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Maldita Judia






MALDITA JUDIA

Conto

star 01 min | Drama / Suspense
Classificação: 12 anos
Formato: Conto
Autor: Samuel Brito
Gênero: Drama / Suspense

Sinopse


Hadassa é uma polonesa judia que, após ser pega pelos nazistas, encontra um jeito de se salvar do holocausto, ainda que seja imoral, o que lhe importa mais é sobreviver.

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Maldita Judia - Conto

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01:00 min    


WEBTVPLAY ORIGINAL APRESENTA
MALDITA JUDIA


Conto de
Samuel Brito



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KAZIMIERZ – POLÓNIA (1944/1945)

Levaram um, dois, três...doze, vinte, todos, absolutamente todos os vizinhos de Kazimierz estavam sendo levados e nós? Éramos os próximos! Ah! Mas eu não queria ir, todos temiam, contudo não poderíamos fazer nada pra evitar, relutar seria pior e assim seguimos pela manhã, após terem invadido nosso esconderijo, escoltados por um bando de soldados nojentos e arianos mudando a rota para não se deparar conosco. Suava frio! Mais frio do que a neve que caía.

Afinal, ninguém sabia o que acontecia no destino? Eu sabia! Eu tinha a convicção de que eles não nos tratariam bem, nem nos guetos, nem no inferno, eles nos odiavam e era explícito o ódio em seus olhares repugnantes.

Na rampa haviam inúmeros guardas com seus cães famintos, babando e nos observando fixamente, confesso que tive medo, mas quando olhei para o lado, vi um guarda me olhando diferente, ele mantinha o olhar de forma desigual aos seus companheiros e senti que ele me desejava, e apesar de saber que não havia tempo para aquilo, eu consegui ver nele uma porta de escape. Não pensei muito!

Aproveitei o aglomerado ao meu redor e dei um jeito de me esconder atrás do trem, ele me viu, propositalmente, claro. Não pude me despedir de meus pais, isso é o que dói mais, porém eu precisava agir e quando o guarda se aproximou, tasquei-lhe um beijo. Era o fim!

A tropa verificava os comboios antes de partir e nos pegou no flagra, mas por incrível que pareça, sequer deduziram que eu era uma judia, será que sou filha de um ariano? Provavelmente não! Minha mãe tinha princípios e não se submeteria a isso, eu acho.

-Soldado? Serás penalizado! Já não sabes que não é permitido agarramentos? Ainda mais em pleno serviço. Tira essa jovem daqui. - Disse um soldado franzindo a sobrancelha. - Sim, senhor. - Disse o guarda abismado. Tentei me afastar, mas o guarda me segurou por alguns instantes, ele me mirou e franziu a sobrancelha, tal qual o outro palerma. - Eu só não te denunciarei, pois temo que me associem à sua raça. Venha comigo! - sussurrou ele, enquanto me encarava friamente. Dali por diante firmamos um acordo, talvez um acordo desleal, mas era minha única esperança.

De porta em porta, de casa em casa, abrigando-me ao lado de antigos companheiros que se escondiam temendo ser pegos, estava eu, infiltrada, e após desvendar seus esconderijos, entregava-os para o guarda e em troca, ele mantinha o sigilo sobre mim. Ficamos nisso de seis à sete meses, até que finalmente os aliados venceram a guerra.

Pronto! O sol brilhou novamente para mim e eu precisava ir em busca de meus pais, acreditava que os encontraria com vida, mas já não havia registro deles, segundo o próprio Kulawski, sim, o guarda se chamava Kulawski, nome apropriado para aquele ser bizarro.

-Venha comigo, Hadassa. Vamos para a Argentina, lá estaremos seguros. - Disse ele, crendo que meus sentimentos por ele eram reais, mas nunca foi, apenas fingi por todo esse tempo em que passei ao seu lado. E ele seguiu sem mim... até ser pego pelos aliados! Sim, eu o denunciei junto a toda a tropa, achei que seria justo denunciar todos aqueles crápulas depois de tudo o que fiz para manter a vida. Por alguns instantes pensei que retomaria minha vida tranquilamente, apenas com as mágoas e as dores da perda de meus pais, porém a vida nos prega peças à todo instante e após muitos enjoos simultâneos, chegou a minha sentença.

-Maldiçãoooooooo!

Cruel Summer é premiada como melhor roteiro pela Four Elements 2021

O prêmio veio logo depois de autora anunciar que a trilogia de Cruel Summer estava cancelada temporariamente; entenda.

Cruel Summer recebe prêmio de Melhor Roteiro
Cruel Summer é o Melhor Roteiro pela 4E.


Demorou, mas aqui estou eu para falar sobre o prêmio recebido pelo Troféu Four Elements 2021 para uma de minhas obras originais. Cruel Summer, de Maureen Prescott, tem o Melhor Roteiro, segundo a novíssima premiação, ocorrida entre os dias 7 e 14 de março.

A Four Elements é uma premiação organizada por...4 elementos — isso mesmo! 😮 Liderado por Marcos Vinícius (A Escudeira: Novos Rumos), a equipe ainda é formada por Melqui Rodrigues (Vale Dicere), Hugo Martins (Incognoscível) e Cristina Ravela (Anti-Herói). 

Foram 30 categorias, entre voto popular e técnico, e Cruel Summer conseguiu levar o prêmio de Melhor Roteiro em ambas as votações 😎. Você pode conferir a lista completa dos vencedores da 4E e descobrir quem mais venceu a disputa.

Trilogia de Cruel Summer é cancelada!


