Antologia Halloween - Contos de Terror no Brasil - 1x07


Sinopse: "Mariana do Pito-A Bruxa da Província” é uma história assustadora sobre uma velha benzedeira que realizava curas e outros trabalhos na região da Província de Cárpoles, ao Norte do Paraná, e após a sua morte, revelou sua verdadeira identidade, vigando-se e trazendo ruínas a muitas famílias ricas que duvidavam dela.


Mariana do Pito - A Bruxa da Província
de Danilo Seraphim

 

1.

E foi lá, pelos anos de “mil novecentos e uns dias que não me recordo” que vivia, em um sítio na estrada dos jabuticabais, na Província de Cárpoles, ao Norte do Paraná, uma senhora de pele enrugada e expressão judiada e cansada pelo tempo.

Diziam que ela realizava benzimentos, curas e outros “trabalhos”, a fim de que as crianças melhorassem e os doentes se restabelecessem ou as mulheres se acertassem com seus relacionamentos conjugais. Trabalhos como “garrafadas”, resolução de alguns conflitos amorosos e outros tipos de habilidades, o povo também acreditava fortemente que ela possuía. Havia até mesmo algumas mulheres que afirmavam, sem sombra de dúvidas, que a Mariana do Pito (era assim chamada porque não largava por nada, nem por um momento, o cigarro de palha que ficava na boca, mais apagado do que aceso) não errava uma. Teve até a comadre Gertrudes, que vendera dois novilhos para que a Mariana do Pito trouxesse o marido fugidio de volta pra casa. Ele não voltou, mas a Gertrudes arranjou outro bem mais novo, forte e galanteador.

Com certeza, era coisa da Mariana do Pito, ela fazia milagres, as comadres tinham certeza disso.

2.

Em uma tarde de domingo, Mariana do Pito fora chamada na casa de um rico comerciante da Província de Cárpoles. Seu filho mais velho não estava bem e mesmo com medicações ele não melhorava.

O cara não acreditava nessas coisas, e um dia antes ele havia discutido com a esposa, mas ela insistiu:

— Antenor, os remédios já não fazem efeitos, levamos em três médicos, o que podemos fazer?

— Levá-lo em outro médico, Ivonete! Não podemos deixá-lo assim, queimando de febre.

— Antenor, eu acredito nos remédios milagrosos e nas rezas e trabalhos de uma velha senhora que mora lá na estrada dos jabuticabais.

— Ei Ivonete, pare com isso por favor!

— Você não sabe de nada, homem, por favor! Ela curou o filho da nossa lavadeira esses dias mesmo.

— Meu Deus, isso não existe Ivonete, deixe de bobagens!

— Eu quero o melhor pra ele, Antenor, por favor deixe, que eu sei o que estou fazendo.

Após convencer o homem, chamaram Mariana do Pito. Ela aspirava a fumaça do cigarro fedorento, e nas mãos fazia uma guimba, misturando-a, a um tipo de pano e ia fazendo uma compressa muito peculiar. Levava aquilo à têmpora e às narinas da criança, que apenas gemia parecendo grunhir como um gatinho indefeso e a febre ardendo.

Não se sabe se foi para não aguentar mais o maldito cheiro do pito por mais algumas vezes, ou se realmente aquele estranho ritual funcionava, mas no terceiro dia a criança melhorou. É óbvio que as medicações haviam continuado a todo vapor, mas a senhora Ivonete estava feliz com o trabalho da Mariana do Pito.

3.

Outro dia, na casa de uma família tradicional da Cidade de Cárpoles, ocorrera um fato inusitado. Lá estava ocorrendo um almoço. Alguns tios dos anfitriões que moravam na Capital do Estado e outros amigos, ali estavam.

Enquanto algumas dessas pessoas aguardavam na sala para saborearem a comida, preparada pela dona da casa, eis que chega à porta uma velha, com uma saia comprida, a expressão judiada e um cigarro de palha no canto da boca. Era Mariana do Pito. Ao avistá-la, o filho mais velho do casal, de apenas dez anos gritou em alta voz: “Mamãe, é a caipora!”.

A mãe, muito mais envergonhada pelo grito escandaloso do menino, tentou acalmar o ambiente:

— Meu filho, por favor!

— Sim mamãe, foi com ela que eu sonhei, a velha feia e enrugada de pito na boca, ela é a caipora!

— Não, por favor, ela é apenas a dona Mariana e veio até aqui porque eu sempre a ajudo.

Mariana do Pito sorriu discretamente exibindo a boca sem dentes e disse à mãe da criança que não se preocupasse com isso.

Nesse momento o marido interpelou a esposa:

— Como assim, ajuda? Em troca de quê?

A esposa engasgou e respondeu:

— Ora, nada, apenas tenho pena dela e sempre ajudo.

