0:00 min       RAÍZA TEMPORADA FINAL     SÉRIE
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WEBTVPLAY APRESENTA
RAÍZA 4


Série de
Cristina Ravela

Episódio 11 de 14
"Teoria do Sacrifício"



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ATO DE ABERTURA

FADE IN

NA TELA DE UM LAPTOP, alguns vídeos e imagens sendo exibidos:

  1. Dcr e Lila, à beira de uma praia, animados. Roger surge no meio, faz careta, todos riem.

  2. Dcr e Lila aos beijos. Dcr coloca a mão na câmera, tenta afastar, Lila ri.

  3. Jornal antigo, na coluna com a seguinte manchete: Lila Machado no Jet-Set - “Nosso querido Danilo Rodrigues vem sofrendo pesadelos recorrentes pós-trauma, mas acredita-se que o seu estado de saúde esteja relacionado ainda à perda brutal de sua esposa”.

A tela é desligada.

CENA 1 APTº 3011 - QUARTO DE DCR [INT. / MANHÃ]

Dcr, de bruços, fechando o laptop sobre a cama.

ÂNGULO ALTO

Dcr vira-se, fica olhando pro teto, olhar melancólico. Suas roupas estão amarrotadas; Barba por fazer; Cara de quem não dormiu. Restos de comida sobre a cama. Dcr, no susto, olha para o lado e se levanta.

DCR: Como você entrou aqui?

Valentina, na porta, braços cruzados.

VALENTINA: Desculpe. Depois de tudo o que aconteceu tive medo de deixá-lo sozinho. (balança o molho de chaves no dedo) Fiz cópias.

DCR: Não se preocupe; Eu não iria me matar.

Valentina se aproxima e, com nojo, pega um pedaço de pizza da cama.

VALENTINA: Certeza? Vem, deixa eu cuidar de você.

CORTE DESCONTÍNUO

CENA 2 APTº 3011 - COZINHA [INT. / MANHÃ]

Valentina apanha o jarro de café e leva até a mesa, já posta. Há pães, geleia, manteiga, torradas e frutas. Dcr aponta da porta, de banho tomado, sem camisa, mas de calça jeans. Valentina espia, gostando.

DCR: Desculpe. Eu não tenho nenhuma camisa passada.

Valentina deixa o jarro sobre a mesa e se aproxima, só focando no peitoral do herói.

VALENTINA: Tudo bem, eu posso passar pra você. (tenta tocar em seu peito) Mas também tá calor, né /

Dcr segura a tempo. Olhar marcante entre os dois.

DCR: Por favor, não. Só faz uma semana que ela morreu. Mas sinto que ela vai chegar a qualquer momento.

Valentina assente, meio chateada. Volta para a mesa.

VALENTINA: Foi mal...Vamos tomar café?

DCR: A mesa tá bonita.

VALENTINA: Alguma coisa eu tinha que aprender naquela lanchonete, né?

Ambos sorriem.

Valentina apanha um controle remoto sobre a bancada e liga a TV, no alto, sobre um suporte.

DCR: A mídia só fala da volta da ditadura. Eu não aguento mais isso.

VALENTINA: É que hoje o ditador fará um pronunciamento. Dizem que a barra vai pesar pro Brasil.

Dcr, já se servindo.

DCR: Já tá pesando com esse Cipriano no poder.

Valentina concorda.

CENA 2 REDAÇÃO CARIOCA NEWS - ESCRITÓRIO [INT. / MANHÃ]

Alexandre está em pé, atrás da mesa, guardando alguns papéis. Se prepara para sair. A porta é aberta e Roger entra, sério.

ROGER: Boss, mandou me chamar?

ALEXANDRE: Sim, Roger, preciso que você tome conta de tudo de novo pra mim. O Danilo só deve voltar em alguns dias.

Roger repara na pressa do chefe.

ROGER: Sim, claro, sempre, mas...Desculpe perguntar, boss, mas acha que eu posso ficar no lugar da Lila e...Do senhor? A Raíza parece ter mais segurança. Ela taí! A garota perdeu o primo, mas nem quis tirar folga.

ALEXANDRE: Eu vou obrigá-la a tirar uma semana que seja. E quanto a você (ele contorna a mesa e apoia a mão em seu ombro) eu tenho certeza de que a Lila, onde estiver, aprecia vê-lo em seu lugar. Sempre almejou um destaque. Você merece.

ROGER: Eu preferia continuar como fotógrafo a perder a minha amiga.

Alexandre o abraça.

Uma garota loira aparece da porta, preocupada.

GAROTA #1: Chefe, com licença.

ALEXANDRE: Diga.

GAROTA #1: O Zacarta tá fazendo um pronunciamento agora. Acho melhor assistir.

CORTE DESCONTÍNUO

CENA 3 REDAÇÃO CARIOCA NEWS [INT. / MANHÃ]

Todos a postos, diante de um computador. Cipriano, na sala de sua mansão, ao lado de uma Aimée séria, fala diante da imprensa.

CIPRIANO (no vídeo): Para que tenhamos um mundo mais justo precisamos começar por nós mesmos. Cada um fazendo a sua parte. Mas as pessoas, com a tecnologia em mãos, não o fazem; Preferem, no entanto, convocar amigos para desenfrear uma guerra, ainda que por motivos nobres.

ALEXANDRE: Tem uma lábia esse miserável...

CIPRIANO (no vídeo): Infelizmente, duas pessoas morreram vitimadas por essa barbárie. Não devíamos usar a internet para disseminar o mal. A tecnologia não foi bem empregada em nossa sociedade. Por conta disso, todos pagarão por esses crimes. Decreto, portanto, por tempo indeterminado, o fim da internet.

O pessoal da Redação comentando, fazendo barulho.

CENA 4 APTº 3011 - COZINHA [INT. / MANHÃ]

Valentina soca a mesa, irada.

VALENTINA: Gente, esse cara quer que a gente retroceda 30 anos!

Dcr, focado na TV.

CIPRIANO (no vídeo): E como é de se supor, o assassino da jornalista Lila Machado e de João Batista Lopes, já foi capturado.

Enquanto ele fala, Dcr mantém-se focado.

CIPRIANO (V.O): Para que parentes e amigos de ambos possam dormir tranquilos, o jornalista Hans Ströher será morto em praça pública.

ZOOM-IN em Dcr esboçando raiva.

Suspense AUMENTA

ATÉ QUE

CORTA PARA



FIM DO ATO DE ABERTURA



4x11

TEORIA DO SACRIFÍCIO

PRIMEIRO ATO



FADE IN

Fachada da delegacia/


CENA 5 DELEGACIA - CARCERAGEM [INT. MANHÃ]


O carcereiro conduz Dcr até uma cela. Muito burburinho.


