Antologia Halloween - Contos de Terror no Brasil - 1x06


Sinopse: Criança enfrenta a escuridão na aparente segurança de sua casa.


Não Grite
de Henrique Adoni

  

Marta puxa o cobertor até o queixo de Pedro, lhe um beijo no rosto e sorri

Boa noite, lindo ela diz, ainda sorrindo

Boa noite responde Pedro, de 10 anos. Marta se afasta da cama e caminha para          fora do quarto.


Mãe! ela ouve o pequeno Pedro, então para na porta e se vira.

Sim?

Pode deixar a porta entreaberta e a luz do corredor acesa?

Você já está grandinho pra continuar dormindo com a luz acesa, não acha?

Mas quando eu quero dormir na casa de amigos você diz que ainda sou muito novo.

Sem resposta, Marta sorri.

Tudo bem, vou deixar a porta entreaberta e a luz do corredor acesa ela diz, apagando a luz do quarto e saindo. Pedro relaxa na cama. Ele estica o braço direito e acende o abajur ao lado, e passa a admirar os peixes pintados nas paredes de seu quarto.

De repente, Becky, o cachorro do vizinho, começa a latir. Pedro, por reflexo, olha para a janela, pela qual as luzes do vizinho entram, e então, olha para o teto. O sono o toma lentamente, e suas pálpebras ficam pesadas. Ele está quase fechando os olhos, mas um barulho forte dentro do próprio quarto o desperta. Ele se senta na cama, e olha para os lados, procurando a origem do som, e então a encontra: uma das gavetas de seu guarda-roupas havia caído.


"Como aconteceu?" ele se pergunta. Ele cogita em levantar-se e colocá-la de volta, mas o cansaço é mais forte e ele volta a deitar-se. Os olhos finalmente se  fecham, abrindo a mente para a entrada dos sonhos. Ele sonha com uma sombra. Uma mão.  Ele está na rua, e ela se aproxima dele, enquanto ele tenta escapar. Ele vira, então, e tenta se esconder num beco. Mas antes que possa entrar, seu corpo fica imóvel. Ele tenta gritar, mas não consegue respirar.


A mão se aproxima, e a sombra lhe toca. Ele sente o toque frio, tão frio que queima sua pele. Ele ouve passos, e sabe que o dono da mão se aproxima. Um sussurro faz com que ele se arrepie. "Não grite", a voz lhe diz. "Não grite. Vou cuidar bem de você." Ele treme e sua alma se desespera. A voz de baixo, ainda que com um toque feminino e irônico, continua. "Não grite, vou cuidar bem de você. O fogo que arde vai te curar. Não és o primeiro. Não grite. Os outros gritaram".


Ele não queria falar, mas não conseguiu se segurar. "Quem gritou?" ele pergunta, apenas em mente. "Todos os garotos e garotas. Todas as suas almas congelaram. Todos os seus corpos me alimentaram. Sua mamãe e papai também gritaram. E eu vou usar a pele de sua mãe como roupa". Ele sentiu algo abrir seu corpo em dois, e quando deu por si estava sentado em sua cama, acordado.


"Apenas um sonho", ele pensou. Passou as mãos pela camisa, e viu o quanto havia transpirado. "Água" ele se disse, "preciso de água". Levantou-se da cama e calçou as pantufas. Passou através da porta de seu quarto. A luz do corredor ainda estava acesa. "Será que dormi muito tempo? Que horas são?" se perguntava mentalmente. Chegou à cozinha, e apertou o interruptor. A luz não se acendeu. Tentou mais uma vez, com o mesmo resultado.


ou falta de resultado anterior. Sentiu um vento frio soprar em sua nuca, e, arrepiado, foi até a janela para fechá-la. Porém, percebeu que ela estava fechada.


O mal-estar aumentou, e ele foi até a geladeira, com a intenção de abri-la para iluminar a cozinha. Ele tocou sua porta, e puxou. A luz iluminou a cozinha. Quando Pedro se virou, projetada na parede estava uma enorme sombra de uma mão. A tal sombra da mão se contorcia como uma aranha, e quando se mexia, pratos caiam do armário e a mesa sacudia. Pedro não conseguiu se segurar e gritou. Nenhuma palavra, apenas um "A" gritado. Olhou em busca do dono da sombra, mas não havia ninguém. Ele correu, saiu da cozinha e atravessou  a sala:

Mãããããeee! gritou, ao passar pelo corredor e entrar em seu quarto. Fechou e trancou a porta. Algo começou a avançar e bater contra a porta. Mãããããeee! gritou, aos soluços. Fechou os olhos e se sentou no chão, chorando. As batidas na porta continuaram, e ele tapou os ouvidos. Então ouviu uma voz.

Pedro chamou a voz de sua mãe, batendo na porta. Pedro, querido, abra a porta.   Ele se levantou e correu para a porta, abrindo-a e abraçando sua mãe.

O que foi, querido? ela pergunta. Calma...

Ele correu atrás de mim disse Pedro, ainda tremendo e sentindo o suor pingar de seu rosto.

Calma, você sonhou. disse sua mãe

Não, eu vi. Os pratos caíram e a mesa saiu do chão. E ele me queria.

Vem, vou te colocar na cama. Fica calmo. disse Marta.

bem, mas fica comigo. pediu Pedro.

Tudo bem, tudo bem.

Ela o colocou na cama, e ele se virou e cobriu-se, ficando de costas para ela.

Desculpa pelo barulho. disse Pedro.

Tudo bem, querido. Você se assustou. e se aproximou de Pedro, tocando-lhe o ombro.

Eu acordei meu pai? ele pergunta. Ele sente que sua mãe se ajoelhou ao lado da cama. Ela voltou a tocar seu ombro, e ele tocou a mão dela com a sua. Sua mão tá estranha, mãe ele observou. Ele tocou, e sentiu como se aquela pele fosse uma luva. Uma unha então caiu.

Não, seu pai não acordou. ela responde Nunca mais vai acordar. Não grite, querido. Vou cuidar bem de você. Não grite. Papai e mamãe gritaram...

Conto escrito por
Henrique Adoni

CAL - Comissão de Autores Literários
Agnes Izumi Nagashima
Eliane Rodrigues
Francisco Caetano 
Gisela Lopes Peçanha
Lígia Diniz Donega
Márcio André Silva Garcia
Paulo Luís Ferreira
Pedro Panhoca
Rosside Rodrigues Machado

Produção
Bruno Olsen
Cristina Ravela


Esta é uma obra de ficção virtual sem fins lucrativos. Qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência.


REALIZAÇÃO

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