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Telefonema do Além






Telefonema do Além

Conto

star 07 min | Sobrenatural
Classificação: 16 anos
Formato: Conto
Autor: Jober Rocha
Estreia Original: 26 Nov 2021

Sinopse


Piloto morto em acidente aéreo retorna do além para pedir socorro.


espaço






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Palavras Obscuras - 1x08 - Misoginia (Traumas)


Sinopse: Quando crimes cruéis de um assassino em série, que mata mulheres e as violenta sexualmente, se tornam a principal investigação do Departamento de Polícia local, um experiente delegado precisa encontrar o malfeitor e levar justiça àquelas vítimas tendo como principal vestígio para solucionar o problema, um exemplar de Bíblia que destaca trechos cruciais no caso. Um conto que mostra até que ponto o ser humano pode chegar e nos ensina que ninguém é inocente, até que se prove ao contrário...nem os homens do Senhor.



Misoginia (Traumas)
de João Baptista dos Santos

 

Do púlpito, o pastor impecavelmente vestido, pregava para os fiéis. Parecia saído do banho naquele momento, o cabelo bem penteado brilhava, refletindo as luzes do templo no gel fixador.

Entre os crentes, senhor de meia idade, a barriga proeminente esticando a camisa social, os olhos fixos no pregador. Parecia deslocado naquele contexto por causa do olhar, não transmitia credulidade, antes, desconfiança. Dezenove horas de domingo calorento. Apesar de vários ventiladores funcionando em velocidade máxima, aquele homem, a todo o momento, enxugava o suor da testa com o lenço embolado na mão direita.

A veemência do pastor ao falar mantinha a assembleia dominada sob o impacto das palavras. Possuía o dom da oratória, as pessoas se subjugavam à voz tonitruante.

O homem suarento se deixou levar para o passado. Aquele ambiente o remetia para a adolescência. Aluno de Colégio administrado por padres da Ordem do Divino Coração, ele assistia com devoção às missas domingueiras na capela da Escola. Pelo menos uma vez por mês recebia a comunhão eucarística. A confissão dos pecados não era como agora, coletiva ou comunitária como dizem, mas sim, individual. Ali, cara a cara com o confessor. Lembrou-se então do padre alemão, professor de matemática, dizendo: “masturbarrrrr... pecado grave”, o sotaque carregado dando maior peso à falta, aumentando o sentimento de culpa do pecador. Com certeza, por isso, o remorso viria sempre após o ato solitário. Recorria menos a este expediente com o passar do tempo, evidentemente, mas quando o praticava ainda sofria. Não entendia o persistente trauma, pois a sua fé se enfraquecera em decorrência da sua atividade profissional, por isso obrigatória, com as mais sórdidas mazelas da sociedade; logo já não devia temer os castigos advindos, segundo a religião, do prazeroso ato.

Voltou ao tempo real, afinal não estava ali para reminiscências, mas para observar o pastor. Tentar ouvir nas entrelinhas da homilia algo aproveitável para a investigação que ora executa. Contudo, nada ouviu para ajudar, o tema versou sobre a volta de Cristo, “orai e vigiai”.

Após o culto o homem gordo que suara em bicas entrou num carro onde o aguardava o motorista. Este lhe perguntou algo, o homem respondeu que durante a semana intimaria o religioso a ir à Delegacia para explicações. Apesar de ainda não possuir indícios consistentes, o pastor se configurava como primeiro suspeito.

Há três meses, provável “serial killer” tirava o sono daquele senhor, Delegado de Polícia; exercia suas funções numa Delegacia de bairro nobre da capital mineira, Belo Horizonte. O criminoso parecia determinado a mostrar ser o único autor dos delitos, tal a quantidade de pontos comuns entre eles. O “modus operandi” do delinquente não deixava dúvidas.

O Delegado no dia seguinte àquele domingo, no seu gabinete, olhava os volumes dos inquéritos daquele caso empilhados sobre a mesa. Leu o resumo dos crimes:

No dia 24 de maio, Maria de tal, advogada, 36 anos, encontrada morta dentro do carro dela numa rua sem saída. Enforcada com cordão usado nos varais de roupas. Violentada sexualmente. Em cima do corpo, folha de papel com a seguinte inscrição: “Deus fez o homem reto. Apliquei-me em explorar e sondar a sabedoria e a razão das coisas, e reconheci que a maldade é estulta e a má conduta é insensata! Descobri que a mulher é mais amarga que a morte, porque ela é um laço, seu coração uma rede e seus braços liames; quem é bom aos olhos de Deus foge dela, mas o pecador será sua presa. (Eclesiastes 7:25-26)”

O segundo crime ocorreu no dia 25 de junho. Suely de Tal, 40 anos, secretária executiva de grande empresa, enforcada com cordão de varal num terreno baldio. Também violentada sexualmente. Preso ao corpo, folha de papel onde se lia: “O homem não deve cobrir a cabeça: porque ele é a imagem e o reflexo de Deus; a mulher, no entanto é o reflexo do homem. Porque o homem não foi feito da mulher, mas a mulher do homem. Nem o homem foi criado para a mulher, mas a mulher para o homem. (Coríntios 14:34)”

O terceiro crime, no dia 28 de julho, idêntico aos outros, Francisca de Tal, 39 anos, arquiteta, assassinada dentro de seu apartamento onde morava sozinha. Os dizeres escritos no papel sobre o corpo: “Os esposos Santidade do lar. As mulheres sejam submissas aos seus maridos, como ao Senhor, porque o marido é a cabeça da mulher, como Cristo é a cabeça da Igreja, ele o salvador do Corpo. Como a Igreja está sujeita a Cristo, assim as mulheres estejam sujeitas em tudo a seus maridos.” (Efésios 5.22-24).

