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WEBTVPLAY APRESENTA
RAÍZA 4


Série de
Cristina Ravela

Episódio 03 de 14
"Sacrilégio"



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ATO DE ABERTURA


FADE IN

CENA 1 REDAÇÃO CARIOCA NEWS [EXT./ MANHÃ]

Algumas pessoas transitam por ali, há um carro modelo Chevette estacionado em frente. Dcr está chegando à redação, munido de sua bolsa a tiracolo e, meio apressado, sobe os degraus.

VOZ MASCULINA: Nilo?

Dcr se volta e dá com Emerson, sorriso simpático.

EMERSON: Desculpe a intimidade, mas é a primeira vez que fico diante de um herói.

Emerson dá a mão e Dcr cumprimenta, arredio.

EMERSON: Emerson Martins, o blasfemador.

Dcr se recorda, tentando ser gentil.

DCR: Ah, claro! Ahn...O pastor retirou a queixa ou você pediu perdão?

EMERSON: Não fiz nada de errado para pedir perdão, concorda? Ah, desculpe, eu sou novo no bairro, faço estágio na HDM Construtora. Sou seu fã. 

DCR: Sinto falta de quando eu me sentia um objeto de decoração.

Emerson ri.

EMERSON: Vim mesmo te agradecer. Sabe, de certa forma nossas histórias se parecem. Perdi uma pessoa que amo, o cara que a fez sofrer está pagando de bom moço por aí. Josué devia ter morrido. 

DCR: Eu sou contra desejar a morte de alguém, mas...Também não me desce vê-lo ser adorado...Por aí.

EMERSON: Eu tenho medo de uma retaliação, sabe? Esse Josué não ia retirar a queixa numa boa. Acha que devo me preocupar?

DCR: Não acho que ele tentaria nada em 24 horas.

Os dois se encaram, na dúvida.

OUVIMOS UM ESTILHAÇO

Dcr e Emerson se assustam.

O Chevette diante da redação acabou de ter seu vidro traseiro estilhaçado de dentro pra fora.

EMERSON: O que foi isso?

DCR: Melhor a gente correr.

Mal ele termina de falar e o carro 

EXPLODE.

Susto nos demais, gritos.

Dcr e Emerson são arremessados pro

INTERIOR DA REDAÇÃO

Caindo no chão, ilesos.

EMERSON: Parece que o seu cálculo estava errado.

Em Dcr, assustado.

FADE TO BLACK

FIM DO ATO DE ABERTURA

4x03

SACRILÉGIO


PRIMEIRO ATO


FADE IN

Fachada da Redação Novo Dia

CENA 2 REDAÇÃO NOVO DIA [INT. / MANHÃ]

No monitor, imagens da fachada da Carioca News, onde uma faixa amarela cerca o carro explodido. Uma repórter interroga Dcr.

REPÓRTER #1: Danilo, quais as chances desse atentado ter relação com a liberdade de Emerson Martins, que foi preso ontem por blasfemar contra o pastor Josué?

DCR: Acho melhor você perguntar isso ao pastor. Ele entende melhor de violência do que eu.

E Dcr sai de cena, chateado, deixando a repórter surpresa.

Hans, assistindo, se levanta animado.

HANS: Começou a guerra.

Quando dá de cara com Beto bem atrás dele, encarando-o seriamente.

HANS: Que susto, Beto! O que foi?

Beto mostra o celular.

GRAVAÇÃO (VOZ DO EROM): Tem que parecer um atentado mesmo, ouviu? Desses que têm lá fora. 

Em Hans, chocado.

HANS: Mas o que é isso?

BETO: Eu que pergunto. O que anda acontecendo com você, Hans? Aliás, quem é você?

Hans debocha, cruza os braços. Aparentemente, nenhum sinal do Erom.

HANS: Eu sou o mesmo cara que te indicou para trabalhar ao meu lado, Beto, porque nunca duvidei do seu talento.

BETO: E que gravação foi essa?

Hans já dando as costas.

HANS: E eu vou saber?

Beto o puxa pelo braço, muito firme.

BETO (sarcasmo): Também não sabe quem é Rafaela e que a mandou me matar?

Em Hans, assombrado.

HANS: Como?

BETO: Queima de arquivo, não foi? Você sabia que eu tinha uma bomba contra o governo e resolveu unir o útil ao agradável. Queria me transformar na sua próxima manchete.

Hans pega em seu colarinho, ofendido.

HANS: Não fala besteira! Eu não mato e nem mando matar, Beto, tá maluco? Tu é meu amigo, cara, que isso? Somos parceiros ou não?

BETO: Não sei de mais nada, Hans. De mais nada.

Beto se solta e dá as costas.

Hans, por ali, sem entender muito bem. 

CENA 3 REDAÇÃO CARIOCA NEWS [INT. / MANHÃ]

Em Emerson, engolindo a água, apavorado. Quase se engasga.

EMERSON: Viver no Rio de Janeiro é perigoso, mas assim já é demais!

Dcr dá um toque em seu ombro, compreensivo.

DCR (raiva): Em pensar que tudo isso pode ter sido em defesa daquele assassino. As pessoas perderam a noção do que fazem? EU fui a vítima, EU!

EMERSON: Às vezes, é chato se sentir o vilão da história, não é? Você não conseguiu superar o que aconteceu, entendo.

RAÍZA (O.S): Impossível superar. (Raíza aparece com um sorriso singelo) Quando o inimigo não paga por seu crime.

EMERSON: Raíza! É um prazer conhecer uma nova heroína. Acompanhei toda a sua história pelos jornais.

RAÍZA (brincando): Ah, não cheguei ao patamar do meu amigo Dcr.

Risos.

Emerson estende a mão para cumprimentar.

EMERSON: Emerson Martins, o pobre blasfemador e cidadão comum.

No que as mãos se tocam

ABRE-SE UM FLASH DE LUZ

= = VISÃO DE RAÍZA = =

IGREJA EVANGÉLICA MÃO DIVINA [INT. / NOITE]

Local lotado, Josué palestrando aos gritos, mas não ouvimos o que diz. Povo aclamando com as mãos para cima.