Anunciada em janeiro como a continuação de Cruel Summer e Slashdance, o final marcado para ser o fim da trilogia foi cancelado. Segundo Maureen Prescott, a série do sorvete babadeiro não tem data para ser renovada. 

Ainda assim, a série consegue despertar a curiosidade dos fãs. Um exemplo disso, é que tem pessoas tentando desvendar quem estaria por trás da autoria de Cruel Summer. Veja:

Quem é o verdadeiro autor de Cruel Summer?



Perplexa com essa curiosidade do nada 👀. Você consegue decifrar essa incrível charada? Deixe seu comentário e faça suas apostas. Você não vai ganhar nada acertando, a não ser uma boa leitura do Melhor Roteiro pela 4E, Cruel Summer!


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A Candidata - 1x08

    0:00 min       A CANDIDATA     MINISSÉRIE
09:00 min    


WEBTVPLAY APRESENTA
A CANDIDATA


Minissérie de
Luna Araújo

Episódio 08 de 08
"Grandes Poderes, Grandes Responsabilidades"



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*

CATORZE ANOS ANTES

– Saiba, minha neta, que grandes poderes se somam sempre a grandes responsabilidades.

O Coronel fechou a porta de seu escritório e caminhou até a poltrona em que Jurema havia se sentado. Sua neta, sua tão jovem neta, com um longo futuro pela frente.

– E eu sei que você conseguirá vencê-las, Jurema – ele sorriu. – Afinal de contas, não é todo dia que uma mulher com dezoito anos de idade é eleita vereadora com a maior quantidade de votos entre os candidatos.

Jurema respirou fundo. Sua felicidade era pujante, latente. Queria soltar fogos de artifício para avisar ao mundo todo que ela, Jurema Pinheiro, foi eleita vereadora para dar continuidade à tradição da sua família.

– Eu sinto tanto orgulho de você – o Coronel a olhou no fundo dos olhos.

– Obrigada, vô – respondeu, radiante, Jurema.

– Você é o futuro dessa família, minha neta. A única pessoa que será responsável por dar continuidade ao meu trabalho nesta cidade.

Outras pessoas talvez vacilassem com essa afirmação. O trabalho político, ainda mais em uma cidadezinha do interior, era perigoso, desgastante. Principalmente para uma mulher. A menos que essa mulher carregasse Pinheiro em seu nome. A força desse sobrenome energizava qualquer um, tornando-o incapaz de sentir medo ou de arredar diante de situações difíceis.

– Seu sangue pulsa por essa cidade e é seu dever fazer de tudo para protegê-la.

...

O reflexo de Jurema no espelho estava cansado, com olheiras profundas e um pouco pálido. Ela se questionou se seu corpo aguentaria outro impacto como aquele e temeu pensar que não. Até porque, ela sabia que não haveria nada pior do que encontrar seu avô, seu amado Juca, seu pai, morto. Assassinado. Cruelmente. Friamente. Não houve lágrimas suficientes para chorar a dor e o desespero que ela sentiu ao abrir a porta do quarto dele.

Aquela imagem iria persegui-la pelo resto da vida.

O sangue. A posição do corpo do Coronel. A sensação esquisita de que qualquer pressão faria os órgãos dele saltarem para fora. O fedor que impregnou o quarto. Jurema levou um tempo para perceber que estava gritando, na verdade só percebeu quando Silvero entrou no quarto a procurando, assustado.

O vice-prefeito vomitou ao notar o estado do quarto enquanto Jurema se aproximava do avô para fechar-lhe os olhos esbugalhados. Olhos vazios. Olhos sem vida.

Quando seu pai, Edmar, morreu anos antes, Jurema se sentiu triste. Era impossível não se sentir daquele jeito, como um peixe solitário vagando pela imensidão de um oceano. Logo passou. Ela amava o seu pai, muito, mas foi forte o suficiente para superar a morte dele e seguir em frente.

Porém, com o Coronel, ela sentiu, seria diferente. Ele foi uma presença forte, mais do que um avô ou um pai: um mestre. Seu guia. A pessoa que lhe ensinou a ser resiliente, a procurar novas maneiras de observar um mesmo fato. A governar e a amar Timbaúba como se a cidade se personificasse em um membro da sua família.

E ela o encontrou sentado em uma poltrona, morto.

Jurema apertou os lábios e tentou afastar aquela imagem de sua cabeça. Ninguém poderia desconfiar das reais circunstâncias e ela precisava cuidar para que Silvero não as revelasse. Para a população de Timbaúba, o Coronel Juca Pinheiro morreu de causas naturais. Já estava ficando velho, um pouco doente e, por descuidos com a saúde em nome de cuidar do seu povo, sofreu um infarto e se foi. Não seria preciso muito além da ajuda de um médico da cidade que, aliás, teria seu silêncio muito bem pago.

Jurema sabia que esse seria o plano do seu avô. Outro assassinato não faria bem para a campanha dela, muito menos se a vítima fosse o Coronel. Além do mais, as pessoas poderiam relacionar os dois crimes e, por dedução, culpar o seu avô pela morte do Henrique.

Infarto, causas naturais. Nenhuma ação externa. Apenas o envelhecimento do seu corpo. E a memória do Coronel será para sempre lembrada como um homem leal aos seus princípios e a sua cidade. Coronel Juca Pinheiro, uma das raízes de Timbaúba.

...

