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Sinopse: Cidades grandes, vilas pequenas...em qualquer destes lugares existe a imoralidade do ser humano. Disposta a dar um fim nesta indecência, uma mulher decide vagar de cidade em cidade, de vilarejo em vilarejo estudando e matando homens que carregam em si o DNA do despudor. Uma história que promete mexer com você e mostrar que a indecência merece ser combatida de alguma maneira, nem que seja da forma mais cruel que exista.



A Morte usa Tacão
de Filipe Fernandes

 

Capítulo 1

Abri a porta do carro, sentei-me, acendi um cigarro e senti o fumo a passar-me da garganta aos pulmões, retive-o um pouco e soltei-o embaçando o vidro à minha frente. Meti a chave na ignição, rodei-a, liguei-o e calquei no pedal do acelerador ouvindo instantaneamente o rugido do BMW Z4, e sentindo o cheiro de combustível a ser queimado pelo potente motor. Voltei a levar o cigarro à boca e à medida que inalava mais um pouco de fumo via como a ponta do cigarro ficava incandescente.

Pretendo lembrar-me de qualquer coisa, ainda não sei bem o quê!

Eram 03:38 da madrugada. Acendi as luzes, levantei a cabeça e vi o corpo sem vida deitado no chão.

Devia estar em pânico, mas não, nem sequer sentia medo, vergonha, pudor ou qualquer outro sentimento de culpa por ver aquele corpo ensanguentado mesmo à minha frente. Aquele homem, que ainda há poucas horas me pagara Gins e dado conversa a noite toda, na tentativa de me levar até ao cais para que ambos déssemos rédea solta ao desejo, que só ele sentia.

Engrenei a marcha-atrás, calquei lentamente no acelerador e à medida que me ia afastando o corpo deixou de ter tons vermelhos, passando a vermelho escuro e a ser completamente negro até ser só um ponto e acabando por fim a não se distinguir do resto da paisagem.

O meu querer tinha-se realizado, tinha-o seduzido, fazendo-me de ingénua e rindo de forma espalhafatosa de grande parte das piadas pouco inteligentes e até ofensivas que ele me contara, entre copos e fumo de cigarros, sobre a relação amorosa que o patrão tinha com a secretária. Não era coisa que me interessasse, as fugas do patrão com a tal Beatriz para a casa de banho do escritório, mas ouvi-o fazendo-me de interessada até tê-lo na palma da minha mão.

Eu sabia que por volta da meia-noite e meia o playboy endinheirado aparece ao bar com os dois nabos dos mesmos amigos de sempre, sobre os quais se sente superior por ser bem parecido e principalmente por vir de uma família rica, nunca trabalhou de verdade, o papá arranjou-lhe emprego na empresa de um amigo de longa data, quando deixou a faculdade onde andou cinco anos e nunca passou do segundo ano, tendo mesmo cadeiras do primeiro por acabar.

O barrigudo cinquentão, que se vestia como se tivesse vinte anos e andava sempre com olhar lascivo para miúdas que bem podiam ser filhas dele, nunca tinha casado, saltitando sempre de miúda em miúda até que a barriga lhe cresceu tanto que deixou de ser atrativo, e nunca mais andou com ninguém, mesmo tendo lábia de vendedor de banha da cobra, lábia essa que lhe permitia estar em constante bullying com o outro, o franzino dos óculos de fato cinzento já desgastado nas coxas e nos cotovelos que não olhava para ninguém para além da empregada do bar pela qual era apaixonado desde o tempo da secundária.

A Eugénia, uma senhora dos seus quarenta e muitos anos, que vestia sempre calças justas e tops apertados, exibindo um belo corpo com ancas estreitas por nunca ter tido filhos, e com a qual o franzino nunca tinha tido sequer coragem de lhe dizer o que sentia, pois sabia que ela era praticamente propriedade do playboy.

Propriedade de tal forma que os rumores que se ouviam pela vila eram de que ele já lhe tinha pago um aborto, mas na realidade tinham sido já dois, e mesmo assim ela continuava a derreter-se por ele sempre que ele abria a boca.

O playboy endinheirado tinha uma cara bonita com a queixada predominantemente quadrada, na qual exibia sempre uma barba de três dias com tons afogueados, embora os seus cabelos fossem pretos, era o mais alto dos três, pouco mais alto que eu, corpo robusto de quem frequenta ginásio. E com uma adoração tal por si próprio, que me levava a pensar que se masturbava à conta da sua última masturbação.

O mesmo corpo que vejo agora vazio à minha frente.

Capítulo 2

Um bando de gente dançava entre a minha mesa e a ponta do balcão onde o playboy estava, bastou-me olhar para ele discretamente duas vezes para ele vir ter comigo e deixá-lo galar-me, os homens gostam de atenção, que lhe toquemos enquanto nós rimos das piadas fúteis que dizem tentando

ser engraçados. Gostam de pequenos e leves roces entre as minhas mãos e as deles e principalmente que lhes pouse a mão na perna enquanto os fixo nos olhos e faço carinha de fácil e atrevida.

A sedução não é difícil para mim, já que tenho um metro e setenta e só uso tacões de agulha nunca abaixo dos 13 centímetros, que me fazem levantar os músculos das pernas e consequentemente o rabo, que eles adoram, com o cabelo longo e castanho escuro por vezes trançado, mas sempre puxado a descair para a frente do ombro esquerdo.

Depois é só usar uma camisola de alças com renda na zona do peito, uma saia curta, justa e meias de ligas, embora eles poucas vezes tenham tempo de ver as ligas.

E assim seduzido mas pensando estar a seduzir, lá me convidam para sair com eles.


- O ambiente aqui está morto, queres sair? Ir dar uma volta, deixar-nos levar pela nossa atração e o que tiver de acontecer…

Acontece!


- Eu não costumo fazer isto! - Digo lhe com ar de uma certa vergonha


- Eu gostava de continuar, de te conhecer melhor!


E vais me dizer que não te apetece continuar a noite comigo?

Quando digo que sim, vejo na cara deles um sorriso de felicidade e adivinho o que vai naquela cabeça:


"Ah! É hoje que vou comê-la!"