Até que 

AS PORTAS SE ABREM VIOLENTAMENTE,

pessoas com tochas de fogo na mão invadem, causando pânico, correria. Um homem arremessa a tocha para o alto

E ATINGE UM CANDELABRO.

Muito ritmo.

O corpo de João Batista cai no chão. Close em sua testa sangrando.

= = FIM DA VISÃO = =

Volta em Raíza, atônita, olhando Emerson sem entender.

A tela se fecha

FIM DO PRIMEIRO ATO


SEGUNDO ATO


FADE IN

CENA 4 REDAÇÃO CARIOCA NEWS [INT. / MANHÃ]

Raíza e Roger estão de pé, diante de Lila sentada e na frente do computador. Conversam sobre algo que não ouvimos, quando Raíza olha para trás e vê Dcr chegando.

RAÍZA: Já escoltou o Emerson até a HDM?

Dcr, com as mãos na cintura, preocupado.

DCR: Já. Não sei se depois do que houve ele será demitido. Senti que fomos seguidos.

ROGER: Eu o achei bem corajoso, viu, amigo? Mal chegou à cidade e já rasgou o verbo pros seus inimigos. Mais um pro time.

Raíza olha para Dcr, incomodada.

RAÍZA: Será que a gente podia falar um instante? (mente) Anh...Sobre umas fotos que andei tirando...

DCR: Claro, vamos até a minha mesa.

Aimée SURGE da porta, aflita, e assim que vê Dcr, o abraça sem pensar duas vezes.

AIMÉE: Nilo! Que bom que você tá bem.

Lila fuzilando de onde está.

AIMÉE: Estão dizendo que foi um evangélico que tentou matá-lo, é verdade?

DCR: Não sei, mas o alvo era o Emerson e/

AIMÉE: Você precisa de um segurança, Nilo. Ainda que seja um herói, você não é o Clark Kent.

Lila se aproxima, forçando a simpatia.

LILA: A gente agradece a preocupação, Aimée, mas o Danilo não se sente bem cercado de proteção.

AIMÉE: Você criou o herói, Lila, e não quer protegê-lo? (Lila revira os olhos) Qual a diferença dele ter sido cercado pela imprensa e ser cercado agora por seguranças?

LILA: Não pretendo cometer o mesmo erro.

AIMÉE (provoca): O Nilo foi um erro?

RAÍZA: CHEGA! (todos a entreolham, assustados) com essa guerra ocorrendo lá fora, e vocês duas disputando um cara? Por favor! Isso aqui não é Realeza Juvenil, saco!

Raíza sai de perto, Roger meio indeciso.

ROGER (admirado): Ela também assiste Realeza Juvenil?

Dcr segura o riso.

Vista aérea do Palácio Guanabara /

CENA 5 PALÁCIO GUANABARA - GABINETE [INT. / MANHÃ]

Walter acaba de entrar com um papel na mão.

WALTER: Taí os nomes das pessoas que irão participar do (frisa) evento.

Cipriano, sentado na poltrona, relaxado, apanha o papel e dá uma olhada.

WALTER: A maioria deles é católica, discriminados pelo pastor Everton que, diversas vezes, rasgou imagens da Virgem Maria durante seus cultos.

CIPRIANO: E a minoria?

WALTER: Mortos de fome mesmo.

Ele dá uma risadinha sem vergonha e chega a tossir, mas Cipriano apenas sorri, desprezando-o.
Walter para de ri, ajeita a gravata e, pigarreia, envergonhado.

WALTER: Aquele jornalista vai se encarregar do resto.

CIPRIANO: Hans tem uns contatos bastante interessantes... Creio que a partir de hoje, até os fãs de Nilo irão considerá-lo uma ameaça ao Estado.

Walter ri, malandro.

No olhar satânico de Cipriano.

FADE OUT

FADE IN

CENA 6 COFFEE BREAK [INT. / MANHÃ]

Tela do laptop numa página sobre Sociopatia:

MARCO (O.S / lendo em voz baixa): “Sociopatas são indivíduos egocêntricos, desprovidos de valores morais, que desprezam a sociedade, suas leis e obrigações,[...] podem até colocar em risco a vida de outras pessoas, sem constrangimento”.

Quando a CAM desvia, Rafaela está logo atrás, sorrindo.

RAFAELA: Mudando seu perfil nas redes, Marco?

Marco fecha o laptop.

MARCO: O que faz aqui? Quem te deixou entrar?

Rafaela brinca com uma caneta no suporte da mesa.

RAFAELA (sarcástica): Que pergunta! Vim rever os amigos e sou recepcionada desse jeito.

Marco se levanta, chateado.

MARCO: Você não é bem vinda aqui, Rafaela.

RAFAELA (falsa): Eu sei que fiz muita coisa errada. Eu só queria saber se você conseguiria me perdoar, como perdoou seu irmão.

MARCO: Você me acusou de assassinato, fez o seu amigo sofrer durante todo aquele tempo. Eu fiquei preso por sua culpa!

RAFAELA: Você pagou por seus erros, Marco. Sei que fiz besteira, porque achei que as provas que eu tinha não seriam o suficiente, e mesmo com o Cael ajudando/

MARCO (por cima): O que disse? 

RAFAELA: Que Cael me ajudou com as provas? (Marco se espanta) Você o perdoou, né? (fingida) Oh, meu Deus! Você não sabia? 

MARCO: Você veio plantar discórdia na família, não é?

Cara a cara.

RAFAELA: Na boa? Você tá com a Raíza. Acha que precisa de mais alguém pra plantar discórdia?

Rafaela sorri de deboche deixando Marco trincando os dentes.

MARCO: Acho que nem você se dá conta do lixo que se tornou. Em pensar que parte disso foi minha culpa. (Rafaela ainda sorri, irritantemente) Fora daqui.

Rafaela o encara, debochada.

