Revelações Sangrentas | Conto parte 02

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REVELAÇÕES SANGRENTAS


Conto parte 02 de
Marcos Vinícius da Silva



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Os dias passaram depressa demais. O fotógrafo assassino, Francisco Esteves, estava morto e era difícil acreditar que ele era responsável por aquele assassinato. A perita criminal Serena Hamlet ficou desnorteada com os acontecimentos. Tantos anos trabalhando ao lado dele em diversos casos horrendos e jamais percebeu algum traço insano naquela mente, características que se ofuscavam atrás de um sorriso fácil e de um papo que lhe deixava ver o mundo de outra forma.

Foram dias difíceis. Serena estava no enterro do colega. Viu o caixão fechado ser coberto de terra preta e seu ombro serviu de consolo para a noiva Jéssica, que chorava desesperada e para a mãe Celina, que não podia crer que o filho fosse capaz daquela atrocidade.

Após sete dias de luto profundo, Serena tratou de procurar o investigador Eduardo Salvatore, responsável pela morte do fotógrafo. Ele estava respondendo por tal ato em liberdade e ela sabia que isso não "ia dar em nada". Afinal, o investigador teria alguma "carta na manga", algo que comprovasse o envolvimento de Francisco naquele crime e, era exatamente isso que ela gostaria de saber.

Eduardo Salvatore estava saindo do prédio antigo no centro de Santa Teresa do Ouro, onde ficava seu escritório particular, quando Serena o surpreendeu na calçada.

"Perita Serena...quanto tempo...", disse o investigador um tanto atrapalhado e surpreso com a presença.

"Investigador Salvatore, atrapalho?", respondeu Serena tirando os óculos escuros e revelando as olheiras profundas de noites mal dormidas.

"De maneira alguma. Você precisa de alguma coisa?", retrucou Salvatore já abrindo a porta do seu carro.

Serena, um tanto sem jeito, mexeu no cabelo, baixou a cabeça por alguns instantes e, enfim, tomou coragem.

"Eu preciso saber se você tem algo concreto contra o Francisco."

O investigador, que já estava prestes a entrar no veículo, se vira para a perita à sua frente.

"Estou indo lá pro subúrbio agora. Lá no casebre que funcionava como estúdio particular dele." Respondeu para Serena. "Se quiser, pode vir comigo".

Serena olhou para os lados, indecisa. Mas sentia que era uma oportunidade única e, afinal, estúdio particular. Francisco, tanto tempo trabalhando com ela jamais tinha mencionado isso. Deu a volta e entrou no veículo do lado do caroneiro. Precisava de respostas e esta era uma oportunidade ímpar.

Não demorou mais de vinte minutos aquele trajeto. Salvatore deu sinal e entrou em uma rua quase que deserta, de paralelepípedo e calçadas com pedras coloridas. Seguiu alguns metros e estacionou em uma das últimas residências da rua, que seguia para um matagal em uma baixada. Serena olhou para o lado e se deparou com uma construção simples, de tijolos, com sua pintura esverdeada já descascando e um portão e cerca enferrujados.

Quando adentraram naquele lugar ambos tiveram uma sensação estranha, como se algo os observasse. Riram de seus próprios medos e começaram a vasculhar o local. Não havia mais luz elétrica na residência, haviam cortado, e logo anoiteceria. Salvatore e Serena ligaram as lanternas de seus celulares e continuaram suas buscas.

Enquanto o investigador vasculhava pela sala, Serena se dirigiu para uma porta no final de um estreito corredor. Empurrou-a e a mesma rangiu se abrindo. A perita, mesmo acostumada com ambientes hostis, sentiu um embrulho no estômago e pôs a mão na boca fazendo ânsia. Foi quando um rato saltou à sua frente cruzando pelos seus pés. Ela deu um grito que fez com que Salvatore logo chegasse ao seu lado.

Aquele lugar escondia segredos obscuros. Respostas que poderiam mudar pensamentos e ideias e desvendar muitos mistérios. Fazendo buscas em cada canto e entrando de cabeça no seu trabalho como sempre fazia, Serena acabou por encontrar uma pasta coberta de teias de aranha em uma gaveta entreaberta de uma cômoda caindo aos pedaços. Sentou na cama e abriu a pasta. Foi neste exato momento que teve a certeza que encontrara as respostas que tanto temia. Salvatore abriu uma janela trazendo os últimos raios do dia para dentro do cômodo e acendeu um de seus cigarros expelindo a fumaça para fora.

Serena pegou um envelope na primeira página da pasta. Abriu-o e seus olhos arregalaram-se ao ler o título acima da foto de uma linda jovem de sorriso estampado em seu rosto.

Primeira Vítima - Antonela

"Estava escuro e o único som vinha de poucos carros em uma rua distante e de uma coruja que sempre ficava no portão. De vez em quando ela aparecia com algum tipo de roedor recém-morto entre os bicos e eu sempre acaba fotografando a cena.

Aquela sensação era uma mistura de satisfação, curiosidade, prazer e fome. Não hesitei, não pensei duas vezes. Foi logo de primeira, o problema é que gostei.