Levantamo-nos da mesa do bar, deixando para trás dois copos de Gin a meio beber. Ele colocou o braço direito a volta da minha cintura, e enquanto percorremos o bar até a porta começa a soar pelas colunas, uma das minhas músicas preferidas:

Oh you gonna take me home tonight

Oh down beside that red fire light

Oh you gonna let it all hang out

Fat-bottomed girls you make the rocking world go round

I was just a skinny lad

Never knew no good from bad

But i knew love before…

E à medida que saímos deixamos de ouvir a música.

- Tenho o carro ali - apontando para a nossa esquerda - é aquele BMW azul.


Abriu-me a porta do carro, devia querer mesmo comer-me porque eu sabia que não era cavalheiro nenhum, assim como eu não sou boa pessoa, por detrás daquele ar de menino de papá bem comportado, escondia-se um ser repugnante capaz de se aproveitar de qualquer fraqueza humana para seu próprio proveito e regozijo, a tal ponto de seduzir a madrasta durante meses, para no dia em que tiveram relações gravar tudo em vídeo e acabar por mostrar o filme ao próprio papá, que se divorciou da pobre senhora deixando-a sem nada. E ainda publicou o vídeo na net deixando-a possuída por uma vergonha imensurável, visto morar numa vila relativamente pequena.

Já com o carro em andamento pousou a mão na minha perna, entre o joelho e a coxa, soltou a outra mão do volante e tocou-se entre as pernas como se ajeitando o membro.


- Queres ouvir alguma música em especial? Alguma banda? Tenho Spotify no telemóvel e posso conectá-lo ao rádio do carro.


- Não, nada em especial, escolhe tu, surpreende-me!


Tirou a mão da minha perna pegou no telemóvel e em segundos estávamos a ouvir “Kiss From A Rose” do Seal.

Romântico - pensei - Queres mesmo comer-me, mas hoje a Rose vai-te cravar um espinho e fazer-te sangrar até ficares seco.

Seguimos devagar pela estrada mal iluminada, viramos na rotunda para a silenciosa urbanização onde apenas se ouvia o som do poderoso BMW em baixa rotação, passamos por um jardim com relva, onde apenas se ouviam aspersores, compassados pelos risos de adolescentes, vestidos com calças largas e casacos com capuz fumavam erva acompanhada de uma mistura de alcóolica de whisky com coca-cola, bebida diretamente pelo gargalo da garrafa.

Seguimos até pararmos no semáforo que permitia virar para o cais, ele cantava:


Baby, i compare you to a kiss from a rose on the gray

Ooh, the more i get of you, the stranger it feels, yeah!”


Sempre com a mão na minha perna apertando e afrouxando ao sabor da música, aquele mexer na minha perna causava-me calma, dava-me a certeza do que o escolhera bem.

Dois anos à espera, um deles a estudá-lo para ver se era digno da noite de me conhecer.

Entramos no cais e parou o BMW que tanto amava, quase tanto como a si próprio! Rodou a chave e o motor calou-se.

Eu entretanto já tinha tirado da bolsa o espinho com que ia sangra-lo, uma caneta Parker de tinta permanente toda prateada, comprada especialmente para o Playboy.

Capítulo 3

Acabamos por chegar ao cais onde ele, mal tirou o cinto agarrou-me e beijou, lambendo-me a boca e parte da bochecha e queixo, eu deixei-me levar por aquelas mãos a percorrer-me as mamas e as pernas.

Os homens são todos obcecados por mamas e pernas!

E com todo aquele amasso senti-me mais segura do que tinha a fazer.

E disse-lhe:

- Quero ser possuída lá fora. Em cima do capô do teu carro.

Aquilo na cabeça dele era como uma proposta para fazer um trio. Parou de me agarrar, pôs a mão no puxador da porta e abriu-a saindo rápido como um relâmpago.

Eu saí também para o cimento do cais havia uma leve humidade no chão devido ao orvalho, pois era julho mas a noite estava fria, apenas um candeiro ao longe, daí a pouca luz que nos envolvia fazia o carro parecer negro. Era a atmosfera perfeita para satisfazer o meu escuro desejo.

Avancei para a frente do carro onde o playboy me esperava impaciente.

Agarrou-me com força com os braços à minha volta, desceu as mãos até ao meu rabo e encostou-me à sua pélvis com força, como se me fosse penetrar vestido.

Desceu mais ainda a mão esquerda tocou-me na perna, deslizou os dedos para cima e começou a subir-me a saia.

Cada vez mais me sentia segura e excitada do que ia fazer.

Tentou empurrar o corpo contra o meu para me fazer cair sobre o capô do carro, deixei o conduzir-me, já o tinha sobre mim quando baixa a cabeça para me beijar o peito

Era o momento perfeito…

Levantei o braço para cima com a caneta em riste na mão, e com um movimento rápido, enterrei o espinho da rose no pescoço, e puxei com força pedaços de sangue e carne saltaram-lhe e salpicaram-me a cara, ele gritou e tentou levantar-se, agarrei-o com a mão esquerda, não o deixei fugir e espetei lhe o pescoço repetidamente, salpicando sangue para todo o lado, sempre olhando-o na cara e desfrutando do seu ar de surpreendido e horrorizado, tentou balbuciar alguma palavra mas o sangue já lhe enchia de tal maneira a boca que ondas dele caíam em cima de mim escorrendo e caindo no nosso parceiro de ménage à trois.

Empurrei-o para trás e caiu no chão, avancei sobre ele e cravei mais umas quantas vezes...

Retirei o espinho uma última vez do corpo do puto playboy endinheirado, mais uma vez a satisfação foi imensa, ao sentir a pele do pescoço a rasgar e mais sangue ainda quente salpicar-me destas vez apenas as mãos, pois o coração já estava fraco demais e quase não bombeava.

O cheiro a ferro do sangue era intenso ele ainda mexia uma mão junto a um dos buracos que eu lhe tinha feito, até que essa mão caiu ficando o braço entreaberto e a palma da mão semicerrada voltada para cima.