O perfil do assassino estava definido: Homem ligado a alguma religião, provavelmente fanático ou psicopata. Demonstrava aversão às mulheres ou as temia. A idade estaria entre os 40 e 50 anos. Ganhava a confiança das vítimas antes de matá-las, daí a suposição da idade do criminoso. As armas para as conquistas seriam: o encanto pessoal, mentiras, falsas promessas, posição social. Sistematicamente mantinha um intervalo médio de trinta dias entre os delitos. Aquelas mulheres frequentavam a mesma igreja, mas não se conheciam. Este último detalhe perdia importância pelo grande número de fiéis frequentadores do templo. Agia numa área de quatro quilômetros quadrados, levando-se em conta o local do primeiro crime como ponto central das ações.

O Delegado abriu a gaveta da mesa e retirou de dentro dela uma Bíblia. Abriu a capa, leu em voz alta o nome escrito na contracapa: Pastor Josias. Fechou-a, bateu o livro contra a palma de uma das mãos repetidas vezes, olhando para o alto, talvez tentando recriar mentalmente como se deram os fatos. Usaria toda a argúcia no interrogatório, por à mostra as idiossincrasias daquele homem; não seria fácil, pensou.

Intimado, o Pastor Josias compareceu à Delegacia de Polícia visivelmente constrangido, abatido, não parecia o mesmo homem vigoroso de dias atrás na igreja. Acompanhava-o o advogado de uma empresa multinacional, Dr. Hipólito, que também era escritor, com alguns livros publicados cujos temas invariavelmente eram policiais. Homem de postura empertigada, óculos redondos, aparência de competência incontestável, transpirava segurança. Há dois anos chegara à cidade, passara a frequentar a comunidade religiosa tornando-se membro ativo.

O Policial revelou ao inquirido que a bíblia fora encontrada próximo ao local do último crime do “serial killer”. Além do nome do religioso na contracapa, destacavam-se naquele exemplar, circundadas com tinta vermelha de caneta, as mensagens encontradas sobre os corpos das vítimas. Esta edição do Livro Sagrado era uma das quatro de sua propriedade, duas ficavam em casa e duas na igreja, esta fora roubada do templo, dissera o pastor. Durante uma hora outras perguntas foram respondidas.

Na volta para casa, Josias, absorto dentro do carro, se transportou para outros tempos. Boca vermelha de batom ordinário se abrindo num sorriso debochado de mulher mundana, humilhando um garoto de dezesseis anos pelo seu fracasso sexual ocasional. Fiasco provocado pela necessidade dela de alta rotatividade ,”goza, goza logo”. Imagem fixada no subconsciente voltaria sempre no momento crucial sem ser invocada naturalmente, perturbadoramente. Bloqueando. Sessões de psicoterapia no decorrer dos anos, apenas paliativas, não solucionando o problema totalmente.

A suspeita sobre o pastor ganhou as manchetes dos jornais, mas a Polícia não conseguiu sustentar a acusação. As provas técnicas, como o exame laboratorial do sêmen encontrado nos corpos das mulheres e o teste grafológico das mensagens bíblicas deram negativo para o acusado. Não encontraram impressões digitais, provavelmente o assassino usara luvas. A maestria do Dr. Hipólito na condução da defesa jogara por terra todos os argumentos da acusação. O Ministério Público não aceitou a denúncia. Optou pelo despacho de não pronúncia.

Livre da acusação, o Pastor Josias recebeu a visita do Dr. Hipólito, viera se despedir, fora transferido, isto ocorria sempre na vida profissional dele. Josias agradeceu o advogado pela atuação no caso. O advogado respondeu “o agradecimento é recíproco, o senhor bem sabe”.

Dois anos se passaram. O Delegado, envolvido com outros casos, jamais esqueceu os crimes hediondos do misógino. Sentia-se frustrado, apesar de haver cessado a série de delitos depois da investigação envolvendo o religioso. Dizia haver falhado porque focara a investigação em cima de suspeito único. Deveria ter aberto um leque maior de linhas de investigação. Às vezes sonhava com aquelas ocorrências, via o pastor sempre seguido por sombra de aspecto humana não identificada. Sentia a sensação de que o criminoso estivera ao alcance da lei, mas escapara entre os dedos da polícia.

