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O DIABO MORA AO LADO



Conto de
Eduardo Canesin




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 ***

– Cara, o diabo mora do nosso lado! – disse Guilherme, num misto de medo fingido e excitação.

Guilherme era meu amigo desde sempre. Juntos, metemo-nos nas mais variadas encrencas. Por causa dele, aliás, dei-me mal mais de uma vez. Fui expulso da faculdade, porque fomos flagrados furtando o gabarito das provas; fui demitido, pois faltava com frequência para participar de alguma aventura com meu camarada; até mesmo torrei todas as minhas economias, tentando abrir um negócio e me tornar um empreendedor, devido aos seus incentivos.

Ele sempre me botava nas maiores enrascadas, mas, também, me arrumava oportunidades únicas: lindas garotas e algumas drogas, quando íamos às festas e, além disso, internet e televisão ilimitadas, graças ao “gato” que ele deu nas companhias. Isso para não dizer que estava sempre do meu lado, para me ouvir e aconselhar, não importava a situação.

Em resumo, era uma amizade que fiz no jardim da infância e que me acompanhava ao longo do tempo, mesmo agora, quando já estava no começo da vida adulta. Por conta disso – e porque nenhum dos dois tinha muito dinheiro para o aluguel – decidimos dividir um apartamento. Foi uma decisão acertada e era muito legal.

Eu trabalhava como office boy num escritório de contabilidade. Não é um trabalho empolgante, mas é o que tínhamos para hoje. Não sei direito o que meu amigo fazia, mas sabia o que ele queria fazer: tornar-se um influenciador digital.

Teve, então, a ideia de criar um canal de terror. Não era uma ideia brilhante ou original, mas, mesmo assim, decidi apoiá-lo, já que é para isso que servem os amigos. Até lhe emprestei algum dinheiro, para que comprasse uma câmera nova.

Ele decidiu, então, fazer pesquisas na rede, para ver os principais tópicos do terror – e coisas que pudesse explorar em seus programas. Fazendo algumas buscas, eis que descobriu um blog com diversas teorias da conspiração e causos sinistros: os temas de sempre na internet. E, agora, surgia a ideia de que o diabo morava ao lado…

– Mas que papo doido é esse, cara?

– Vixi, olha só aqui… tá falando de um ser demoníaco que destrói a vida das pessoas, sugando a energia vital e tudo o mais. O “retrato falado” do bicho é igualzinho ao do nosso novo vizinho.

Isso não era completamente verdade: a ilustração que o blog trazia era genérica o bastante para que qualquer um se encaixasse nela, desde que usássemos a imaginação. Mas é certo que nosso vizinho até que levantava certa suspeita e seria um forte candidato a representar o mal encarnado.

Ele se mudara para nosso prédio havia pouco mais de um mês. Chegou sem causar estardalhaço, fazendo toda a mudança durante uma noite de sexta-feira. Quem se muda numa noite de sexta-feira? Ele era magro, alto, de meia idade e tinha os ombros curvados. Era tão pálido que, se não fosse o diabo, poderia ser um vampiro – não fosse a aparência de indivíduo doente e fragilizado, a qual tirava um pouco de sua aura vampírica. Além disso, era dentuço e usava óculos com aros grossos.

Tudo isso foi constatado após o ver uma ou duas vezes no corredor do prédio, sempre de noite, quando eu estava chegando em casa do trabalho e ele saindo (seja lá o que fosse fazer). Ele passava reto, de cabeça baixa, não cumprimentava e nem olhava para o lado. Era, indubitavelmente, uma figura estranha.

Não me surpreenderia se descobrisse que ele era pedófilo. Ou comunista. Ele tinha cara de pedófilo comunista. Nunca encontrei um pedófilo comunista na vida, mas sabia que, sem sombra de dúvida, teria aquela cara. Justamente por isso, antipatizei com ele logo de início.

Sequer sabia seu nome ou sua história, mas já tinha a certeza de que boa coisa ele não era. Guilherme me dissera, mais de uma vez, que o ouviu fazendo barulhos estranhos durante o dia. Sempre que não tinha trabalho (na maioria do tempo, portanto), meu amigo ficava em casa; ele me contou que nosso vizinho sempre fazia esse barulho estranho – ou alguma outra coisa suspeita, que chamasse a atenção, como dar pancadas na parede.