DETENTO #1: Ih olha lá! Esse herói não sai mais daqui.


RISOS.


O carcereiro sai. De dentro da cela, aparece Hans, desalinhado, com marcas de socos na cara. Ele encara Dcr com certo temor; Dcr, com frieza, treme os lábios, quase perdendo o controle.


HANS (força o sarcasmo): Veio me agredir também? Entra na fila.


DCR: Eu só vim te perguntar se você realmente matou a Lila e o João?


HANS: Fui capturado, não fui? O ditador não disse que eu matei?  Qual a dúvida?


DCR: Por que fez isso? Você conhecia a Lila há anos. Como pôde...? Alguém mandou você fazer isso, não foi? Diz, foi o Cipriano?


HANS: Você tá me chamando de capacho, garoto? É isso? O herói de mentira da Lila acha que eu não sei pensar sozinho?


Dcr o agarra pela gola da camisa e o traz de contra a grade. Os detentos vibram.


DCR: Você presta atenção em como fala comigo! Eu posso muito bem ser o seu carrasco durante o julgamento. E você pode ter certeza de que eu estarei lá...Só pra te ver morrer.

E o larga, bruscamente. Forte troca de olhares. Dcr vai embora, enquanto Hans pensa, medroso.

CENA 6 REDAÇÃO CARIOCA NEWS - ESTACIONAMENTO [INT. / MANHÃ]

A porta do elevador abre e Raíza sai, ajeitando a bolsa a tiracolo, pensativa. CLOSE em seu rosto apático. É quando Walter surge logo atrás.

WALTER: Senhorita?

Raíza se volta, sobressaltada.

WALTER: Desculpe. Primeiramente, meus sentimentos pela sua perda.

RAÍZA (desarma): Obrigada.

WALTER: Sei que a perda ainda está muito recente, mas eu precisava falar contigo. Sobre os últimos momentos de vida da Lila.

Raíza se mostra interessada.

RAÍZA: O senhor tava na Assembleia quando tudo ocorreu, não é? Inclusive, foi acusado de corrupção.

WALTER: Armação do Zacarta, acredite em mim. Mas não vim discutir política. Naquele dia eu a procurei para revelar os planos dele. Eu queria impedir essa insanidade toda que está acontecendo, mas…

RAÍZA: ...Ela não acreditou?

WALTER (mente): Pior! Disse que já sabia de tudo! (Raíza, surpresa) E ainda riu na minha cara!

RAÍZA: Explica isso direito, seu Walter. Ela sabia de tudo e mesmo assim foi para a Assembleia?

Walter olha ao redor, pra ver se não há ninguém.

WALTER (murmura): Eles eram cúmplices, mas coitada...Não conseguiu sair a tempo de lá. E ela que gostava tanto de uma bomba…(aproxima a boca do ouvido de Raíza, já em alerta / mexe os dedos) Você entendeu? Bomba jornalística...

Walter sorri, sádico.

RAÍZA: Seu estúpido!

E tenta acertar um tapa, mas Walter segura rapidamente.

WALTER: Tsc, tsc.

E devolve num TAPA que faz Raíza virar o rosto. Quando volta a encará-lo, lá está Cipriano, rindo.

CIPRIANO: Gostou da minha performance? Já pensou o estrago que seria se eu aparecesse para o Danilo como a Lila? (Raíza, tensa, irada / Cipriano faz movimentos no ar) E a Lila foge, salta de um prédio, e lá vai o herói de brinquedo soltar suas peças numa queda livre.

E gargalha.

CIPRIANO: O que a gente aprende com uma escritora se não a criar enredos maravilhosos, não é?

Em Raíza, olhos marejados de frustração e ódio.

Corta para a fachada do prédio onde mora Dcr/

CENA 7 APTº 3011 - SALA [INT. / MANHÃ]

Dcr, sentado no sofá, se recosta, passando as mãos no rosto, num misto de raiva e cansaço.

DCR: Eu queria tê-lo esganado, isso sim.

Alexandre se senta ao seu lado, compreensível.

ALEXANDRE: Eu ainda não acredito nisso. Pra mim é uma armação das grandes desse Cipriano. Você acha que/

DCR: Ele afirmou que matou, Alexandre! Ele não ia assumir um crime sabendo que vai pro cadafalso.

BARULHO de chave abrindo uma porta.

ALEXANDRE: Eu conheço esse rapaz há anos. Ele não é um assassino!

DCR: Ele assumiu. E embora eu saiba que o Cipriano tá envolvido nisso até o pescoço, eu não vou começar tudo de novo pra ir em busca do culpado.

RAÍZA (O.S): E agora seria bem mais difícil.

ALEXANDRE: Raíza, por que diz isso?

RAÍZA: Porque eu acabei de ser abordada por Walter Cury na saída da redação.

ALEXANDRE: Mas o que ele queria?

RAÍZA: Ele não, mas Cipriano. Ele pode se passar por quem ele quiser. (T) Por qualquer um.

Closes alternados entre ela, Alexandre, até parar em Dcr, preocupado.

CENA 8 DELEGACIA - CARCERAGEM [INT. / MANHÃ]

Cipriano se aproxima da grade, faz o tipo superior. Os detentos se afastam, com medo. Hans vem no meio deles, segura a grade, meio aflito.

CIPRIANO: Como foi?

HANS (murmura): Ele acreditou. Mas você disse que vai me livrar dessa, não é? Porque o Danilo ameaçou ser meu carrasco. Vê lá, hen!

CIPRIANO (falso): Você acha que o Danilo não vai lhe perdoar? Ele é um bom garoto. O verdadeiro arquétipo do herói.

HANS: Não há nada pra ser perdoado e você sabe disso. Eu não matei ninguém, poxa!

CIPRIANO: Calma, meu nobre amigo. O seu sacrifício será bem recompensado. De um jeito ou de outro você acabará nos braços do povo.

HANS (animado): Nos braços do povo? Por acaso você vai apontar o verdadeiro culpado e me livrar do cadafalso? O povo ficará do meu lado, é isso?

Cipriano observa-o, atentamente, com ar de pena, asco.

CIPRIANO: O povo sempre fica do lado de quem eu quiser. Até mais breve, querido amigo.

Cipriano sai de nossas vistas. Em Hans, ansioso.

Corta para Cipriano caminhando pelo

CORREDOR

Um guarda passa a caminhar lado a lado.

CIPRIANO: Tudo pronto para hoje à tarde?

GUARDA #1: Vinte pessoas. Acha que vamos precisar de mais?

CIPRIANO: Duvido muito. Só o Danilo fará o serviço sozinho. Hans será morto por ordem dele.

FORTE SUSPENSE

Cipriano e o guarda atravessam a tela.