Aproximadamente a oitocentos quilômetros dali, em bela cidade capital de Estado, Dr. Hipólito saía do Clube de Cultura local num fim de tarde, acontecera ali encontro de escritores, reunião bastante concorrida. O advogado se fazia acompanhar de uma mulher a quem levou até ao carro dela e ali se despediram marcando encontro para aquela noite. Mais tarde, em casa, sentado no sofá, taça de vinho nas mãos, naufragou no buquê exalado da bebida. Viu-se pré-adolescente, doze anos de idade, trancado num quarto levado pela vizinha de mesma idade. A avó dela abrindo a porta com violência. ”Onde já se viu menino trancado com menina?” O corpo sentindo ainda o calor feminino que estivera junto ao dele, os lábios sentindo o longo beijo roubado pela amiguinha, agora o responsabilizando maliciosamente por estarem ali juntos. Pela segunda vez ela o jogava em situação constrangedora, a primeira vez ocorrera na casa dele, flagrados por sua mãe que lhe castigou fisicamente, além da reprimenda verbal. Ele não resistira ao apelo sexual aflorando em seu corpo naquela idade de mudanças. O sofrido castigo, jamais esquecido, apenas para ele, considerado o sedutor. Agora tudo se repetia, não houve castigos físicos desta feita, mas ficara envergonhado na presença de outras pessoas. Retornou ao tempo presente, levantou-se, foi até a estante, pegou um livro. Após folheá-lo o abriu em determinada página, seu olhar cintilava um brilho cristalino. A testa franzia em rugas. Os lábios entreabertos davam à boca um ricto nervoso. Então o advogado pegou a caneta de tinta vermelha e circundou, vendo a cor de sangue destacar a seguinte citação do filósofo alemão Arthur Schopenhauer: ”O leão tem dentes e garras, o elefante e o javali têm presas de defesa, o touro tem chifres, o polvo tem sua tinta para turvar a água a seu redor; a natureza deu à mulher mais que a dissimulação para defender-se, a traição, a ingratidão, a falsidade”.

Fim



Conto escrito por
João Baptista dos Santos

Produção Four Elements
Marcos Vinícius da Silva
Melqui Rodrigues
Hugo Martins
Cristina Ravela



Esta é uma obra de ficção virtual sem fins lucrativos. Qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência.


REALIZAÇÃO

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Palavras Obscuras - 1x07 - Ás de Espadas


Sinopse: Quando dois corpos são encontrados em estado de decomposição próximos à barragem que abastece a região, uma renomada investigadora da singela cidade de San Juan Holistico, no sul do Brasil, resolve interrogar uma intrigante serial killer, detenta da penitenciária feminina mais eficiente do país, mas acaba descobrindo que os segredos do seu passado obscuro podem se tornarem seus piores pesadelos. Tentando ser forte e sangue frio, a investigadora Deborah trava um diálogo cruel com a prisioneira Rebecca, que mostra-se calculista e impiedosa com suas palavras que atingem o "eu" mais profundo da detetive, a qual precisa decidir se vai enterrar de vez os acontecimentos do passado e focar nas suas buscas ou desistir e acabar cedendo a inteligência e audácia de Rebecca Steffens. Uma história com pitadas de suspense que beiram a loucura e as profundidades de um abismo que parece não ter volta. Seja forte, seja firme nas suas decisões ou o mundo lhe dará rasteiras para além daquilo que te assombra.



Ás de Espadas
de Marcos Vinícius da Silva

 

Penitenciária Feminina de San Juan Holistico - sul do Brasil - dias atuais

A fúria, o profundo desespero e o egoísmo insensível eventualmente se cristalizam em fantasias de vinganças violentas em uma escala que chama a atenção. O assassinato é um dos crimes que mais podem traumatizar uma sociedade. Embora não esteja entre os mais cometidos, não podemos deixar de nos sentir, em certa medida, atraídos pelos assassinos e por tudo que os rodeia. O que os leva a cometer tal atrocidade? Como é o perfil psicológico do assassino? O assassinato requer qualidades específicas. O que se condena não é apenas a morte em si, mas o modo pelo qual ela foi realizada. A maioria dos assassinatos requerem um plano bastante orquestrado. Os assassinos geralmente não têm grande empatia e, para se aproximarem de suas vítimas, utilizam técnicas de persuasão, sedução, entre outras. Porém, isso tudo não é uma ciência exata. O crime é flexível e as razões pelas quais ele é cometido só se encontram na mente do próprio assassino.

A chuva caía incessantemente nos últimos dias e naquele final de tarde não era diferente. O veículo preto de vidros fumê entrou no estacionamento e parou na vaga 14 que era a última do lado esquerdo - e única livre - fazendo com que quem quer que fosse tivesse que atravessar todo o caminho debaixo de muita água. A investigadora Deborah Santarém, 38 anos, loira de cabelos chanel e olhos azuis, usava uma saia justa preta até a altura dos joelhos que mostravam o motivo de ser sempre cortejada pelos homens por onde passava, um corpo escultural de dar inveja à qualquer um(a). Também vestia um terno preto por cima de uma camisa branca de gola e, pendurado no pescoço, um cordão com o seu distintivo, maior orgulho que carregava consigo. Quando saiu do carro logo tratou de abrir seu guarda-chuva e saiu pisando firme pela calçada de pedra com seus sapatos de salto alto. Imponente, elegante, uma mulher independente e que sabia exatamente onde queria e devia chegar.