A dona da casa retirou-se com Mariana do Pito, conversaram alguns minutos e a velha foi embora.

De fato, sua presença naquele momento aliada ao grito de pavor do menino, causaram no mínimo um desconforto já que para a criança a imagem da tal “caipora” era justamente aquela. Mas continuava correndo nas redondezas, as notícias de cura e outros trabalhos de Mariana, que com seu pito realizava proezas.

Em velórios, Mariana do Pito ficava até clarear o dia, nas quermesses do local e em algumas festanças ela estava lá, com o pito no canto da boca e tomando vinho e pinga.

Muitas famílias abastadas no lugar odiavam Maria do Pito. Chamavam-na de “macumbeira”, “velha maldita”, “bruxa” e outros adjetivos.


4.

Certo dia, a velha Mariana do Pito morreu.

A velha senhora benzedeira, curandeira, macumbeira e “outros bichos”, já havia partindo para o além.

Em um dia de domingo frio e chuvoso em Cárpoles, Vidal Diogo e sua família iam pela estrada dos jabuticabais quando avistaram ao longe um arbusto em chamas.  Parafraseando a passagem bíblica lá do êxodo, era um tipo de “sarça ardente”.

O senhor Vidal, homem religioso e de crenças sobrenaturais conservadoras, parou bruscamente seu fusca do ano. O filho mais novo que estava no banco de trás junto com os outros dois irmãos, gritou estridentemente: "Tem uma mulher se queimando lá dentro da árvore, pai!".

O homem aproximou-se mais um pouco. De fato, lá dentro do fogo havia uma mulher "ardendo em chamas". Eles se aproximaram e levaram o maior susto. A velha emitia gritos e risadas agudas e estridentes, mas ela não se queimava, apenas ria e gritava alto, enquanto sua face ia se transmudando, ora rindo, ora revelando um rosto assustador.

Eles não conseguiram identificar a velha que rodava dentro do arbusto em fogo, mas dava para notar que era uma velha muito magra e com pito no canto da boca.

De repente, mais uma risada estridente e ela desapareceu. Esse fato presenciado pela família de Vidal Diogo logo se alastrou pela província e não parou por aí.

Dois homens que eram boiadeiros e empregados no sítio do senhor Pedro Rocha estavam apartando o gado já no fim da tarde, quando ouviram algo se mexer atrás de uma moita de capim. Em poucos instantes a moita começara a pegar fogo. De repente, o mesmo grito, a mesma risada aguda e estridente.

Um dos cavalos assustou e jogou o homem longe, dentro de um buraco, o outro homem, “amigo da onça” virou o cavalo e... “pernas pra que te quero” (bom, nesse caso, quem deveria “dizer” isso seria o cavalo, né? Mas enfim...). O fugidio escafedeu-se.

O outro boiadeiro caído, levantou-se rapidamente e ao olhar para o arbusto em chamas não havia mais nada. Após o ocorrido com os boiadeiros e com a família do senhor Vidal, os comentários se alastravam:

“Mariana do pito era a bruxa que aparecia nas moitas e elas ficavam em chamas”,  mas, aquelas pessoas ricas e de altas posses que não acreditavam no assunto e teriam praguejado Mariana do Pito enquanto ela vivia, afirmando que ela era uma bruxa, agora iriam receber o troco. Era a hora do acerto de contas.


5.

Segundo a lenda, Mariana do Pito realmente se transformou em uma bruxa e muitas coisas tristes, horrendas e lamentáveis ocorreram com aquelas famílias ricas que a praguejavam e duvidavam dela. Coisas sem explicação, tais como: suicídios, assassinatos, doenças sem causas pré-existentes, um fogão que se acendeu sozinho e pegou fogo na casa inteira, e tantas outras desgraças ocorreram com algumas dessas pessoas e, então, o povo que acreditava na lenda afirmava seguramente que era: “A vingança de Mariana do Pito”.

Até os dias de hoje, na velha estrada dos jabuticabais, afirmam que, após a meia noite, quem passa por lá, às vezes vê um arbusto em chamas e dentro dele a velha bruxa pegando fogo.

Você passaria pela estrada dos jabuticabais, após as doze badaladas noturnas?! 

Conto escrito por
Danilo Seraphim

CAL - Comissão de Autores Literários
Agnes Izumi Nagashima
Eliane Rodrigues
Francisco Caetano 
Gisela Lopes Peçanha
Lígia Diniz Donega
Márcio André Silva Garcia
Paulo Luís Ferreira
Pedro Panhoca
Rosside Rodrigues Machado

Produção
Bruno Olsen
Cristina Ravela


Esta é uma obra de ficção virtual sem fins lucrativos. Qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência.


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