Parceria de milhões: Rajax licencia catálogo de séries e filmes para a webtvplay; entenda


Ao contrário dos rumores, a Rajax não vai perder o controle de sua administração para mim 😜.

Rajax licencia obras para a webtvplay
Arte feita pela Rajax. Sim, copiei descaradamente.

 
Recentemente, muitos autores e leitores foram pegos de surpresa ao saberem que euzinha e a Rajax fechamos acordo de licenciamento de séries e filmes.

Na verdade, o nosso relacionamento comercial existe há anos, visto que, além de Kax Silva (CEO da Rajax) ser diretor executivo da webtvplay, ele também já disponibilizou dois sucessos aqui: filme Parágrafos de uma Paixão e o programa Astrolozilda.

Até o caminho inverso foi feito, com a série Anti-Herói. Exibida originalmente na WebTV e disponível aqui para você maratonar, a série também foi exibida na Widcyber e Rajax. Muito exibida essa obra, hein? Ai ai.

Tá, mas qual é a diferença agora?



A diferença é que as obras do catálogo Rajax serão licenciadas com prazo para terminar mais curto: 2024.

Portanto, todas as obras que terminarem suas exibições na emissora de Kax Silva serão disponibilizadas aqui. A começar com A Beleza que Há em Mim, prontinha para você maratonar todos os 7 episódios.

Gostastes dessa novidade da webtvplay? Então fique esperto (a) que ao longo de março teremos mais produções licenciadas pela Rajax.

A Beleza que Há em Mim





A Beleza que Há em Mim

star 20min | Drama
Classificação: 18 anos
Formato: Série
Autora: Bruno Rodrigo
Estreia Original: 25 set 2021 (Rajax)

Sinopse



A BELEZA QUE HÁ EM MIM nunca foi tão traiçoeira.

Em meados de 2003, FLORA MILES, uma jovem linda no auge dos seus vinte e três anos, recebe uma oportunidade de emprego fora do comum para sua idade: Ser governanta em uma mansão nos confins da PENSILVANIA – USA, numa pequena cidade chamada RIVERWOOD.

Trazendo na mala, não só roupas, FLORA MILES chega à cidade desinformada sobre o que há pela frente. Angustiada com seus próprios segredos, a moça descobre ao longo de seus primeiros dias a tenebrosa tragédia que ocorreu na MANSÃO HOWLING e que assombra a cidade desde então. Curiosa para descobrir o que realmente aconteceu com a garota que lhe antecedeu, FLORA perseguirá os passos mais sombrios de seu mais novo lar.

Rajax © Conteúdo licenciado conforme as normas da instituição.



Conto | Cinco Minutos em Chiclana de la Frontera



WEBTVPLAY ORIGINAL APRESENTA

CINCO MINUTOS EM
CHICLANA DE LA FRONTERA

Conto de
Maria Cristina dos Santos Lima





© 2022, Webtvplay -  Todos os direitos reservados

 

***


Chiclana de La Frontera fica a trinta minutos de Zaracatá, bem no centro do México e acredito que deva ser o lugar mais árido do mundo. Para chegar lá atravessamos muitos quilômetros de deserto, sem água, sem comida e sem perguntarem um minuto sequer se eu preciso de alguma coisa. Desci da camionete em um pulo e fui empurrada para o chão, e para ajudar levei um chute nas costas. Levantei e segui em frente em silêncio. Odeio confrontos. Segui por um corredor apertado e sufocante. Virei à esquerda. Entrevi a sala aos poucos e arrastei os pés devagar, um a um, até que meu olhar deparou com Juan Hernandes. A testa dele transpirava, entrando e saindo lentamente do meu campo visual e me pareceu que ele tremeu ao me ver. Me sentia tonta e um pouco enjoada. Um cano de vento entrava no lugar, mas não desfazia o calor que me sufocava. Estive a ponto de dobrar os joelhos, no entanto, me controlei. Me turvava a mente o silencioso ranger do meu corpo. Balbuciei algo que não lembro, nem Hernandes deve ter ouvido, mas o silêncio retido me fez ouvir um barulho de água próxima. Azeda pelo cheiro avinagrado que vinha de fora, esquecida em algum canto da terra, gotejando por costume. Sabe aquela água parada que quer fugir, mas não sabe como, pingando, e fica assim, até o costume, como um cacoete ou um hábito?

