Eita Preula, (mais) Uma História de Vampiro! | Conto


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EITA PREULA, (MAIS) UMA HISTÓRIA DE VAMPIRO!



Conto de
Eduardo Canesin




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***


Aquele era um cemitério comum, como quase qualquer outro. A diferença, se quiséssemos procurar alguma, era a grama pouco aparada no quadrante norte, bem onde ficava a tumba de alguns mortos - o que não quer dizer muita coisa, porque em cada canto daquele cemitério ficava a tumba de alguns mortos (geralmente não dos mesmos mortos, pois cadáveres não costumam ter tumbas de veraneio nem nada do tipo). Aliás, o quadrante sul também estava com a grama pouco aparada. E o leste e o oeste também.

Basicamente, o jardineiro respeitou os pontos cardeais e foi igualmente incompetente em cada um deles, mas não podemos culpá-lo, afinal, não são todos os que gostariam de trabalhar naquela localidade: ficava longe, era feia e as pessoas que passavam por lá invariavelmente pareciam tristes ou mortas. Ah, e o local tinha fama de mau-assombrado, o que talvez pesasse contra sua atratividade.

De todo modo, tirando a grama pouco aparada, aquele cemitério era como qualquer outro. Mesmo nessa noite fria de inverno, na qual acontece a narrativa, nada de muito gritante chamava a atenção: no frio, todos cemitérios ficam frios, logo, nada fora do comum. De igual modo, à noite, todos os cemitérios ficam escuros e assustadores, logo, ainda nada fora do comum. Com lua cheia e neblina, por sua vez, qualquer cemitério é uma cura instantânea para prisão de ventre, logo, nem aqui tínhamos algo fora do comum.

Poderíamos passar a noite toda assim, procurando nuances, mas não chegaríamos a nenhum ponto verdadeiramente inusitado, que merecesse a atenção. Bom, talvez até chegássemos a um, então talvez seja melhor pularmos diretamente para ele.

Com efeito, algumas garotas adolescentes de classe média, que estavam entediadas e queriam aventuras, acharam que era uma decisão minimamente inteligente sair sozinhas de noite, ir ao cemitério e começar um ritual satânico. Pois é, e justo elas, público-alvo de tantos filmes de terror! Elas, que viram todos os filmes iguais, com nomes parecidos, que mostravam garotas adolescentes morrendo ao fazer algo cretino, decidiram… fazer algo cretino.

Quais as chances de algo assim dar errado, certo? Aliás, o fato de elas estarem fazendo o que estavam fazendo é a prova cabal de que não existe livre-arbítrio: quem, no uso de sua liberdade, faria o que elas estavam fazendo, tendo assistido tantos e tantos filmes com o mesmo enredo? Provavelmente, elas eram personagens de algum filme - ou pior: de algum conto literário que ninguém leria!

De todo modo, nada disso é relevante. O que importa é que elas estavam lá, naquela noite absolutamente convidativa, fazendo um acolhedor ritual de magia maligna e, talvez, imaginando que as coisas acabariam bem. Obviamente, não vão acabar, mas, de todo modo, deixemos que elas tenham suas crenças. Que o leitor não fique ansioso demais: todas elas vão morrer, portanto, não se apresse na leitura e tenha esse prazer sádico de ver seres ficcionais que não sabem que são ficcionais morrendo mortes terríveis e assustadoras.

Mas voltemos à narrativa. Eis que as adolescentes, que eram três amigas inseparáveis, estavam fazendo o ritual. Apenas para identificação, os nomes delas são: Luana, Camila e Gabriela. Como elas vão morrer daqui a pouquinho, nem perderemos tempo descrevendo-as, falando de seus sonhos, desejos e outros recursos batidos para criar empatia com o leitor. Assim, pouparemos tempo, escreveremos algo mais sucinto e, de quebra, não deixaremos o leitor tão triste quando elas morrerem. Que fiquemos, pois, apenas com seus nomes e testemunhemos o resto do rito macabro:


Venha, nosso senhor maligno, nós o invocamos! - Disseram as três amigas, em uníssono.

Após dizerem isso, rasgaram as próprias vestes, jogaram suco de uva no chão e quebraram palmitos, atirando seus pedaços para o alto. É verdade que nas instruções que elas viram na internet dizia que era necessário derramar o sangue de uma donzela e quebrar os ossos de um recém-nascido, mas como nenhuma delas queria se cortar, tampouco machucar um bebê, optaram pelo suco (que era avermelhado como sangue) e palmito (branco e molinho como ossos de um bebê, segundo argumentou Gabriela). Não era a ideia mais inteligente de todas, é verdade, mas a decisão de fazer um ritual noturno num cemitério não era atestado de QI, portanto é melhor não julgarmos ninguém e aceitarmos a premissa da história.

