de seu guarda-roupas havia caído.


"Como aconteceu?" ele se pergunta. Ele cogita em levantar-se e colocá-la de volta, mas o cansaço é mais forte e ele volta a deitar-se. Os olhos finalmente se  fecham, abrindo a mente para a entrada dos sonhos. Ele sonha com uma sombra. Uma mão.  Ele está na rua, e ela se aproxima dele, enquanto ele tenta escapar. Ele vira, então, e tenta se esconder num beco. Mas antes que possa entrar, seu corpo fica imóvel. Ele tenta gritar, mas não consegue respirar.


A mão se aproxima, e a sombra lhe toca. Ele sente o toque frio, tão frio que queima sua pele. Ele ouve passos, e sabe que o dono da mão se aproxima. Um sussurro faz com que ele se arrepie. "Não grite", a voz lhe diz. "Não grite. Vou cuidar bem de você." Ele treme e sua alma se desespera. A voz de baixo, ainda que com um toque feminino e irônico, continua. "Não grite, vou cuidar bem de você. O fogo que arde vai te curar. Não és o primeiro. Não grite. Os outros gritaram".


Ele não queria falar, mas não conseguiu se segurar. "Quem gritou?" ele pergunta, apenas em mente. "Todos os garotos e garotas. Todas as suas almas congelaram. Todos os seus corpos me alimentaram. Sua mamãe e papai também gritaram. E eu vou usar a pele de sua mãe como roupa". Ele sentiu algo abrir seu corpo em dois, e quando deu por si estava sentado em sua cama, acordado.


"Apenas um sonho", ele pensou. Passou as mãos pela camisa, e viu o quanto havia transpirado. "Água" ele se disse, "preciso de água". Levantou-se da cama e calçou as pantufas. Passou através da porta de seu quarto. A luz do corredor ainda estava acesa. "Será que dormi muito tempo? Que horas são?" se perguntava mentalmente. Chegou à cozinha, e apertou o interruptor. A luz não se acendeu. Tentou mais uma vez, com o mesmo resultado.


ou falta de resultado anterior. Sentiu um vento frio soprar em sua nuca, e, arrepiado, foi até a janela para fechá-la. Porém, percebeu que ela estava fechada.


O mal-estar aumentou, e ele foi até a geladeira, com a intenção de abri-la para iluminar a cozinha. Ele tocou sua porta, e puxou. A luz iluminou a cozinha. Quando Pedro se virou, projetada na parede estava uma enorme sombra de uma mão. A tal sombra da mão se contorcia como uma aranha, e quando se mexia, pratos caiam do armário e a mesa sacudia. Pedro não conseguiu se segurar e gritou. Nenhuma palavra, apenas um "A" gritado. Olhou em busca do dono da sombra, mas não havia ninguém. Ele correu, saiu da cozinha e atravessou  a sala:

Mãããããeee! gritou, ao passar pelo corredor e entrar em seu quarto. Fechou e trancou a porta. Algo começou a avançar e bater contra a porta. Mãããããeee! gritou, aos soluços. Fechou os olhos e se sentou no chão, chorando. As batidas na porta continuaram, e ele tapou os ouvidos. Então ouviu uma voz.

Pedro chamou a voz de sua mãe, batendo na porta. Pedro, querido, abra a porta.   Ele se levantou e correu para a porta, abrindo-a e abraçando sua mãe.

O que foi, querido? ela pergunta. Calma...

Ele correu atrás de mim disse Pedro, ainda tremendo e sentindo o suor pingar de seu rosto.

Calma, você sonhou. disse sua mãe

Não, eu vi. Os pratos caíram e a mesa saiu do chão. E ele me queria.

Vem, vou te colocar na cama. Fica calmo. disse Marta.

bem, mas fica comigo. pediu Pedro.

Tudo bem, tudo bem.

Ela o colocou na cama, e ele se virou e cobriu-se, ficando de costas para ela.

Desculpa pelo barulho. disse Pedro.

Tudo bem, querido. Você se assustou. e se aproximou de Pedro, tocando-lhe o ombro.

Eu acordei meu pai? ele pergunta. Ele sente que sua mãe se ajoelhou ao lado da cama. Ela voltou a tocar seu ombro, e ele tocou a mão dela com a sua. Sua mão tá estranha, mãe ele observou. Ele tocou, e sentiu como se aquela pele fosse uma luva. Uma unha então caiu.

Não, seu pai não acordou. ela responde Nunca mais vai acordar. Não grite, querido. Vou cuidar bem de você. Não grite. Papai e mamãe gritaram...

Conto escrito por
Henrique Adoni

CAL - Comissão de Autores Literários
Agnes Izumi Nagashima
Eliane Rodrigues
Francisco Caetano 
Gisela Lopes Peçanha
Lígia Diniz Donega
Márcio André Silva Garcia
Paulo Luís Ferreira
Pedro Panhoca
Rosside Rodrigues Machado

Produção
Bruno Olsen
Cristina Ravela


Esta é uma obra de ficção virtual sem fins lucrativos. Qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência.


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