Camila não imaginou que uma cidade do tamanho de Timbaúba pudesse comportar tantas pessoas. Foi como se toda a população do lugar estivesse presente, junto a pessoas de cidades da região. Prefeitos, vereadores, magistrados, secretários municipais e até um representante do governo estadual. Não era um velório, era uma procissão, como se o Coronel Juca Pinheiro fosse canonizado, um santo sem pecados.

Isso causou confusão em Camila. Todos pareciam saber das malfeitorias e crimes cometidos pelo Coronel para manter a sua posição de prestígio. Ela chegou até a pensar que pouquíssimas pessoas compareceriam ao velório. Ou que muitos compareceriam para se certificar de que o velho seria enterrado a sete palmos e o túmulo fechado com uma pesada pedra de mármore – e esse era o intuito dela ali.

Mas não, não. As pessoas estavam realmente tristes, algumas até choravam. Um grupo de senhoras, todas usando um véu cinza, entoavam uma a Ladainha de Nossa Senhora em altos sussurros, em volta do caixão de madeira do Coronel que, estranhamente, estava fechado.

– Eu vim te dar um breve adeus – uma voz conhecida falou perto do ouvido de Camila.

Álvaro estava ao seu lado, iluminado pela luz que entrava pelas frestas da grade que cercava o Ginásio de Esportes do Colégio Estadual de Timbaúba, onde ocorria o velório.

– Vou retornar para Salvador daqui a pouco.

– Já?

– Acho que consegui o que eu queria – Álvaro deu um leve toque no bolso da sua calça.

– E agora?

Álvaro suspirou e sua expressão fechou-se.

– Eu não sei. De verdade, Cami, não sei – ele disse. – Há um tempo, com certeza eu correria para o editor-chefe do jornal e entregaria uma reportagem completa com base nessa gravação – Álvaro olhou para cima como se buscasse uma resposta. – Agora, eu não sei.

Camila arqueou uma sobrancelha.

– Por quê?

Álvaro olhou para o horizonte, para o espaço reservado à família Pinheiro, para Antônia, que fazia companhia a Jurema, como as duas únicas familiares do Coronel presentes. Camila entendeu.

– Eu temia que isso fosse acontecer – disse Camila.

– Ela não merece passar por tudo isso. A Antônia não é igual ao avô.

– Aparentemente, a Jurema também não.

Camila passara os últimos dias investigando os documentos que transferiu para seu pen-drive no notebook do gabinete de Jurema. Mais correto impossível. Nenhuma falha, nenhuma abertura para dúvidas ou contestações. Ou a prefeita tinha um senso moral forte ou era muito esperta. Camila ainda não sabia qual dos dois era a resposta.

– Você quer vir comigo?

– Não – Camila respondeu sem hesitação. – Sinto que o meu trabalho aqui só está começando.

– Cuidado, Cami, com o caminho que você está trilhando – alertou Álvaro. – Esse lugar é perigoso.

Camila lhe respondeu que entendia os perigos envolvidos na presença dela em Timbaúba. Uma jornalista em missão, uma pessoa com opinião própria, alguém que poderia, em questão de vinte e quatro horas, derrubar um império que levou mais de trinta anos para ser construído.

Álvaro lhe deu um abraço forte e rápido de despedida. E se foi, antes que alguém desconfiasse do envolvimento dos dois.

Camila ficou com a certeza de que a sua estadia em Timbaúba duraria muito mais tempo.

...

– Eu não queria ir embora sem te ver.

Foi uma surpresa para Antônia sair do banheiro e se deparar com Álvaro em seu quarto. O velório de seu avô estava prestes a começar e a casa estava cheia de prefeitos e vereadores de Barreiras e de Luís Eduardo Magalhães, era impossível que ele entrasse ali sem ser visto.

– Eu preferia que fosse assim, Álvaro – ela disse.

O cabelo de Antônia estava desgrenhado e, apesar de usar o mesmo vestido que lhe serviu no velório de Henrique, ela estava planejando trocá-lo antes de descer para entrar no carro que a levaria até o Ginásio do Estadual, onde o corpo frígido de seu avô aguardava para ser velado e enterrado.

– Nós não merecemos que aquela conversa fosse a nossa despedida.

– Vá embora, por favor, antes que alguém te veja aqui – ela respondeu. – Não será bom para mim, ainda mais nesse momento.

– Naquele dia eu não disse o que de fato queria dizer, Antônia. E não vou embora daqui dessa cidade sem te falar.

Antônia o contornou para ir até o seu guarda-roupa. O abriu e pegou uma caixinha prata.

– Fale.

Álvaro se sentia impulsivo, queria falar rápido, sem pausas, soltar para o universo o que estava em seu coração.

– Eu te amo. Nos conhecemos a três semanas, eu sei, mas foi tempo suficiente para entender que você é a mulher da minha vida.

Antônia congelou, segurando um brinco de ouro no ar. Álvaro podia sentir a confusão na cabeça dela.

– Por que você não disse isso quando teve a oportunidade? – ela se virou para ele enquanto repousava o brinco no veludo vermelho da caixinha prateada.

– Porque eu já sabia que nós dois não fomos feitos para ficar juntos.

O olhar de Antônia caiu e suas mãos se fecharam em punho. Ela respirou fundo e tornou a encarar Álvaro.

– Por quê?

– Eu não posso te contar agora, mas um dia você irá entender e eu te peço que, por favor, não me odeie.

O rosto de Antônia foi tomado por uma expressão de dúvida. Interrogações se formaram em suas íris.

– Me prometa que não vai me odiar – rogou Álvaro.

Antônia nada respondeu e ele se aproximou dela, se agachou em sua frente e lhe segurou o rosto com as mãos.