MARCO: Fora daqui!

Marco a pega pelo ombro e vai empurrando-a até a porta.

MARCO: Eu disse FORA DAQUI!

E a empurra, fazendo-a esbarrar em Valentina, que acaba de entrar.

RAFAELA: A gente se vê por aí, Marco.

A garota some, Valentina observa um Marco chateado.

VALENTINA: Mas, gente! Como ela entrou aqui?

MARCO: Deve ter pacto com o diabo...

No seu olhar marcante.

CENA 7 SELF-SERVICE [INT. / TARDE]

Muito movimento, pessoas se servindo, garçons de um lado e de outro segurando bandejas com sucos e refrigerantes.

Raíza acaba de se sentar com um prato de comida, diante de Dcr.

RAÍZA: Tentei te falar mais cedo, mas aquela Aimée, viu? 

DCR: Não é possível que a história vá se repetir. O Josué de novo na igreja, o Cipriano querendo o poder absoluto.

RAÍZA: Só que lá trás, o Josué queria você como rei da Inglaterra, e tava disposto a trair o Cipriano.

DCR: Será que ele tem alguém em mente? 

RAÍZA: Por que não ele? (Dcr pensa um pouco) Josué não é confiável, mas duvido que o Cipriano não saiba disso. Talvez ele queira repetir a história para dar um final diferente.

Dcr bebe seu suco de laranja, enquanto pensa.

DCR: Sendo assim, esse bruxo confia em alguém, como confiou em Neithan Lennox? Estamos vivendo a mesma situação que em Londres?

Lila surge logo atrás com uma bandeja nas mãos, ao lado de Roger.

LILA: Neithan Lennox? Londres? Do que vocês estão falando?

Em Dcr entreolhando Raíza, sem saber o que dizer.

CENA 8 IGREJA EVANGÉLICA MÃO DIVINA [INT. / TARDE]

Algumas pessoas (bem vestidas e outras nem tanto) conversam, animadas, dentre elas estão Josué e o pastor Everton. Um homem segura um bebê enrolado em um manto branco, muita descontração.

Ninguém nota quando João e Ana ADENTRAM, meio hesitantes.

JOÃO: Eu nem devia ter vindo, Ana. Voltei a morar no apartamento que tava alugado, e aluguei o 301.

ANA: Você não quer ver de perto se o teu pai mudou mesmo?

JOÃO: Coisa que duvido muito.

Adiante, Walter Cury deposita uma NOTA DE CEM REAIS em um pequeno baú. 

Uma mulher loira e humilde olha para um homem moreno, supostamente seu marido, e faz um sinal. O homem então retira de dentro do seu paletó, a carteira, abre e retira QUATRO NOTAS de 50 reais. Josué, de olho.
O homem deposita o dinheiro no pequeno baú. 

CORTE DESCONTÍNUO

Muitos já foram embora. Josué apanha o baú e entrega a Walter, que retira a nota de cem reais.

WALTER: Parece que o meu incentivo foi uma benção, não?

Risos.

Walter guarda a nota no bolso do paletó.

JOSUÉ: Será abençoado na mesma proporção, irmão.

Walter dá as costas e Everton segue junto. Nem notam João e Ana sentados num canto, à espreita. No olhar de ódio em João.

CORTA PARA

Josué de costas, arrumando uma cômoda. Quando se volta, dá de cara com João e Ana.

JOSUÉ: João!

JOÃO: Quer dizer que é assim que se tira dinheiro dos pobres? Usa os políticos para dar a falsa oferta e incentivá-los a dar o que não pode?

JOSUÉ: João...Veja bem, a igreja não é minha.

JOÃO: Entendi, entendi. Você só faz o que mandam você fazer, né? (irônico) Pobre assassino...Sendo obrigado a roubar.

JOSUÉ: João, por favor! Eu to tentando mudar, reconstruir a minha família/

JOÃO: Família? A família que você destruiu? Vai fazer o quê? Vai ressuscitar o meu tio Bruno? A Ari? (T) Não... É mais fácil você nascer de novo.

Olho no olho.

JOÃO: Vamos, Ana!

João e Ana saem de cena, Josué os espia, sério.

CENA 9 REDAÇÃO CARIOCA NEWS [EXT. / NOITE]

Dcr e Raíza descem rapidamente as escadas.

DCR: Vamos, antes que a Lila venha atrás. Já foi difícil convencê-la de que estamos pesquisando a velha Inquisição.

RAÍZA: Será que o ataque vai ser hoje mesmo? 

DCR: Os concorrentes me vendem como a causa primária de todas as coisas, Raíza. O Cipriano não vai descansar até ferrar com a minha imagem.

Raíza apanha de dentro da bolsa, um celular.

DCR: O que vai fazer?

RAÍZA: Eu não. Você. Lembra da proposta do Marco sobre se adiantar ao Hans? (Dcr não entende / ela entrega o celular) Salve uma vida, herói Nilo.

Em Dcr, hesitante.

FADE OUT

FIM DO SEGUNDO ATO


TERCEIRO ATO



FADE IN

Vista aérea da cidade iluminada/

Corta para o EXTERIOR da Igreja, às portas fechadas.

JOSUÉ (O.S / VOZ ALTA E IMPONENTE): Chegou a hora em que o Filho do homem será glorificado.

CENA 10 IGREJA EVANGÉLICA MÃO DIVINA [INT. / NOITE]

Josué, com a bíblia na mão, ao lado do pastor Everton, com uma expressão debilitada e, mais alguns adoradores ao seu lado, palestra diante de uma igreja lotada, povo de pé. 

Dcr, Raíza e Ana seguram João, meio descontrolado e murmuram entre si. Aimée sem entender, por perto. 

Josué continua o culto, mas não o ouvimos.

DCR: Você quer acabar no cadafalso, João? Quer?

João encara Josué ao longe, gesticulando e encarando o povo como se sábio fosse.