Quando passou pela porta de ferro se deparou com a precariedade daquele lugar que há tempos não era visto pelos olhos do governo. Paredes mal pintadas descascando, algumas rabiscadas, goteiras em alguns pontos específicos e, atrás de um balcão de madeira caindo aos pedaços, uma agente penitenciária travava uma guerra particular na frente de um computador de mesa tentando ligar o sistema interno da penitenciária. Respirou fundo, afinal precisava manter sua concentração apenas no real motivo de ter que se deslocar até o outro lado da cidade para estar ali naquele exato momento de um dia tão "chato", como sua própria irmã e colega de quarto definiu mais cedo.

San Juan Holistico era uma cidadezinha de pouco mais de cem mil habitantes que se localizava a duzentos quilômetros de distância da capital. Cidade de colonização espanhola e que foi a escolhida pelo governo no passado para abrigar a maior penitenciária feminina do Estado. Um evento grandioso na sua inauguração, mas que com o passar dos anos foi sendo "ignorada" pelos governos que vieram, e que começaram a passar verbas inconsistentes para a manutenção do lugar.

Ainda assim, as detentas mais perigosas eram enviadas para San Juan Holistico, pois a penitenciária mantinha a fama de ser a mais segura independente da sua situação.

Deborah se aproximou do balcão onde a agente penitenciária "bufava" diante do computador. Se apresentou e foi encaminhada por um corredor estreito e escuro até uma sala pequena no final deste: a sala do diretor geral da penitenciária, Afonso Nero.

Afonso, o diretor, um homem alto e robusto, de 55 anos de idade, cabelos grisalhos e bigode, já estava à sua espera. Levantou, cordial, com um sorriso estampado no rosto e a convidou para sentar-se. A investigadora observou cada detalhe daquela sala pequena e só pôde confirmar o que já imaginava: que aquele lugar, aquelas detentas e aqueles funcionários públicos que ali atuavam eram invisíveis aos olhos do governo. Sentou-se enquanto Afonso servia duas xícaras de café de uma garrafa térmica. "Obrigado", agradeceu quando ele lhe entregou.

"E então, detetive Deborah, o que te traz novamente aqui na nossa penitenciária? Algo muito importante, creio eu. Pra vir assim sem prévio aviso." Disse o diretor Afonso enquanto saboreava seu café.

Deborah tomou um gole do café antes de começar a falar. Já estava ciente da fama do diretor e não daria atenção para suas indiretas. Afinal, o delegado da cidade tinha dado carta branca para ela diante do assunto que se tratava.

"Acredito que o delegado Cunha tenha lhe enviado um ofício explicando a minha vinda. Mas, eu posso muito bem lhe explicar." Começou falando a investigadora enquanto largava a xícara sobre a mesa do diretor. "Vou direto ao ponto. Dois corpos foram encontrados neste final de semana próximo da barragem do Seival, em estado avançado de decomposição. Estão neste momento no Instituto Médico Legal e o doutor Jimenez é o responsável por buscar suas identificações."

Afonso Nero sorriu abrindo os braços. Mostrou uma pilha de documentos sobre sua mesa e tomou mais um gole de sua bebida.

"Eu aqui só preciso cuidar das minhas hóspedes, detetive. Estes assuntos eu deixo pra vocês. Acredito que não posso lhe ajudar" Respondeu o diretor.

Deborah Santarém pegou seu celular, desbloqueou e abriu a foto de uma mulher, mais ou menos 50 anos de idade, morena clara, cabelos cacheados e algumas rugas no rosto. Virou a tela para Afonso, que arregalou os olhos ao ver de quem se tratava.

"Rebecca Steffens? O que tem ela? Quer dizer, sei de tudo que ela já aprontou. Sua ficha é extensa, mas está aqui há menos de seis meses, não tem incomodado...não entendo" Disse Afonso surpreso com o que acabara de ver.

Deborah sorriu e guardou o celular. Tomou mais um gole do seu café, o que para ela era o que de melhor tinha naquele lugar e naquele momento. Se ajeitou melhor na cadeira velha desconfortável antes de começar a falar e encarou os olhos do homem à sua frente.

Rebecca Steffens foi julgada por um júri popular e presa a cumprir 50 anos e 8 meses de prisão, acusada de ser a pior serial killer que o Estado já presenciou. Confesso, colecionava 23 mortes, todos jovens independente de sexo, entre 18 e 21 anos, com quem mantinha relações sexuais após "batizar" suas bebidas e depois os matava, desovando seus corpos em diversas partes da cidade. Porém, o Departamento de Investigação de San Juan, sob comando do delegado Cunha e serviços da investigadora Deborah, ainda trabalhava no desaparecimento de um jovem e de uma jovem há dois meses, sem sucesso. Foi quando um grupo de trabalhadores do Sistema de Abastecimento de Água da cidade, encontrou dois corpos em estado de decomposição próximos à Barragem do Seival, que abastece a cidade e região.

"Eu só preciso da sua autorização para interrogar esta sua "comportada hóspede", diretor." Disse Deborah finalizando sua xícara de café e largando a mesma sobre a mesa.

Afonso Nero observou a perspicácia e serenidade da investigadora na sua frente. Enrolou o bigode com os dedos pensativo por alguns instantes e, só depois, resolveu o que fazer. Também finalizou seu café, levantou e pediu que Deborah o acompanhasse. Ela sorriu sem demonstrar, mas sabia que tinha dado um passo importante para ter a chance de interrogar Rebecca Steffens.