As amigas jogaram os pedaços de palmito para o alto e entoaram um cântico demoníaco em uma língua que elas presumiram que era latim - mas qualquer um que ouvisse de longe chamaria de murmúrios de drogado. Ao terminarem o canto, abraçaram-se e fizeram uma veneração ao “senhor maligno”, jurando servi-lo e as coisas de sempre.


É só isso? - Quis saber Luana.


Acho que só. Pelo menos, era o que o site falava - respondeu Camila.


E agora? - Indagou Gabriela.


“E agora”, o quê? - Retrucou Camila.


E agora, o quê faremos? - Redarguiu Gabriela.


Sei lá. Acho que vamos para casa, né? - Respondeu Camila.


Com as nossas roupas rasgadas? - Problematizou Luana, mostrando os seios à mostra.


É, a gente não pensou nessa questão… devíamos ter trazido roupas extras, né? - Percebeu Camila.


Bom, acho que é melhor a gente ir embora logo e tentar esconder os rasgos das nossas roupas. A essas horas, pelo menos, não terá ninguém na rua para nos ver assim - ponderou Luana.


Verdade - disse Gabriela. - Mas não vai acontecer nada? Eu estava esperando alguma coisa a mais com esse ritual do que apenas passar frio. Algo demoníaco, sabe?


Ah, isso vai acontecer com o tempo. Agora que aceitamos o mal em nossas vidas, ele vai cuidar da gente aos poucos e nos fazer ter sucesso - explicou Camila.


Tomara. Mas vamos logo, que estou congelando - apressou Gabriela.

As amigas ajeitaram as vestes rasgadas o melhor que podiam (o que não era muito), apagaram as duas velas que tinham levado e foram embora, deixando no chão o frasco de palmito vazio, assim como os palmitos partidos, a garrafa de suco e o suco derramado. Elas eram meninas de classe média, jamais limpavam a própria sujeira.

Fosse essa uma história verossímil, elas seriam assassinadas por algum criminoso comum, ou morreriam atropeladas. Talvez nem morressem naquela noite, voltassem para suas casas incólumes e, depois, sucumbiriam vítimas de pneumonia, por ficarem com vestes rasgadas numa noite de inverno. Mas, digam o que disserem, esta história não é verossímil.

Com efeito, assim que elas viraram as costas e estavam se preparando para sair do local em que fizeram o rito, ouviram um som. Um barulho infernal, seja lá o que isso for. Na verdade, eram apenas sons de passos, mas “barulho infernal” soa melhor numa história de terror. E, aliás, num cemitério deserto, de noite, até o som de um microondas, o cantar de pássaros ou o Rebolation são barulhos infernais.


Quem tá-tá aí? - Gaguejou Camila, imaginando que seu absorvente teria um outro uso naquela noite.


Eu… - Respondeu uma voz rouca, de alguém que estava nas sombras.


“Eu” quem, seu voyeur filho da puta? - Perguntou Luana, que estava morrendo de frio e com um pouco de medo.


Seu senhor maligno - disse a mesma voz rouca.


Meu Deus! - Gritou Gabriela, em pânico.


Quase - disse a voz rouca, pertencente ao estranho ser que se aproximou das meninas.

Tratava-se de um homem bem-vestido, com uma rosa vermelha no bolso de seu terno. Era um homem baixo, careca e com a barriga saliente. Tinha dentes pontiagudos e um olhar ameaçador.


Quem-quem é você? - Perguntou Luana, trêmula.


Já disse, sou seu senhor maligno. Vocês me juraram obediência eterna. Sou conde Otavius, lorde absoluto dos domínios vampíricos. Nós, vampiros, fomos caçados durante séculos, de modo que fui o único sobrevivente. Tranquei-me num portal interdimensional ou algo do tipo, mas tanto faz, é só uma explicação forçada para dizer como fiquei oculto por tanto tempo e só voltei agora… O fato é que fiquei aguardando que fizessem um ritual que me trouxesse de volta. E eis que fui chamado nesta noite. Temi muito que jamais fosse invocado, porque quem acreditaria que palmitos poderiam abrir meu portal maligno? Mas, evidentemente, vocês acreditaram, pois provavelmente devem ter lido meu diário, no qual escrevi todo o ritual. E devem ter decodificado tudo, pois eu escrevi em códigos complexos. E, aliás, eu tinha ateado fogo no meu diário antes de entrar no meu portal interdimensional, pois tinha coisas bem confidenciais e íntimas nele, o que significa que vocês juntaram as cinzas, restauraram as páginas e decifraram os códigos. Estão de parabéns, mas, como leram meu diário, terei de matá-las, já que não quero ninguém espalhando fofocas infundadas sobre as coisas que fiz séculos atrás com meu primo, o conde Armandinhus...