JOÃO: Eu não sei como você aguenta. (olha para Raíza) Eu não sei como você aguenta, Raíza. Ele matou seu pai a sangue frio. (para Dcr) Matou a Ari. Ele tá roubando a igreja, jogando os pobres coitados na inquisição.

ANA: Todos nós perdemos alguma coisa por culpa dele. Mas o povo acredita em sua redenção. Você seria visto como Judas!

Algumas pessoas observam.

AIMÉE: O que tá havendo, Nilo? Pensei que tivesse me convidado para assistirmos ao culto.

RAÍZA (ignora): João, vai por mim, será pior se você reagir. Basta uma palavra contra o pastor e você será condenado.

JOÃO: Eu não aceito isso.

Em Josué, ao fundo.

JOSUÉ: Se o grão de trigo caindo na terra não morrer, fica ele só;

E João empurra todos eles seguindo em direção ao palco.

Dcr e Raíza aflitos.

ANA: Não o deixe fazer isso!

Dcr segue atrás.

AIMÉE: NILO!

Josué continua seu trabalho.

JOSUÉ: ...Mas se morrer, dará muito fruto.

Alguns percebem a movimentação, João se aproximando de Josué. Dcr, Raíza e Aimée atrás.

JOSUÉ: Eis então o motivo para o qual vivemos: (em seu olhar sádico) A morte.

AS PORTAS SE ABREM VIOLENTAMENTE,

Pessoas (algumas encapuzadas) com tochas de fogo na mão invadem, aos gritos, causando pânico, correria, gente sendo pisoteada. Eles vestem camisetas pretas com a seguinte mensagem: “Herói Nilo merece justiça!”.

Dcr agarra João pelas costas e o empurra para um canto. Depois procura por Ana e Raíza no meio do aglomerado.

AIMÉE: NILO, AQUI!

Um homem (encapuzado, magro, usando um sobretudo negro) agarra Aimée pelos cabelos, mas Dcr a joga para o lado e acerta

UM SOCO

No tal homem, que cai sobre outros. Dcr não tem tempo de retirar sua máscara, quando vê Raíza do outro lado.

Raíza tenta se esquivar, quando é jogada no chão.

Um homem arremessa a tocha para o alto

E ATINGE UM CANDELABRO.

Muito ritmo.

Dcr vê a cena, assustado.

DCR: RAÍZA!

Raíza olha para cima, o objeto caindo, até que ela rola pelo piso.

O candelabro se espatifa, causando um imenso estrondo.

Em Raíza inconsciente, com a testa sangrando.

A TELA SE FECHA

FADE IN

No rosto de Raíza, de olhos fechados. 

CENA 11 CASA DO PASTOR EVERTON - QUARTO [INT. / MANHÃ]

Raíza acorda, com uma pequena marca na testa, olha para os lados, preocupada.

Dcr está sentado à beira da cama.

(O quarto é simples, com cômodas rústicas e paredes em tons pastéis; há um móvel com um jarro e copo sobre ele).

DCR: Dessa vez é você quem tá no meu lugar, né?

Raíza se põe sentada na cama.

RAÍZA: Onde a gente tá?

DCR: Na casa do pastor Everton, aqui do lado da igreja. (sarcástico) Parece que não sobrou muita coisa da Santa Casa de Deus.

RAÍZA: Acho que foi a primeira vez que salvei o João. Que estranho, né?

A porta se abre, João entra, aflito.

JOÃO: A imprensa taí fora e/

Dcr e Raíza o encaram, aguardando.

RAÍZA: O que foi, João?

JOÃO: Ahn...Uma sensação estranha... Parece que já vivi isso...(Dcr e Raíza sorriem entre si) Bem, o Josué tá massacrando seus seguidores para a imprensa, Danilo.

Dcr se levanta, ajeitando a roupa amassada.

DCR: Vamos ter que encará-los.

Em João, fazendo que sim. 

CENA 12 IGREJA EVANGÉLICA MÃO DIVINA [EXT. / MANHÃ]

Há um aglomerado diante da igreja, imprensa em cima. Os jornalistas disputam uma informação de Josué, segurando fortemente a bíblia ao lado do pastor Everton. Lila e Roger se esgueirando.

JORNALISTA #1: O senhor acredita que esse atentado tem alguma coisa a ver com o que aconteceu ontem pela manhã?

HANS: Por favor, senhor pastor, testemunhas afirmam que os vândalos vestiam camisetas em adoração a Nilo Rodrigues. Confere?

Josué ergue a bíblia, convicto.

JOSUÉ: Jesus disse: “Você não terá outros deuses diante de mim”. Ignore-os, pois, eles não são o nosso Deus.

O povo APLAUDE, menos Lila e Roger.

Dcr, Raíza e João se aproximam, hesitantes.

Todos o encaram, muitos flashes sobre eles.

HOMEM #1: Ali, o causador da desordem!

MULHER #1: VOCÊ TÁ INCITANDO O ÓDIO CONTRA A IGREJA!

Os fiéis da igreja VAIAM Dcr, que se mostra acuado.

Josué leva as mãos para frente, tentando acalmar os ânimos.

JOSUÉ: Por favor, irmãos! Perdoem os fanáticos por esse rapaz. Eles não sabem o que fazem.

JOÃO (sarcástico): Que isso, pai? Assim o senhor me mata de orgulho.

Lila passa a frente de Hans e se posiciona diante de João.

LILA: Tem algo a dizer sobre o que aconteceu ontem à noite?

João olha para todos, firme.

JOÃO: Esse que vocês chamam de falso herói, salvou a minha vida e a vida da filha do presidente. 

CLOSES ALTERNADOS entre os fiéis, ouvindo atentos.

JOÃO: Esse é o cara que salva a vida das pessoas; ele (para Josué) é o cara que tirou a vida das pessoas.

O grupo se espanta.

MULHER #2: Misericórdia! Não deixe o ódio te cegar, meu filho! Até Jesus perdoou Judas.

RAÍZA: Fala isso porque não foi teu pai que ele matou a sangue frio.

Josué encara, com raiva, João e Raíza.