E um sorriso de satisfação espontâneo percorreu-me a cara e essa satisfação e felicidade chegaram a todos os pontos do meu corpo. Fazendo-me sentir verdadeiramente feliz...

Mais uma vez tinha escolhido bem. Tinha se tentado aproveitar, ficou surpreso, e por fim deixou-se ir, para meu êxtase.

Levantei-me e abanei várias vezes as mãos sacudindo aquele líquido escuro e quente. Ajeitei a saia, dirigi-me para o lado do carro, peguei na bolsa e abri-a procurei a tampa da caneta que tinha no saco. Tapei a caneta, e meti o troféu na bolsa já toda manchada de sangue das minhas mãos, fechei e coloquei no antebraço. Pensei…

Mais uma para a coleção.

E as pulsações baixaram de repente, a excitação passou.

Inspirei fundo a encher completamente os pulmões, tinha sido perfeito, mas já tinha acabado.

Então dei a volta ao carro em direção ao lugar do condutor e vi o reflexo da minha cara toda salpicada de sangue e reconheci-me, é só nestes momentos é que eu me reconheço.

Sou Júlia Neves, a mesma de sempre, desde que era criança.

Capítulo 4

Saí do bagon de comboio, o cheiro a gasóleo queimado pela máquina enchia todo o hangar da estação da nova cidade que me ia acolher até ao meu próximo encontro com um homem que merece a minha atenção e por consequência, os meus serviços.

Atravessei o hangar com a mochila na mão, antes de entrar na porta da estação balancei-a um pouco para trás e com um pouco de força meti a alça ao ombro direito, com a mão esquerda encontrei a outra alça e meti a mochila às costas.

Desta vez tinha o cabelo tapado por um chapéu dos Nets preto, com pala cinzenta. Óculos ray ban wayfarer e um lenço em tons camuflado ao pescoço a combinar com uma parka verde com capuz e bolsos à canguru por cima de uma t-shirt preta, calça de ganga azul clara muito roçada nos joelhos, e umas sapatilhas da sketcher, cor de rosa e azul. Assim disfarçada de turista, deslocava-me de vila em cidade ou vice versa, sem dar nas vistas, pois a femme fatalle com que exercia a minha paixão , nada tinha a ver com uma solitária viajante, de mochila às costas e mapa na mão.

Entrei na estação, um edifício antigo com azulejos em uma das paredes referentes a touradas, e no lado contrário dois guichês, um para tirar bilhetes e outro para informações. Atravessei por aquele corredor por entre uma fila de gente que esperava para tirar bilhete, e saí pela porta principal que dava diretamente para rua onde havia vários táxis à espera de clientes. Dirigi-me ao primeiro táxi da fila entrei e disse:

- Bom dia.

Olhei para o retrovisor e vi um Sr. careca de bigode acinzentado, dando o aspecto de ser boa pessoa.

- Bom dia menina! - respondeu-me - Como correu a viagem?

- Bem, obrigado.

- Então viaja sozinha? Uma menina tão bonita devia com certeza ter um homem que tomasse conta de si!

O aspecto do homem enganou-me, afinal era mais um machista que pensa que tenho de ser propriedade de alguém, e protegida dos males do mundo.

Peguei no lenço, passei-o em volta do pescoço do homem, encostei os joelhos nas costas do banco e puxei com força até ouvir ossos a quebrar.

A ideia passou-me pela cabeça, podia fazê-lo e depois sair do táxi, apanhar o próximo comboio para qualquer destino, em vez disso respondi.
- Acabou de perder uma corrida!

Abri a porta do carro e saí, ficando o homem a resmungar sozinho.

Entrei no táxi que estava logo a seguir e disse ao taxista, sem o deixar falar.

Prédio Gaspar Oliveira, número 124. Sabe onde fica?

- Sei sim, em 10 minutos, se não houver trânsito estaremos à porta.

O taxista arrancou o Mercedes bege-marfim, ainda não havia passado um minuto e já estava a meter conversa.

- Então menina, é de cá da cidade?

- Desculpe a minha falta de simpatia mas não me apetece conversar. Se podermos seguir em silêncio agradecia.

O taxista calou-se amuado, e continuou a conduzir.

Ao olhar pela janela fui memorizando as lojas, cafés, mercearias e os bares, o meu local preferido para emboscada que fazia às presas que mereciam conhecer-me.

Capítulo 5

Nesta nova cidade o meu nome e Cartão de Cidadão era Sónia Ribeiro e tinha arranjado trabalho, de noite numa discoteca chamada "Blue Parrot", tentava andar um pouco mais desleixada, cabelo preto mais curto, sempre com calças de ganga e t-shirts a maior parte das vezes pretas.

Pois queria passar despercebida, o meu último ataque há oito meses atrás, ainda era comentado nas notícias. A única pista que havia era uma mulher de vestido em tons cinzentos, cabelo comprido, escuro e com cerca de um metro e setenta.

O dia estava cinzento, desde a janela do meu quarto, tinha a vista sobre o ginásio mesmo em frente, onde o dono, o Peitinhos treinava todos os finais tarde, e que eu também frequentava, sempre a mesma rotina de exercícios com especial atenção aos peitorais, que ele conseguia fazer mexer, tendo eu já visto a manobra, sempre que se aproximava uma miúda, na discoteca onde eu trabalhava ao balcão e o homem andava sem t-shirt.

O Peitinhos tinha me chamado atenção por vender esteróides anabolizantes no ginásio a putos com dezassete, dezoito anos, fazendo com que já um rapaz perdesse a função renal, tendo de fazer hemodiálise.

Mas o que me tinha realmente motivado a investigá-lo era o tráfico dentro da discoteca, Cocaína, Ecstasy, LSD, MDMA e a potente N-Bomb um poderoso alucinógeno. A moda é introduzi-la no anus, e uns pequenos grãos a mais derivam em overdose, coisa que já tinha acontecido a três miúdas, só sobreviveram duas, e outra toda alucinada e desorientada tinha sido violada pelo próprio Peitinhos no escritório da disco. Tudo com a conivência do dono, o meu patrão.