– Promete – ele disse gentilmente.

Antônia rompeu em um choro silencioso e Álvaro a beijou. Beijaram-se como uma maneira de despedida. Álvaro sentiu o corpo quente de Antônia contra o seu, as mãos dela tateando todo o seu corpo, as suas roupas deslizando para o chão. E se amaram na cama dela, uma última vez. Porque Álvaro sabia que ela iria odiá-lo. E eles nunca mais se veriam, nunca mais iriam se amar.

...

Três é o número da Santíssima Trindade: o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Número da luz, da criatividade, da expressão. São três as hierarquias dos anjos, três os juízes do inferno.

Três prováveis assassinos do Coronel Juca Pinheiro.

E Jurema não permitiria jamais que eles ficassem impunes pelo crime que cometeram.

Olavo Gusmão.

Miguel Sampaio.

Salete Pinheiro.

Ódio, vingança, vingança. Somente alguém com uma motivação muito forte conseguiria fazer algo tão cruel com o corpo do Coronel. Mas apenas dois deles tinham força suficiente para tal.

Alguém precisaria pagar pelo crime de Olavo Gusmão.

E infelizmente seria preciso que fosse Quim.

...

– É para o seu bem, Salete.

Os dois enfermeiros enviados pelo Hospital Psiquiátrico para levarem a pobre Salete para um internamento tentaram se aproximar dela, que se afastou com uma expressão de terror tomando conta de todo o seu corpo.

– Minha querida, você precisa ir – disse Jurema. – Assim que estiver melhor, a nossa casa estará de portas abertas.

Laurinda e Antônia observavam a cena do alto da escada. Elas discordavam, acreditavam que Jurema estava fora de si depois da morte do Coronel, mas o que podiam fazer? Qualquer ato contraditório poderia coloca-las em um Hospital Psiquiátrico também.

– Não é possível aplicar um calmante ou algo do tipo para leva-la? – Jurema falou aos enfermeiros. – É de partir o coração.

Laurinda admirava a frieza da filha. E temia também. Ela herdara os piores genes da família Pinheiro.

– Não quero que os vizinhos saibam mais do que o necessário.

Salete queria ter forças para gritar, espernear, fugir. Mostrar ao mundo tudo o que ela passou nas mãos do Coronel e iria passar nas mãos de Jurema. Queria chorar também. Sumir. Pensou, inocentemente, que a morte de Juca a livraria da condenação ao silêncio eterno. Pobre Salete. O Coronel havia preparado a sua substituta e ela era muito pior que o seu criador. Ela olhou para o alto da escada como se pedisse socorro, mas ninguém poderia impedir o destino de se concretizar. Então por que ela mesma tentaria impedir? A sua guerra já acabara há muito tempo e ela tinha perdido.

Laurinda a olhou, do alto da escada, e Salete sentiu a compaixão no olhar dela. E se surpreendeu quando sentiu os braços da cunhada envoltos no corpo dela, abraçando-a. Salete quis retribuir, uma vez na vida experimentar o amor, mas não conseguiu. O mal daquela casa já sugara tudo o que havia de bom nela.

Se aproximou os enfermeiros e lançou um olhar de maldição para Jurema e jurou ter visto a sombra de um sorriso nos lábios dela.

O mal encontrara um novo receptáculo.

Salete foi levada em uma ambulância discreta. Não se despediu da filha. Não havia porque se despedir. Seria melhor para Antônia que ela fosse para longe.

Naquela noite, Antônia sonhou com a mãe. Sonhou que ela falava que a amava e que nunca, nunca mais iria se calar. As duas estavam numa campina de grama verde e árvores altas, sentadas sobre uma esteira. Antônia lembra de ter se sentido criança, mas, no sonho, ela tinha o amor da sua mãe.

...

Passadas duas semanas do enterro do Coronel, a boutique de Teodora Sampaio amanheceu em chamas. Os olhos da pobre mulher refletiam o fogo e a sua dor. Seus anos de investimento perdidos. Sua vida perdida. Ela quis chorar, mas não conseguiu. Precisava ser forte. Miguel perdera o filho pouco tempo antes, a Ser-tão Elegante não significava nada diante disso.

Três dias depois, Miguel foi envolvido em um escândalo a nível estadual. A sua gestão enquanto Secretário de Comunicação foi acusada de desvios de dinheiro e, pasmem, a boutique de Teodora foi identificada como a empresa utilizada para fazer a lavagem do dinheiro.

– Você realmente fez isso? – Teodora perguntou ao marido enquanto a Polícia Civil cumpria um mandado de busca e apreensão na sua casa.

– Não, Teodora, você sabe que não.

E ela sabia que o marido não fez. Ele poderia ter sido corrupto, sim, mas dessa acusação ele era inocente. Esperou que Jurema fosse a casa deles demonstrar apoio. Enganou-se. No dia seguinte, Miguel foi exonerado do seu cargo. Sem a boutique, sem um emprego, sem dinheiro guardado. Perderam a casa, que era alugada. Em um mês, a vida deles se tornou um inferno.

Sem ter para onde ir, Teodora retornou à casa dos pais, em Serrinha, levando o marido consigo. Miguel foi, pouco a pouco, se transformando em um homem calado, fechado para si mesmo, amargurado com a vida. Já não amava mais Teodora. Não se cuidava. Teodora chorava todas as noites, como uma penitência, a perda do marido. E o culpava por ter se deixado levar pelos planos da família Pinheiro, que não incluíam outras pessoas se não eles próprios. Pensou em se vingar, em retornar à Timbaúba, em ir à programas de televisão e falar sobre os horrores que aconteciam na cidade. Mas, que fim ela teria? Provavelmente o mesmo do seu enteado.