FADE TO BLACK


FIM DO PRIMEIRO ATO



SEGUNDO ATO



FADE IN

CENA 9 MANSÃO DE CIPRIANO – ESCRITÓRIO [INT. / MANHÃ]

Walter sentado, nervoso, balança o pé, enquanto espera algo. A porta é aberta, Cipriano entra.

CIPRIANO: Adiantado, amigo. Gosto disso.

Walter se levanta prontamente, ergue a mão. Ambos se cumprimentam.

CIPRIANO: Por favor, sente-se. (retira o capuz e coloca sobre o cabide) Você deve imaginar o motivo de tê-lo chamado, não é?

Cipriano se senta. Walter, já se encontrando sentado, sua.

WALTER: Bem, acho que só a Raíza é vidente.

Ri e tosse ao mesmo tempo. Cipriano faz a linha dura, só observa.

WALTER: Ahn...Foi você que me atacou na Assembleia, não foi?

CIPRIANO: Que maneira horrível de descrever meu ato de bravura. Sabe que se não fosse por eu ter lhe dado um...toque, você teria sido velado no mesmo dia que a Lila e o João, não sabe?

Walter, constrangido e temeroso, não sabe nem pra que lado olhar.

WALTER: Vim pra ouvir minha sentença?

CIPRIANO: Não sou intolerante, Walter. Eu poderia levá-lo ao cadafalso pelo crime de corrupção e de alta traição, mas tenho planos audaciosos e preciso de você ao meu lado.

WALTER: No que exatamente?

CIPRIANO: No que eu precisar, nobre amigo. Aguarde instruções.

Em Walter, curioso.

CENA 10 COFFEE BREAK [INT. / MANHÃ]

Local movimentado, muita conversaria. Valentina serve as mesas, afobada. Sai dalí, quase se esbarra em outra garçonete. Nervosa, deixa um bloco de notas cair e se abaixa para pegar.

VALENTINA: Isso é culpa do Marco!

Quando se levanta, dá com Marco diante dela, sorrindo, com as mãos nos bolsos da calça.

MARCO (irônico): Bom dia, Valentina! Tudo bem por aqui?

VALENTINA (irônica): Tudo ótimo sim. Dois fornecedores te procuraram hoje, tive que dizer que você anda consolando sua noiva por prazo indeterminado, mas que deve, certamente, aparecer no fim do dia. E como pode ver, isso aqui tá lotado. Sim, tá tudo ótimo mesmo.

E dá as costas, indo em direção ao balcão. Marco vai atrás.

MARCO: Eu não tenho dado a devida atenção a esse negócio, admito. (Valentina faz que sim, nervosa, enquanto contorna o balcão) Por isso, pretendo ir embora daqui com a Raíza.

VALENTINA (preocupada): E o que você fará com isso tudo?

MARCO: Pretendo vender.

VALENTINA: Mas é o quê?!

MARCO: Com você dentro, querida. Quanto acha que posso cobrar?

Valentina soca seu ombro.

VALENTINA: Cachorro! Não sou objeto pra ser vendida, não tá?

MARCO: Eu tava brincando, querida. Claro que eu não faria isso. Mas você vai ter que se virar após a venda. Isso vai.

Marco sai, debochado. Valentina vai atrás.

VALENTINA: Ei! Tá esquecendo que somos sócios? Você teria que vender sua parte, preferencialmente, a mim.

MARCO: Que não tendo dinheiro para bancar...(pisca o olho) Leva um café pra mim? Obrigado.

Em Valentina, possessa.

CENA 11 CARIOCA NEWS – ESCRITÓRIO [INT. / MANHÃ]

Alexandre, ao telefone, sentado à mesa. A porta é aberta e Roger dá uma leve batida.

ROGER: Boss, tenho más notícias.

Alexandre faz sinal para ele entrar.

ALEXANDRE (ao tel.): Depois nos falamos.

Ele desliga o telefone. Roger se aproxima, afobado.

ALEXANDRE: O tal Zacarta aprontou mais alguma?

ROGER: Sim. Ele mandou avisar que quer a gente escrevendo uma matéria elogiando-o como líder do Brasil.

ALEXANDRE: Ele tá louco?

ROGER: E quer que a Carioca demonstre apoio a ele, ou senão/

Alexandre se levanta, socando a mesa.

ALEXANDRE: Mas que diabos! Prefiro fechar isso aqui a fazer uma coisa dessas! (pensa / Roger na espera) Ah, faz logo essa matéria. Droga! Por que ele não manda a Novo Dia fazer isso, por quê?

ROGER: Acho que não seria um belo merchan pra ele ser apoiado pelo jornal onde o inimigo do povo trabalhou.

Alexandre lhe dá uma olhada. Roger dá de ombros.

ALEXANDRE: Tenho pena desse garoto. Algo me diz que ele tá servindo pra algo muito maior do que a gente imagina.

ROGER: O senhor sabe que é dado ao condenado o direito de confessar o crime e se arrepender de seus atos, né? Mas sua libertação só depende da vítima. Acha que o Nilo e a Raíza vão perdoá-lo?

Alexandre se senta novamente, expressão de vencido.

ALEXANDRE: É isso que me preocupa, Roger. É o que me preocupa.

Em Roger.

CORTA PARA a Vista aérea da cidade até a fachada da Igreja Evangélica Mão Divina e a casa do Pastor Everton /



CENA 12 CASA DO PASTOR EVERTON - SALA [INT. / MANHÃ]

A porta entreaberta. Sônia (já sem a faixa no pescoço e exibindo uma cicatriz) entra, cautelosa, espia ao redor, sem entender.

SÔNIA: Josué?

Sônia fecha a porta e caminha em direção ao corredor.

CORTE DESCONTÍNUO

Em Sônia, se aproximando da porta de um quarto, entreaberta. SOM de choro. A mão de Sônia toca a maçaneta e /

Josué, no QUARTO, sentado na cama e de costas para a porta. Ele tem uma foto em mãos, enquanto chora.

SÔNIA: Josué?

Josué, no susto, tenta esconder a foto, se atrapalha e acaba deixando-a cair. Sônia é mais rápida e apanha a foto do chão. Pelo seu P.V, a imagem é de João.

SÔNIA: Eu te procurei na igreja. Você...Não está bem, não é?

Josué, constrangido, pega a foto da mão dela e joga dentro da gaveta.

JOSUÉ: Por que eu não estaria? Por que um assassino feito eu sofreria com o assassinato do próprio filho? Hã?

Fecha a gaveta e se levanta, bruscamente.

JOSUÉ (revoltado): Eu desgracei minha família. Normal eu terminar sozinho, não acha?

Sônia toca em suas mãos.