O patrão era espanhol, tinha cerca de cinquenta anos, bem constituído, vestia-se sempre impecável, fato e gravata, cabelo branco sempre lambido puxado para trás e sempre de barba feita. Era casado e com duas filhas que adorava e venerava. Mas maltratava psicologicamente a mulher por não lhe ter dado um filho homem, tinha feito os meus trabalhos de casa, não fossem os maus tratos à mulher e o caso de encobrir todas as malfeitorias do Peitinhos dentro da discoteca. E tinha-se safado.

Capítulo 6

No final da noite o Patrão chamava pelos empregados um por um para pagar parte do salário da noite em cheque, parte em negro, eu já há dois meses que me deixava ficar para ultima a entrar no escritório, que me provocava náuseas pela violação que lá tinha ocorrido.

Mas naquela noite não tinha náuseas, estava segura de mim, sentia-me forte, predadora.

Entrei no escritório pousei o casaco que levava na mão no cabine olhei para ele e sorri, recebi um sorriso de volta juntamente com:

- Então Sónia, muito cansada?

Não respondi acelerei o passo para ganhar balanço, saltei por cima da mesa indo de encontro ao Patrão sentado numa cadeira do outro lado da mesa, agarrei-lhe o pescoço com as mãos e caímos para chão aterrando em cima dele.

- Ah ah ah ah ah!

Soltei uma gargalhada ao ver os olhos esbugalhados e a cara de surpresa do Patrão.

Acontecia com todos, olhar surpreendido de não estar a perceber o que estava a acontecer! E de não entender como uma mulher os podia agredir.

Apertando cada vez mais o pescoço do homem e ele com as mãos envolta dos meus pulsos, mas quase sem reação consegui pôr os joelhos sobre os seus braços, fiz força com o corpo para lhe cravar os meus joelhos ainda mais nos braços. Ele com a dor afrouxou a força envolta dos meus pulsos e consegui libertar a mão esquerda. Levando a mão do pescoço ao bolso de trás das calças, peguei numa simples lima das unhas e zás…

Espetei-lhe a lima no olho direito, ele berrou.

- Aaaaaaaaaahhhhhhhhhrrrrrrrr!

Tirei-lhe a lima do olho e o sangue começou a esguichar, atingindo-me a cara, o pescoço e escorrendo pela t-shirt abaixo, espetei três vezes no pescoço e por fim outra vez no olho direito firmando com a palma da mão no cabo da lima enterrando-a quase até ao fim do cabo de plástico.

Larguei a outra mão do pescoço e fiquei em cima dele vê-lo esvair-se de sangue, até acabar por morrer.

Respirei fundo, e fiquei por um momento a admirar o corpo inerte, tirei-lhe a lima do olho a custo, limpei-a à camisa branca do morto e guardei-a no bolso de trás, pus-me de pé, estava coberta de sangue. Entrei na casa de banho, lavei a cara, mãos e braços, como é difícil lavar sangue entranhado nas unhas! Dirigi-me ao cabide, vesti o casaco para tapar a t-shirt ensopada, abri a porta e saí.

Ainda tinha de voltar a caçar antes do sol nascer…

Capítulo 7

Desci as escadas do escritório e percorri o caminho atrás do bar principal até à porta de saída dos empregados, cá fora estava frio e havia já claridade do sol nascer. Dei a volta ao Blue Parrot, e nem sinal do carro do Peitinhos, apenas vi dois carros de uns putos, com a música um pouco alta, deviam estar a consumir as últimas raias antes de irem para casa deitar-se a olhar para tecto.

Saí da zona industrial onde se situava a Blue Parrot e comecei a descer a Avenida, com o sentido posto no café Argentina, que era onde o dito cujo costumava tomar o pequeno-almoço, e vender algumas gramas de droga a alguns putos que perdem a calma com a cocaína, e acabam por fazer diretas intermináveis. Cheguei ao Argentina, desilusão, já não estava lá, dirigi-me a uma mesa onde estavam dois putos com as pupilas super dilatadas e perguntei por ele.

- Esteve aqui mas foi para casa.

Respondeu-me um com a queixada toda de lado. Nem respondi, virei costas e saí a correr em direção à casa do Peitinhos.

Ao fim de dez minutos de corrida acelerada pela avenida abaixo, virei na terceira rua à esquerda e no fim da mesma avistei a casa.

Saltei o portão e corri agachada até ao carro, esperei três ou quatro segundos, estava tudo calmo à minha volta, não ouvi qualquer barulho. Aproximei-me de uma janela e espreitei, era a cozinha, estava vazia, segui para a próxima janela, era a sala, onde vi o Peitinhos sentado no sofá com uma nota enrolada numa mão e na outra um copo com um resto de bebida, provavelmente whisky.

Agora, só tinha de entrar na casa sem fazer barulho, percorri a casa toda, mas as janelas estavam fechadas. Passei pela porta principal e…

- Âh!!! - A chave estava na porta!

Abri a porta fazendo o menor barulho possível e entrei.

- Sónia!!! - exclamou -

O que é isto? Que estás aqui a fazer?!

O Peitinhos estava de pé à minha frente, sem t-shirt e em boxers, visivelmente cansado e drogado, e na mão direita trazia um ferro de lareira, com a intenção de o usar.

Olhei para os lados à procura de algo que pudesse agarrar e lhe fazer frente, mas nada, não havia nada no hall de entrada.

Fiz o gesto de meter a mão esquerda atrás das costas para agarrar a lima que tinha no bolso, entretanto ele já estava a baixar o ferro em direção à minha cabeça, tentei me proteger com o outro braço, o ferro pegou-me com potência no antebraço, não tive força suficiente para o conter acabando por me atingir o ombro também.

Soltei um surdo.

- Aaaaahhhh!!!

Entretanto, com a lima na mão, estiquei o braço em direção aos abdominais do Peitinhos, espetando parte da lima.

- AAAAAHHHHGGGGRRRR!!! Puta!!!

O Peitinhos recuou dois passos, soltou o ferro e pôs a mão no buraco ensanguentado feito pela lima.

- Puta, vou te matar!!! - e avançou com os braços esticados para me agarrar - Vou te arrebentar a cabeça, sua puta!!