O ambiente era abafado, úmido e as paredes lembravam alguma coisa pastosa, mal feita, jogada a massa nas paredes às pressas e sem vontade. O fosco do cimento com o calor azedo do ambiente eram um casal e tanto. Eu sentia nas vísceras o ranço de quem construiu aquele recinto, alguém que fez questão de deixar as paredes em cinza foca turvo mal passado, uma textura de consistência antiquada e medonha. Como se eu o conhecesse ou ele soubesse que era para mim que preparava, eu, ainda agora, envolta em uma mortalha feita por lençol sujo e barato.

Retomei a consciência de que Hernandes estava a minha frente e olhava para meu pé com a unha pendurada sangrando. Aquilo eu nem mais sentia porque o calor e o cheiro eram tão fortes e as circunstâncias tão pouco atenuantes que o latejar de uma unha arrancada era segundo balcão. Avancei alguns passos e parei em frente a um fragmento de espelho que me mostrou um ser desfeito, mas a serviço do conjunto, à vontade. Hernandes me perguntou sem mostrar qualquer sinal de alívio: - Tu queres lavar-te? Não respondi. – Queres comer? Não respondi.

­­Olhei calmamente para ele. Nunca lembro o primeiro nome do cara. Juan? Juan. Peguei o pedaço de espelho à minha frente e rapidamente encaixei no pescoço, na jugular de Hernandes, formando um rasgo. Fiquei ali, aguardando que o sangue brotasse aos montes e fizesse sua parte no acordo. Cortei minha mão, mas acho que acertei em cheio o moço. Demorou um pouco, mas aguentei firme. Gente! Antes dele cair pude ver uma cara estupefata tipo “não acredito”. No reaction. Acho que perguntei se ele queria se lavar. Comer alguma coisa?

Eu, Ester Maria Sombrido Dias, branca, mexicana, do lar, casada, três filhos pequenos, residente em Chiclana de la Frontera, mulher humilde de coração, exaltada nacionalista, viva por esforço próprio, lutadora pelas causas justas, temente a Deus, trabalhadora, caprichosa, etc.

Só quero abrir aqui um parágrafo sobre o meu rápido relacionamento com o Juan. Fiz, tá. Tá feito. Juan também nem tinha uma cara boa assim tipo inocente que me leve a sentir pena, parecia mais um cara que faz qualquer serviço desde que tenha um prato de comida. Meu Deus, como tem gente assim no mundo, viu a possibilidade do prato de comida na frente já faz boquete.

Acho que tenho fuga de pensamento, estou falando num assunto aí lembro de outro, mudo, sei lá. Retornemos a mim. Já entenderam que meu nome é Ester, né. Não sei mais o que posso dizer sobre mim. Não vejo meu marido há muito tempo, nem sei se está vivo ou morto, meus três filhos estão por aí e eu nessa. Nasci numa família de cinco irmãs, minha mãe nos deixou cedo, morreu de bobeira, tudo começou com uma dor de cabeça, mas não vou contar esta história porque tenho pressa e esse assunto me irrita profundamente.

Deixo para trás a sala e logo viro no corredor central. Encontro à minha frente três pistolas apontadas para mim. Vejo que o do meio está nervoso e aperta o gatilho, sinto tipo uma coceira, e outra e outra, desmaio. Acordo e sinto uma dor horrível nas costas e alguém pisa na minha unha arrancada. Como tem gente má neste mundo hein. A última coisa que me vem à cabeça é: “Ester Maria Sombrido Dias, você é considerada culpada pela morte de Carlos Antonio Sombrido Dias e seus três filhos, de 8, 6 e 4 anos, e está condenada à morte por enforcamento...”

Desculpem minha franqueza, mas eu matei, matei... e matei porque quis. O cara enchia meu saco. Sempre me interrogando sobre isso e aquilo, me ameaçando sem piedade. As crianças foram por impulso, no fundo não queria, mas acabei fazendo o serviço completo, tirar tudo dele que tinha em mim. A única saída era fechar a firma e vender os móveis.

FIM


Cinco Minutos em Chiclana de la Frontera





star 3min | Suspense, Policial
Classificação: 18 anos
Formato: Conto
Autora: Maria Cristina dos Santos Lima
Estreia Original: 25 fev 2022

Sinopse



Uma mulher é transportada por estranhos pelo deserto do México. Em cinco minutos, você vai descobrir sua identidade e o motivo dela estar ali, em um lugarejo inóspito e desagradável.