O vampiro, contudo, não pôde continuar com suas justificações, pois as três amigas, àquela altura, já estavam bem longe. Curiosamente, elas decidiram se separar e cada uma foi para um canto. Mais curiosamente ainda, nenhuma teve a ideia de dar uns passos para frente, sair do cemitério e, quem sabe, passar na delegacia que ficava a uns cem metros daquele local: em vez disso, acharam de bom tom se esconder entre as lápides num lugar escuro, deserto e assustador.

Por mais que entendamos o prazer sádico que o leitor poderia ter com mortes escabrosas, perseguições e todo o escambau, abreviaremos esse possível deleite e contaremos logo de uma vez o que aconteceu: Conde Otavius caçou as garotas e matou uma por uma, de algum modo escabroso e pervertido (fica a critério do leitor imaginar e decidir como). E, evidentemente, bebeu o sangue delas.

Assim se encerrou uma bela noite de inverno (para qualquer um que não seja uma das garotas mortas). Que fique a lição: se você for uma adolescente de classe média, não faça rituais satânicos num cemitério deserto. Aliás, se for permitido ao narrador dar um conselho, não faça um ritual satânico num cemitério deserto mesmo que você não seja uma adolescente de classe média: pode ser que o ser maligno invocado não tenha viés de classe e gênero na hora de selecionar sua vítima.

De todo modo, aquela noite se encerrou e, com seu fim, veio uma manhã (algo que costuma acontecer até na vida real, não sendo exclusividade desse conto). Uma manhã de sábado bem gostosa - desde que você esteja vivo para desfrutá-la. Depois disso, veio um domingo e, então, por culpa da previsibilidade dos clichês, chegou uma segunda-feira. Uma segunda-feira de aula para todos aqueles que não foram assassinados por vampiros.

Na escola, foi um dia comum, como sempre é, neste templo do saber: valentões batendo nos mais fracos, professores sendo autoritários, pais chamando os professores de doutrinadores, enfim, o de sempre.

Para esse enredo, convém que acompanhemos apenas três personagens, que serão os heróis dessa narrativa. Não perderemos tempo descrevendo-os, pois ainda temos a pretensão de que este seja apenas um conto, não uma trilogia. Além disso, são só personagens ficcionais, ninguém se importa como eles são: que cada leitor os imagine como bem quiser, tanto física quanto psicologicamente. Apenas para identificação, chamá-los-emos de Luan, Camilo e Gabriel (qualquer conclusão que queiram tirar destes nomes, que os leitores tirem por conta própria).


Putz, vocês ouviram o que aconteceu com as meninas? - Perguntou Camilo.


Sim, elas decidiram namorar qualquer um, menos a gente - resmungou Gabriel.


Não estou falando das meninas de um modo geral, tô falando da Camila, da Luana e da Gabriela - retrucou o rapaz.


E desde quando elas são “as meninas”? - Quis saber Gabriel.


Eu imagino que desde sempre, já que nunca ouvi alusão de que eram trans - ponderou Camilo.


O que eu quero saber é: o que é que tem de mais com elas? - irritou-se Gabriel.


Elas foram assassinadas - disse Camilo.


Como assim? - Indagou Gabriel.


Morreram na sexta-feira à noite - respondeu Camilo.


Como você sabe disso? - Questionou Gabriel.


O diretor passou na sala e nos informou. Você estava lá. Foi por isso que ele liberou todo mundo mais cedo, para termos três dias de luto oficial - respondeu Camilo.


A gente foi liberado? Achei que a gente tava no intervalo. O que estamos fazendo aqui, então? Vamos embora! - Disse Gabriel.


A gente estava aqui matando um tempo e conversando, só isso - disse Camilo.


Até você começar com esse papo mórbido - ponderou Luan.


Mas elas foram assassinadas! - Retrucou Camilo.


O diretor disse que elas morreram, não que foram assassinadas - replicou Luan.


Sim, por isso eu comecei a conversa perguntando se vocês ouviram o que aconteceu com elas. O diretor não contou tudo porque não queria nos alarmar, mas elas foram assassinadas, todo mundo está falando disso.


Todo mundo gosta de boatos, mas como é que vão saber se elas foram assassinadas mesmo? Pelo que o diretor disse, elas morreram num acidente de trânsito…


Aí é que está! Postaram na internet um vídeo e elas estavam sendo perseguidas por um careca barrigudo esquisitão. Ele as matou de um jeito escabroso e pervertido e, depois, tomou o sangue delas. Tá na cara que é um vampiro!