Eu avancei também de encontro aos seus braços, uma das mãos agarrou-me no ombro dorido pelo ferro, que me fez gemer, e a outra mão desferiu-me um soco entre a barriga e o peito que quase me deixou sem ar. Levantou um pouco o braço e preparou-se para outro soco, desta vez direcionado à cabeça, mas como levantou o braço ficou com parte do peito a descoberto, eu ainda aflita para respirar, juntei toda a força que tinha e espetei-lhe a lima na axila, puxei e desferi três golpes rápidos mais, ao longo da lateral do peito, fazendo com que o soco me atingisse com menos potência. Mesmo assim deixou-me tonta, era um puto touro o Peitinhos! Atordoada consegui atingi-lo várias vezes no estômago, havia esguichos de sangue por todo o tronco do meu adversário, mas ele conseguiu-me agarrar outra vez, até eu cair de costas com ele por cima de mim agarrado ao meu pescoço, e aí tive a minha chance, espetei a lima das unhas umas quantas vezes no pescoço e na axila do Peitinhos, que foi perdendo força até se deixar cair, com a boca a jorrar sangue, completamente sobre mim. O sangue tapava-me os olhos e o nariz tinha de respirar pela boca, onde também entrava sangue do morto.

Com grande esforço, do cansaço e peso do morto, consegui tirá-lo de cima de mim e respirar, respirar e sentir-me feliz, respirar e pensar mais uma vez a Júlia fez justiça e atenuou os seus instintos mais primitivos.




Conto escrito por
Filipe Fernandes

Produção Four Elements
Marcos Vinícius da Silva
Melqui Rodrigues
Hugo Martins
Cristina Ravela



Esta é uma obra de ficção virtual sem fins lucrativos. Qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência.


REALIZAÇÃO

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Telefonema do Além






Telefonema do Além

Conto

star 07 min | Sobrenatural
Classificação: 16 anos
Formato: Conto
Autor: Jober Rocha
Estreia Original: 26 Nov 2021

Sinopse


Piloto morto em acidente aéreo retorna do além para pedir socorro.


espaço






Clique para ver descrição






Telefonema do Além | Conto

Telefonema do Além | Conto


WEBTVPLAY ORIGINAL APRESENTA
TELEFONEMA DO ALÉM



Conto de
Jober Rocha




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Todos os direitos reservados.

***

Na ocasião em que os fatos mencionados a seguir ocorreram, eu residia na cidade de Belém, no Estado do Pará, para onde havia me transferido há poucos meses, a serviço da organização bancária em que já trabalhava durante alguns anos. Eu era gerente administrativo da instituição e tinha que organizar aquela agência, totalmente desorganizada pelo anterior gerente.

Casado há cerca de um ano, alugara confortável casa em bairro tradicional da cidade onde vivia tranquilamente. Frequentando, junto com minha esposa, um clube local ao qual me associara, acabei por travar conhecimento com jovem casal, também residindo há pouco tempo naquela cidade e sem filhos como nós.

O novo amigo era piloto em uma das muitas empresas de táxi aéreo da região e sua esposa, médica, possuía um pequeno consultório no centro da cidade. Eram pessoas cordiais, educadas, inteligentes. Resumindo, eram muito parecidas com nós mesmos, daí a razão da fácil amizade surgida entre nós.

Com o evoluir da nossa amizade passamos a sair juntos e a frequentar a casa do outro. Como não tínhamos nenhum parente por aquelas bandas, nós nos apoiávamos como fazem, frequentemente, dois irmãos unidos. Costumávamos fazer churrascos, ora em minha residência ora na dele, quando, então, nestas ocasiões, tínhamos a oportunidade de conhecer em maior profundidade os nossos pontos de vista sobre a vida, por vezes distintos, mas, quase sempre, coincidentes, sobre as coisas e sobre as instituições.

Como ambos não professássemos nenhuma religião, embora acreditássemos na existência de um Criador, em muitas ocasiões filosofávamos acerca da origem da vida, sobre o papel do destino e se haveria ou não vida do outro lado da existência humana; isto é, no território que separava a vida da morte. Nestas ocasiões, embora cada um de nós expusesse o seu ponto de vista particular sobre o assunto, não chegávamos a nenhuma conclusão, haja vista a complexidade do tema.

Meu amigo era de opinião que existia vida após a morte e, ainda mais - segundo ele - aqueles que tivessem penetrado no Território do Além poderiam, caso desejassem, comunicar-se com os que estavam do lado de cá.

Meu ponto de vista era o tradicional da religião católica: - temos apenas uma existência e, após a morte, não poderíamos mais nos comunicar com nossos familiares e amigos.

Deixando de lado estes assuntos, entretanto, logo passávamos a conversar sobre a vida profissional de cada um de nós.

Eu dizia-lhe que o trabalho bancário, embora não parecesse, era desgastante e causa de muito estresse entre os bancários, além de doenças do sistema nervoso; tudo isto, motivado pela constante pressão sobre metas a serem alcançadas e a grande responsabilidade sobre eventuais erros com relação a valores, cifras, etc.

Nestas ocasiões, comentava com ele que o trabalho de piloto era muito mais tranquilo e gratificante. Enquanto o bancário vivia preso em uma sala durante o dia todo, o aviador tinha a liberdade de poder estar em vários lugares naquele mesmo período, desbravar os ares e tentar chegar aos horizontes.

Meu novo amigo garantia que as coisas não eram como eu pensava. Disse-me ele que desde pequeno se interessara pelas coisas da aviação. Tentara inicialmente a aviação militar; porém, não tendo sido aprovado no concurso público para a Academia da Força Aérea, ingressara em um curso de aviação civil, onde se formara piloto privado e, mais tarde, piloto comercial. Naquela ocasião já possuía milhares de horas de voo sobre o território nacional.

Disse que já havia passado por situações de grande perigo, seja durante temporais, seja por panes em um ou em dois dos motores, etc. Garantia que os voos eram seguros; mas que, por vezes, “a bruxa” estava dentro da aeronave, em espreita e pronta para ceifar a vida daqueles pilotos desatentos. Certa feita havia caído sobre umas copas de algumas grandes árvores e ali passado quase quatro dias, bebendo água da chuva, até ser resgatado por helicópteros da Força Aérea.

