Conto | Cinco Minutos em Chiclana de la Frontera



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CINCO MINUTOS EM
CHICLANA DE LA FRONTERA

Conto de
Maria Cristina dos Santos Lima





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***


Chiclana de La Frontera fica a trinta minutos de Zaracatá, bem no centro do México e acredito que deva ser o lugar mais árido do mundo. Para chegar lá atravessamos muitos quilômetros de deserto, sem água, sem comida e sem perguntarem um minuto sequer se eu preciso de alguma coisa. Desci da camionete em um pulo e fui empurrada para o chão, e para ajudar levei um chute nas costas. Levantei e segui em frente em silêncio. Odeio confrontos. Segui por um corredor apertado e sufocante. Virei à esquerda. Entrevi a sala aos poucos e arrastei os pés devagar, um a um, até que meu olhar deparou com Juan Hernandes. A testa dele transpirava, entrando e saindo lentamente do meu campo visual e me pareceu que ele tremeu ao me ver. Me sentia tonta e um pouco enjoada. Um cano de vento entrava no lugar, mas não desfazia o calor que me sufocava. Estive a ponto de dobrar os joelhos, no entanto, me controlei. Me turvava a mente o silencioso ranger do meu corpo. Balbuciei algo que não lembro, nem Hernandes deve ter ouvido, mas o silêncio retido me fez ouvir um barulho de água próxima. Azeda pelo cheiro avinagrado que vinha de fora, esquecida em algum canto da terra, gotejando por costume. Sabe aquela água parada que quer fugir, mas não sabe como, pingando, e fica assim, até o costume, como um cacoete ou um hábito?

O ambiente era abafado, úmido e as paredes lembravam alguma coisa pastosa, mal feita, jogada a massa nas paredes às pressas e sem vontade. O fosco do cimento com o calor azedo do ambiente eram um casal e tanto. Eu sentia nas vísceras o ranço de quem construiu aquele recinto, alguém que fez questão de deixar as paredes em cinza foca turvo mal passado, uma textura de consistência antiquada e medonha. Como se eu o conhecesse ou ele soubesse que era para mim que preparava, eu, ainda agora, envolta em uma mortalha feita por lençol sujo e barato.

Retomei a consciência de que Hernandes estava a minha frente e olhava para meu pé com a unha pendurada sangrando. Aquilo eu nem mais sentia porque o calor e o cheiro eram tão fortes e as circunstâncias tão pouco atenuantes que o latejar de uma unha arrancada era segundo balcão. Avancei alguns passos e parei em frente a um fragmento de espelho que me mostrou um ser desfeito, mas a serviço do conjunto, à vontade. Hernandes me perguntou sem mostrar qualquer sinal de alívio: - Tu queres lavar-te? Não respondi. – Queres comer? Não respondi.

­­Olhei calmamente para ele. Nunca lembro o primeiro nome do cara. Juan? Juan. Peguei o pedaço de espelho à minha frente e rapidamente encaixei no pescoço, na jugular de Hernandes, formando um rasgo. Fiquei ali, aguardando que o sangue brotasse aos montes e fizesse sua parte no acordo. Cortei minha mão, mas acho que acertei em cheio o moço. Demorou um pouco, mas aguentei firme. Gente! Antes dele cair pude ver uma cara estupefata tipo “não acredito”. No reaction. Acho que perguntei se ele queria se lavar. Comer alguma coisa?

Eu, Ester Maria Sombrido Dias, branca, mexicana, do lar, casada, três filhos pequenos, residente em Chiclana de la Frontera, mulher humilde de coração, exaltada nacionalista, viva por esforço próprio, lutadora pelas causas justas, temente a Deus, trabalhadora, caprichosa, etc.

Só quero abrir aqui um parágrafo sobre o meu rápido relacionamento com o Juan. Fiz, tá. Tá feito. Juan também nem tinha uma cara boa assim tipo inocente que me leve a sentir pena, parecia mais um cara que faz qualquer serviço desde que tenha um prato de comida. Meu Deus, como tem gente assim no mundo, viu a possibilidade do prato de comida na frente já faz boquete.

Acho que tenho fuga de pensamento, estou falando num assunto aí lembro de outro, mudo, sei lá. Retornemos a mim. Já entenderam que meu nome é Ester, né. Não sei mais o que posso dizer sobre mim. Não vejo meu marido há muito tempo, nem sei se está vivo ou morto, meus três filhos estão por aí e eu nessa. Nasci numa família de cinco irmãs, minha mãe nos deixou cedo, morreu de bobeira, tudo começou com uma dor de cabeça, mas não vou contar esta história porque tenho pressa e esse assunto me irrita profundamente.

Deixo para trás a sala e logo viro no corredor central. Encontro à minha frente três pistolas apontadas para mim. Vejo que o do meio está nervoso e aperta o gatilho, sinto tipo uma coceira, e outra e outra, desmaio. Acordo e sinto uma dor horrível nas costas e alguém pisa na minha unha arrancada. Como tem gente má neste mundo hein. A última coisa que me vem à cabeça é: “Ester Maria Sombrido Dias, você é considerada culpada pela morte de Carlos Antonio Sombrido Dias e seus três filhos, de 8, 6 e 4 anos, e está condenada à morte por enforcamento...”

Desculpem minha franqueza, mas eu matei, matei... e matei porque quis. O cara enchia meu saco. Sempre me interrogando sobre isso e aquilo, me ameaçando sem piedade. As crianças foram por impulso, no fundo não queria, mas acabei fazendo o serviço completo, tirar tudo dele que tinha em mim. A única saída era fechar a firma e vender os móveis.

FIM


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