Que vídeo é esse? Eu quero ver! - Disse Gabriel


Aqui! - Apontou Camilo, mostrando a gravação aos amigos.

O vídeo tinha quarenta e cinco minutos de puro terror, sangue e coisas escabrosas e pervertidas. Ao terminarem de assistir, ficaram um segundo em silêncio.


É, foram assassinatos escabrosos e pervertidos - ponderou Gabriel.


Só pode ser fake - disse Luan. - Não faz sentido não ser fake. Quem gravou o vídeo?


Então, foi um mendigo que mora no cemitério. Ele postou outro vídeo, agora há pouco. Ele contou que mora no cemitério porque skinheads não vão até lá de noite, por isso ele pode dormir em paz, sem medo de tacarem fogo nele de madrugada. Ele estava dormindo, mas ouviu um barulho que descreveu como “murmúrios de drogados” e foi conferir, para ver se conseguia uma pedrinha de crack emprestada. Quando chegou, viu três adolescentes com as roupas rasgadas e ficou olhando escondido, de modo pervertido, para elas. Mas eis que apareceu do nada esse assassino, falou que era um vampiro e foi atrás delas.


E ele não foi ajudá-las? - Questionou Luan.


Ele não queria brigar com um vampiro bem-vestido, senão a polícia poderia aparecer e prendê-lo, achando que ele estava assaltando um cidadão de bem. E não podia ir procurar ajuda, se não chamariam a polícia dizendo que ele que estava perturbando a ordem. Por isso, ficou filmando tudo.


Por quarenta e cinco minutos - Disse Luan.


E dando uns zooms bem loucos - Comentou Gabriel.


Tem até uma parte que ele pede para o vampiro dar uma chegada pro lado, pra ele gravar a cara da vítima. E tem uma hora que ele ajeita o cabelo da Luana, não sei se vocês viram - comentou Camilo.


Putz, nem reparei, estava prestando atenção no sangue e nas mortes escabrosas e pervertidas - respondeu Luan.


Mas vampiros aparecem em gravações? Não tinha uma parada de eles serem invisíveis e coisa e tal? - Quis saber Gabriel.


Acho que só vale para espelhos. E acho que nem todos são assim, deve ter várias espécies… - Ponderou Camilo.


E com uma barriga dessas, como que não vai aparecer, né? - Percebeu Gabriel.


Mas e aí, o que mais o mendigo falou? - Quis saber Luan.


Ele comentou que, depois que matou as três, o vampiro levou os corpos para fora do cemitério e disse que o reinado de terror dele estava só começando. Provavelmente, deixou os cadáveres em algum lugar para a polícia encontrar e deduzir que foi só um acidente. De todo modo, o mendigo postou o vídeo na internet, a polícia foi atrás dele e o levaram para depor e tals. E, agora, estão reconstituindo todo o crime pelo sangue das meninas espalhado pelo chão do cemitério e pelo rastro de merda que o mendigo deixou enquanto se cagava gravando os vídeos - disse Camilo.


Que bom que ele estava com alguma coisa para gravar, né? - Comentou Gabriel.


Pois é. Hoje em dia, todo mundo tem um smartphone com câmera… - Percebeu Luan.


Sim, mas o ponto que eu queria discutir é que temos um vampiro na cidade… a gente deveria pegar umas estacas de madeira e o matar, né? - Comentou Camilo.


A gente? Por que a gente? - Quis saber Gabriel.


Ué, a gente joga videogames e RPGs sobre o tema, somos os especialistas aqui…


Eu sou especialista em jogos de vampiro, não em sair por aí caçando assassinos - reclamou Gabriel.


É melhor deixar isso com a polícia - esquivou-se Luan.


Mas a polícia não vai encontrar um vampiro, já que não encontram nem bandidos comuns. E se a gente vencer um vampiro, as meninas vão se interessar por nós - argumentou Camilo.


Se a gente morrer para um vampiro, não vai mudar nada se vão se interessar por nós ou não. E se a gente vencer, também não muda nada: os babacas do futebol não matam vampiros, mas as meninas pagam um pau pra eles. Se a gente matar um vampiro, não só continuaremos sem chances com elas, como ainda ficaremos queimados com as góticas… deixa pra polícia e para de palhaçada - irritou-se Gabriel.


Se matassem sua irmã, você não ia querer que o vampiro pagasse? - Questionou Camilo.


Se matassem minha irmã, eu pagava o vampiro - disse Gabriel.