O grupo se exalta, começa a balbúrdia, o empurra-empurra. Lila e Roger escoltam os três ameaçados para o interior da igreja, Josué fecha as portas rapidamente.

Hans ficando para trás, aos risos.

Takes da cidade, movimento dos carros/

FACHADA – MANSÃO DO CAEL 

CENA 13 MANSÃO DO CAEL – ESCRITÓRIO [INT. / MANHÃ]

Em Cael, sentado no sofá e bebendo uísque. Marco chega por trás com cara de poucos amigos.

CAEL (sem olhar para trás): Aceita?

MARCO (raiva): Aceito uma explicação. Que você quisesse me jogar na cadeia, tudo bem, mas compactuar com uma pessoa que manipulou um vídeo fake contra mim? Isso é imperdoável.

CAEL (tranquilo): Nós fizemos um pacto para que ela nunca envolvesse o meu nome, mas depois de ontem, imaginei que ela fosse quebrar algumas regras.

MARCO: Então você confirma?

CAEL: Eu não sabia que era fake, Marco.

Marco ri, debochado.

CAEL (cont.): Quando eu soube não tive tempo de reclamar; o resto da história você conhece (termina de beber o uísque). 

Marco se senta, tranquilo e cruza as pernas.

MARCO: Erva daninha não morre, não é, meu querido? Deve estar sendo divertido pra ela jogar um irmão contra o outro.

CAEL: Como?

MARCO: Gostou do meu número? (Cael abaixa a cabeça, rindo) Estou pensando em usá-lo publicamente.

CAEL: Seja mais específico.

MARCO: Estamos vivendo uma nova inquisição, meu querido irmão. Metade do povo evangélico culpa o Danilo pelo atentado à igreja; a sociopata da Rafaela quer nos destruir, um a um; e a Raíza no meio disso tudo.

CAEL: De fato, Cipriano anda passando dos limites.

MARCO: Satanás sempre passa dos limites, mas se tem uma coisa que ele goste mais do que a si próprio, é de pessoas que concordem com ele.

Cael se levanta, abismado.

CAEL: Você, por acaso, não tá sugerindo que/

MARCO (por cima): A igreja não conhece outro milionário tão perfeito e idôneo quanto você, Cael.

Em Cael, surpreso pela proposta. No olhar sacana de Marco. 

CENA 14 IGREJA EVANGÉLICA MÃO DIVINA [INT. / MANHÃ]

O cenário é deplorável: cadeiras quebradas; pedaços do candelabro sendo retirados por voluntárias; cortinas queimadas; paredes pichadas de preto com a seguinte frase: 

“O inimigo do herói ainda está entre nós”

A voluntária #1 (55 anos, ruiva, cabelos amarrados; traja uma blusa branca de manga, saia longa, da cor bege); e voluntária #2 (Traja a mesma roupa; jovem, morena, cabelos pretos, bem amarrados) espiam Dcr, cochichando entre si.

João, de um lado e de outro, nervoso.

JOSUÉ: Eu peço perdão por toda essa confusão, mas eu não pedi que ninguém os atacasse.

RAÍZA (sarcástica / raiva): Vamos sair pelos fundos, já que agora somos inimigos públicos, né?

Josué pega em seu braço, os dois se encaram.

JOSUÉ: Peço perdão mais uma vez por todo o mal que causei. E pedirei setenta vezes sete, se assim for necessário.

O pastor Everton e as voluntárias fazem sinal da cruz.

EVERTON E AS VOLUNTÁRIAS (em uníssono): Amém!

ROGER (O.S / provoca): Suas citações bíblicas são espontâneas, seu pastor? 

Josué lhe dá uma olhada de canto, medonho.

ROGER (cont.): ...Ou foram anos de estudo?

Josué mal responde, e o pastor Everton toma a frente.

EVERTON: Qualquer pessoa que tem Deus no coração conhece as palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo. 

DCR: Aquelas pessoas que morreram tinham Deus no coração, e foram mortas por quem hoje incita a bíblia.

Nos olhares de cada um, tensos. As voluntárias o encaram com raiva e reprovação.

DCR: Pra mim já deu!

CIPRIANO (O.S): Bang! Bang!

Todos veem Cipriano, trajando seu sobretudo negro, de costume, chegar acompanhado de dois seguranças.

CIPRIANO: O senhor é um herói morto, Danilo Rodrigues. Nunca dê as costas para mim.

SUPER CLOSE em Dcr, surpreso por ouvir a mesma frase do passado.

JOSUÉ: Senhor Governador, por favor, não é hora pra brincadeiras, ainda mais aqui.

DCR: Eu tenho certeza de que o nosso governador tava apenas brincando. Ele não atiraria pelas costas.

Cipriano abre os braços, sarcástico, e sorri.

CIPRIANO: Mas é claro, meus amigos mais queridos! Vim prestar minha solidariedade, pastor. Já estou enviando meus homens para a reforma da igreja.

As duas voluntárias, ansiosas, se aproximam dele e estendem as mãos.

VOLUNTÁRIA #1: A gente fica feliz que o senhor tenha vindo. Toda ajuda será bem-vinda.

LILA: Se todos culpam o Danilo pelo atentado, nada mais natural que ele pagar o estrago, não?

VOLUNTÁRIA #2: Quem não sabe perdoar como Jesus perdoou, não terá a misericórdia de Deus e não poderá contribuir com a igreja.

RAÍZA: Fácil pra você falar em perdão, não é? O assassino do seu pai tá morto.

A mulher olha espantada para os outros, sem reação. Sai dali rapidamente, cabisbaixa. Nos olhares de Raíza e Dcr que cruzam com os do pastor Everton, que nem os encara.
Em Lila desconfiada.

Takes da cidade/

CENA 15 PALÁCIO GUANABARA – GABINETE [INT. / MANHÃ]

Na tela de um smartphone com a seguinte manchete:

“Atentado à Igreja Evangélica põe em dúvida a reputação do herói Nilo”

Cipriano chega por ali fingindo preocupação.