SÔNIA: Não, Josué! Ninguém paga até o fim dos dias se houver perdão e arrependimento de seus atos.

JOSUÉ: E eu vou pedir perdão pra quem? Meu irmão tá morto! Meu filho tá morto! A Raíza me odeia! Eu vou pedir perdão pra QUEM? PRA QUEM?

Josué para um instante, passa a mão na testa. Treme. Sônia observa, esboçando lamento.

JOSUÉ (teatral / forçando o controle): Cê sabia que eu passei a infância toda implicando com o meu irmão? Bruno era um ingrato; Eu era sempre o invejoso, aquele que não prestava pra nada. Mas quem ficou com a garota que era minha? Ele! Quem teve uma filha com ela? Ele!

SÔNIA: Josué, por favor!

JOSUÉ: Não, você tem que ouvir até o fim. Eu quero que você entenda que se ele tivesse sido legal comigo, muita coisa teria sido diferente. Mas eu era o errado de qualquer maneira. Me envolvi com a Ângela, mas ela tava com o meu outro irmão. Quando ela engravidou, ele não quis assumir porque sabia que o filho não era dele, mas foi morto pelo sogro. Eu matei meus dois irmãos, você entende isso? E nunca, nunca assumi meu filho!

SÔNIA: O importante é você se arrepender e fazer diferente daqui por diante /

JOSUÉ: Sônia! Eu não suportei as minhas frustrações! O Bruno mudou muito após a morte de nossos pais, se tornou mais humilde e grato comigo, mas depois que embarquei na ideia de vingança, não consegui parar. Eu sempre odiei a Raíza, sempre! E consegui! Consegui separar todo mundo e agora só me resta a morte!

SÔNIA: Não diga isso! Os fiéis precisam de você /

JOSUÉ (explode): O meu filho precisava e eu nunca fiz nada! NADA!

Sônia o abraça forte e ele cai no choro compulsivo.

JOSUÉ: Não tem mais volta. Acabou pra mim.

SÔNIA: Não diga isso, irmão. Deus dá sempre uma chance para quem quer recomeçar. (desfaz o abraço e toca seu rosto, carinhosa) Eu te darei essa chance de novo. Não o deixarei sozinho nesta casa.

JOSUÉ: Você tem a sua vida, irmã. Deixe que eu me vá.

SÔNIA: Cael irá me entender. Ficarei aqui até arrumar outra pessoa que poderá te ajudar.

Josué abaixa a cabeça, sofrido. Aperta as mãos da beata, respira fundo.

JOSUÉ: Obrigado, irmã. Muito obrigado.

Sônia SAI das nossas vistas. Em Josué.

CORTE DESCONTÍNUO

CENA 13 CASA DO PASTOR EVERTON – BANHEIRO [INT. / MANHÃ]

Josué lavando o rosto. Até que ele para e se encara no espelho.

JOSUÉ: Como é bom contar a verdade... E ainda assim conseguir enganar.

E cai na gargalhada.

JOSUÉ (se imitando): Não tem mais volta. Acabou pra mim.

Nele, aos risos.

FADE OUT

FIM DO SEGUNDO ATO



TERCEIRO ATO

FADE IN

CENA 14 DELEGACIA [INT. / TARDE]

Movimentação típica, telefone TOCANDO. Dcr e Raíza aguardam, sentados, ao lado de outras pessoas. Um policial se aproxima e Dcr se levanta, afobado.

DCR: E aí?

Os dois se cumprimentam. O policial faz o mesmo com Raíza.

POLICIAl #1: O laudo da morte de João Batista saiu. Ele foi atingido por dois tiros, mas de armas diferentes, mas o tiro fatal foi à queima-roupa.

RAÍZA: E o exame de pólvora? Fizeram no Hans e na Rafaela? O tiro fatal saiu da arma dele mesmo?

DCR (repreensivo): Você ainda tem dúvidas, Raíza?

POLICIAL #1: Infelizmente, não fomos autorizados a realizar esses exames.

RAÍZA: Como não? Isso é de praxe.

POLICIAl #1: Acontece que o jornalista chegou aqui assumindo o crime, e Zacarta foi bastante enfático quando disse não querer nada que pudesse atrasar a condenação, uma vez que achou dispensável.

RAÍZA (para Dcr): Você não acha estranho?

DCR: Você tá estranha. Acha que o Cipriano vai depender da polícia para condenar quem ele quiser? Hans matou o João e planejou o da Lila. Isso é tudo.

Nos olhares entre o policial e Raíza.

CENA 15 CARIOCA NEWS – ESCRITÓRIO [INT. / TARDE]

Dcr e Raíza acabam de entrar e se surpreendem ao ver Beto, em pé, diante de Alexandre.

DCR: Beto?

BETO: Sei que vai parecer estranho a concorrência aqui, mas o seu Alexandre pediu que eu viesse.

DCR (arrogante): Veio defender o seu amigo, por acaso?

BETO: Sim, Hans pode não ter muitos escrúpulos, mas assim como a Lila, ele é uma boa pessoa. Não seria capaz de matar ninguém.

Dcr já vai se sentando.

DCR: Gostei do enredo. Vai escrever algum livro?

ALEXANDRE: Danilo, por favor.

DCR: Por favor digo eu! (para Beto) Hans quase te matou aquela vez na ferrovia e você vem me dizer que ele não seria capaz de matar?

BETO: Ele não tava em si. O Hans que eu conheço não agiria assim por livre e espontânea vontade.

RAÍZA: O Hans que conhecemos assumiu ter matado o meu primo e planejado o da Lila.

ALEXANDRE: Por que não começamos a pensar na hipótese de que ele tá assumindo esse crime a mando do Cipriano?

DCR: Por que insiste em defender o Hans? Ele ia assumir uma coisa que não fez em troca de quê? De um cargo ao lado do ditador?

BETO: E se ele foi ameaçado? Talvez o Cipriano não irá matá-lo no cadafalso. Quem sabe já tá programado pra aparecer outro culpado?

DCR: Então você concorda que o Hans pode sim ter matado?

BETO: Danilo, eu, mais do que ninguém, conheço o Hans. No dia do atentado ele tava muito nervoso, mal se concentrava no trabalho. Se ele recebeu a missão de matar alguém, ele não queria.

RAÍZA: João também não queria morrer. Mas morreu, né?

BETO: Escuta, você não é vidente?

Raíza lhe aponta o dedo, irada.

RAÍZA: Se tu me acusar de não ter previsto/

ALEXANDRE: Calma, menina! Calma, gente! É isso que o Zacarta quer. Ele quer briga, desordem, desunião. Por favor!

Raíza cruza os braços, chateada.

BETO: Vocês haviam dito que o João tava lá para se encontrar com a Rafaela, certo?