...

A última vingança de Jurema. Talvez a que poderia tê-la feito mais se sentir mal, mas a fúria de punir os suspeitos pelo assassinato do seu avô a fez se sentir indiferente. Quim Gusmão com certeza assassinaria o Coronel Juca se assim Olavo Gusmão o pedisse. Não, Jurema não sentiria compaixão ou hesitaria em pender a balança da justiça para o lado dele.

E não foi difícil. Seu avô lhe contara, pouco antes de ser assassinado, o lugar em que o bastão de madeira utilizado para espancar Henrique. Uma ligação para a polícia e o objeto foi encontrado no guarda-roupa de Quim. Enquanto seu filho era levado em uma viatura, Olavo foi levado em uma ambulância. Infarto. Uma ironia do destino, do tipo que Jurema mais gostava.

Sua próxima anotação mental era se encarregar pessoalmente de fazer Joaquim Gusmão ser condenado pelo homicídio de Henrique Sampaio e assim fazer o velho Olavo experimentar o gosto de perder alguém. O Universo devolve tudo aquilo que oferecemos a ele.

Mas antes de qualquer outro passo, ela decidiu, precisava se igualar ao seu avô para ser respeitada. E o maior ato do Coronel foi modelar uma substituta a sua altura: Jurema Pinheiro. Ela se deliciava quando pensava que ninguém jamais desconfiaria que Jurema, a doce prefeita Jurema, mulher forte, mulher idônea, orquestrava junto ao Coronel Juca Pinheiro todos os planos para manter sólido o império da família. A sua substituta deveria ser tão forte quanto.

E moldá-la a sua imagem seria o maior ato de Jurema. Uma pessoa capaz de prosseguir com os projetos políticos da família, uma pessoa cujo coração batesse em compasso com Timbaúba e que fosse capaz e tudo, absolutamente tudo, para protegê-la.

Só havia uma pessoa na linha de sucessão ao trono de Timbaúba.

Não seria fácil, Jurema sabia. Mas grandes poderes sempre se somam a grandes responsabilidades.

A Candidata - 1x07

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09:00 min    


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A CANDIDATA


Minissérie de
Luna Araújo

Episódio 07 de 08
"LUFTSCHLOSS"



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*

– E o que você acha do seu avô? – Álvaro perguntou enquanto enchia o copo de Antônia com uísque e gelo.

– Sinceramente? – a moça já estava começando a tropeçar nas palavras.

Álvaro sorriu e lhe entregou o copo, ela bebeu de vez.

– Sinceramente.

Antônia girou o copo nos dedos e deu um sorriso sombrio.

– Um psicopata – respondeu a moça. – Ele não ama ninguém além de si mesmo e tem um dom infernal, diga-se de passagem, de manipular as pessoas para fazerem o trabalho sujo dele.

Álvaro bebeu um pouco da sua dose de vodca enquanto ouvia atentamente.

– Esse rapaz que foi assassinado, o Henrique, todo mundo sabe que a morte dele tem o dedo do Coronel, mas, talvez ele nem tenha precisado pagar para que fizessem o serviço imundo dele.

– Como assim? – Álvaro parou o copo no ar.

– Toda pessoa louca que consegue um espaço, por mínimo que seja, consegue seguidores também. Tem gente que, na falta de coragem de assumir a verdadeira essência, procura um espelho para a maldade que há dentro dela mesma e age em nome desse espelho, como se isso expiasse os pecados que se cometeu.

Álvaro demorou um pouco para entender o que Antônia queria dizer. Compreendeu que ela falava sobre o séquito do Coronel, as pessoas que o enxergavam como o detentor da verdade absoluta para se livrar da culpa pelos atos que cometiam, pois, estavam agindo em nome do Coronel Juca.

– Sabe, Álvaro, eu acredito em karma – Antônia lhe estendeu o copo para que ele o enchesse novamente. – Não sou uma pessoa muito espiritualizada, odeio seguir ritos e regras que me dizem como devo falar, me vestir, como eu devo ser. Acima de tudo, aliás, sempre questionei o fato de o grande salvador ser sempre um homem – ela pegou o copo de volta e bebeu a dose, novamente, em um só gole. – Enfim, eu não acredito nessas coisas, mas acredito naquele axioma: aqui se faz, aqui se paga. O meu avô já fez muita coisa ruim nessa vida e o maior castigo para ele é viver. Por isso que ele está aí, vivo até hoje, porque precisa conviver com tudo de mal, de monstruoso que fez.

Antônia parou de falar abruptamente e sorriu.

– Se bem que ele não deve ter muitas emoções – disse. – Aquele coração é uma pasta nuclear – ela sorriu novamente, a bebida já fazia efeito há muito tempo. – Sou ligada em astronomia também, uma pessoa de vários interesses. Sabe o que é pasta nuclear?

– Não – Álvaro acompanhou o sorriso dela.

– É o material mais duro do universo. Para cortar a pasta nuclear é preciso uma dez bilhões de vezes mais força do que a usada para cortar o aço.

Álvaro fez uma cara de surpresa.

– Pessoas inteligentes me excitam.

– Que nada! – brincou Antônia, tornando-se séria logo em seguida. – Você deve me achar uma idiota, bêbada, falando mal da própria família.

– Família vai além de laços sanguíneos, Antônia.