Aparentemente, o diabo também não trabalhava e só saía de casa esporadicamente, de noite.

Confesso que fiquei curioso com essa história de diabo. Não acreditava nessas coisas, tampouco que nosso vizinho pudesse sê-lo, caso o mal absoluto existisse, mas despertava um certo interesse. Ainda que não fosse o mal encarnado, ser pedófilo comunista era algo horrível, certo?

Olhando mais de perto para a imagem que meu camarada me mostrava, notei que, no fim das contas, ele até se parecia mesmo com o nosso vizinho. Sem dúvida uma coincidência. Falei isso para Guilherme, mas ele insistia que era bem possível que fosse um fato, dado que o sujeito era tão esquisito… “sempre duvidamos da existência do mal, até que sejamos arruinados por ele”, falou-me, taciturno.

Vimos as descrições que o blog colocava como sendo o modus operandi do monstro. Não era, aliás, nada muito diferente do que a maioria dos monstros fazem: arruinava a vida das pessoas, matava inocentes, perseguia as vítimas. Nada muito detalhado, apenas essas generalidades que descrevem o mal e os maus.

Dei de ombros e fui dormir. O dia fora cansativo, precisava descansar.

Nos dias e semanas seguintes, Guilherme cada vez mais enchia meu saco com essa história de o diabo morar ao nosso lado. Ele contou que os barulhos que nosso vizinho fazia eram, cada vez mais, sinistros e assustadores – e que ele estava preocupado.

Perguntava-me porque uma pessoa dessas não era despejada do prédio… provavelmente porque ninguém reclamava ou, talvez, porque ele apenas fizesse esses barulhos à tarde, quando as pessoas estavam trabalhando. Aparentemente, apenas Guilherme estava no edifício e, portanto, apenas ele seria incomodado.

– Cara, o diabo mora do nosso lado, tô te falando.

– Tá, mas o que você quer que eu faça? É melhor a gente se benzer, só isso.

– Pior que não, cara… acho que a gente pode fazer algo grande. Eu acho que os barulhos que eu ouço aqui são de crianças. Acho que ele tem reféns no apartamento dele.

– Isso parece absurdo – afirmei, desconfiado. Faria sentido um pedófilo ter crianças como reféns, por isso liguei um alerta na minha cabeça.

– Espero que sim, mas como a gente ficaria se depois descobríssemos que ele matou pessoas aqui e a gente não fez nada para impedir?

– Mas o que podemos fazer?

– Ora, a gente deveria entrar no apartamento dele algum dia, quando ele saísse. Pelo que percebi, ele sai toda sexta-feira de noite e fica algumas horas na rua. É só a gente chegar lá, ver o que tá acontecendo e, se não tiver nada de errado, cair fora antes de ele voltar.

– Você tá propondo que a gente invada a casa dele?

– Não, cara. A gente só vai abrir a porta. Temos a chave para emergências, que nosso antigo vizinho deixou conosco. Acho que o novo vizinho não trocou a fechadura…

– Sei não… essa ideia não me cheira bem.

– Pensa bem, mano. A gente não vai roubar nada. Entramos lá, vemos se tem algo de errado e, se não tiver, voltamos para casa, sem mexer em nada e deixando tudo direitinho. E encerramos esse assunto para sempre. Agora, se tiver algo errado, nós chamamos a polícia e salvamos a vida de pessoas inocentes.

– Isso faz sentido. Tô quase convencido. Mas se ele tiver sequestrado alguém, por quê só fazem barulho durante o dia, não de noite, quando os demais moradores estão no prédio e, principalmente, quando o sequestrador sai por aí?

– Não tenho nem ideia. Vai ver estão amordaçados e presos. Talvez só façam barulho durante o dia, na hora que são desamarrados para se alimentarem. Ou, talvez, na hora que ele vai fazer algo assustador e doentio com suas vítimas.

Essa afirmação fazia sentido, dentro de minhas convicções de que o vizinho era pedófilo. Poderia não ser o diabo, como Guilherme pensava (e, talvez, quisesse), mas certamente era uma pessoa horrível. Deveríamos investigar isso mais a fundo. Assim sendo, concordei com nossa campanha: na próxima sexta-feira, checaríamos a casa dele, para ver o que escondia.