DCR: Esqueça! Raíza já deu um aperto nela e a louca ainda debochou da morte do João.

= = FLASHBACK = =

CENA 16 APTº DE RAFAELA – SALA [INT. / MANHÃ]

Rafaela abre a porta e Raíza entra, com olhar vidrado e frio sobre a inimiga.

RAFAELA: Raíza! Meus sinceros sentimentos pela sua perda. De novo, de novo, e de novo.

Rafaela sorri de deboche.

RAÍZA: No dia em que João morreu, você raptou a Ana e pediu que ele se encontrasse contigo na praça quinze.

Rafaela dá de ombros.

RAFAELA: Isso foi uma pergunta? A vidente não sabe o que aconteceu naquele dia? (as duas se encarando) Entendo...Muita coisa pra você prever, né não?

RAÍZA: Você o matou?

RAFAELA: Que coisa horrível!...Me acusar sem provas pode complicar pro seu lado, hen. Veja o que vai acontecer com o Hans. Poderia ser contigo, garota.

Em Raíza.

= = FIM DO FLASHBACK = =

CORTE DESCONTÍNUO

CENA 17 CARIOCA NEWS – ESCRITÓRIO [INT. / TARDE]

Raíza, braços cruzados, pensa no embate.

ALEXANDRE: Pensa bem, Danilo. Hans pode ter chance de se salvar, se vocês perdoá-lo.

Dcr balança a cabeça negativamente.

ALEXANDRE: Zacarta deve perguntar se vocês o perdoa. Estará nas mãos de vocês!

DCR: Não acredito que to ouvindo o senhor falar isso como se fosse fácil. E se tivéssemos perdoado o Josué? Olha onde ele tá e veja o que nós já perdemos? Perdão não torna ninguém melhor e nem me deixa feliz. (se levanta) Com licença.

Dcr abre a porta e sai.

ALEXANDRE: E você, Raíza?

Raíza reluta, respira fundo.

RAÍZA: Desculpe, com licença.

Raíza sai. Alexandre se senta, desolado e olha para Beto, que esboça o mesmo.

CENA 18 MANSÃO DE CAEL – QUARTO [INT. / TARDE]

Sônia está ao celular, enquanto abre o guarda-roupa e apanha umas blusas.

SÔNIA: Ai, Cael, atende.

Ela desiste, desliga o telefone e o coloca na cama junto das roupas. Há uma pequena mala sobre a cama. Volta para o guarda-roupa, tenta tirar os cabides e quando puxa, OUVE-SE um barulho. Sônia examina o chão do móvel, resolve tocar e a placa se move, para sua surpresa.

SÔNIA: O que é isso?

A beata desprende a placa e descobre uma caixa preta de metal. Pega com cuidado, ainda segurando as roupas, e a leva até a cama. Joga as roupas de um lado, se agacha e abre a misteriosa caixa.
DENTRO, há fitas VHS e um DVD, cada um com a seguinte inscrição: L.A House. Num dos compartimentos, um frasco contendo um líquido transparente (já visto no episódio 3x04), mas que Sônia ignora. A beata se concentra apenas nas fitas.

CORTE DESCONTÍNUO

Cael acaba de entrar no QUARTO, coloca as chaves sobre o criado mudo. Pelo seu P.V, uma mala arrumada sobre a cama e Sônia sentada na beirada, de olhar fixo para algo a sua frente.

VOLTA EM CAEL

CAEL: Que mala é essa?

SÔNIA: Tentei te ligar pra avisar, mas você não atendia.

CAEL: Desculpe. Eu tava com um fornecedor.

Cael se aproxima e tenta dar um beijo nela, mas a beata se esquiva.

SÔNIA: Eu pensei muito antes de decidir voltar pra casa. Mas não imaginei que você fosse me ajudar a decidir.

CAEL: O que tá dizendo? Voltar pra casa?

Sônia aperta o controle remoto e o direciona à

TV

Na qual são mostradas cenas da antiga boate L.A House, onde o pastor Everton discute e golpeia um sujeito com uma faca. A vítima ainda consegue acertar uma garrafa na cabeça do pastor. Seguranças intervém. Sônia aparece, arranca a faca das costas do bandido e desfere mais três vezes. (CENA 13 – episódio 4x05).

A tela é desligada.
Em Cael, atordoado.

CAEL: Sônia…

Sônia se levanta, chateada.

SÔNIA: Eu lembro muito bem quando você disse que quem cuidava das gravações da boate era seu irmão /

CAEL: Sônia, escuta /

SÔNIA (por cima / aumenta a voz): E que certamente ele guardou para ter algum benefício no futuro contra você. Agora, você pode explicar o que essas gravações faziam guardadas no fundo falso do armário? (T) Não, né? Você me enganou, me fez de trouxa!

Cael tenta tocá-la, mas ela desvia, brutalmente.

CAEL: Sônia, me ouça, eu quero explicar /

SÔNIA: Qual era a sua intenção? Me seduzir pra quê? (pensa) Claro...Aquilo aconteceu no dia em que a Sam ia subir ao cadafalso. Tudo pela liberdade daquela garota. (cobre o rosto, angustiada) Meu Deus! Como devem ter rido de mim! Josué tinha razão..Ele tinha razão!

Cael a segura pelos ombros, com força. Sônia o encara com olhos marejados.

CAEL: Eu errei! Admito que eu queria salvar a Sam e ajudar a recuperar a reputação do Danilo e da Raíza. Admito.

SÔNIA (raiva / frustrada): A reputação deles também? O que você fez exatamente?

Cael percebe que falou demais. Desvia o olhar, relutante.

SÔNIA: FALA!

CAEL: Eu te amo, Sônia. E eu to sendo mais verdadeiro do que nunca.

SÔNIA: Fala!

CAEL: Quando aquela placa da igreja caiu...(reluta) Não foi coincidência o Danilo ter aparecido e te salvado...Aquilo foi uma armação para melhorar a reputação dele diante de você e da população.

Sônia larga dele, surpresa, horrorizada. Respiração ofegante, lágrimas caem.

CAEL: Eu to arrependido, por favor /

SÔNIA: Arriscou a minha vida por eles...(grita) Foi obra tua isso aqui também (aponta para a cicatriz do seu pescoço)? Hen?

CAEL: Não, pelo amor de Deus /

Sônia treme de nervoso, coloca as mãos na cabeça, inconformada. Apanha a mala da cama.

SÔNIA: Eu não fico aqui nem mais um minuto.

CAEL: Sônia, presta atenção, eu jamais lhe faria mal /

Sônia vai saindo, decidida.

SÔNIA: Não venha atrás de mim, Micael. Você não me merece.