Cinco minutos é o bastante? E para ela?


espaço

Kombid-49 | Filme



WEBTVPLAY ORIGINAL APRESENTA
KOMBID-49

Curta-metragem de
Eduardo Canesin



© 2022, Webtvplay -  Todos os direitos reservados

 

***


CENA 1 - ESCRITÓRIO - INTERIOR - DIA

BELIT, mulher de 45 anos, está em uma videochamada no celular. Ela está usando roupa social.

BELIT

Vocês o quê? Vocês dois são grupo de risco, no que estão pensando? Vocês não voltaram a fumar, né? Agora eu tô ocupada, tenho uma audiência daqui a pouco, mas depois ligo para vocês. Não façam nada antes de eu falar com vocês, tá? Beijo.

Desliga.

CENA 2 - CASA DE OLGA E TICO - INTERIOR - DIA

OLGA e TICO, idosos com cerca de 70 anos, estão de pé na sala, guardando o celular após a ligação. Há um calendário na parede, que marca o mês de setembro de 2020.

TICO

Quando eu era moleque, não podia responder meus pais. Agora, que tô velho, não posso responder minha filha. Tô bem arrumado.

OLGA

E você viu ela perguntando se a gente voltou a fumar?

TICO

Se eu falo do brownie, ela ainda briga por causa da minha diabetes…

OLGA

O que fazemos agora? Mantemos o plano?

TICO

Claro que sim. Só coloca o telefone no jeito avião, pra ela não ligar pra gente.

OLGA

Mas se ela não conseguir falar com a gente, vai ficar preocupada e vir até aqui.

TICO

Pra cá ela não vem nem em época normal, imagina agora. Se ela ficar preocupada, que nos processe, é só isso que ela sabe fazer mesmo... Vai preparando um sanduichinho pra gente que já vou levar as coisas pro Marcuse e dar a partida pra aquecer o motor.

TICO sai da sala, enquanto OLGA espera um pouco, olhando o celular, até que deixa o recinto também.

CENA 3 - GARAGEM - INTERIOR - DIA

TICO coloca algumas malas dentro de Marcuse, sua velha Kombi azul, toda enfeitada com adesivos brilhantes e com os bancos coloridos. Coloca a mão nas costas doloridas pelo breve esforço de ajeitar as malas e vai em direção à porta do motorista. Acaricia o parabrisas com carinho, sorri, abre a porta e dá a partida. A kombi não liga.

TiCO

Mas que merda é essa agora?

OLGA entra na garagem com uma cesta de piquenique na hora que TICO está praguejando.

OLGA

O que aconteceu?

TICO

Que susto! Quer me matar? Foi o Marcuse. Ele não deu partida.

OLGA

Será que ele não está sem gasolina?

TICO

Mas como que está sem gasolina se eu enchi antes de ontem?

OLGA

Então ele quebrou?

TICO

O Marcuse não quebra, só deve estar no meio de uma pequena recusa… E eu mexi nele ontem, pra deixar nos trinques.

OLGA

Acho que não deu muito certo.

TICO

Só me dá uns minutinhos que já resolvo isso. Com certeza não é nada demais, eu e o Marcuse temos história, ele não ia me deixar na mão.

OLGA

Tá bom. Enquanto isso, vou regar as plantas e ajeitar umas coisinhas.

OLGA sai da garagem, enquanto TICO abre o carro para ver o motor e coça a cabeça, confuso.

CENA 4 - GARAGEM - INTERIOR - NOITE

TICO se debruça sobre a Kombi, mexendo no motor com uma chave de rosca. OLGA está sentada numa cadeira dobrável de praia, fumando um baseado.

TICO

Ufa, terminei!

OLGA

Que bom que só levaram uns minutinhos.

TICO

Nem foi tanto assim: se levasse num mecânico, demoraria uma semana pra arrumar. E seria caro.

OLGA

Mas, pelo menos, não quebraria de novo na semana seguinte.

TICO

Comigo arrumando, ele não vai quebrar nem no ano seguinte.

OLGA

E, se quebrar, nenhum de nós dois vai lembrar que você disse isso mesmo. Mas e agora? Deixamos o plano pra amanhã?

TICO

Que pra amanhã o quê! Por acaso estamos velhos? Vamos agora, ainda temos muito tempo. A noite é uma criança.