CIPRIANO: Aimée, querida! (senta ao seu lado) Acabei de saber o que aconteceu. Você não disse que ia à igreja ontem. 

AIMÉE: Me desculpe, não vi nada demais. 

Os dois se beijam na boca, mas ela se mostra indiferente.

CIPRIANO: Mantenha distância desse Nilo. (ele vê a notícia no smartphone dela) O que é isso? (lendo) “Apesar da suspeita de que foram os fãs do herói que organizaram o ataque, Nilo estava na igreja e salvou a vida da filha do presidente”.

AIMÉE: Até os sites estão na dúvida se ele é herói ou vilão.

Cipriano se levanta, irado.

CIPRIANO: Mas o que há com essa gente? Um herói que é capaz de arrastar mais de 20 pessoas a cometer um ato horrendo desse, não é um bom exemplo.

AIMÉE: Ele não tem culpa de ter fã assim, Cipriano.

Cipriano respira fundo, fica pensativo por instantes.

CIPRIANO: É...Ele não tem culpa...

AIMÉE: O que disse?

CIPRIANO (disfarça): Eu não vi ninguém comentando sobre a namorada dele, a Lila. Ela não foi à igreja?

AIMÉE: Não a vi. Tive a leve impressão de que o Nilo fazia muita questão da minha presença lá.

Cipriano se surpreende, alisa o queixo analisando o comentário. 

CIPRIANO: É mesmo?...(malicioso) Hmmm, se ela tivesse ido no seu lugar, não haveria tanta repercussão salvá-la do atentado, não é?

Cipriano, muito pensativo. Aimée, sem entender.

CENA 16 APTº DE RAFAELA [EXT. / TARDE]

A porta é aberta e Rafaela, estressada, faz sinal para alguém entrar.

RAFAELA: Entra logo!

Hans entra e Rafaela bate a porta na nossa cara.

Corta para o seu INTERIOR

HANS: Pelo visto, já soube...

Rafaela atravessa a sala, chateada.

RAFAELA: Isso que você chama de atentado? Nem atearam fogo no maldito.

Hans circula pela pequena sala (chão de lajotas largas e azuis, alguns vasos de plantas, um estofado preto, mobília grande e estreita na cor bege; uma pequena mureta separa a sala da cozinha) e entra na

COZINHA

Onde ele abre a geladeira e pega uma jarra d’água.

HANS: Falei pra você que o Cipriano não queria morte, por enquanto.

RAFAELA: Nem uma queimadura? Poxa, Hans! Dei duro pra mandar fazer aquelas camisetas. O mínimo que eu esperava era um agrado.

Hans bebe um copo d’água, enquanto olha, sacana, para Rafaela.

HANS: Cê quer um agrado?

Ele deixa o copo sobre a mureta e vai até Rafaela, fazendo ar de safado, e a agarra pela cintura.

HANS: Te dou agora.

Hans dá um longo beijo em seu pescoço, Rafaela tenta desviar-se, fazendo-se de difícil.

RAFAELA: Ah, Hans, para! (ela dá as costas, ele em cima) To muito mais focada no que vim fazer aqui. 

HANS: Eu também (EROM surge ao seu lado) Mas você não tem que se preocupar com os nossos inimigos; eles hão de cair um por um feito dominó.

RAFAELA: É claro que vão cair (ela se volta, firme). Eu mesma ajudarei a derrubá-los.

Em Hans, sorrindo malicioso. Erom, ao seu lado, satisfeito.

FADE TO BLACK

FIM DO TERCEIRO ATO


QUARTO ATO


FADE IN

CENA 17 APTº 3011 [INT. / NOITE]

Raíza acaba de abrir a porta, meio atrapalhada com uma sacola, olha a sala e depois fecha. Quando se volta,

DCR ESTÁ ESTACADO BEM A SUA FRENTE

DCR: Eu tava te esperando.

Raíza joga a bolsa sobre o sofá, cansada.

DCR: Fiquei pensando sobre o que aconteceu. Acho que não foi uma boa estratégia ter usado a Aimée.

Raíza vai até a cozinha.

RAÍZA (O.S): Era importante que ela servisse de testemunha, Dcr. (Dcr olhando tudo a sua volta, estranhamente curioso) Se você salvasse apenas o João, seria nossa palavra contra a dos fiéis. Agora, quem seria contra a filha do presidente?

DCR: Os fiéis andam tão enlouquecidos, que não duvido que eles se voltem contra ela.

Raíza aparece da porta da cozinha.

RAÍZA: Se alguma coisa acontecer, retroceda e recomece. Por mais que seja doloroso pra você, você acaba conseguindo, né?

Dcr a observa e sorri, malicioso.

DCR: Claro...Como num jogo, não é?

Raíza se aproxima, sorridente, mas ao tocar seus ombros,

RECUA 

E rapidamente fecha a cara, confusa.

RAÍZA: Ninguém pode ser mais forte do que os donos do tempo.

DCR: Donos do tempo (ri, debochado)...Uma pena que não conseguimos salvar o seu pai, não é? 

Dcr a encara estranhamente; Raíza vai pra trás, aturdida, quando do nada

É ARREMESSADA DE CONTRA A PAREDE

Caindo no chão. 

Dcr desapareceu. Raíza corre até a porta, e quando abre, dá com Dcr carregando sacolas.

DCR: Hmm, prontamente hen. Me ajuda?

Raíza, em pânico, se apressa até a janela, e não acredita no que vê.

DCR NA CALÇADA

Acena, sarcasticamente, para logo se transformar em CIPRIANO.

Em Raíza, cobrindo a boca de susto.

A TELA SE FECHA 

FADE IN

CENA 18 IGREJA EVANGÉLICA MÃO DIVINA [INT. / MANHÃ]

O pastor Everton conversa com um fiel no meio do corredor, e assim que vê alguém fora da tela, despede-se dele.

EVERTON: Toda ajuda é bem vinda. Muito obrigado e vá com Deus!

Cael caminha, observando a reforma que está sendo feita.

