Quem Matou Betty Angel? | Conto parte 01

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QUEM MATOU BETTY ANGEL?


Conto parte 01 de
Marcos Vinícius da Silva



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Santa Teresa do Ouro era uma miniatura de metrópole cravada em algum lugar no sul do Brasil, recheada de prédios antigos e sujos e preenchida por odores subidos das sarjetas que continham a sua cota noturna de sangue. Nos últimos dois meses, uma onda de assassinatos estranhos tomou conta da cidade, no entanto, aquela população jamais havia presenciado um crime tão bárbaro.

O Sedan preto de vidros fumê adentrou o portão estacionando em uma vaga próxima à entrada do recinto. Ainda havia um grande movimento de pessoas quando aquele homem alto e de corpo atlético, usando calça jeans e camisa xadrez, saiu do veículo. Tirou do bolso da calça um cordão com um distintivo prateado e pendurou no pescoço. Seu nome: Eduardo Salvatore – Investigador de Polícia. Um homem atraente de 42 anos de idade e que mantinha estampada em seu semblante a serenidade para desvendar os mais insanos casos. Fechou a porta do carro e visualizou o ambiente e a placa fluorescente acima da porta principal: Emporius Casa Noturna.

Os flashes clareavam a janela toda vez que uma foto daquela sangrenta pintura era tirada. Em um quarto pequeno e cheirando à bebidas e cigarros, estavam a perita criminal Serena Hamlet, 35 anos, linda e imponente, concentrada em seu trabalho; o fotógrafo Francisco Esteves, 29 anos, magro e de cabelos pretos amarrados em um rabo de cavalo; e, de pé, observando o trabalho dos dois, o delegado Limeira, 60 anos, grisalho e de cara fechada. Do lado da cama de casal com os lençóis bagunçados e manchados de sangue, estirado ao chão, estava o corpo de Betty Angel, aparentemente 25 anos, cabelos tingidos de loiro e corpo escultural. Ela tinha sua mandíbula deslocada e cortada e trazia uma lesão incisa na lateral da cabeça. Mais ao lado havia uma cômoda com duas taças, uma vazia e outra pela metade, e no chão, estilhaços do que poderia ser uma garrafa de champanhe.

Eduardo Salvatore, investigador da eterna camisa xadrez, piscou o isqueiro e acendeu o seu Lucky Strike chegando próximo à porta do quarto onde acontecera o fatídico crime. De sobrancelha arqueada e olhos atentos, estendeu o pescoço observando o quarto por cima do ombro do delegado Limeira. Saboreou o fumo e expeliu devagar aquela fumaça, congestionando o já denso ar do ambiente. Limeira lhe lançou um olhar de desaprovação.

"Isso ainda vai te matar, detetive", disse o delegado dando lado para Salvatore.

"Essa morte é lenta, delegado. Não me preocupo. O que me preocupa é isso aí." Disse o investigador dando o primeiro passo para dentro do quarto.

Enquanto a perita Serena, cuidadosamente, recolhia vestígios na cena do crime, o fotógrafo Francisco emitia mais flashes de sua Cannon modelo EOS SL3 de diferentes ângulos.

Ouviu-se um murmurar do lado de fora do quarto e o delegado Limeira tratou logo de desbaratar todos impedindo suas entradas na cena de crime.

"Poxa, pessoal. Assim vocês me quebram as pernas", dizia ele, explanando com os braços. "Assim que for oportuno todos terão os seus momentos e serão interrogados. Vão poder contar a historinha de vocês".

O investigador Salvatore se aproximou de Serena que, agachada ao lado do corpo da vítima, escrevia velozmente em seu habitual bloco de notas. Ficou apenas observando a destreza e a perspicácia daquela perita e, o ato de fumar, que sempre lhe acompanhava diante das cenas mais monstruosas que presenciara, já era algo mecânico. Salvatore já não saboreava a nicotina, e poder-se-ia dizer que ele navegava perdido nos rubros mares daquela lua incomum.

Ao lado da cômoda, largada ao chão, jazia a arma do crime, uma navalha manchada com o sangue de Betty Angel.

Mais flashes.

Salvatore foi resgatado de seus devaneios por Serena, que, postada ao seu lado, estudava a triste composição com aspecto grave de quem quer mostrar serviço sem estar realmente pronto para fazê-lo.

"Vai começar logo com os interrogatórios?", questionou a perita.

O investigador tirou o cigarro da boca e encarou a mulher ao seu lado. Uma mulher forte, disposta a fazer de tudo para entregar cem por cento o seu trabalho e...atraente...sim, era isso que Salvatore pensou quando a encarou.

"Que você me diz? Já chegou em alguma conclusão?", perguntou o investigador.

"Estou fazendo meu trabalho, detetive. Não posso me precipitar em dar nenhuma conclusão. Precisamos analisar minuciosamente qualquer evidência", respondeu Serena se esquivando dos olhares do investigador, que se alternavam para ela e para o fotógrafo Francisco, que continuava a tirar fotos de diferentes ângulos, mas sempre em volta daquele cadáver.