OLGA

E não avisamos a Belit mesmo?

TICO

Tá com Alzheimer, mulher? A gente a avisou hoje cedo.

OLGA

Mas ela disse que era pra gente falar com ela depois da audiência…

TICO

Besteira.

OLGA

Tá bom, então vamos. Se você acha que está bem para dirigir, vamos lá. Só não esquece de pôr os óculos.

OLGA dobra sua cadeira e a coloca na Kombi. Senta no banco do carona e TICO se ajeita e dá a partida no automóvel. O portão elétrico da garagem se abre e eles saem dirigindo.

CENA 5 - AVENIDA - EXTERNO - NOITE

Os dois estão dirigindo pela avenida deserta, ouvindo música e conversando. Quando se aproximam do limite do município, são parados por um POLICIAL, cujo carro está estacionado bem no meio da avenida. 

CENA 6 - KOMBI - INTERIOR - NOITE

O POLICIAL, usando máscara protetora, se aproxima da Kombi e TICO desliga o rádio e abre o vidro do veículo.

POLICIAL

Boa noite, senhores.

TICO

Boa noite, seu guarda. Algum problema? Eu não estava ultrapassando nenhum carro pelo acostamento, né?

POLICIAL

Não, senhor, mas o senhor não pode seguir viagem por aqui.

TICO

Ué, e por quê não? As ruas continuam sendo públicas, ou deram um jeito de privatizar elas?

POLICIAL

A rua é pública, mas o município decretou lockdown. Ninguém pode entrar ou sair daqui depois que escurece até o amanhecer. O tráfego só será restabelecido pelas seis da manhã.

OLGA

Puxa, mas o que faremos agora?

POLICIAL

Para onde os senhores estavam indo?

OLGA

Nós vamos fazer uma viagem pelo país, para comemorar nosso aniversário de quarenta e nove anos de casados.

POLICIAL

Parabéns pela data, mas vocês só poderão seguir pela avenida amanhã de manhã. Hoje, podem procurar um hotel, há alguns que estão funcionando, apesar das limitações. Mas eu recomendo que não façam a viagem por enquanto, que está muito perigoso. Esperem as coisas se acalmarem e…

TICO

Nossa filha disse a mesma coisa, mas ela não percebe que quarenta e nove anos de casado só acontece uma vez e que nós não estamos ficando mais novos. Se a gente não for agora, não vai ser um vírus que vai nos matar, mas alguma das muitas doenças de velho. Melhor aproveitar enquanto a gente ainda pode… boa noite, seu guarda.

TICO fecha o vidro da kombi antes que o POLICIAL diga algo e dá a ré. O POLICIAL só acena, voltando ao seu veículo.

CENA 7 - KOMBI - INTERIOR - NOITE

TICO dirige o carro. OLGA fala com ele.

OLGA

Poxa, que coisa! E agora, voltamos para casa?

TICO

Por quê? Só porque um guardinha não deixa a gente seguir viagem? Na minha época, a gente lutava contra o sistema, não obedecia cegamente. Aliás, você era uma das primeiras a lutar.

OLGA

Mas o que você propõe? Dar meia volta, acelerar e atropelar o pobre coitado?

TICO

Não, mas isso não quer dizer que temos de ir pra casa. Podemos só parar em algum canto tranquilo e dormir até a hora de abrirem a cidade de novo. Não é como se não fôssemos fazer isso durante a viagem.

OLGA

Tá legal. Onde vamos parar?

TICO

Já, já a gente acha um lugar bacana.

Seguem dirigindo pela avenida.

CENA 8 - AVENIDA - EXTERNO - NOITE

TICO e OLGA pararam a Kombi numa praça deserta e estão abrindo espaço na parte de trás do veículo, para dormirem nela. Há boa iluminação pública e o local está bem limpo e arrumado.

TICO

Isso que é vida. Lembra quando esse era o normal pra nós?

OLGA

Se lembro? A Belit nasceu desse jeito.

TICO

Aquela viagem pra Recife foi boa…

Os dois seguem arrumando a kombi.

CENA 9 - AVENIDA - EXTERNO - NOITE

Enquanto estão conversando, TOLEDO, homem branco de 50 anos, se aproxima deles e coloca a mão no ombro de TICO. Ele não está usando máscara.

Toledo

Boa noite.

TICO

Filho da puta! Quase me mata de susto, quer explodir meu coração? Acho que me caguei todo.