A região em que ele voava compreendia, basicamente, a Região Norte do país; muito embora, ocasionalmente, efetuasse voos para o Nordeste e para o Centro-Oeste. Seus passageiros eram, quase sempre, empresários, homens de negócio e empregados de alto nível de empresas estatais, que tinham pressa em chegar até pontos isolados daquelas regiões, não servidos pelas empresas aéreas de grande porte. Pilotava um bimotor Cessna 310 e conhecia o território sobre o qual voava como a palma de sua mão. Pousava em campos de pouso abertos no meio da mata, em pastagens, em ruas de pequenas cidades perdidas, em pistas improvisadas de garimpos, etc.

Em um domingo, durante um dos churrascos em minha casa, enquanto saboreávamos uma caipirinha e comíamos camarões fritos, ele comentou que na véspera dois empresários o procuraram para combinar um voo até o município de Tarauacá, localizado a noroeste do Estado do Acre, na fronteira com a Colômbia.

Disse que embora o voo tivesse sido combinado para a segunda-feira de manhã, tivera um estranho pressentimento naquela ocasião. Não sabia dizer a razão de tal sensação, pois já havia efetuado inúmeros voos em direção ao Acre e a previsão do tempo para a manhã de segunda-feira era de tempo bom, com boa visibilidade. Julgava que talvez tivesse sido a aparência daqueles dois empresários: trajes muito caros, faces muito pálidas e olhos muito profundos. Os olhares daqueles dois – a ele pareceu na ocasião - penetraram no mais íntimo do seu Ser. Era como se eles soubessem a sua resposta antes mesmo dele responder qualquer coisa. Algumas vezes, percebeu que eles lhe perguntavam algo, mas que as suas bocas não se abriam, embora ele entendesse perfeitamente o que eles queriam saber.

Os empresários pagaram adiantado aquele voo que fariam e foram-se embora, sem mesmo se despedir. Fato inusitado, segundo me contou, é que eles saíram andando e pouco depois, como que sumiram no ar, pois deixou de avistá-los em uma rua plana e com tempo claro.

Enquanto meu amigo falava, notei que os pelos de seu braço ficaram todos arrepiados. Ao brincar com ele sobre o fato, confessou-me que um calafrio percorrera seu corpo, por inteiro, ao lembrar-se daquela viagem que teria de fazer no dia seguinte. Pouco depois, com a chegada de nossas esposas, o assunto foi esquecido e fomos jogar uma partida de cartas e tomar um cálice de Calvados.

Na segunda-feira dirigi-me, conforme sempre fazia, para a sede do banco; lugar em que uma vastidão de pequenos e grandes problemas burocráticos me aguardavam: as máquinas automáticas de caixa haviam dado defeito; o sistema todo havia caído; alguns empregados haviam faltado e ainda não havíamos descoberto, na contabilidade, onde foram parar alguns milhares de reais daquela diferença apresentada no caixa.

Por volta do meio-dia, o telefone da minha mesa tocou. Ao atendê-lo fui surpreendido pela voz, longínqua, do meu amigo pedindo socorro. Ele pronunciou meu nome claramente e, em seguida, pediu que o socorresse. Ao solicitar-lhe maiores informações, a ligação caiu. Ainda esperei alguns minutos para que ela retornasse, porém, como tal não aconteceu, coloquei o paletó, peguei meu carro no estacionamento do banco e dirigi-me para o aeroporto, em busca do hangar da companhia de táxi aéreo na qual ele trabalhava.

Lá chegando, constatei que o ambiente era de total desolação. Caminhões de bombeiros, carros de polícia, jornalistas e o público, em geral, se aglomeravam nas imediações do aeroporto. Na sede da empresa Informaram-me que sua aeronave havia decolado, conforme previsto, às oito horas da manhã, com dois empresários e, em razão de uma pane de decolagem em ambos os motores, havia colidido com árvores logo após o final da pista e explodido. O corpo do piloto fora encontrado pelas equipes de socorro, pouco após o acidente, morto, com várias queimaduras e bastante mutilado; porém, os corpos dos dois passageiros que transportava, não tinham sido localizados até aquele momento, por mais que procurassem.

O acidente, portanto, tinha ocorrido apenas alguns minutos após a hora confirmada da decolagem; isto é, às oito horas da manhã e eu recebera a ligação por volta do meio-dia, quando já me preparava para ir almoçar em casa. Alguma coisa de muito estranha e inusitada ocorrera naquele dia: eu recebera uma ligação telefônica do meu amigo, algumas horas depois de ele haver falecido. Ao pensar no fato, lembrei-me daquela conversa que tivéramos no fim de semana anterior, quando ele demonstrara certo receio daquele voo na segunda-feira e que afirmara acreditar na vida depois da morte.

Fui ao seu enterro, na tarde do dia seguinte, com minha esposa. A cerimônia foi breve. No cemitério achavam-se presentes apenas poucas pessoas: nós dois, a esposa dele, alguns funcionários da empresa de táxi aéreo e um padre, que encomendou o corpo a pedido do proprietário da empresa aérea. Ao voltarmos para casa vínhamos contristados no automóvel, tanto com o acontecimento, em si, quanto com a cena patética de sua esposa chorando à beira do túmulo.

Poucos minutos depois de entrarmos em casa, tendo minha esposa subido ao quarto para descansar daquele dia cheio de atribulações, onde chorara muito ao consolar a viúva, dirigi-me ao bar da casa para tomar um copo cheio de uísque, em uma derradeira homenagem ao meu amigo que se fora definitivamente.

Enquanto servia a dose, derramando o uísque por sobre várias pedras de gelo, o telefone tocou. Ao atender, ouvi a voz do meu amigo chamando-me pelo nome e, novamente, pedindo socorro. Em seguida a ligação caiu novamente.

Desliguei o telefone e, com um sorriso nos lábios, peguei o copo de uísque e bebi todo o seu conteúdo, de uma única vez. Soltando, então, uma pequena gargalhada, exclamei baixinho, para mim mesmo: - Então é verdade, existe mesmo vida no território da morte!