CAEL: Graças a Deus, tudo está caminhando para o seu devido lugar.

Os dois apertam as mãos.

EVERTON: Micael Bedlin, acertei? Tenho a impressão de que te conheço de algum lugar.

CAEL (sorri): Praticamente o Brasil me conhece. Virei meio que um coadjuvante na história do herói Nilo.

Os dois riem.

EVERTON: Temo por esse rapaz. Tão jovem e sofrido, tendo sua história como motim para destruir a palavra de Deus. Querem fazer justiça em nome dele.

CAEL: O povo não tá acostumado com uma guerra entre anjos e demônios do século 21. Todos querem um herói, (dá de ombros) só não sabem o que querem que ele defenda.

EVERTON: Eles sabem. Assim como o povo judeu quando perguntaram a Jesus se eles deviam pagar o imposto a César.

CAEL: O que Jesus dissesse, seria lei.

Josué chega por ali, ressabiado, faz um sinal de cumprimento com a cabeça para Everton.

EVERTON: Bom, preciso sair. Fique à vontade.

Cael faz que sim e encara Josué, por instantes.

CAEL: Vejo que está refazendo sua vida, Josué. Espero que...Pra melhor.

JOSUÉ (humilde): É a primeira pessoa do clã Nilo que veio me dar as boas vindas. Nem meu filho acredita em mim.

CAEL (sarcástico): Se isso te consola, nem eu (Josué recua), Mas...Depois de ter conseguido o perdão do Marco, acho que me apeguei à fé (sorri fazendo Josué o mesmo). Imagino que esteja sendo difícil pra você recomeçar. 

JOSUÉ: Não imagino que esteja preocupado. Nós nunca tivemos uma boa relação. Por causa da Raíza.

CAEL: Mas no final de tudo, você tinha razão. Sabe, Marco conseguiu se vingar de mim. A frase de Confúcio “Antes de embarcar em uma jornada de vingança, cave duas covas” não se aplicou a ele. 

JOSUÉ: Parece desapontado, irmão. Pensei que depois de dois anos você tivesse superado.

CAEL: Certas coisas não se superam em dois anos. Mas a gente tenta, Deus ajuda. Isso me faz lembrar o que vim fazer aqui.

Cael apanha do bolso do paletó, sua carteira, para logo abri-la. 

CAEL: Eu sei que o governador já tomou suas providências, mas gostaria de contribuir. (ele mostra o cheque, puxa uma caneta do paletó) Onde posso assinar?

Em Josué, interessado.

CORTE DESCONTÍNUO

Na mão de Cael assinando o cheque sobre o púlpito.
Cael entrega o cheque a Josué, que pega, meio constrangido.

JOSUÉ: Que Deus lhe abençoe, Cael. 

Os dois se dão as mãos, cordialmente.

JOSUÉ: Seria bom se todos agissem assim como você.

CAEL: Não foi a minha vida que você desgraçou.

Josué fecha a cara e Cael sorri, sádico, dando-lhe as costas.

JOSUÉ: E se eu tivesse feito algo contra você? O que faria?

Cael se volta, esperto.

CAEL: Faria você sentar ao lado direito...Do Diabo.

Cael sorri novamente e sai de cena.

Em Josué, pensativo.

CENA 19 IGREJA EVANGÉLICA MÃO DIVINA [EXT. / TARDE]

Josué está saindo com a bíblia debaixo do braço, cumprimenta rapidamente uma senhora, e olha para trás, um instante. Quando se volta, dá com Rafaela, de sorrisinho debochado.

RAFAELA: Sua benção, pastor.

JOSUÉ (desconfiado): Que Deus lhe abençoe.

Josué vai saindo quando Rafaela ri, sarcástica.

RAFAELA: Que curioso, não? Agora converso com um enviado de Deus.

Josué para, incomodado, mas volta e se esforça.

JOSUÉ: O que a irmã quer comigo?

RAFAELA: Saber se andar com a bíblia debaixo do braço opera milagres mesmo ou...Você sempre foi um bom ator?

Josué respira fundo, olha para os lados, já se enervando.

JOSUÉ: Rafaela, eu to tentando ser uma pessoa melhor. Se te pedir perdão vai fazer você me deixar em paz, eu peço então.

RAFAELA: Você derramou sangue, Josué, e agora pede paz? Perdão algum vai mudar o que você fez e fazê-lo voltar ao seu rebanho como uma ovelha perdida. Você já nasceu desregrado.

JOSUÉ: Nós dois erramos, Rafaela, mas você só aponta o dedo para mim. Vai ficar nessa até quando? 

RAFAELA: Até destruir sua igreja. Ah não, espera! (murmura) Já fizeram isso.

E gargalha.

JOSUÉ: Você não teria coragem de fazer isso...

RAFAELA: Você não teria coragem de me jogar de um prédio, teria? (pisca) Uma pena você não ter saído chamuscado. (dá um tapinha em seu ombro) Uma pena.

Rafaela sai de cena. Em Josué, chateado.
Em sua mão fechada, se contraindo de ódio.

FADE OUT

FADE IN

CENA 20 FACHADA - GALPÃO [INT. / NOITE]

Reconhecemos que o galpão é o mesmo onde Erom se suicidou (cena  - 3x17).

WALTER (O.S): Eu espero que todos apreciem esta ajuda e não comentem com ninguém.

Corta para o seu INTERIOR

Onde uma fila de pessoas, entre homens e mulheres, aguardam diante de Walter e três seguranças altos, fortes, e um deles negro. O segurança negro vai entregando um ENVELOPE para cada um deles.

WALTER: O trabalho de vocês foi excelente. Como diria o nosso governador: “A igreja sofre, mas se erguerá; entretanto, para os falsos deuses como Danilo Rodrigues, o sofrimento só cessa após a morte”.

APLAUSOS. Alguns se entreolham notavelmente forçados à situação.

Um envelope é entregue a mãos femininas, que o abrem, revelando um MAÇO DE DINHEIROS.
O segurança negro olha sério para quem entregou.