OLGA

Ai, Maria! Que susto, moço.

ToLEDO

Desculpem, não quis assustar os senhores. Só vi que estavam parados aqui de noite e vim oferecer ajuda. Tem um monte de nóia aqui por perto, pode ser perigoso para gente de bem ficar sozinha por aí. O carro enguiçou?

TiCO

Essa potranca aqui não enguiça!

OLGA

Nós estamos de viagem, vamos cruzar o país, mas só podemos sair da cidade de manhã, por causa do lockdown. Por isso vamos dormir aqui.

ToLEDO

Aqui fora nesse perigo? Não querem passar a noite lá em casa? Dá pros senhores estacionarem o carro e amanhã seguem viagem.

OLGA

Obrigada, mas a gente prefere ficar por aqui mesmo. A gente mora por perto, mas quisemos a aventura de passar a noite fora.

TOLEDO

Entendo. Só tomem cuidado, porque a rua tá cheia de gente que não presta. E a polícia, em vez de prender esses parasitas, fica impedindo a gente de andar livremente pelo país. Inventam uma gripe em laboratório só pra desestabilizar a economia e deixar tudo fechado.

TICO

Quem que inventou o quê num laboratório?

TOLEDO

Eu tô falando dessa comoção toda por causa de uma gripezinha, nunca vi nada assim. É coisa de quem não quer trabalhar nem deixar os outros trabalharem. É mentalidade de gente pequena.

TICO

Então a pandemia agora é um complô de anões?

TOLEDO

Que anões? O senhor está caçoando de mim?

TICO

Eu não tô caçoando de ninguém, sou só um velho que não sabe de nada. Ainda bem que tem gente que sabe das coisas, ou a gente ia acabar no fundo do poço… 

TOLEDO

É como eu digo, se ninguém fizer nada, vamos acabar que nem a Venezuela, tudo por causa desses cumunistas safados.

TICO

A culpa é sempre dos comunistas?

TOLEDO

Por acaso o senhor é comunista?

TICO

Quando eu era jovem, até queria, mas tudo que consegui foi ser bucetista. Os tempos eram outros, sabe? Hoje em dia nem isso consigo, porque a idade bateu. Mas acho que não sou o único, então deixa pra lá.

TOLEDO

Não dá pra deixar pra lá! Tá tudo uma bagunça, os valores estão todos invertidos. Por isso que tá na hora da gente acordar… 

TICO

Pra mim, não, que tô velho e não sou coruja. É hora de eu dormir pra seguir viagem de manhã. Se já cumpriu sua cota de sustos e de conversas por hoje, boa noite e até mais ver.

TOLEDO

A gente quer ajudar e é assim que é pago… Ninguém tem salvação nesse país.

TOLEDO sai resmungando e TICO entra na Kombi.

CENA 10 - KOMBI - INTERNO - NOITE

OLGA deita no banco, acende um cigarro, dá um trago e o passa para TICO.

OLGA

Você não acha que foi um pouco grosso com aquele rapaz?

TICO

Vai me dizer que você foi com a cara dele?

OLGA

Eu não, mas ele só queria ajudar. Do jeito estranho dele, mas era ajudar…

TICO

Ajudar! Essa é boa. O cara era pinel, parecia esquizofrênico. Você viu que eu estava tirando uma com a cara dele e ele nem percebia, continuava com as bobagens sem nexo que tava falando? Acho que ele nem escutava o que eu tava dizendo… Já não tenho mais paciência com essas coisas.

OLGA

Você nunca teve paciência.

TICO

Mas agora tenho ainda menos. Antes, ainda acreditava que dava para lutar, argumentar e melhorar alguma coisa. Agora, não acho que isso adiante e nem que temos tempo para alguma luta… Quero uma viagem só nossa, sem ter de lidar com um cretino a cada esquina.

OLGA

Para com isso de não termos tempo. Nós já conversamos sobre isso, há boas chances de tratamento e eu quero tentar todas as opções. Assim que a gente voltar, eu recomeço. Deu certo da última vez, lembra?

TICO

Mas agora você não é mais uma menina.

OLGA

Eu sinto como se fosse. Uma menina de tetas caídas.

TICO

Você sabe que eu tenho um pouco de medo.

OLGA

Vai dar tudo certo, só tenha calma.

TICO

Tá certo. É só o que dá pra fazer.