Lado a lado diretor e investigadora atravessaram um longo e largo corredor em direção a uma sala no final deste. Enquanto caminhavam eram observados por diversas detentas agarradas nas grades das celas do andar superior. Deborah também as observava e, este trajeto a fez relembrar o estudo que fez para seu trabalho final na especialização em psicologia criminal: o sistema carcerário brasileiro trata as mulheres exatamente como trata os homens. E isso significa que não lembra que elas necessitam de papel higiênico para duas idas ao banheiro em vez de uma, que elas precisam de papanicolau, exames pré-natais e também de absorventes internos. Era a segunda vez que a investigadora se fazia presente naquela penitenciária e ela só pôde ter a certeza de tudo que estudou em um passado recente, que as penitenciárias femininas no Brasil são sujas, encardidas e escuras. O mundo é cruel, não tem pena de ninguém e, se você acredita que isso um dia vai mudar, Deborah sabia que era pura ilusão. Esta é a realidade e nenhum governador, presidente, senador ou deputado vai cumprir o que prometeu em sua campanha.

A sala era pequena e fechada com vidros em toda a parte da frente. No centro uma mesa metálica retangular com um banco de cada lado e, ao fundo, uma outra porta que levava para um outro segmento. Afonso Nero abriu a porta principal e deu lado para a investigadora Deborah passar, entrando logo em seguida e fechando a mesma. Orientou que ela sentasse e ficasse à vontade e seguiu para o outro segmento através da porta dos fundos sem dirigir qualquer outra palavra, deixando Deborah com uma "pulga atrás da orelha" sem entender o que se passava.

Não demorou mais que três minutos para o diretor Afonso retornar, desta vez, acompanhado por uma mulher mal encarada, acima do peso, com os cabelos cacheados bagunçados e um olhar que causaria medo em qualquer um que resolvesse lhe encarar. Ela usava o uniforme laranja da penitenciária e estava com as mãos algemadas à frente do corpo. Ela era Rebecca Steffens.

Afonso Nero ordenou que a detenta sentasse no banco do outro lado da mesa, de frente para a investigadora, que demonstrava um misto de alívio por conseguir o que foi procurar e de tensão por aquela mulher estar ali diante dos seus olhos. Por mais que não quisesse, Deborah só conseguia lembrar da extensa ficha criminal de Rebecca Steffens, a qual ela leu mais cedo e também no dia anterior.

"Rebecca, essa é a detetive Deborah Santarém. Ela precisa ter uma conversa com você. Espero que colabore com ela, assim como tem colaborado com todos nós" Explanou Afonso.

Rebecca apenas consentiu com a cabeça sem tirar os olhos grandes e assustadores da mulher à sua frente. Em contraponto, a investigadora sentia-se incomodada com aquela presença, mas precisava ser forte, afinal, sua investigação dependia do que aquela mulher pudesse lhe falar. Afonso encarou as duas, respirou fundo e se retirou sem proferir mais nenhuma palavra.

A detenta acompanhou com seus olhos os movimentos do diretor Afonso até ele bater fechando a porta principal. Então, voltou sua atenção para a investigadora intacta na sua frente. Ajeitou-se melhor naquele banco desconfortável e colocou as mãos algemadas sobre a mesa metálica.

"Eu lembro de você..." Disse Rebecca arrancando um olhar de espanto da investigadora. "Garanto que está se perguntando como eu sei disso, não é mesmo?"

Deborah desviou seu olhar daquela mulher. Tentou concentrar sua atenção em algum outro ponto, nem que fosse por alguns segundos. Sentia-se incomodada, uma aflição tomou conta do seu corpo. Por dentro se questionava de verdade como é que aquele ser poderia conhecê-la. Foi quando Rebecca começou batucar calmamente com os dedos sobre o metal da mesa.

"Uma investigadora famosa que nem você...uma mente tão brilhante capaz de juntar as peças de um quebra - cabeças que parecia ser impossível de montar, precisa ser estudada por pessoas como eu..."

Deborah gelou por dentro e concentrou sua atenção para as palavras de Rebecca, que parecia estar satisfeita por conseguir o que queria. "...você sabia que muitos antes de você tentaram a sua façanha, não é mesmo? Mas só você..."

Rebecca, mesmo algemada, apontou com o dedo indicador na direção da investigadora e sorriu um sorriso amarelado de dar medo em qualquer pessoa.

"...só você foi capaz de entender um pouco do que passa na cabeça de pessoas como eu."

Rebecca se ajeitou melhor no banco. Levantou as mãos algemadas e as levou até a escápula direita coçando-a.

"Você conseguiu prender o "colecionador de cabeças", virou manchete em rede nacional, teve o seu nome estampado nas capas de jornais, pousou de boa detetive. Deve ter ganho um bom aumento de salário, não é mesmo?"

Rebecca apoiou os cotovelos na mesa metálica e inclinou o pescoço observando melhor a mulher incrédula à sua frente.

"Pelos trajes que está usando a valorização salarial foi admirável"

Deborah fechou os olhos por alguns segundos tentando voltar à si e concentrar-se no real objetivo de estar ali naquele momento. Estava sendo hipnotizada por Rebecca e agora também se questionava sobre a origem daquela detenta, tão requintada nas suas palavras.