Ela olhou para seu copo vazio. Pareceu se afundar em pensamentos e, por um milésimo de segundo, Álvaro se sentiu culpado em usá-la daquela maneira.

– Às vezes eu me sinto mais vazia do que esse copo, Álvaro. Tenho a certeza de que, se fosse politicamente necessário, meus parentes não hesitariam em me dar um tiro ou me fazer sumir do mapa – lamentou Antônia. – É uma sensação esquisita, como se eu não devesse confiar em ninguém, como se eu estivesse sozinha contra o mundo. Quando eu era criança, invejava os meus coleguinhas do jardim de infância porque eles tinham tudo o que eu mais queria: o carinho de uma mãe. Nunca me faltou nada, materialmente falando: educação particular, um apartamento perto da universidade, mesada, festas estupendas de aniversário, tudo o que uma pessoa mais deseja. Só que eu nunca soube o que é amor, e olha que eu já cheguei muito perto de me casar – ela deu um triste sorriso. – Minha mãe nunca me abraçou ou me olhou do jeito que as mães dos meus colegas olhavam para eles. Até minha prima, Jurema, que sempre foi quase uma irmã para mim, com certeza me jogaria para escanteio de assim fosse necessário para ela escalar até o topo. A Geralda foi a única pessoa que teve algum carinho por mim, mas ela era paga para isso – Antônia deu um longo suspiro. – Eu nunca soube o que era amor... até conhecer você.

De todas as expressões que Álvaro poderia ter escolhido para descrever o que sentiu ao ouvir aquilo, a que mais se encaixava era “luftschloss” (o alemão sempre tem uma palavra para tudo, ele pensou): um castelo de ar. Seu plano era gravar um depoimento de Antônia e utilizá-lo para escrever uma reportagem, sem citá-lo, mas com todo o arcabouço necessário para destruir o império Pinheiro. Entretanto, ali estava ela, bêbada e Álvaro sabia que o álcool era uma espécie de pentotal: abaixa a guarda das pessoas e as deixa mais vulneráveis, mais susceptíveis a falarem a verdade.

E Antônia estava sendo completamente sincera. Não tinha como mentir, não naquela situação. Álvaro se sentiu arrependido por não ter cortado o sentimento quando ele ainda era uma semente. Não, não deveria se sentir daquele jeito. Como ele iria saber que Antônia estava se envolvendo tanto?

Ele deveria imaginar. Uma garota que foi obrigada a abandonar os sonhos e ser trancada na casa do mal iria se agarrar em qualquer oportunidade, qualquer chance, que tivesse para se sentir melhor. Para afastar os fantasmas, a tristeza, a dor, o sentimento de culpa por coisas que não fez.

Diante do silêncio de Álvaro, Antônia se sentiu estúpida. Quem a amaria depois de saber de onde ela veio?

– Você não vai dizer nada? – perguntou.

Álvaro pareceu sair de um devaneio profundo.

– Oh... me desculpa. Não é muito comum para mim ouvir coisas tão sinceras.

– Acho que eu fui longe demais, culpa do uísque – Antônia tentou disfarçar sua vergonha. – Creio que já passou da minha hora de ir para casa.

– Não! – disse Álvaro em um impulso.

Os dois trocaram olhares por um momento.

– Você não precisa ir se não quiser.

Antônia levantou-se cambaleando, se apoiou na cômoda para não cair.

– Não é uma questão de querer, Álvaro – ela foi firme. – Nós dois não estamos na mesma sintonia e, para minimizar os impactos, eu acho melhor me afastar de você por um tempo.

Álvaro queria falar algo, mas, não queria ser leviano. Não queria falar o que Antônia queria ouvir porque, simplesmente, estaria mentindo.

– Desculpa por encher a sua noite com as histórias da minha família, ninguém deveria ouvir isso.

Antônia recobrou rapidamente o controle de si enquanto calçava seus sapatos. Parou na porta, antes de sair, e virou-se para Álvaro.

– É uma droga não ser correspondida.

Álvaro desviou-se do olhar dela, que foi embora, infeliz. Ele pôs seu copo sobre o rack da televisão e o encheu com uma mistura de vodca, uísque e conhaque. Pegou um cigarro do maço, em seu bolso, e acendeu. Sentia raiva, nojo, decepção e, o pior de tudo, incerteza. O gravador estava escondido entre a TV e um arranjo de flores artificiais, a única decoração do quarto. Ele o pegou. Deu play. A voz bêbada de Antônia invadiu o quarto.

Um psicopata. Ele não ama ninguém além de si mesmo e tem um dom infernal, diga-se de passagem, de manipular as pessoas para fazerem o trabalho sujo dele.

Até que ponto ele era diferente do Coronel? Suas mãos não estavam sujas de sangue, como as dele, mas a sua consciência estava.

...

Domingos de Carvalho se parecia com uma pintura de Andy Warhol. A legítima pop-art com braços, pernas e um bigode estilo Freddie Mercury. O seu carro, um modelo seminovo pintado de amarelo-ouro, estacionou em frente a Camila, que estava parada na calçada da Prefeitura.

– Foram tantas horas de viagem que eu comecei a achar que Cronos fez o tempo rodar ao contrário – disse ele enquanto abraçava Camila.

Ela riu.

– Eu adoro o seu senso de humor, Domingos.

Mon cher, como eu iria aguentar esse mundo caótico sem uma pitada de graciosidade?