Sério, fomos liberados das aulas e só nós continuamos na escola. Vamos sair daqui, comer alguma coisa e conversar noutro lugar - propôs Luan.

Os amigos foram a uma hamburgueria e lá, muito convenientemente, comeram hambúrgueres. Também conversaram sobre o evento do momento e tomaram uma decisão importante: deixar os criminosos para a polícia e continuar com os jogos.

Com efeito, eles mantiveram essa firme convicção durante toda a semana, mesmo que, a cada noite, algumas pessoas morressem e tivessem o sangue drenado, sem que a polícia fizesse qualquer coisa para impedir os crimes.

Seguiram com a rotina inabalável de sempre, mas, no sábado, houve uma mudança: decidiram jogar RPG online, em vez de presencial, pois temiam sair de casa quando escurecesse e, com isso, tornarem-se a próxima vítima: todos os três se dispuseram a ser anfitriões, mas nenhum deles quis ser o visitante, por isso, jogaram a distância.

Os ataques continuaram por mais alguns dias, até que, enfim, algo aconteceu. Os relatos foram meio ambíguos, já que dados por um mendigo (o mesmo que tinha feito a filmagem inicial e que, desde então, nunca mais tinha pisado no cemitério): ao que tudo indicava, em uma fatídica noite, o vampiro decidiu atacar aquele pobre morador de rua.

Conde Otavius chegou de forma sorrateira e agarrou a vítima pelo pescoço. Na primeira golada de sangue, sentiu-se mal. Na verdade, ao beber o sangue, ficou muito chapado, já que o mendigo acabara de fumar uma pedrinha de crack e de beber um forte aguardente, mas essa hipótese não foi aventada pelo morador de rua. Ele apenas se limitou a dizer que o vampiro sentiu-se mal e saiu tropeçando pela rua e, em dado momento, até mesmo deu uma cambalhota e acenou para o céu. Pouco tempo depois, um carro passou em alta velocidade - provavelmente dirigido por um bêbado ou um maluco apressado - e atropelou o ser maligno.

Com o impacto, Otavius foi arremessado algumas centenas de metros e se espatifou em uma cerca de madeira. Curiosamente, cercas de madeira são feitas de madeira, o mesmo material das estacas de madeira: que o leitor adivinhe o desfecho.

Bom, como nem todos conseguem ligar os pontos e lacunas, é melhor que digamos logo de uma vez o que aconteceu: o vampiro se arrebentou todo na cerca e o motorista, preocupado com o ocorrido, aproveitou a madeira e ateou fogo na vítima dentuça, livrando-se, com isso, de algum possível processo e de evidências do acidente. De consciência tranquila, voltou ao carro e continuou a dirigir em alta velocidade. De manhã, levou o veículo para o funileiro e comentou que tinha se acidentado durante uma baliza.

A polícia encontrou um cadáver carbonizado, com caninos gigantescos, mas achou que fosse apenas mais um mendigo incendiado por skinheads, por isso não ligou muito para o ocorrido. Quanto ao outro mendigo, apenas tomaram seu depoimento e o liberaram. Desde aquele dia, ele voltou a dormir no cemitério e nada de ruim lhe aconteceu. Pôde, então, descansar em paz.

Luan, Camilo e Gabriel, por sua vez, seguiram com seus jogos online e RPGs, temendo sair de casa à noite. Foram protagonistas que não brilharam muito, é verdade, mas permaneceram seguros e bem. Não venceram vampiros, mas também não se feriram; não fizeram sucesso com as garotas, tampouco se queimaram com as góticas. Por não tentarem bancar os heróis, tiveram a chance de morrer, respectivamente, de câncer, infarto e Covid-19, muitos anos depois (anos que foram gastos em jogos online, empregos enfadonhos e as coisas de sempre).

Nisso, temos uma lição importante: se algo ruim acontecer e você não se importar ou apenas aguardar, é bem possível que outros resolvam a situação sem o seu envolvimento. Bem melhor do que se arriscar gratuitamente, certo? Outra lição importante é que se as pessoas puderem se drogar e dirigir alcoolizadas, talvez, no fim das contas, isso seja bom. Se bem que, se as pessoas puderem fazer isso, elas provavelmente causarão ainda mais mortes e problemas, o que será ainda pior (portanto, é melhor apagarmos essa parte quando formos editar o conto, já que esta não é uma boa lição de moral…). De todo modo, a primeira lição segue valendo: se você fingir com bastante convicção que não é contigo, não será. Apenas espere, pois outra pessoa pode resolver o problema - ou ele pode se resolver sozinho.

E, com isso, escapamos de uma história de vampiro sem recorrer a batalhas, planos e clichês. Eita preula.

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