"Eu só preciso que você me diga uma coisa..." Deborah falou com a voz firme tentando se impor diante daquela situação. "Encontramos os corpos de dois jovens, um casal, na Barragem. Estavam desaparecidos há um bom tempo e..."

Deborah pegou seu celular, abriu algum arquivo e virou a tela para a detenta.

"...tudo leva a crer que sejam vítimas suas também, Rebecca Steffens.

Se confirmado, sua estadia por aqui pode aumentar um pouquinho."

Rebecca encarava a tela do celular, agora com as imagens dos corpos encontrados na tela, e sorria.

"Eu acho tão magnífico como eles ficam com o tempo...o corpo humano é realmente perfeito, fantástico, não acha, detetive?"

Aquelas palavras, de certa forma, enojaram a investigadora, que sentiu seu estômago embrulhar, se revirou naquele banco, mas tratou de se manter imponente para o restante do interrogatório.

Rebecca podia sentir o cheiro do medo impregnado no corpo da investigadora. Ela sabia, como ninguém, fazer os outros se sentirem acuados em diferentes situações. E Deborah Santarém estava incomodada com aquilo, tentava lá no fundo compreender o que estava acontecendo, nunca tinha ficado assim em anos de profissão. Nem quando prendeu "o colecionador de cabeças", um homem extremamente frio e calculista, ficou desta forma. Se mexia naquele banco gelado e desconfortável procurando uma melhor maneira de se acomodar, mas tudo parecia só piorar. Enquanto isso, aquela mulher à sua frente lhe encarava com olhos sedentos de quem à qualquer momento poderia se desfazer das algemas, pular e agarrar seu pescoço. Deborah sentiu um frio percorrer sua espinha e com a mão direita massageou a região inferoposterior de sua cabeça enquanto Rebecca sorria aquele seu sorriso amarelado intimidando cada vez mais a experiente investigadora.

"A vida é um eterno jogo de cartas, detetive Deborah. Temos que saber jogar, saber blefar. E é como eu sempre digo: não importa as cartas que você tem em mão, eu sou o Às de Espadas que poderá te colocar no fundo do poço". Disse Rebecca cada vez mais confortável em sua posição.

Quando a investigadora Deborah Santarém prendeu, em um passado recente, um serial killer frio e calculista, o "colecionador de cabeças", como ficou conhecido em todo o Estado, ela virou manchete em rede nacional e, querendo ou não, foi alvo de muita gente. Rebecca Steffens foi presa, mas assim como aquele "colecionador de cabeças", sempre tivera muitos privilégios na sua estadia na penitenciária. Ela conseguiu informações muito importantes e relevantes à respeito de Deborah Santarém, desde a sua infância até os dias atuais e agora ela podia usufruir destas informações frente a frente com a renomada investigadora.

"Ainda tens muitos pesadelos, detetive? O uivo dos lobos e o berro desnorteado dos carneirinhos durante as madrugadas ainda lhe causam insônia?"

As questões levantadas por Rebecca embrulharam mais uma vez o estômago da investigadora. Deborah sentiu que estava prestes a ser derrotada nesta batalha. Levantou abruptamente do banco, se debruçou com as mãos na grande janela de vidro e fechou os olhos respirando profundamente. Do outro lado da vidraça o diretor Afonso conseguia ver tudo o que se passava dentro daquela sala e Deborah sabia que ele estava ali, embora não o visse. Repentinamente, ela abriu os olhos e fez sinal para que ele não interrompesse, que estava tudo sob controle. Ouviu a gargalhada de Rebecca, de quem os olhos lhe devoravam a cada movimento, puxou o ar dos seus pulmões com toda a sua força e se virou para a detenta.

"Calma, detetive. Sente-se novamente." Disse Rebecca antes que Deborah pudesse proferir alguma palavra.

A investigadora se recompôs. Passou as mãos no cabelo chanel e sentou mais uma vez de frente para aquela mulher que estava lhe tirando do sério.

"Estamos aqui para falar de você. Dos teus crimes. Das tuas atrocidades. Da sua falta de consideração com os familiares das vítimas e com toda a sociedade."

Rebecca apenas a observava. Sabia causar sentimentos de raiva à seus adversos sem precisar abrir a boca. E quando abria, conseguia atingir as feridas mais profundas.

"Eles nunca param, não é mesmo?" Questionou Rebecca arrancando um olhar de dúvida na investigadora. "Tô falando dos uivos e berros. Eles vem e vão, não é? Eles estão aí dentro da tua cabeça para te lembrar de onde você veio." Complementou a detenta.

E estas palavras entraram na mente da investigadora que, por alguns instantes, retornou ao seu passado distante, quando ainda era uma menininha serelepe correndo descalça nos campos verdes da fazenda onde morava com os pais e o irmão mais velho. Mais precisamente na fria noite de inverno do dia 24 de julho de 1993, quando ela com apenas 10 anos de idade presenciou cenas que ficariam marcadas para sempre.