Foi quando a luz do flash inundou brevemente o quarto pela enésima vez, que o inspetor soltou: "Ei, já chega de fotos, não acha? Vai parecer que você tem uma queda por mortas."

O fotógrafo, sem graça, assentiu, mudo, e abriu caminho para sair do recinto, visivelmente abalado, guardando o seu equipamento. Serena, meio atabalhoada e sem entender o que o investigador queria realmente dizer com aquelas rudes palavras, lhe lançou um olhar de dúvida, mas não se conteve em ficar quieta.

"Estamos fazendo o nosso trabalho, detetive. E, se cada um cuidar dos seus afazeres, lhe garanto que teremos as respostas que tanto queremos."

"Quanta força é necessária para que uma mulher tenha sido tão… danificada?", questionou Salvatore.

"Bastante força...ou não." Respondeu Serena já se dirigindo para a porta.

Antes de sair ela ainda se virou para o investigador. "Ainda vai ficar, detetive?"

"Um pouco mais. Mas prometo não mexer em nada que possa interferir no seu trabalho". Respondeu o investigador com um sorriso no rosto.

Eduardo Salvatore foi até a janela e inspirou o ar carregado de segredos de Santa Teresa do Ouro. Muitos apartamentos no horizonte mantinham acesas as luzes. Punhados de carros trafegavam indo ou vindo pela rodovia à frente. O silêncio, porém, era marcante, embora não total, e somente alguns teimosos cães, que ladravam não se sabia onde, conseguiam incutir nele notas de desacordo.

As sobrancelhas do investigador comprimiram-se novamente e mais um cigarro foi aceso. Fumou tranquilamente sem dar qualquer consideração ao que se passava. Deixou morrer os ruídos, as conversas comedidas e até os latidos tornaram-se vagas lembranças da realidade.

Atirou pela janela a bituca e voltou-se para dentro. Viu o delegado Limeira se aproximar e sorriu.

"Eu sei quem é o assassino!", disse para o seu superior. Depois foi ao pé do ouvido e cochichou algo.

O delegado Limeira já conhecia o trabalho de Eduardo Salvatore há anos, e não seria naquele momento que começaria a duvidar de seu mais eficiente agente, por mais absurda que fosse a teoria levantada por ele. Permitiu, então, que o investigador passasse o restante da madrugada no quarto amaldiçoado, e ficou garantido o sigilo mesmo dentro da força policial. Para o plano funcionar, fazia-se necessário que ninguém, exceto os dois homens, soubesse da prolongada estada do investigador na cena do crime. Eles tinham que se manter em contato e nada podia ser mexido.

Salvatore desligou as luzes e retirou-se para um canto escuro daquele cômodo. Sentou-se desconfortável no ambiente abandonado, tentando não imaginar que tipo de existência levava a desgraçada covardemente eliminada.

O terceiro cigarro foi aceso, o quarto, o quinto…. Ao perceber que o maço havia terminado, Salvatore praguejou baixinho, o amassou e jogou-o aos pés de uma velha cadeira estofada.

As horas passaram.

Aos poucos, as luzes no horizonte foram se extinguindo, os carros na rodovia passavam cada vez em menores números e, só de vez em quando um cachorro latia para algum felino desavisado que passeava nos limites de algum quintal proibido. A hora mais negra instalou-se em Santa Teresa do Ouro, e dificilmente tal hora surpreendia alguém de bem perambulando sozinho à fraca benção dos postes públicos.

Salvatore esperou, só lhe restava isso, e torceu para que seu superior também estivesse a exercitar a sua paciência trancado no escritório.

Às quatro da manhã, cochilando naquele canto do quarto, ouviu a porta ser aberta delicadamente. Sacou sua pequena Beretta, destravou-a, e surpreendeu, junto à morta Francisco Esteves, o fotógrafo.

Enquanto o assassino recuava, embasbacado, tendo ao alto as mãos, Salvatore falava:

"Muitas fotos, meu caro. Me diga desde quando um fotógrafo pericial com alguma experiência sai tão abalado de uma cena?"

Salvatore, com a arma empunhada, olhou o corpo de Betty Angel caído ao chão.

"Acredito que os golpes fortes sejam ossos do ofício… fotografar deixa os braços firmes, não é mesmo?"

"Não pode provar nada!" Exclamou o fotógrafo com a expressão apavorada.

Francisco saiu de si e puxou a pistola, mas Salvatore já tinha o dedo no gatilho. O estampido surdo ceifou a segunda vida da noite naquele triste quarto, e logo os lares próximos, nos prédios do entorno, voltaram a emitir luz, enquanto os latidos dos cães se tornavam mais evidentes. Sentiu-se uma forte tensão no ar.

Vazio de alma, o investigador Eduardo Salvatore, após observar longamente o colega caído e o sangue escorrer da sua fronte, deixou a sala.

CONTINUA EM "REVELAÇÕES SANGRENTAS".

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