TICO entrega o cigarro para OLGA, esfrega os olhos e se vira para dormir. Ela dá mais alguns tragos e depois o apaga.

CENA 11 - AVENIDA - EXTERNO - MANHÃ

Os dois estão na Kombi, que segue viagem pela avenida relativamente deserta. Pegam uma rodovia com poucos carros na estrada e só um ou outro caminhão rodando.

CENA 12 - POSTO DE GASOLINA - EXTERNO - TARDE

TICO paga o frentista, que acabou de abastecer a kombi. OLGA está olhando o celular. Ao fundo, três jovens com cerca de 25 anos cada, RENATO, MARCELO e LUANA, estão mexendo no celular e gesticulando. Eles usam máscaras protetoras.

OLGA

A Belit mandou um monte de mensagem, falando que está tentando falar com a gente.

TICO

Você trouxe essa geringonça pra cá?

OLGA

Eu vou falar que o celular estava sem bateria e pedir pra ela ligar de noite. Assim ela não fica preocupada

TICO

Ela vai encher nosso saco.

OLGA

Eu não vou atender quando ela ligar. Depois, falo que estava vendo novela ou dormindo…  Olha, Tico, acho que aquele pessoal quer carona.

TICO

Tomara que eles consigam.

OLGA

você não vai oferecer?

TICO

Eu porquê?

OLGA

Porque nós sempre fizemos isso. E quando tínhamos a idade deles, cansamos de pegar carona também.

TICO

Mas isso era numa outra época. Você não ouviu o bastião da moralidade falando dos nóias ontem de noite? Esses moleques vão querer me estuprar.

OLGA

Para de ser xarope e ofereça carona pra eles, se não, você que vai pedir carona enquanto eu sigo viagem com o Marcuse.

TICO

Só espero que não seja mais gente maluca pra atrapalhar a viagem.

TICO dá partida na kombi e vai até os três jovens.

CENA 13 - POSTO DE GASOLINA - EXTERNO - TARDE

TICO para a kombi na frente dos jovens, que estão mexendo no celular, gesticulando e olhando para a rodovia.

TICO

Cês tão pedindo carona?

Renato

Você é Uber?

TICO

Não, eu sou o Tico e essa é minha esposa Olga. Vocês tão indo pra onde?

Luana

Pro Rio.

TICO

A gente não vai pra lá, mas te deixamos perto de Resende.

LUANA

Perfeito! Obrigada! Nenhum Uber estava passando por aqui.

Os três jovens dão a volta e entram pela porta lateral da kombi. O veículo segue viagem.

CENA 14 - KOMBI - INTERNO - TARDE

Os três estão comendo brownies de maconha com TICO, que continua dirigindo, e OLGA, que está virada em seu banco para conversar com eles.

OLGA

Quando eu vi vocês paradinhos lá, deu uma nostalgia da época que era mais jovem… Falei pro Tico dar uma carona, porque é tão gostoso ajudar os outros.

LUANA

A senhora é uma salvadora. Já tava com medo de a gente passar a noite naquele posto, porque não conseguíamos nenhum carro pra nos buscar.

OLGA

Eu bem sei o que é passar um sufoco na estrada. Mas agora está tudo certo, vocês vão pra um lugar mais sossegado e lá arrumam um desses ubers.

Marcelo

Sossegado, sossegado não vai estar, por causa dessa pandemia. Mas ao menos estará um pouco menos deserto do que aqui.

LUANA

Por falar em pandemia, muito louco vocês estarem dirigindo por aqui. Meus pais nem saem de casa, tão morrendo de medo. Cês tão indo pra onde?

OLGA

Nós vamos comemorar nosso aniversário de casamento fazendo uma road trip pelo país, como fazíamos quando éramos mais jovens.

LUANA

Que barato. Sempre quis fazer uma viagem dessas. Queria mochilar pela América Latina.

OLGA

Aproveita enquanto está jovem e faça isso. E, depois, quando estiver velha, faça de novo, pra ver a diferença.

LUANA

Isso é mó barato. A gente devia aproveitar o momento e fazer isso.

ReNATO

Agora não dá, por causa da pandemia. Só quero aproveitar que a Unifesp suspendeu a aula e tirar um tempo na casa dos pais do Marcelo. Só saio quando essa peste passar.

TICO

Você tá com medo de quê? É um homem ou um rato?

RENATO

Nem um nem outro, que eu sou não-binário.