Camila admirou o blazer azul-claro que Domingos trajava, combinando perfeitamente com uma calça preta e uma boina cinza. Ela imaginava que todos os diretores de Hollywood se vestiam exatamente daquele jeito.

– Onde está a nossa estrela?

Jurema o aguardava ansiosamente em seu gabinete. Se ela soube disfarçar a surpresa ao ver Domingos entrando pela porta, Miguel e Silvero não fizeram o mesmo. Os dois observaram o cineasta com um ar de ojeriza. O progresso chegava a passos lentos em Timbaúba.

– Jurema Pinheiro, de quem tanto se fala nos últimos dias – disse Domingos.

– Não por um bom motivo, infelizmente – Jurema lhe estendeu a mão e Domingos a apertou.

– O mundo está cada vez mais violento – Domingos lançou um olhar debochado para Miguel e Silvero, parados logo atrás de Jurema. – Timbaúba não é muito diferente.

– Uma mancha sombria em meu currículo pessoal, espero que os eleitores baianos não me vejam com maus olhos por causa desse fatídico acontecimento.

– As pessoas sabem separar as coisas, Jurema – atalhou Silvero.

– Nem todas – comentou, com um tom casual, Domingos, enquanto observava Jurema com olhos de diretor de cinema.

– A Camila fez uma excelente propaganda sobre seu trabalho. Formado em Cinema e em Artes Cênicas, CEO de uma produtora independente de cinema conhecida na região de Salvador – disse Jurema.

– Minha produtora, a Apolo, está muito interessada em participar da sua campanha – respondeu Domingos. – À exceção do crime recente, você tem uma reputação interessante na minha região. Principalmente depois daquela entrevista bombástica.

Alguns meses antes, já em preparação para se candidatar ao Congresso, Jurema dera uma entrevista longa para o telejornal do horário nobre da principal emissora baiana. Suas gestões como prefeita, bem como sua posição em defesa dos direitos humanos e como uma força feminina dentro do machista ambiente político, reverberaram em toda a Bahia e lhe trouxeram novos holofotes.

– Foi um prazer ter me tornado referência para as mulheres baianas.

– Chegaram até a supor a sua candidatura ao governo do estado, mas você quer ir muito mais longe – Domingos deu um sorrisinho.

– Já passou da hora das mulheres terem seu espaço, certo, Camila?

– Com toda a certeza, Jurema!

Silvero e Miguel assistiam à cena apáticos, com total descrença na figura – que eles consideravam estranha – em sua frente. Imaginaram que Domingos seria um homem sério, de porte, centrado. E não...

– Homossexual – sussurrou Miguel.

As atenções voltaram-se para ele, que se aprumou e limpou a garganta.

– Perdão.

– Qual o seu nome mesmo? – Domingos apontou para ele.

– O meu marqueteiro Miguel e, ao seu lado, o vice-prefeito Silvero – respondeu Jurema.

– Não pensem que eu não estou reparando no olhar de nojo e de repulsa que vocês estão me lançando, porque eu estou vendo – Domingos se impôs. – Deve ser muito difícil para a masculinidade frágil ver um homossexual em posição de prestígio – ele finalizou com uma piscada de olho debochada.

Miguel e Silvero ficaram embatucados. Domingos voltou-se novamente para Jurema.

– Enfim, prefeita, a Camila comentou sobre o seu plano de criar conteúdos para as redes sociais, uma ótima jogada de marketing se você souber exatamente o que falar.

Jurema se inclinou em direção a ele, interessada no assunto.

– Suas palavras têm que ser potentes e certeiras. Qualquer deslize e a internet te faz desaparecer tão rápido quanto apareceu.

A prefeita balançou a cabeça em concordância.

– Já imaginei alguns takes aqui em seu gabinete, mas, a maioria no meio da sua gente, da sua cidade, principalmente, das mulheres.

Jurema sorriu, feliz, para Camila.

– Tenho até um nome para a sua série de vídeos em mente: “Caleidoscópio”. Com um olhar, você fará refletir a diversidade e a pluralidade da mulher baiana.

– Perfeito! – exclamou Jurema. – Quando começamos a gravar?

...

Antônia não sabia o que lhe doía mais: a cabeça ou o coração. Ressaca de álcool e sobriedade de amor. Era óbvio que Álvaro não a amava e ela se sentia patética por tê-lo revelado seus sentimentos. Deveria ter aprendido com a família a não ter nenhum, seria melhor.

Sua cabeça estava pesada, a dor era como um machado entrando e saindo. Os seus membros não lhe respondiam e ela não conseguia se levantar para tomar um analgésico ou pelo menos chamar alguém para trazer um comprimido até ela. Sobrou a sua consciência inquieta, o desejo de voltar no tempo e pensar antes de falar.

O amor é ridículo. Álvaro de Campos, infeliz coincidência, dizia que “todas as palavras esdrúxulas, como os sentimentos esdrúxulos, são naturalmente ridículas”. Antônia gostaria de adicionar seu nome e sobrenome naquele verso. Onde ela estava com a cabeça para pensar que era digna de amar e ser amada? O destino reservara para a sua família apenas sofrimento, tragédias e traição. O que havia de bom fora assassinado junto aos inocentes que morreram nas mãos do Coronel ou de algum dos seus seguidores.

A dor de cabeça aumentava cada vez mais, deixando-a enjoada e desconfiada sobre a qualidade das bebidas de Álvaro. Sozinha, decepcionada, ridícula. Decidiu que nunca mais iria ver Álvaro ou se envolver com outro homem. Ninguém ficaria quando ouvisse o seu sobrenome. Deveria trocá-lo?