Se trata de SAM /

= = SONOPLASTIA – SUSPENSE = =

Que logo sai dali e atravessa a câmera.

FADE MUSIC / FADE TO BLACK

CENA 21 CASA DO PASTOR EVERTON - SALA [INT. / NOITE]

Local na penumbra. Ouvimos um barulho de chaves vindo de um corredor. A voluntária #2 da igreja adentra e se surpreende com a sala às escuras.

VOLUNTÁRIA #2: Mas quem apagou essa luz? (T) Everton! É você?

Quando ela acende a luz, salta para trás de susto.

RAÍZA ESTÁ SENTADA NA POLTRONA

Tranquila, de pernas cruzadas.

RAÍZA (irônica): Ops! Te assustei?

VOLUNTÁRIA #2: Como é que você entrou aqui? (grita) EVERTON! (procura por algo) Eu vou chamar a polícia...

RAÍZA: Não se dê o trabalho, Sônia. Assim que a imprensa souber que o seu irmão é um assassino, a polícia virá até vocês. 

Em Sônia, petrificada.

RAÍZA: Eu sou a imprensa. 

SÔNIA: Eu não sei do que você tá falando. Sai daqui agora!

RAÍZA: Não há nada oculto que não haja de manifestar-se. O seu irmão pastor deve conhecer bem essa citação bíblica, não é?

SÔNIA: A perda do teu pai não te fez bem, garota. Tá delirando.

Raíza se levanta no súbito e Sônia recua, assustada.

RAÍZA: Vamos ver se o povo achará a mesma coisa quando Lila Machado publicar. 

SÔNIA: Você não tem provas, garota. Vai fazer o quê? Dizer que viu em sua bola de cristal? (ri)

RAÍZA: Posso fazer melhor. Arrumo as provas e ainda faço parecer que não foi crime de honra.

Sônia se mostra tensa.

RAÍZA: Ou podemos chegar a um acordo. O que acha?

Sônia faz que não gosta.

FIM DO QUARTO ATO


ATO FINAL


Vista aérea da cidade iluminada / Noite

JOSUÉ (O.S): "Peçam, e será dado; busquem, e encontrarão;”.

CENA 22 IGREJA EVANGÉLICA MÃO DIVINA [INT. / NOITE]

ÂNGULO ALTO

Salão com mais pessoas do que antes, todos de pé assistindo a mais um culto de Josué.

EM JOSUÉ COM A BÍBLIA NA MÃO

JOSUÉ: “Batam, e a porta será aberta. Pois todo o que pede recebe; o que busca encontra; e àquele que bate, a porta será aberta”.

VOZ MASCULINA (O.S): Eu tenho uma dúvida, pastor!

Josué procura o dono da voz, todos fazem o mesmo.

É EMERSON (com um olho roxo), encarando o pastor, sem medo. 

Raíza e Dcr estranham, assustados com aquela aparência.
Emerson caminha em meio ao povo, que abre passagem, e notamos que ele manca.

JOSUÉ: Qual a sua dúvida, irmão?

EMERSON: Quando Jesus disse: “Bata e a porta se abrirá”, significa que ele nunca pediu ajuda ao Pai quando tava na cruz?

OUVIMOS burburinhos, gente espantada.

Josué olha para Everton que, segurando um lenço, tosse, para logo em seguida fazer um sinal positivo com a cabeça.

JOSUÉ (para Emerson): Jesus escolheu morrer por nós, pecadores, para que o mal não se estabelecesse entre nós.

EMERSON: E será que Ele, tão poderoso, não sabia que o mal nunca deixaria de existir? Jesus era tão sábio que deu a vida pela humanidade, às cegas? 

EVERTON (paciente): Você está blasfemando mais uma vez, irmão/

EMERSON (por cima): A igreja recebe donativos do governo que apoia a ideia de que risco de vida em prol de outro, é suicídio. 

JOSUÉ (nervoso): Não iremos tolerar sua infâmia, peço, por favor, que se retire/

EMERSON: Quando a coisa fica séria, ninguém responde direito, não é?

Josué avança, Emerson recua rapidamente.

EMERSON: O que vai fazer? Vai mandar seus fiéis me darem outra surra?

ESPANTO GERAL.

EMERSON: (aponta para o olho e para a perna) Isso aqui é obra dos seus fiéis!

[POVO]: MISERICÓRDIA! - ISSO É CALÚNIA! - DEUS VAI TE CASTIGAR!

JOSUÉ: GUARDAS! Ponha esse homem sem fé para fora daqui.

Dois guardas avançam e seguram Emerson pelos braços.

EMERSON: Não se expulsa um cristão da igreja! Você profana a Casa de Deus!

Enquanto ele esperneia, os guardas o arrastam dali. 

Josué o fulmina no olhar, quando acaba encarando

RAÍZA E DCR

Que já faziam o mesmo.

CENA 23 IGREJA EVANGÉLICA MÃO DIVINA [EXT. / NOITE]

Os guardas empurram Emerson para a calçada e dão as costas. Raíza e Dcr passam por eles, enquanto Emerson se ajeita.

DCR: Emerson! (Este se volta, sobressaltado) O que foi aquilo?

RAÍZA: Deu sorte de não ter sido preso de novo. Mais um escândalo e te jogam no cadafalso!

EMERSON: Eu fui espancado hoje cedo. Disseram que eu devia ter ido a julgamento por blasfemar. Esse cara é que devia tá morto!

DCR: Cara, isso...Isso não é por mim, não né?

Emerson olha para cada um deles, relutante.

EMERSON: Josué matou a minha irmã (Dcr e Raíza, chocados). Ele matou Vicky Amaral.

Em Raíza, perplexa.

No ódio de Emerson.

CAM desvia para um CARRO PRETO de gente rica logo atrás e

ADENTRA O VEÍCULO

Onde Aimée, no banco do carona, espia pela janela, ressabiada.

FADE TO BLACK

FIM DO EPISÓDIO


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