TICO

E que porra é essa agora?

LUANA

Uma pessoa não-binária é quem não se identifica com um único gênero…

TICO

É quem corta pra todo lado? Então só fala que é meio viado e já era, que ninguém vai ficar julgando, só não precisa dessas frescuras de palavra que ninguém entende.

RENATO

Isso não tem a ver com sexo, tem a ver com identidade.

TICO

Sei. Na minha época, identidade era só RG. De resto, a gente não ficava preso a essas coisas, só ia lá e fazia o que queria. 

LUANA

Mas não é só questão do que fazer, envolve também como se portar, como se definir… 

TICO

Tá vendo, Olguinha, eles deixam até o sexo chato, é disso que tava falando.

TICO, emburrado, acelera o veículo.

MARCELO

Eita, que corrida.

TICO

Niki Lauda é fichinha perto de mim.

RENATO

Quem?

TICO

Puta que pariu!

A kombi segue pela estrada, veloz. LUANA morde mais um pedaço do brownie e recomeça a conversa.

LuANA

Eu acho mesmo mó barato esse lance de viajar pelo país. Vocês devem ter curtido a vida pra caramba quando eram jovens.

TICO

Sim, antes de ficarmos velhos e fodidos, sem poder curtir mais porra nenhuma.

OLGA

Tico!

TICO

Que foi? Ela que disse que a gente curtia quando era jovem, eu só concordei. Velho é que nem morto: não curte mais nada.

LUANA

Não foi isso! É claro que vocês ainda curtem, só falei sobre terem aproveitado a juventude e tal.

OLGA

Ele sabe disso, só que é um velho rabugento e fica resmungando por tudo. Mas é verdade, a gente curtiu sim. E ainda curte, não mudou muita coisa.

TICO

Só tenho de parar toda hora pra mijar, foi a única mudança.

OLGA

Sabe, eu acho até mais emocionante viajar agora do que quando era mais jovem.

LUANA

Sério? Por quê?

OLGA

Porque quando a gente é jovem não é tão difícil ter uma aventura. Agora, quando a gente fica velho, ter uma aventura realmente significa alguma coisa. Significa que a gente continua vivo, apesar de tudo, e que realmente queremos ter a aventura. É uma escolha nossa, não dos hormônios ou dos amigos.

TICO

Até porque já não temos mais hormônios e os amigos já morreram todos.

OLGA

Sabe, quando a gente fica velho, é como se já não tivesse mais um espaço pra gente no mundo: as ruas são dos adultos produtivos e nosso espaço é num hospital ou num asilo. Sair pra viajar assim é um chute no saco de quem acha que depois de sermos mães e envelhecermos não podemos mais sair de casa e nem essas coisas todas de senso comum.

LUANA

Nossa, isso é muito maneiro. Não sei se é o brownie falando, mas tô super a fim de ser você quando crescer. Tirando a parte do casamento, é claro.

OLGA

Ah, mas se você quiser casar, com certeza encontra coisa melhor. É que eu não era muito criteriosa quando era jovem.

TICO

Pior que não era mesmo.

LUANA

Vocês são engraçados, fico imaginando vocês casados esse tempo todo, um implicando com o outro e levando tudo na boa… Meus pais só brigam, mal falam direito um com o outro.

OLGA

O segredo para um casamento longo é um pouco de maconha: te deixa feliz, acaba com a sua memória e, por isso, te faz esquecer da irritação.

LUANA

Essa é boa! Vocês são muito doidos. Mas é sério, eu não acredito no casamento… 

MARCELO

O casamento não existe mais, é uma instituição falida.

OLGA

Olha, Tico, eles falam igualzinho a gente falava quando éramos mais jovens.

MARCELO

Vocês também não acreditavam no casamento?

OLGA

Não.

TICO

Acho que ainda não acreditamos.

LUANA

Então porque casaram?

TICO

Ué, também não acredito em juros, mas se não pagar a dívida, o banco me fode. A gente só foi e casou. Uma coisa é a instituição casamento, outra é a vida real.

LUANA

Mas isso não faz sentido. Porque fazer algo em que não acredita?

TICO

Porque a vida real é mais interessante que uma crença.

RENATO

Mas vocês casaram porque foram obrigados, por causa de filhos ou coisa assim?

OLGA

Não, nós casamos porque queríamos não acreditar no casamento juntinhos.