Uma sombra apareceu na porta. Um fantasma. Salete. Sua mãe. Antônia quis pergunta-la se ela já havia sofrido alguma decepção amorosa, mas ela não iria responde-la. Salete se aproximou dela, causando um sentimento revoltante em Antônia. Tocou a cabeça da filha como se soubesse onde doía e saiu. Minutos depois, voltou com um comprimido e um copo d’água.

Antônia a agradeceu em pensamento.

E quis perder a voz como a mãe perdera. A vida seria mais fácil sem precisar pronunciar seu sobrenome em público. Seria por esse motivo que Salete optara por se calar para sempre?

Antônia engoliu o remédio e devolveu o copo a mãe. Salete a observou por um instante e, surpreendendo-a, alisou o seu cabelo. Um gesto maternal. Algo que ela nunca fizera antes. Passou a mão delicadamente nos olhos da filha, como um recado para ela ir dormir.

Antônia a obedeceu e pela primeira vez em sua vida se sentiu uma criança.

...

– Este foi o primeiro e último contato que eu tive com o Henrique em toda a minha vida.

Olavo Gusmão tinha certeza que Juca havia mandado aquele investigador em sua casa para puni-lo pela situação no cemitério.

– Qual foi o assunto do encontro de vocês?

Olavo encheu o peito de ar e segurou a bengala para que ela não caísse no chão.

– Parabenizá-lo pela aprovação no concurso público e dar boas-vindas em nome do povo de Timbaúba – respondeu o bom e velho Olavo tentando demonstrar calma e paciência.

O Coronel achava mesmo que tinha o poder divino de condenar as pessoas com base em seu falho código moral?, pensou Olavo.

– Então o senhor não queria conversar com ele sobre o incidente que havia acontecido, pouco antes, na Câmara Municipal? – o investigador encarou Olavo como um inquisidor.

Henrique se levantou e caminhou até o meio da tribuna a passos calmos e comedidos, provocando o silêncio dos edis.

Perdão, rapaz – alertou Olavo. – A sessão é pública, estamos em uma democracia, mas, os ouvintes precisam ter um mínimo de bom senso e, porque não dizer, educação.

– Não vejo motivos para tratar desta transgressão com ele, acreditei que foi um episódio excepcional e que eu não tinha o direito de julgá-lo.

O investigador arqueou as sobrancelhas.

– O senhor não admite que possui uma longa rixa pessoal com o senhor Juca Pinheiro?

– Já tenho idade suficiente para distinguir o pessoal do profissional, senhor – Olavo apertou os olhos miúdos para se lembrar do nome do investigador. – Senhor Guedes.

– E quanto a discussão pública, registrada pelos jornais presentes, entre o senhor e o senhor Juca?

A paciência de Olavo Gusmão estava sendo testada e ele precisava ser aprovado na avaliação.

– Toda a população estava abalada diante da morte prematura de um concidadão e eu sou uma pessoa mais emocional do que pareço – respondeu.

– O senhor entende que o rapaz foi assassinado com requintes de crueldade e nós estamos em busca do responsável?

Se realmente estivessem, pensou Olavo Gusmão, estariam em outro endereço.

– Sim – respondeu. – Porém, não estou entendendo em qual momento eu me tornei um suspeito.

– Por ora, todos são suspeitos.

– Nem todos – resmungou Olavo.

– Perdão?

– O senhor tem outras perguntas? Eu tenho uma reunião com a Associação de Produtores Rurais de Malhada, meu estimado povoado em que nasci, em uma hora.

O inspetor Guedes levantou-se da confortável poltrona em que estava sentado.

– Não. Peço perdão pelo incômodo, porém, acredito que o senhor me entende e quer tanto quanto eu encontrar o assassino do jovem Henrique.

– Com toda a certeza.

Os dois se despediram friamente e o inspetor foi embora. Olavo Gusmão afundou no sofá, profundamente irritado, profundamente contrariado. Seu desejo de ver Juca pagando pelas vidas que tirou aumentava cada vez mais.

...

A Família Pinheiro se ergueu sobre segredos, mortes, mistérios e muito sangue inocente derramado para molhar a semente política que o Coronel Juca Pinheiro plantara e desejava avidamente ver florescer. Henrique e sua mãe, Ester, não foram os únicos a se perderem na luta para mostrar ao mundo as perversidades que tinham espaço em Timbaúba.

Ter opinião naquela cidade era um pecado capital. E, o pior de tudo, Timbaúba sempre reclamava seus filhos de volta, quer onde eles estivessem. Se nasceram ali, é ali que morrerão.

O mal corre debaixo da terra da cidadezinha.

Aliás, se o ser humano é o único dotado de consciência, a maldade não é exclusivamente humana?

E se a maldade decidiu de tornar humana, ela nasceu sob a forma de Juca Pinheiro. Sua implacabilidade em aplicar nos seus réus a pena de morte era temida por quem o conhecesse e capaz de silenciar todos os seus adversários. Até o mais poderoso.

Entretanto, nenhum silêncio é eterno e alguém sempre irá falar em nome de muitos outros.

Finalmente, o Coronel Juca Pinheiro experimentou o doce gosto da fúria de outra pessoa. A fúria lhe perfurou o peito e o pescoço, espalhou o seu sangue por todo o carpete do seu quarto retangular em sua casa colonial.

E seu sangue ainda estava fresco quando Jurema o encontrou no escuro, sentado em sua poltrona.

– Vô?

Ela achou que ele estivesse dormindo até acender a luz.