E SAI do quarto. Cael tenta ir atrás, mas para na porta, bate na parede, irado. Depois retorna à caixa preta. Dá uma olhada, meio surpreso e pega o frasco, analisando-o. Em Cael.

FADE OUT

FADE IN

CENA 19 PRAÇA XV [INT. / TARDE]

Vista aérea da Praça já cercada pela população. O cadafalso erguido e dois policiais posicionados lado a lado. A ausência de uma forca chama a atenção.

Corta para uma repórter (negra, cabelos curtos e crespos, 30 anos) diante de uma câmera.

REPÓRTER #1: O jornalista da Novo Dia, Hans Ströher, deverá ser condenado dentro de instantes acusado pela morte da jornalista Lila Machado e de João Batista Lopes, primo de Raíza Maciel, a vidente, durante um atentado à Assembleia Legislativa, semana passada. A expectativa fica sobre a possibilidade de Hans Ströher ser perdoado e salvo da morte, coisa que a população não acredita que vai acontecer.

Corta para um grupo que abre caminho para Dcr, Raíza e Ana passarem.

DCR: É impressão minha ou eles ainda não colocaram uma forca alí?

RAÍZA: Tenho a sensação de que nem vão colocar…

Alexandre, Sam, Beto e Roger vem empurrando o povo até os heróis.

ALEXANDRE: E então? Já decidiram o que vão fazer?

BETO: Pensa bem, Danilo. Lila não criou um vilão; Criou um herói pra ser respeitado e querido por todos.

Roger toca o ombro de Danilo, compadecido.

ROGER: Eu conheci a Lila e o Hans nos tempos do colegial. E mesmo sofrendo com tudo isso, não consigo odiar o Hans.

DCR: Eu não o conheci nos tempos do colegial. Consigo odiá-lo muito bem.

ROGER (olha para Raíza / aflito): Amiga, ele tá sendo influenciado, ele sempre foi muito influenciável, mas lembra que não há provas contundentes de que ele matou os dois. Já o Josué você teve a prova. E ele nem foi morto por causa disso.

Os dois se olham firmes.

CIPRIANO (O.S): Por favor, por favor! Peço a atenção de todos vocês.

Roger e Raíza ainda se encarando, até que passam a olhar para o

CADAFALSO

Onde Cipriano está ao lado de Hans, este de pé, mãos voltadas para trás, esboçando medo.

CIPRIANO: Eu imagino que todos vocês devem estar sentindo falta de uma forca. Mas em conversa com o nosso amigo e pastor Josué (Josué está próximo ao palco) tomei a sábia decisão de cobrar uma dívida no mesmo valor do que foi pago.

Closes alternados entre Dcr, Raíza e Alexandre. Marco chegando alí com Valentina, esta envolve Dcr num abraço.

CIPRIANO: Isso significa que, a ideia de quem mata pela espada, pela espada perecerá só teria valor se as pessoas passassem pelo que fez sofrer. Usando algumas palavras semelhantes do nosso pastor Josué, pai de uma das vítimas, se você mata seu irmão a golpes de faca, justo seria se você fosse morto a golpes de faca.

Josué entreolha os presentes, surpreso com o sarcasmo. Encara Cipriano com raiva.

REPÓRTER #1: O que isso quer dizer, senhor? Hans Ströher será morto a tiros?

BURBURINHOS. Na cara de Hans, em pânico.

CIPRIANO: Mais do que isso, nobre repórter. Darei a chance de duas pessoas vingarem tais mortes.

Cipriano abre as mãos e os policiais entregam duas pistolas a ele. Encarando Dcr e Raíza, do alto, Cipriano oferece as armas.

CIPRIANO: Façam as honras?

SURPRESA na expressão do povo. Em Dcr e Raíza, petrificados com o convite.

FORTE SUSPENSE

FADE OUT

FIM DO TERCEIRO ATO



QUARTO ATO

FADE IN

CENA 20 PRAÇA XV [INT. / TARDE]

Dcr e Raíza ainda encarando as armas.

CIPRIANO: Estou dando a chance que vocês nunca tiveram de vingar a morte de alguém querido. Sei o quanto deve doer ver um assassino circular pela cidade como se nada tivesse acontecido.

Dcr respira ofegante, expressão de fúria.

CIPRIANO: O João agonizou até a morte. A sua amada Lila também deve ter sofrido horrores, não? Ou será que vocês vão perdoá-lo?

Dcr arranca a ARMA de suas mãos, mas Raíza continua na dela.

ALEXANDRE: Por favor, Danilo! Você não é um assassino!

POVO: Mata mesmo! - Prova que tu é o diabo em pessoa! - A nossa Lila merece justiça! (em brado) Justiça! Justiça! Justiça!

Cipriano abre caminho e revela Hans em neuras, suando frio. Dcr APONTA a arma para o condenado, esboçando ódio.

CIPRIANO: Calma, nobre amigo! Primeiro as damas.

Raíza ignora a arma. Entreolha Josué, Roger e, por fim, Hans. Muita expectativa. Silêncio.

RAÍZA: Certa vez, a minha amiga Ari Rodrigues, grávida, foi jogada do alto de um prédio; O meu pai (fraqueja / deixa escorrer uma lágrima) foi morto a golpes de faca porque descobriu o assassino (olha rapidamente para Josué, que não gosta); Outras pessoas morreram por causa disso.

CLOSES ALTERNADOS em várias pessoas, atentas. Alexandre junta as mãos em sinal de oração.

RAÍZA: Nenhum deles foi vingado de verdade. (para Josué) Quem é você pra dar sugestão de como matar o assassino do seu filho? A sociedade o perdoou, Deus perdoou. Não é o perdão que você prega, pastor? (para Hans) Pois eu perdoo o Hans.

Dcr olha para Raíza, surpreso. Alexandre sorri, esperançoso. Cipriano estranha e se aproxima da garota.

CIPRIANO: Isso foi de coração?

Raíza, tensa, nada diz. Cipriano sorri.

CIPRIANO (para Dcr): É a sua vez.

Dcr vacila, por instantes, mas aponta a arma. Em segundo plano, Hans encara a cena com olhar de arrogante.

HANS: Vai demorar quanto tempo? Você quer me matar, mata logo.

Mas ao mesmo tempo em que é ele, é Erom, surgindo a frente do jornalista. Esboça uma mistura de ódio e rancor.
Dcr, até então certo do que ia fazer, arregala os olhos.

EROM: É aqui que você gosta de me ver, não é?

DCR (balbucia): Não…

EROM: Aproveita! É a sua chance de acabar comigo mais uma vez.

DCR: Não, eu não vou!

As pessoas, ao redor, não entendem. Aos olhos dos outros, Erom não aparece, e as palavras proferidas saem da boca de Hans.