LUANA

Nossa, isso é muito foda! Tô muito feliz de estar aqui com vocês.

TICO

Deveria estar, já que tá economizando o dinheiro da passagem.

OLGA

E nós estamos felizes de vocês estarem aqui com a gente. É legal ver jovens na estrada pegando carona, em vez de ficarem o tempo todo na frente do celular e do computador. Espero que um dia vocês consigam fazer a viagem pela América Latina que você falou.

A kombi segue dirigindo, veloz, pela rodovia quase deserta.

CENA 15 - CIDADE DE RESENDE - EXTERNO - CREPÚSCULO

Os jovens saem da kombi fumando um baseado e acenando para TICO e OLGA. OLGA retribui, rindo.

CENA 16 - KOMBI - INTERNO - CREPÚSCULO

TICO liga o rádio novamente, rindo. OLGA ainda acena para os jovens.

OLGA

Que meninos encantadores.

TICO

Hoje em dia são todos umas mariquinhas.

OLGA

Tico!

TICO

Que foi? Você ouviu aquilo… viadagem agora é identidade. Tudo é conversinha, ninguém mais quer lutar pra mudar as coisas.

OLGA

Nós lutamos do nosso jeito, eles lutam do jeito deles.

TICO

Tem razão. Eu que tô velho demais para essas coisas. Teve um tempo que a gente se meteria nessa de identidade que nem eles, mas hoje em dia não sei mais… é como se eu tivesse parado e o mundo seguisse em frente. É sério, não entendo mais porra nenhuma disso aqui.

OLGA

É por isso que é bom conhecer esses meninos novos, que vão mostrando como o mundo está. É o melhor jeito de a gente se manter sempre jovem.

TICO

Isso até que é verdade. Mas vamos deixar isso para quando estivermos em casa. Nessa viagem, já tive contato demais com o mundo. Só quero uma boa e velha viagem com minha Olguinha, do jeitinho que tem de ser, sem mais ninguém pra torrar minha paciência.

OLGA

Você está muito ranzinza, deixe disso. Ainda temos muito tempo de viagem para conhecer gente nova.

TICO

Haja saco.

OLGA

Velho ranzinza.

TICO

Você que foi pouco criteriosa na hora de escolher o marido.

OLGA

Se arrependimento matasse…

TICO

Mas até que foi bom, né?

OLGA

Sempre foi e vai continuar sendo. E as partes ruins, eu esqueço com a maconha.

TICO

É, a vida é boa… 

TICO sorri, aumenta o som do rádio e pisa no acelerador.

CENA 17 - ESTRADA - EXTERNO - NOITE

A kombi segue dirigindo por uma rua mais ou menos deserta, até sumir de vista.

CORTA PARA uma série de 
paisagens, OLGA e TICO vendo a natureza, dirigindo a
kombi, dormindo.

CENA 18 - KOMBI - INTERNO - MANHÃ

OLGA acorda e vê TICO gemendo e saindo da kombi.

CENA 19 - NATUREZA - EXTERNO - MANHÃ

TICO está respirando com dificuldade e tossindo. OLGA vai até ele e o ampara.

OLGA

Tico, o que tá acontecendo?

TICO

Nada… só um pouco de dor de cabeça e falta de ar, preciso de ar fresco, acho que fumamos demais ontem e ficou tudo abafado na kombi.

OLGA

Tico, você está ardendo em febre. A gente precisa ir ao hospital.

TICO

Fazer o quê? Já falei que estou bem, só preciso de um pouco de ar. Se tiver de ir pro médico, vamos quando a viagem acabar, que ainda temos muito chão pela frente.

OLGA

Não dá para a gente continuar a viagem assim, Tico…

TICO

Está tudo bem. Nós vamos ter uma última viagem, não vai ser uma dorzinha de cabeça de nada que vai me impedir.

OLGA

Que última viagem? Eu já te falei que não vou desistir. Ano que vem, vamos repetir a dose.

TICO

Acho que, pra variar um pouco, poderíamos mochilar pela América Latina, o que acha?

OLGA abraça o marido, que retribui o carinho. FADE OUT.

CENA 20 - CASA DE OLGA E TICO - INTERIOR - DIA

OLGA, careca e na cadeira de rodas, olha uma foto de seu marido. Ela sorri e lágrimas escorrem de seus olhos. No calendário na parede, vemos que está no mês de setembro de 2021.