"Você ainda acorda no meio da noite, não é? Admita detetive. A imagem do seu pai jogando os lobos para dentro da ala dos carneirinhos e se satisfazendo com aquela sangria deslavada ainda lhe atormenta. E depois, o que ele fazia mesmo? Ahhh, ele abria a porteira para que os lobos, com suas bocas cheias de sangue, fossem para as colinas mais altas e ficava ali se deliciando com as sobras. Ahhhh, ele era um devorador de carneirinhos também, não é mesmo? Ele era o líder da alcateia." Rebecca falou fazendo algumas lágrimas escorrerem pela face corada da investigadora.

E então os olhos de Deborah Santarém se encheram de lágrimas. Ela encarou Rebecca sem esboçar reação por alguns instantes, depois levantou abruptamente e se retirou daquela sala batendo a porta. Do lado de fora foi contida por Afonso Nero que observava toda a situação. Ele colocou as mãos nos ombros da investigadora e a fez lhe encarar.

"Ela não dá trabalho algum aqui dentro porque todas as detentas a respeitam e evitam chegar perto. As poucas que tentaram no início sentiram na pele que não poderiam lidar com ela. Ela entra na mente de qualquer um. Se você não for forte o suficiente eu sugiro que deixe assim mesmo, detetive. Desista."

As palavras de Afonso soaram como uma afronta, um desafio para Deborah. Ela respirou fundo, se recompôs e limpou os olhos lacrimejados.

"Eu só preciso de um copo d'água". Disse a investigadora desviando de Afonso e indo até o bebedouro contra a parede.

Enquanto Deborah Santarém pegava um copo no suporte e o enchia no bebedouro, Afonso se parou diante da janela de vidro observando mais uma vez a detenta Rebecca lá dentro. Ela sorria diabolicamente e batucava com os dedos sobre a mesa.

Alguns minutos depois a investigadora Deborah retornou para aquela sala. Parecia estar mais centrada no que devia fazer. Sentou à frente de Rebecca sempre de cabeça erguida, lhe encarando. A detenta continuava sorrindo de forma diabólica quando, de repente, pigarreou alto e forte por alguns segundos.

"Eu vou te ajudar, detetive. Você quer saber se os corpos daquele casalzinho também são obras minhas, não é? Se eu te disser que sim, você aceita jogar comigo?"

Deborah relutou por alguns instantes, precisava de todas as informações referentes aos corpos encontrados, mas sabia que não podia cair "no joguinho fácil" de Rebecca.

"Mesmo sabendo que minha estada por aqui pode se tornar maior, eu tô disposta a correr o risco e vou lhe dizer tudo que você quer saber, detetive. Mas..."

A detenta se debruçou sobre a mesa, seu olhar sanguinário, seu sorriso cada vez mais diabólico, pareciam penetrar nas entranhas mais profundas da investigadora que permaneceu imóvel em seus pensamentos e não desviou o olhar desta vez.

"Mas o quê? Você acha que tá em plenas condições de exigir algo aqui dentro, Rebecca?" Perguntou firmemente a investigadora Deborah.

A detenta soltou uma alta gargalhada que chegou ecoar pela pequena sala.

"Eu dou as cartas por aqui, detetive" Respondeu Rebecca voltando a ficar séria. "Me diz uma coisa: qual foi a sensação de ver seu pai com a boca cheia de sangue daqueles carneirinhos pela primeira vez? Medo, angústia, nojo?" E da seriedade Rebecca soltou mais uma gargalhada no final erguendo ambos os braços com as mãos algemadas para o alto deixando à vista sua tatuagem no seu tríceps braquial, uma carta de baralho, um Às de Espadas com sangue escorrendo.

Os seriais killers vivem em uma zona cinzenta, fronteiriça, entre a loucura e a normalidade. Nascem, crescem e morrem com essa sina. Eles têm uma deformidade de caráter que os torna pessoas consideradas como de "altíssima periculosidade". Não conhecem o remorso, não conhecem o significado da palavra arrependimento.

A investigadora Deborah Santarém sabia exatamente onde estava se metendo. Na verdade já tinha passado por situações semelhantes, principalmente quando esteve à frente do caso do "colecionador de cabeças". Aliás, este caso veio à sua memória depois das últimas palavras de Rebecca. Ela voltou lá atrás em um devaneio sem consistência. Se viu em um escritório escuro com suas anotações em mãos.

Há um tempo atrás

Escritório da investigadora Deborah Santarém

A detetive loira de cabelo chanel, usando apenas uma camisola transparente e sem maquiagem, adentra seu escritório particular no segundo andar de sua residência. Dá um tapa no interruptor acendendo a luz amarelada e dirige-se até a mesa próxima à janela. Senta sobre as pernas torneadas e começa vasculhar dentre diversas anotações espalhadas.

"TSANTSAS - REGIÃO AMAZÔNICA - COLECIONADOR DE CABEÇAS

O título em letras de forma lhe chamou a atenção. E diante de tanta repercussão que o caso teve e que levou-a a um reconhecimento enorme na Delegacia, Deborah resolveu ler novamente aquelas anotações, uma vez que o sono tinha lhe abandonado.