EROM: Você é um herói fajuto, hipócrita, dita as suas próprias regras e não hesita a apontar o seu dedo pra ninguém, mesmo sem prova contundente. Você tem ideia de onde estive e o que tive que passar por sua culpa?

Dcr deixa escapar lágrimas, já com os olhos avermelhados.

EROM:fiz sofrer o que me fizeram sofrer. A justiça que todos pedem, ninguém nunca pediu pra mim.

Dcr abaixa a arma, tenta secar as lágrimas, em vão. Raíza e Valentina o abraça.

DCR: Me perdoa. (burburinhos / Erom sente o baque) Me perdoa por nunca ter te escutado como devia. Fui insensato. Se eu pudesse voltar no tempo /

EROM: MAS VOCÊ NÃO PODE!

DCR: Eu posso sim! De certa forma, eu posso. (olho no olho) Eu to pedindo perdão por tê-lo julgado mal, assim como eu (reluta)...Como eu te perdoo por tudo que fez.

SURPRESA nos demais. Cipriano se mostra atordoado. Dcr cai em prantos, sendo amparado por Raíza, Valentina, Alexandre, Beto e Roger. Ana chora, emocionada.

Erom vai se afastando, aturdido, não esperava por aquilo. Encara Cipriano, desmontado, claramente frustrado, mas que ainda consegue devolver um olhar de raiva.

Dcr vê a imagem de Erom se esvaindo.

EROM: Eu perdoo. (T) Obrigado.

E ele desaparece.

CIPRIANO: Pois bem, amigos. Não há mais o que ser feito. (para os policiais) Libertem-no!

Um dos policiais retira as algemas de Hans.

CIPRIANO: Você é um homem de sorte. Vá e não volte mais.

Hans estranha a frase e quando se prepara para descer do cadafalso, um TIRO corta o cenário assustando a todos.

VOZ MASCULINA: ELE MATOU DUAS PESSOAS QUERIDAS DOS NOSSOS HERÓIS! TEM MAIS É QUE MORRER!

Dcr e Raíza olham para o sujeito (um dos que estavam na cena 35 – episódio 4x07, tentando matar João, no cadafalso).

Mais um TIRO e começa a correria, o pânico, mais um caos formado. Dcr, Raíza e Beto vão até Hans e o empurram por entre as pessoas.

CENA 21 RUAS DA CIDADE [TARDE]

De frente, Dcr, Raíza, Beto e Hans correndo de uma multidão enfurecida.

HANS: Sério que eu to fugindo dos seus fãs?

DCR: Acredite: Eles não são meus fãs.

Na cara estupefata de Hans. Eles seguem para a esquerda e a multidão atrás.

CORTE DESCONTÍNUO

Os três avançam pelas ruelas, atravessam estradas. Dcr e Beto conseguem saltar pelos carros parados. Raíza desvia habilmente dos obstáculos. O povo já se encontra bem afastado, mas a perseguição não para. Hans visivelmente cansado.

Até que escoram numa parede, ofegantes.

DCR: Temos que nos dispersar. É mais seguro.

HANS: (ri, nervoso) Que engraçado! Impliquei tanto com vocês, pra agora depender de vocês pra me ajudar. (T) Não sei porque estão fazendo isso. Eu assumi ter matado a Lila e o João.

DCR: Não vamos voltar a esse assunto. Já foi muito difícil te perdoar.

HANS (reluta / encara-o de novo): Eu menti. Eu não matei ninguém.

BETO (animado): Eu sabia!

DCR: Você é louco? E assumiu o crime por quê? Pra quê?

HANS: O Cipriano tava certo de que você ia me perdoar, depois insinuou que faria algo por mim...(pensa) Me entregaria nos braços do povo...(pensa mais um pouco, já vacilando a voz) Foi o que ele disse.

Dcr entreolha Raíza, sacando tudo.

HANS (revoltado): Como sou burro! Ele disse que ia me jogar nos braços do povo! E olha o que aconteceu?

RAÍZA: Ele não queria que você fosse perdoado. Claro! Se o Dcr te mata, ele ia revelar que você era inocente e todos acusariam Dcr de ser injusto.

BETO: Mas ele assumiu. Quem ia saber a verdade?

RAÍZA: Cipriano não precisa de muitas palavras pra convencer uma sociedade idiota.

Hans toca no ombro de Dcr e Raíza.

HANS: Olha, eu não fui muito legal com vocês. No fundo, eu só queria ser melhor do que a Lila, mas tenho que admitir que ela fez um excelente trabalho aqui. Você é o herói que ela descreveu. (para Raíza) Quem sabe, um dia, eu escrevo sobre você, não é?

Eles riem, tímidos, sem querer muita aproximação.

BETO: Melhor irmos. To achando tudo quieto demais.

Hans sorri, toca no rosto de Beto.

HANS: Único amigo e companheiro que tive. Não me abandonou nem nos quarenta e cinco do segundo tempo. Obrigado.

E ambos se abraçam, como numa despedida.

HANS: Quero te ver no topo, garoto. Porque pra mim as portas devem se fechar.

BETO: Eu sempre soube que você era muito melhor do que demonstrava.

DCR: Vamos?

RAÍZA: Melhor corrermos.

Raíza se mostra tensa, aflita. Dcr percebe e entreolha Beto.

RAÍZA: Vamos correr agora!

Eles mal saem do lugar e um grupo de homens e mulheres surgem de um lado. Hans se desespera e tenta correr, mas o outro lado também é cercado.

HOMEM: PEGUEM ELE!

HANS: Não, por favor!

O grupo apanha Hans e sai arrastando com ele no chão. Dcr, Raíza e Beto vão atrás, espavoridos.

CENA 22 RUA DA CIDADE [TARDE]

As ruas paradas e cheias de carros, muita buzina em cima. O grupo cerca Hans e só podemos OUVIR seus gritos. Espancam, chutam, dão pauladas. Muita selvageria. A outra parte da população apenas observa, ora horrorizada, ora assentindo.

BETO: Alguém faça alguma coisa!

Beto tenta avançar, mas Dcr e Raíza o contém.

DCR: Você quer morrer, Beto?

BETO: Eles vão matá-lo! Vão matá-lo!

O grupo começa a se afastar. O corpo de Hans, ensanguentado, deixado no meio do asfalto.
Beto é o primeiro a correr até ele, aterrorizado. Cobre a boca, chora diante do amigo.

BETO: Hans? Hans?

Dcr se aproxima, toca a jugular do jornalista. Hans está de olhos abertos, expressão de pânico, marcas terríveis no rosto; Roupas rasgadas e sujas de sangue.

DCR: Ele tá morto.

Beto desaba em lágrimas e é emparado por Raíza.