Ainda sorria eufórico, quando me dei conta de que, tendo ele, finalmente, penetrado naquela região desconhecida, estava era me ligando para pedir por socorro...


Palavras Obscuras - 1x08 - Misoginia (Traumas)


Sinopse: Quando crimes cruéis de um assassino em série, que mata mulheres e as violenta sexualmente, se tornam a principal investigação do Departamento de Polícia local, um experiente delegado precisa encontrar o malfeitor e levar justiça àquelas vítimas tendo como principal vestígio para solucionar o problema, um exemplar de Bíblia que destaca trechos cruciais no caso. Um conto que mostra até que ponto o ser humano pode chegar e nos ensina que ninguém é inocente, até que se prove ao contrário...nem os homens do Senhor.



Misoginia (Traumas)
de João Baptista dos Santos

 

Do púlpito, o pastor impecavelmente vestido, pregava para os fiéis. Parecia saído do banho naquele momento, o cabelo bem penteado brilhava, refletindo as luzes do templo no gel fixador.

Entre os crentes, senhor de meia idade, a barriga proeminente esticando a camisa social, os olhos fixos no pregador. Parecia deslocado naquele contexto por causa do olhar, não transmitia credulidade, antes, desconfiança. Dezenove horas de domingo calorento. Apesar de vários ventiladores funcionando em velocidade máxima, aquele homem, a todo o momento, enxugava o suor da testa com o lenço embolado na mão direita.

A veemência do pastor ao falar mantinha a assembleia dominada sob o impacto das palavras. Possuía o dom da oratória, as pessoas se subjugavam à voz tonitruante.

O homem suarento se deixou levar para o passado. Aquele ambiente o remetia para a adolescência. Aluno de Colégio administrado por padres da Ordem do Divino Coração, ele assistia com devoção às missas domingueiras na capela da Escola. Pelo menos uma vez por mês recebia a comunhão eucarística. A confissão dos pecados não era como agora, coletiva ou comunitária como dizem, mas sim, individual. Ali, cara a cara com o confessor. Lembrou-se então do padre alemão, professor de matemática, dizendo: “masturbarrrrr... pecado grave”, o sotaque carregado dando maior peso à falta, aumentando o sentimento de culpa do pecador. Com certeza, por isso, o remorso viria sempre após o ato solitário. Recorria menos a este expediente com o passar do tempo, evidentemente, mas quando o praticava ainda sofria. Não entendia o persistente trauma, pois a sua fé se enfraquecera em decorrência da sua atividade profissional, por isso obrigatória, com as mais sórdidas mazelas da sociedade; logo já não devia temer os castigos advindos, segundo a religião, do prazeroso ato.

Voltou ao tempo real, afinal não estava ali para reminiscências, mas para observar o pastor. Tentar ouvir nas entrelinhas da homilia algo aproveitável para a investigação que ora executa. Contudo, nada ouviu para ajudar, o tema versou sobre a volta de Cristo, “orai e vigiai”.

Após o culto o homem gordo que suara em bicas entrou num carro onde o aguardava o motorista. Este lhe perguntou algo, o homem respondeu que durante a semana intimaria o religioso a ir à Delegacia para explicações. Apesar de ainda não possuir indícios consistentes, o pastor se configurava como primeiro suspeito.

Há três meses, provável “serial killer” tirava o sono daquele senhor, Delegado de Polícia; exercia suas funções numa Delegacia de bairro nobre da capital mineira, Belo Horizonte. O criminoso parecia determinado a mostrar ser o único autor dos delitos, tal a quantidade de pontos comuns entre eles. O “modus operandi” do delinquente não deixava dúvidas.

O Delegado no dia seguinte àquele domingo, no seu gabinete, olhava os volumes dos inquéritos daquele caso empilhados sobre a mesa. Leu o resumo dos crimes:

No dia 24 de maio, Maria de tal, advogada, 36 anos, encontrada morta dentro do carro dela numa rua sem saída. Enforcada com cordão usado nos varais de roupas. Violentada sexualmente. Em cima do corpo, folha de papel com a seguinte inscrição: “Deus fez o homem reto. Apliquei-me em explorar e sondar a sabedoria e a razão das coisas, e reconheci que a maldade é estulta e a má conduta é insensata! Descobri que a mulher é mais amarga que a morte, porque ela é um laço, seu coração uma rede e seus braços liames; quem é bom aos olhos de Deus foge dela, mas o pecador será sua presa. (Eclesiastes 7:25-26)”

O segundo crime ocorreu no dia 25 de junho. Suely de Tal, 40 anos, secretária executiva de grande empresa, enforcada com cordão de varal num terreno baldio. Também violentada sexualmente. Preso ao corpo, folha de papel onde se lia: “O homem não deve cobrir a cabeça: porque ele é a imagem e o reflexo de Deus; a mulher, no entanto é o reflexo do homem. Porque o homem não foi feito da mulher, mas a mulher do homem. Nem o homem foi criado para a mulher, mas a mulher para o homem. (Coríntios 14:34)”

O terceiro crime, no dia 28 de julho, idêntico aos outros, Francisca de Tal, 39 anos, arquiteta, assassinada dentro de seu apartamento onde morava sozinha. Os dizeres escritos no papel sobre o corpo: “Os esposos Santidade do lar. As mulheres sejam submissas aos seus maridos, como ao Senhor, porque o marido é a cabeça da mulher, como Cristo é a cabeça da Igreja, ele o salvador do Corpo. Como a Igreja está sujeita a Cristo, assim as mulheres estejam sujeitas em tudo a seus maridos.” (Efésios 5.22-24).

O perfil do assassino estava definido: Homem ligado a alguma religião, provavelmente fanático ou psicopata. Demonstrava aversão às mulheres ou as temia. A idade estaria entre os 40 e 50 anos. Ganhava a confiança das vítimas antes de matá-las, daí a suposição da idade do criminoso. As armas para as conquistas seriam: o encanto pessoal, mentiras, falsas promessas, posição social. Sistematicamente mantinha um intervalo médio de trinta dias entre os delitos. Aquelas mulheres frequentavam a mesma igreja, mas não se conheciam. Este último detalhe perdia importância pelo grande número de fiéis frequentadores do templo. Agia numa área de quatro quilômetros quadrados, levando-se em conta o local do primeiro crime como ponto central das ações.