"Constituía-se em uma forma especial de conservação cadavérica, utilizada por aborígenes, com a finalidade de manter as cabeças de seus inimigos como troféu de guerra ou talismã. Essas cabeças, além de conservadas apresentavam-se com acentuada diminuição do seu volume. Tal redução se devia à retirada de todos os ossos do crânio e da face, com o cuidado de manter a pele íntegra. Era realizado um corte na parte posterior do pescoço por onde retiravam os ossos e a bolsa de pele da cabeça era colocada em água fervente com ervas por cerca de vinte minutos, o que diminuía em cerca da metade do seu volume. Eles conseguiram encolher e endurecer a pele da face e da cabeça, colocando nessa espécie de saco de pele humana uma pedra quente e recheio de areia que lhe servia de molde, o que ia diminuindo pouco a pouco o seu tamanho..."

De volta à Sala de Interrogatório

Deborah Santarém retornou dos seus devaneios com o chamado da detenta à sua frente. Ela precisou inclinar-se e chamar três vezes por "detetive? detetive? detetive?" até que a investigadora voltasse para a realidade.

"Estava longe, detetive?" Perguntou Rebecca.

"Você conheceu o "colecionador de cabeças?" Questionou Deborah.

"Ora, ora. Também estudei os passos daquele lá. Homem perspicaz, inteligente demais, você não acha?"

"Ele era um psicopata infernal!" Respondeu Deborah.

"Ora, detetive. No fundo, no fundo, todos nós carregamos um lado psicopata".

"Eu não sou!" Gritou alto a investigadora. "Ele era. Você é..." Mesmo algemada Rebecca apontou o dedo na direção da investigadora.

"O seu pai era! Ou será que ainda é? Ele foi desta pra melhor ou você o escondeu em algum lugar? Você ainda o visita, detetive? Penteia seus cabelos, faz a sua barba? Porque pelo que eu sei ele tinha enlouquecido de vez, não é? Ou foi o que vocês armaram para ele não vir parar em um lugar como este aqui?"

As palavras de Rebecca colocaram Deborah novamente para baixo. Se a renomada investigadora tinha um ponto fraco, este era o seu passado obscuro, principalmente quando se tratava deste período com o pai. Levantou tentando conter o choro. Deu um murro com a mão direita sobre a mesa e saiu porta agora esbravejando. O diretor Afonso Nero ainda tentou parar e acalmar a investigadora mais uma vez...em vão. Ela o empurrou e seguiu seu caminho. Sem entender nada, ele adentrou a sala com cara de poucos amigos, se debruçou sobre a mesa e apontou o dedo bem no meio da testa de Rebecca.

"Você é uma vadia louca! Eu ainda te defendi dizendo que não causava problema algum aqui dentro. E agora, olha o que você fez?"

Rebecca apenas sorriu.

"Ela é uma detetive muito durona, mas só até que se encontre o seu ponto fraco. Todos temos um, sabia diretor?"

Afonso Nero não deu atenção para aquelas palavras. Levantou a detenta pelo braço e a conduziu de volta para a cela.

Dois dias depois

Clínica Psiquiátrica Gertrudes Fogaça

A investigadora estacionou seu carro em frente à bonita entrada da clínica. Olhou para aquela fachada, saiu do veículo e subiu cerca de trinta degraus de uma escada íngreme cercada de árvores altas até a entrada daquele lugar.

Foi recebida por um jovem e simpático enfermeiro que a conduziu até o segundo andar abrindo a porta de um quarto no final do corredor dando-lhe passagem para entrar. "Fique à vontade, Deborah. Ele sentiu sua falta todo esse tempo", disse o enfermeiro antes de voltar para suas tarefas.

No interior do quarto branco e praticamente sem mobília, estava um senhor sentado em uma cadeira de rodas diante da janela aberta olhando o topo das árvores e os pássaros que pousavam e cantavam nos galhos.

"Papai?" Disse Deborah se aproximando e lhe abraçando, chorando logo em seguida.

No dia seguinte

A chuva voltava a cair incessantemente em toda a região. A investigadora Deborah Santarém, cabelos mal penteados e maquiagem borrada de tanto chorar, dirigia sem destino por uma rodovia que cortava a cidade. A chuva ficava mais forte a cada quilômetro que ela se movia. Chegou na parte alta e estacionou no acostamento da ponte sobre o rio Damares. Desceu do veículo e não se importou com toda aquela água gelada que caía, foi até o parapeito e encarou o rio lá embaixo. Atrás dela os carros passavam a toda velocidade parecendo nem se importar com aquela mulher parada na chuva debruçada no peitoril. Foi quando um estrondoso raio cortou o céu que Deborah assustou-se e virou para a rodovia. Achou que estava enlouquecendo, pois cada carro que passava ela avistava o rosto da detenta Rebecca jogando cartas que caíam pelo chão molhado. Olhou então, para sua volta, e viu vários "Às de Espadas" espalhados. Colocou ambas as mãos na cabeça em sinal de desespero, subiu no parapeito, abriu os braços lateralmente olhando para o céu escuro e...

...deixou seu corpo cair em direção ao rio Damares enquanto várias cartas a seguiam até seu corpo chocar-se com a forte correnteza.



Conto escrito por
Marcos Vinícius da Silva

Produção Four Elements
Marcos Vinícius da Silva
Melqui Rodrigues
Hugo Martins
Cristina Ravela



Esta é uma obra de ficção virtual sem fins lucrativos. Qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência.


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