Quando chegou o grande dia, estava trêmulo, mas animado. Não tão animado quanto Guilherme, é claro, mas, mesmo assim, tinha certa dose de ânimo que me fazia seguir em frente. Queria acabar com aquele maldito pedófilo comunista e trazer a paz para nosso prédio e para as pessoas inocentes que eram feitas de refém.

Assim que Guilherme deu o sinal, afirmando que o vilão tinha saído, atravessamos o saguão andando rápido. Coloquei a chave reserva na fechadura, girei-a e, então, a porta se abriu. Meu amigo acendeu as luzes, o que claramente foi uma burrice, mas tudo bem, já que estávamos afoitos para resolver aquele mistério.

O apartamento não aparentava nenhuma bizarrice, apenas mau gosto. Não tinha mobília, apenas uns caixotes velhos espalhados pela sala, com almofadas em cima (deviam desempenhar o papel de algum tipo de sofá ou cadeira de leitura). Uma estante cheia de livros, nada de televisão. O chão estava sujo e havia alguns quadros na parede. Além disso, uma mesa, repleta de remédios. Talvez os barulhos que Guilherme ouvia fossem apenas as angústias de um indivíduo enfermo. Não que eu tenha pensado nisso na hora. Apenas queria vasculhar cada canto do apartamento, pois sabia que tinha algo errado para ser encontrado. Ao menos, queria que houvesse.

– Mas o que está acontecendo aqui? – Ouvimos a voz rouca e sem forças vinda da porta. Talvez as luzes acesas tenham chamado a atenção de nosso vizinho, o qual retornou para ver se tinha esquecido de apagá-las. Recebeu, no entanto, essa bela surpresa.

– Mano, cuidado, ele tá armado! Ele vai atirar na gente!

Guilherme gritou na hora que nosso vizinho enfiou a mão no bolso do casaco, preparando-se para sacar algo. No susto, meu amigo tropeçou em um dos caixotes e caiu.

– Rápido, mano, não deixe ele nos matar!

Ele nem precisava gritar isso. Assim que ouvi sobre a arma, já dei um pulo em direção ao nosso inimigo. Não deixaria aquele cara doente e esquisito me matar. Ainda não tinha visto nada, mas provavelmente ele era um pedófilo comunista. Eu sentia que havia algo errado com ele.

Dei-lhe um empurrão com força e ele caiu no chão. Atraquei-me com ele e comecei a espancá-lo com toda a força que tinha. Aquele verme imprestável! Bandido esquisito! Estávamos fartos de gente da laia dele, que acha que pode se esconder nas sombras, impunes, enquanto nós, que trabalhamos e fazemos tudo direito, temos de viver com medo.

Muito sangue estava escorrendo, mas não parei de esmurrá-lo até que outros vizinhos chegassem e me agarrassem. Nesse meio tempo, Guilherme já tinha saído do apartamento e, agora, voltava, com cara de assustado.

Vi, na mão do cadáver, um celular. Ele não tinha uma arma, apenas queria pegar o telefone, talvez para chamar a polícia. Não precisou chamá-la, no entanto: em pouco tempo, ela veio – na certa quando algum dos outros moradores a chamou. Levaram-me para a delegacia e o corpo foi levado ao necrotério.

Guilherme deu seu depoimento e foi liberado pouco tempo depois. Eu fiquei preso, por ter sido apanhado em flagrante. Quando houve o julgamento, Guilherme foi chamado como testemunha. Ele disse que eu andava perturbado e estressado, que apresentava comportamento agressivo há já algum tempo e vivia reclamando do vizinho.

Disse que, na noite do crime, eu saí de casa e invadi o apartamento, apesar de ele tentar me dissuadir daquilo. Disse que só ao ouvir a confusão é que se deu conta do que tinha ocorrido e que só então se dirigiu ao outro apartamento.

Tentei contradizê-lo e contar que toda a ideia fora dele, mas o júri jamais acreditaria em alguém que foi capturado em flagrante. Era mais fácil aceitar a história e a lábia daquele que considerei meu amigo.

Na saída do tribunal, já condenado a muitos anos de prisão, olhei para Guilherme – e ele sorria. Piscou para mim. No fim, era verdade… o diabo morava ao meu lado.

***

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