Era uma sexta-feira, 30 de outubro, véspera de Dia das Bruxas. A noite estava mais escura do que o normal e havia uma névoa forte pela cidade. Estava planejando e calculando havia dias, só faltava o gatilho inicial. Saí em busca, entretanto não tinha ninguém em mente. Apenas queria uma bela e jovem mulher.

Fui para um bar próximo, pois sabia que lá teria um espécime que atendesse meu desejo. Estava naturalmente elegante e misteriosamente galanteador, não tinha problemas em atrair as mulheres. Entrei no bar e passei quase que despercebido. Notei que apenas uma jovem mulher me observava com um certo olhar de curiosidade.

Não demorou muito para que já tivesse escolhido a vítima.

"Qual o seu nome?"

"Antonella." Respondeu-me com um olhar tímido e ao mesmo tempo sacana.

"Prazer, Francisco".

Antonella era uma mulher intrigante e, aos poucos, consegui algumas informações. Tinha 24 anos, recém-formada em Direito e à procura de um primeiro emprego na área. Seus olhos eram encantadores e pareciam duas jades. Seu sorriso era mágico e os seus cabelos lisos e morenos na altura do ombro. Não passava dos 1,65m de altura e suas curvas piravam qualquer homem. Enquanto conversávamos noite adentro, o cheiro do seu perfume fazia delirar quem passava perto.

O ambiente estava animado, um pub com meia-luz, música ambiente e as conversas das outras pessoas abafando a nossa. Antonella já estava rendida a minha conversa e a partir deste momento eu tinha absoluta certeza que poderia fazer qualquer coisa.

"Vamos?" Perguntei tentando conter a minha pressa.

Ela sorriu e segurou a minha mão que estendi para ajudá-la a levantar.

Eram tantas opções que estava difícil escolher, não queria fazer muita sujeira por ser a minha primeira vez. Mas queria ver o sangue dela escorrendo. Eu tinha bastante tempo, ninguém notaria que sumimos.

O suposto caminho que ela acreditava que era pra minha casa era bem tranquilo. Algumas pessoas passavam por nós, em silêncio absoluto. Apenas ela não parava de fazer comentários, os quais confesso que não prestei muita atenção. Eu estava quase ouvindo os pensamentos das pessoas que passavam por nós e, cada um que olhava por mais tempo do que de costume, achava que já sabia quais eram minhas intenções. Será que eles conseguiam ouvir minha imaginação trabalhando?

"Venha por aqui, conheço um atalho." Disse-lhe puxando pela mão.

Agora era a hora. A brincadeira estava pra começar. Quando entramos em um terreno baldio ela apertou forte minha mão, estava tremendo de medo. Aquele era o momento. Antonella não sabia o que estava fazendo passando por lá, sua respiração estava ofegante e eu conseguia sentir o cheiro do medo exalando de seus poros. Como eu gostava daquilo.

"Onde estamos?" Questionou ela.

"Só pegamos um atalho, minha casa é logo ali!" Respondi apontando com um dedo para mais adiante.

"Aqui é estranho, muito escuro, estou com medo!"

"Não precisa ter medo, estou aqui para te ajudar."

Seguimos por alguns metros. Ela exalando o medo e eu apreciando tudo aquilo. Com a mão esquerda eu segurava a mão dela e, com a direita, tratei logo de pegar minha faca que estava na minha cintura, na parte de trás, abaixo da jaqueta. Uma faca de dois gumes com um belo cabo emborrachado.

Não hesitei.

Segurei um passo para ela ficar levemente adiantada e...

...sua garganta foi dilacerada.

Meu primeiro corte. Claramente não foi limpo. Não era tão parecido com os animais que usei como cobaias. A carne era mais dura e eu pude sentir a lâmina batendo no osso.

Antonella ainda teve alguns segundos de vida antes de cair no chão, mas não emitia nenhum som. Nunca vi tanto sangue escorrendo de uma só vez. Era lindo! Seus olhos abertos e congelados me olhando fixamente e a expressão de medo eternizada. Conseguia ver sua alma indo embora e senti o seu último suspiro.

Sentei e fiquei admirando o corpo estático no chão. Limpei o sangue que estava na faca, estalei os dedos...e estava feito. Minha primeira vítima. Eu sei, a partir deste momento não vou conseguir parar. É a vida. Ou melhor, é a morte na sua versão mais cruel."

Serena estava perplexa. Deixou o envelope e aquele pedaço de papel caírem no chão. Lágrimas escorriam pelo seu rosto. Olhou para Salvatore que tragava calmamente apoiado na janela. Voltou o olhar para seu colo, para a pasta. Haviam mais envelopes e pedaços de papel. Rapidamente passou um a um:

Segunda Vítima - Clarice (15 dias depois)

Terceira Vítima - Dani (30 dias após Clarice)

Quarta Vítima - Beatriz (45 dias após Dani)

E assim por diante.

Francisco seguia um parâmetro. Ele sabia exatamente o que estava fazendo. E agora, Serena tinha as respostas que precisava. E a sua luta seria por justiça. Encontrar aqueles corpos. Todos casos arquivados, pois nunca foram descobertos. Ahhh, mas ela não deixaria isso assim...

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