O Delegado abriu a gaveta da mesa e retirou de dentro dela uma Bíblia. Abriu a capa, leu em voz alta o nome escrito na contracapa: Pastor Josias. Fechou-a, bateu o livro contra a palma de uma das mãos repetidas vezes, olhando para o alto, talvez tentando recriar mentalmente como se deram os fatos. Usaria toda a argúcia no interrogatório, por à mostra as idiossincrasias daquele homem; não seria fácil, pensou.

Intimado, o Pastor Josias compareceu à Delegacia de Polícia visivelmente constrangido, abatido, não parecia o mesmo homem vigoroso de dias atrás na igreja. Acompanhava-o o advogado de uma empresa multinacional, Dr. Hipólito, que também era escritor, com alguns livros publicados cujos temas invariavelmente eram policiais. Homem de postura empertigada, óculos redondos, aparência de competência incontestável, transpirava segurança. Há dois anos chegara à cidade, passara a frequentar a comunidade religiosa tornando-se membro ativo.

O Policial revelou ao inquirido que a bíblia fora encontrada próximo ao local do último crime do “serial killer”. Além do nome do religioso na contracapa, destacavam-se naquele exemplar, circundadas com tinta vermelha de caneta, as mensagens encontradas sobre os corpos das vítimas. Esta edição do Livro Sagrado era uma das quatro de sua propriedade, duas ficavam em casa e duas na igreja, esta fora roubada do templo, dissera o pastor. Durante uma hora outras perguntas foram respondidas.

Na volta para casa, Josias, absorto dentro do carro, se transportou para outros tempos. Boca vermelha de batom ordinário se abrindo num sorriso debochado de mulher mundana, humilhando um garoto de dezesseis anos pelo seu fracasso sexual ocasional. Fiasco provocado pela necessidade dela de alta rotatividade ,”goza, goza logo”. Imagem fixada no subconsciente voltaria sempre no momento crucial sem ser invocada naturalmente, perturbadoramente. Bloqueando. Sessões de psicoterapia no decorrer dos anos, apenas paliativas, não solucionando o problema totalmente.

A suspeita sobre o pastor ganhou as manchetes dos jornais, mas a Polícia não conseguiu sustentar a acusação. As provas técnicas, como o exame laboratorial do sêmen encontrado nos corpos das mulheres e o teste grafológico das mensagens bíblicas deram negativo para o acusado. Não encontraram impressões digitais, provavelmente o assassino usara luvas. A maestria do Dr. Hipólito na condução da defesa jogara por terra todos os argumentos da acusação. O Ministério Público não aceitou a denúncia. Optou pelo despacho de não pronúncia.

Livre da acusação, o Pastor Josias recebeu a visita do Dr. Hipólito, viera se despedir, fora transferido, isto ocorria sempre na vida profissional dele. Josias agradeceu o advogado pela atuação no caso. O advogado respondeu “o agradecimento é recíproco, o senhor bem sabe”.

Dois anos se passaram. O Delegado, envolvido com outros casos, jamais esqueceu os crimes hediondos do misógino. Sentia-se frustrado, apesar de haver cessado a série de delitos depois da investigação envolvendo o religioso. Dizia haver falhado porque focara a investigação em cima de suspeito único. Deveria ter aberto um leque maior de linhas de investigação. Às vezes sonhava com aquelas ocorrências, via o pastor sempre seguido por sombra de aspecto humana não identificada. Sentia a sensação de que o criminoso estivera ao alcance da lei, mas escapara entre os dedos da polícia.

Aproximadamente a oitocentos quilômetros dali, em bela cidade capital de Estado, Dr. Hipólito saía do Clube de Cultura local num fim de tarde, acontecera ali encontro de escritores, reunião bastante concorrida. O advogado se fazia acompanhar de uma mulher a quem levou até ao carro dela e ali se despediram marcando encontro para aquela noite. Mais tarde, em casa, sentado no sofá, taça de vinho nas mãos, naufragou no buquê exalado da bebida. Viu-se pré-adolescente, doze anos de idade, trancado num quarto levado pela vizinha de mesma idade. A avó dela abrindo a porta com violência. ”Onde já se viu menino trancado com menina?” O corpo sentindo ainda o calor feminino que estivera junto ao dele, os lábios sentindo o longo beijo roubado pela amiguinha, agora o responsabilizando maliciosamente por estarem ali juntos. Pela segunda vez ela o jogava em situação constrangedora, a primeira vez ocorrera na casa dele, flagrados por sua mãe que lhe castigou fisicamente, além da reprimenda verbal. Ele não resistira ao apelo sexual aflorando em seu corpo naquela idade de mudanças. O sofrido castigo, jamais esquecido, apenas para ele, considerado o sedutor. Agora tudo se repetia, não houve castigos físicos desta feita, mas ficara envergonhado na presença de outras pessoas. Retornou ao tempo presente, levantou-se, foi até a estante, pegou um livro. Após folheá-lo o abriu em determinada página, seu olhar cintilava um brilho cristalino. A testa franzia em rugas. Os lábios entreabertos davam à boca um ricto nervoso. Então o advogado pegou a caneta de tinta vermelha e circundou, vendo a cor de sangue destacar a seguinte citação do filósofo alemão Arthur Schopenhauer: ”O leão tem dentes e garras, o elefante e o javali têm presas de defesa, o touro tem chifres, o polvo tem sua tinta para turvar a água a seu redor; a natureza deu à mulher mais que a dissimulação para defender-se, a traição, a ingratidão, a falsidade”.

Fim



Conto escrito por
João Baptista dos Santos

Produção Four Elements
Marcos Vinícius da Silva
Melqui Rodrigues
Hugo Martins
Cristina Ravela



Esta é uma obra de ficção virtual sem fins lucrativos. Qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência.


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