CAM vai se afastando.

ÂNGULO ALTO

As ruas engarrafadas, tomadas por curiosos. O corpo de Hans manchando o cenário. Dcr e Raíza consolando Beto.

FADE TO BLACK

FIM DO QUARTO ATO



ATO FINAL

FADE IN

CENA 23 CEMITÉRIO [INT. / MANHÃ]

Poucas pessoas diante de uma cova. Beto, cabeça baixa, sofre calado. Alexandre, Dcr, Raíza e Roger se aproximam.

BETO (voz embargada): Ele não teve uma segunda chance. Até o pastor teve segunda chance, mas o Hans não.

Alexandre o abraça, consolador.

ALEXANDRE: O que fizeram com ele foi covardia, mas a justiça será feita. Vamos cobrar isso no final.

Num canto afastado, Dcr, Raíza e Roger.

DCR (para Raíza): Você tinha perdoado de verdade?

Raíza espia Beto chorando.

RAÍZA: Não. (olha para Dcr, frustrada) No fundo eu imaginava que ele tava mentindo. Tudo que falei foi de coração, mas perdoei apenas...Por perdoar.

DCR: Ter visto o Erom alí me deu coragem. Nós dois precisávamos nos perdoar.

Roger esboça lamento.

ROGER: Vocês se deram conta de que Lila e Hans começaram a brigar por causa da Raíza? Por causa da história de vocês dois? E que agora estão mortos? Ninguém mais vai contar a saga de ninguém!

E chora, dramático.

ROGER: Eu vou embora dessa cidade, não vou aguentar ficar até o final dessa história.

E soluça de tanto chorar. Raíza o abraça.

ALEXANDRE: Calma, Roger! Eu não lembro de ter aceitado sua demissão. Por favor!

Alexandre dá uma checagem em seu celular.

ALEXANDRE: Neste exato momento, o Zacarta tá fazendo um pronunciamento sobre a barbárie de ontem. (T) Preciso que vocês me acompanhem.

ROGER: Pra onde, boss?

ALEXANDRE: Vocês saberão.

Ele segue na frente e os três, sem entender, seguem atrás.

FADE OUT

FADE IN

CENA 24 CARRO DE ALEXANDRE [EXT. / MANHÃ]

Vista aérea de um carro vermelho de quatro portas em uma estrada pouco movimentada. Grandes arvoredos cercam o local.

CENA 25 CASA DE CAMPO [EXT. / MANHÃ]

Uma casa simples, pintada de bege, com janelas de madeira e varanda com chão de taco.
O carro de Alexandre
adentra o terreno, cercado por outros arvoredos, até que para. As portas se abrem, Raíza sai olhando para a casa. Os outros saem, em seguida.

RAÍZA: Antes que alguém diga que eu devia saber o que viemos fazer aqui, não, não sei. Aqui será o novo encontro do clã?

ALEXANDRE: Será um encontro sim. Vamos, estão nos esperando.

Eles caminham até a casa.

CORTE DESCONTÍNUO

CENA 26 CASA DE CAMPO [INT. / TARDE]

A SALA bem simples. Chão de taco, paredes brancas; Móveis rústicos, dois sofás verdes, uma mesinha no centro, uma estante pequena contendo uma TV LED de 32 polegadas, poucos objetos de decoração, e um pequeno bar.

Dcr e Raíza observam tudo.

ALEXANDRE: Antes de continuarmos, eu quero que vocês saibam que foi necessário fazer isso, para o bem de todos. Eu já sabia que o Cipriano pode se passar por quem ele quiser, por isso, tive que me certificar de que ele está ao vivo na TV, e não se passando por um de vocês.

ROGER: Não to entendendo, boss.

ALEXANDRE: Vocês vão entender. Saibam que foi muito difícil, mas foi necessário. Venham comigo.

Alexandre faz sinal com a mão para eles o acompanhar até o

QUARTO

E assim que chegam, deparam-se com Valentina, sentada na beirada de uma cama, que está com metade escondida pelo armário. Há uma pessoa, coberta por lençol branco, deitada sem que possamos identificar.

DCR: Valentina? O que tá acontecendo aqui?

ALEXANDRE (bate no ombro de Dcr): Vai lá.

Dcr estranha e avança até a cama.

BAQUE.

Dcr cobre a boca, petrificado com o que vê. Raíza e Roger se aproximam, curiosos, e se assustam.

Valentina se levanta e sai da frente da CAM, revelando LILA, vivíssima, com uma faixa na barriga e cicatrizes se formando na testa.

Bate o desespero em Dcr.

DCR: Como?! Como isso é possível?! Ela tava morta, eu a enterrei! Eu chorei dias por causa disso! Como?!

LILA: Só vocês dois podem ressuscitar?

Roger abraça Lila, emocionado.

ROGER: Eu não to acreditando. A Lila tá viva!

ALEXANDRE: Lamento não ter te contado, Danilo, mas se o Cipriano soubesse que não conseguiu matá-la…

DCR: Então o senhor sabia que o Hans não fez nada? Por isso...Por isso quis me convencer a perdoá-lo?

LILA: Bem mais do que isso. Eu sabia que o seu perdão poderia enfraquecer o Cipriano.

DCR: Como assim?

LILA: Vo explicar pra vocês. Mas antes, (abre os braços) não tá feliz em me rever?

Dcr já está com os olhos marejados, avança sobre ela e os dois dão um longo abraço. Beijam-se, em seguida. Valentina desvia o olhar, insatisfeita.

RAÍZA (para Alexandre): E o João?

ALEXANDRE (lamenta): O João, não, menina. O João, não.

Raíza abaixa a cabeça, prostrada.

FUSÃO PARA

Mãos masculinas enfurecidas derrubam tudo que há numa mesa.

CENA 27 MANSÃO DE CIPRIANO – ESCRITÓRIO [INT. / MANHÃ]

Cipriano apoia as mãos na mesa vazia, descontrolado. Walter por alí, tenso.

CIPRIANO: Aquele moleque tinha que ter estragado tudo! Parece que nada o abala. Por que ele tinha que perdoar o Hans? Por quê?

WALTER: Mas a Raíza também perdoou. Fez até um belo discurso.

CIPRIANO: Tudo da boca pra fora. Ele não. Ele foi mais verdadeiro. Mas os falsos fãs do herói Nilo foram bem convincentes e agora, muita gente já o considera o anti-herói da cidade.

WALTER: E qual o próximo passo?

CIPRIANO: Quero que os dois matem! Quero ver sangue jorrando das mãos deles sem que sobre dúvidas de que eles são os maiores vilões desse Brasil.

Walter ajeita a gravata, receoso.
Em Cipriano.

FADE TO BLACK



FIM DO EPISÓDIO

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