Antologia Halloween - Contos de Terror no Brasil - 1x09


Sinopse: Um estranho garoto narra um acontecimento de uma noite de férias, com uma macabra diversão.


Diversões de Férias
de Matheus Adoni

No último dia de aula do 2º ano do colegial, todos notaram minha alegria e ansiedade. Não era para menos: eu sorria de orelha a orelha. Finalmente teria tempo para me divertir e fazer coisas excitantes.

Durante todo aquele ano, tive que bancar o bom garoto, e acho que foi justamente por isso que todos se surpreenderam com minha animação com o fim das aulas. Eu realmente gosto de estudar, mas não é o suficiente para mim. Preciso sentir a vida.

Após o fim das aulas, caminhei com alguns colegas até suas casas; precisava ser o mais agradável possível enquanto houvesse alguém por perto. Nas noites que se seguiriam, um outro eu – o meu eu de verdade – sairia, sem necessidade de lua cheia no céu.

Naqueles primeiros dias de férias esperei a agitação inicial passar, pois são neles que as pessoas, em especial os jovens, começam a sair e passar a madrugada nas ruas; mas isso logo acaba, e passam a voltar cada vez mais cedo para suas casas. Então as ruas ficam desertas e a noite é minha.

Durante a primeira semana, saí com meus colegas e amigos dos quais gosto bastante – afinal, apesar de tudo, pude verificar que não sou um sociopata, e sinto de maneira intensa. Comi batata frita com eles e uma garota até tentou me “namorar”. Mas não era esse o meu desejo para aquelas noites; meus planos eram outros. Como já disse, preciso sentir a vida. 

Na metade da segunda semana de férias, uns onze dias após o fim das aulas, peguei minhas coisas e saí de casa, quando já passava da meia-noite. Como era de se esperar de uma madrugada no meio da semana, a cidade estava bastante calma e as ruas, quase desertas. Eu estava usando uma toca que havia ganhado como presente de aniversário, e eu só a usava (e ainda uso) em ocasiões especiais.

Aquela parte da cidade e eu já havia caminhado alguns quilômetros, mas tenho bom preparo e estou acostumado a caminhadas longas – era bem triste: ali estava a maior parte dos moradores de rua, e à noite eles iam para becos e para baixo das pontes e viadutos. Fui para ruas de pouca movimentação e andei por elas sem encontrar ninguém. Eu sabia que já passava das duas da manhã, e estava prestes a resolver ir para casa. Então eu o vi: estava deitado na calçada, sob a sombra de uma árvore, onde a luz dos postes não o denunciava. Estava sobre um papelão, e coberto por alguns trapos.

A rua, por sorte, era das mais desertas pela qual havia passado naquela noite. Ele estava dormindo. Então me aproximei. A dois metros percebi que era um homem alto, mas bem magro. Puxei a bola de tecidos de meu bolso com a mão esquerda e, com a direita, puxei a navalha presa com um elástico no meu braço esquerdo. Agachei-me, lenta e silenciosamente, até sentir o hálito dele; coloquei a lâmina na lateral de seus pescoços, sobre a jugular, e a cortei: ele abriu os olhos, confuso, sem entender. Viu-me, sentiu o sangue e percebeu o que acontecia. Seu olhar, ao perceber o fim tão próximo, foi emocionante para mim. Quando ele abriu a boca para tentar gritar, larguei a navalha e enfiei a bola de pano em sua boca. Empurrei-a com força, enchendo sua boca até a garganta. Ele se agitou, tentando se levantar, se libertar das amarras da morte.

Seus braços sacudiam no ar. Meu joelho estava em seu peito, mas ele reuniu forças sabe-se lá de onde e quase se levantou. Então o agarrei pelos cabelos e forcei para baixo e bati sua cabeça contra o concreto da calçada; uma, duas, três vezes, até ouvir o crânio se partir e o sangue lhe molhar os cabelos. Ele ficou bem calmo, como uma criança de castigo, e assim como uma criança vi lágrimas saírem de seus olhos.

Meu coração batia muito rápido. Sentei-me ao lado dele, que estava com os olhos abertos, mas parecia prestes a adormecer. Sua respiração estava pesada. Ele esticou a mão esquerda e tentou me tocar. Iria recolher meu braço, mas então permiti que ele segurasse-me pelo pulso, que apertasse meu braço.

A mão dele estava limpa, não havia sangue. Tirei a luva cirúrgica e coloquei sobre o corte no pescoço daquele homem, e pressionei levemente, sentindo o sangue passar entre meus dedos; eu preciso sentir a vida. E aquela estava indo embora.

 

Conto escrito por
Matheus Adoni

CAL - Comissão de Autores Literários
Agnes Izumi Nagashima
Eliane Rodrigues
Francisco Caetano 
Gisela Lopes Peçanha
Lígia Diniz Donega
Márcio André Silva Garcia
Paulo Luís Ferreira
Pedro Panhoca
Rosside Rodrigues Machado

Produção
Bruno Olsen
Cristina Ravela


Esta é uma obra de ficção virtual sem fins lucrativos. Qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência.


REALIZAÇÃO

Copyright 
© 2021 - webtvplay
www.webtvplayonline.com.br
Todos os direitos reservados
Proibida a cópia ou a reprodução




Relacionados

0 comentários: