0:00 min       RAÍZA TEMPORADA FINAL     SÉRIE
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WEBTVPLAY APRESENTA
RAÍZA 4


Série de
Cristina Ravela

Episódio 02 de 14
"O Diabo Te Ama"



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 ATO DE ABERTURA


FADE IN

Vista panorâmica da Igreja Evangélica Mão Divina

EVERTON (O.S): Algumas pessoas ainda vão te rejeitar, irmão, mas a união faz a força e logo você ganhará o respeito de todos.

CENA 1 IGREJA EVANGÉLICA MÃO DIVINA [INT. / MANHÃ]

O pastor e Josué, ambos de terno, muito bem alinhados, estão no altar.

JOSUÉ: Não me leve a mal, pastor, mas se até hoje malham Judas, o que não vão fazer comigo que matei até o meu irmão?

EVERTON: Não se desespere. Metade das pessoas que estiveram aqui aceitou que você foi perdoado por Deus. O fanatismo que alguns têm pelo o herói Nilo não será maior que a fé que nós temos em Deus.

JOSUÉ: Amém.

EVERTON: Tá na hora do culto. Acho que hoje eu posso conduzir.

Josué faz que sim.

CORTE DESCONTÍNUO

O pastor tosse algumas vezes, mas continua lendo a passagem da bíblia, enquanto interpreta.

EVERTON: O pouco que vocês têm, será o muito para o nosso Senhor Deus. Ele sempre recompensa quem se sacrifica, mas se você não pode doar, não tem problema. Deus é justo para com todos...

Josué passa por entre os fiéis com uma bandeja, recolhendo o dízimo. A mão feminina, com unhas pintadas de preto, deposita uma nota de 100 reais, mas demora a retirar a mão.

VOZ FEMININA: Ouvi dizer que Joana D’Arc foi a reencarnação de Judas. 

Josué encara Rafaela (usando uma camiseta branca sob o sobretudo preto; Batom vermelho e rímel preto), que sorri, maliciosa.

RAFAELA: Não é estranho que ela tenha morrido diante do povo, tal qual Jesus, afinal, todos pagam pelo o que fazem, não é?

JOSUÉ: Não sei de onde tirou isso, irmã, mas a reencarnação não existe. Ninguém paga uma dívida depois de morto.

RAFAELA: Que bom que pensa assim. Porque eu também quero acreditar que as dívidas devem ser pagas em vida. E o mais breve possível.

Clima. Rafaela se levanta e caminha em direção à tela, até sumir. Josué, ao fundo, a olha de forma medonha.

A tela se fecha.

FIM DO ATO DE ABERTURA


4x02

O DIABO TE AMA


PRIMEIRO ATO


Vista aérea da Redação Carioca News/

FADE IN

CENA 2 REDAÇÃO CARIOCA NEWS [INT. / MANHÃ]

Raíza imprime umas folhas, Lila chega por ali e entrega outros papéis.

LILA: To chateada. O Beto ainda não conseguiu descobrir com quem o Hans anda se encontrando.

RAÍZA: Eu acho meio arriscado tê-lo como espião. O Hans é o melhor amigo dele. Se ele descobre que o Hans pode ter tentado matá-lo, não sei o que pode acontecer.

LILA: Beto sabe que o Hans não é nenhum santo, vai! Não é como levar um falso tiro pelas costas do melhor amigo, pra salvá-la de ser morta de verdade.

Raíza faz careta, Lila sorri.

RAÍZA: Hans não é santo, mas daí a descobrir que é um assassino?

Raíza vai até uma mesa e arruma as folhas.

RAÍZA: Acho difícil salvá-lo pela segunda vez.

LILA: Falando nisso, o nosso herói e o Roger já devem tá no aeroporto à espera do presidente. 

RAÍZA: É hoje que ele volta pra Brasília né?

LILA: É. Depois das eleições a segurança dele foi bem reforçada. (murmura) Tão falando até em atentado.

Raíza para o que está fazendo e fixa o olhar.

NUM EFEITO DIGITAL, CAM INVADE OS SEUS OLHOS

= = VISÃO DE RAÍZA = =

AEROPORTO [INT. / MANHÃ]

Pelo ponto de vista da CAM, do alto de uma plataforma, um homem (moreno, cabelos pretos, barba feita; trajando um terno cinza) adentra o local, acompanhado de uma jovem (loira, cabelos amarrados, trajando um longo vermelho) e de vários políticos e seguranças. A imprensa tira fotos, muito burburinho.

O cano de um fuzil aparece na tela, a mão enluvada aperta o gatilho.

OUVIMOS O DISPARO

O presidente é ATINGIDO no peito. Grande comoção.

= = FIM DA VISÃO = =

LILA: Eu acho que o perigo é no dia da posse, não acha?

RAÍZA: Ahn...Sim. Preciso ir ao toillete, Lila. Segura as pontas aí?

Lila faz que sim e vê Raíza saindo apressada. 

CORTA PARA

TOILLETE 

Raíza já chega com o celular a postos.

RAÍZA: Presta atenção, Dcr, haverá um atentado contra o presidente aí. 

CENA 3 AEROPORTO [INT. / MANHÃ]

Dcr ao celular, escuta atento, olhando para o alto.

Há muita movimentação na plataforma, mas em uma janela pequena, é possível ver o cano do fuzil e um sujeito moreno sair da sala, de forma suspeita.

DCR: Ok, já vi. Mas como posso evitar? Esse cara não tá sozinho. (T) Você tá louca? Eu posso ir preso!

Na expressão assustada de Dcr.

CORTE DESCONTÍNUO

Em meio às pessoas, Dcr vai se espreitando e olhando para o lado da porta.

O homem e a garota da VISÃO de Raíza surgem na entrada, acompanhados de políticos e seguranças. Fotos são tiradas, imprensa concentrada, muito ritmo.

Dcr olha para o alto, mas as pessoas atrapalham sua visão. Sem pensar muito, Dcr arremessa um celular em ÂNGULO BAIXO, fazendo o objeto deslizar pelo piso. 

O celular para aos pés de um guarda que imediatamente aciona seu rádio transmissor.

GUARDA #1: Celular suspeito encontrado, evacuar área, câmbio.

Os guardas começam a afastar as pessoas, que se desesperam. Muito tumulto. Seguranças tentam proteger o presidente e sua filha.

CORTA PARA

2º ANDAR – AEROPORTO

Onde Dcr invade uma sala, 

E NÃO ENCONTRA NINGUÉM.

Quando SAI, vê um homem todo de preto em meio ao aglomerado de gente aflita, com uma mochila grande nas costas, apontando uma arma discretamente para o térreo.

Forte close em seu rosto, quando

DCR SE JOGA NO BANDIDO

[Efeito câmera lenta]

Com o impacto, os dois voam do 2º andar e 

rolam pelo chão.

[Fim do efeito câmera lenta]

Os guardas se preparam para se aproximar, mas 

OUVIMOS UM TIRO

O segurança que acompanhava o presidente é atingido. Dcr vê outro bandido atrás, olha a filha do presidente tentando socorrer o segurança, mas ficando na linha de tiro. Tudo muito ágil.

Dcr se desvencilha do primeiro bandido, corre e salta em cima da garota, OUTRO TIRO É OUVIDO, mas estilhaça o vidro assim que Dcr CAI com a garota.

Uma tropa de guardas prende os dois bandidos.

Dcr está caído por cima da moça, preocupado.

DCR: Tudo bem com você?

GAROTA #1 (encantada): Me sentindo a Lois Lane.

Ambos sorriem.

FADE TO BLACK

FIM DO PRIMEIRO ATO


SEGUNDO ATO



FADE IN

CENA 4 REDAÇÃO CARIOCA NEWS [INT. / MANHÃ]

Os computadores ligados na transmissão do ocorrido no aeroporto.

REPÓRTER (NA TV): Como todo bom herói de filme americano, Danilo Rodrigues surgiu do nada e saiu sem dar entrevista, fazendo de conta que o seu segredo de salvador da pátria não tinha sido descoberto.

Lila encara Dcr, meio insatisfeita.

LILA: Quer dizer que o herói literário, agora é o salvador da pátria?

Ela, Dcr e Raíza se dispersam dos demais.

RAÍZA: E salvou a noiva de Cipriano. Para o público vê-los como rivais, pouco custa...

Lila lhe dá uma olhada mortal, Raíza sorri, brincando.

DCR: Será que ele vai achar que eu tentei o suicídio e me mandar pro cadafalso?

LILA: (tom de ciúmes) Ele não seria louco de tentar nada contra o salvador da Pátria. Mas se o Cipriano tentou matar o presidente, pode dar um jeito de te matar também.

Dcr se aproxima e tenta tocar o rosto de Lila.

DCR: Por que tá falando nesse tom? Isso é ciúmes? (ri)

Lila desvia o rosto, chateada.

LILA: Eu não criei um herói de aço, tá bom? É bom que essa garota saiba que ela não é a sua Lois Lane.

Dcr olha para Raíza fingindo espanto. Raíza disfarça o riso, quando Roger vem por trás, afoito.

ROGER: Gente, ela tá vindo aí...Eu to bem? (Roger ajeita o cabelo) Ando carente desde que a Joana me deixou e voltou pra Brasília. Raíza, to irresistível?

RAÍZA: Te pegava fácil.

DCR: Mas quem tá vindo aí?

Roger vai dizer, mas Lila fecha a cara ao ver 

A FILHA DO PRESIDENTE ENTRANDO COM DOIS SEGURANÇAS

GAROTA #1: Bom dia a todos! (para Dcr) Já que você fugiu de mim, eu tive que vir até aqui.

DCR: Ahn...Eu não fugi, apenas tive que/

A garota lhe beija no rosto, de surpresa. Lila, ao fundo, fuzilando a garota no olhar.

DCR: ...Que voltar ao trabalho. 

GAROTA #1: De jornalista ou de herói? Não me perdoo por não tê-lo reconhecido na hora. Sou sua fã, Nilo!

Lila se aproxima, fazendo a frente.

LILA: Fico feliz que tudo tenha terminado bem, Aimée.

Aimée mal olha em seus olhos, e apenas faz que sim. 

AIMÉE: O que posso fazer pra te agradecer, Nilo?

DCR (sem graça): Convencer o seu pai a diminuir os impostos?

Todos riem, menos Lila.

AIMÉE: Acho meio difícil, mas posso te fazer um convite. Você já visitou o Palácio Guanabara?

Dcr entreolha Raíza, sabendo que lá é o reduto de Cipriano.

Vista aérea do Palácio Guanabara/

Corta para a mão masculina socando a mesa.

CENA 5 PALÁCIO GUANABARA – GABINETE [INT. / MANHÃ]

A mão é de Cipriano, enfurecido.

CIPRIANO: Será que eu terei que agir sozinho?

Há dois homens engravatados, sentados à frente dele.

Homem #1 (32 anos, moreno, alto, magro, olhos castanhos) e Homem #2 (52 anos, moreno, alto, cara de malandro).

HOMEM #1: A gente fez tudo certo, Zacarta. Mas aquele garoto metido a herói de desenho animado agiu tão rápido que mais parecia vidente.

Cipriano se mostra curioso.

CIPRIANO: Agora o herói virou salvador da pátria. Não posso condená-lo por arriscar a própria vida. Ele é um herói nacional já.

HOMEM #2: Até os heróis cometem erros e são mal vistos.

HOMEM #1: Fica meio difícil agora, Walter. Todos nós sabemos que o presidente tem uma relação de amor e ódio com seus eleitores, mais da metade são fãs desse Nilo.

WALTER: Mas vivemos num mundo onde o mal ainda reina (encara Cipriano), não é?

Cipriano se recosta na poltrona, respira fundo.

CIPRIANO: E quanto aos nossos homens?

WALTER: Não se preocupe. Nosso vice presidente aqui, já resolveu o caso, não é, Israel?

ISRAEL: Eles foram orientados a se comportarem como lunáticos. Logo sairão de lá e o caso será abafado. Bem (ele se levanta), preciso ir. O dever ou a falta dele me chama.

Todos riem.

Israel abre a porta e SAI.

Walter se aproxima, fazendo segredo.

WALTER: Você sabe que basta usar magia pra acabar com tudo isso, não sabe?

CIPRIANO: Usar magia pra que você ganhasse por unanimidade a presidência da câmara dos deputados, foi como tirar doce de criança. A morte do presidente precisa causar comoção, parar o Brasil, fazer todos entenderem a razão d’eu bloquear a violência usando o método da inquisição. 

WALTER: Então ao menos pare esse Danilo. Ele é um reles mortal, não sabe o que você planeja, é apenas um sortudo (Cipriano pensativo). Se 70% da população te adora, outros 30% te odeia. O carisma dele pode ser maior do que sua força.

Em Cipriano.

CENA 6 CURTO-CIRCUITO [INT./ MANHÃ]

Uma garota loira limpa o balcão. Marco adentra olhando ao redor, admirado.

GAROTA #2: Ainda não abrimos, senhor.

MARCO (debochado): Ah é por isso que está meio caído? Pensei que fosse decadência.

A garota faz cara de boba, sem entender.

CAEL (O.S): Acostumado a se olhar no espelho, querido irmão? 

Marco encara Cael, este sorri sarcástico. Os dois, então, se abraçam, dando um tapinha nas costas, cada um.

CORTE DESCONTÍNUO

Ambos estão sentados a uma mesa do salão, contendo dois copos de uísque.

CAEL: O que sei da Rafaela é que um parente quis levá-la para ser tratada nos Estados Unidos. 

MARCO: Apesar de tudo, o Danilo ainda quis pagar o tratamento. Faz jus a fama. (sarcasmo) Mas será que ela está viva? Será que ela volta pra se vingar de todos nós meio Emily Thorne?

CAEL: Já sobrevivemos a tantas coisas. Resta saber quem de nós irá sobreviver a essa inquisição do novo século.

MARCO: Ainda bem que sou temente a Deus e me comporto como um cordeirinho. 

Cael ri, duvidando.

CAEL: Ex-presidiário e ex-cúmplice de Cipriano. Você é a própria heresia, caro irmão.

Marco pega o copo e bebe tudo.

MARCO: Somos todos.

CAEL: Nossa mãe ia gostar de nos ver assim, conversando amigavelmente.

MARCO: Talvez ela tenha viajado pra isso mesmo. (Cael não entende) Ela não iria acreditar. Ninguém acredita.

Marco sorri forçado.

CAEL: Dois anos foram o suficiente pra seguir em frente. Eu decidi que não quero mais brigas, e nem mais alianças com gente como a Rafaela.

MARCO: Isso significa que eu posso te convidar pro meu casamento com Raíza no final do ano?

Cael engole a seco, constrangido.

CAEL (finge brincar): Só não me chame pra ser o padrinho.

Ambos sorriem, mas Marco o observa, desconfiando de sua amabilidade. 

CENA 7 SELF-SERVICE - TOILLETE [INT./ MANHÃ]

Raíza acaba de entrar. Uma garota morena, trajando um sobretudo preto, está arrumando os cabelos pretos diante do espelho. Raíza se posiciona do outro lado e arruma os cabelos também. Distraída, ela abaixa a cabeça para abrir a bolsa.

RAÍZA: Onde enfiei meu batom? (T) Ah, achei!

Quando torna a olhar para o espelho, SUSTO. No lugar da garota está Cipriano, de sobretudo preto, bem ao seu lado.

RAÍZA: Cipriano? Como entrou aqui? Cadê aquela/

CIPRIANO: Distraída, não é, minha cara? Pensei que depois de tudo, fosse encontrar uma Raíza mais esperta. 

RAÍZA: (seca / sarcástica) Errou de banheiro. Se você quer agradecer ao Dcr por ter salvado sua noiva/

CIPRIANO (por cima): Eu só quero saber se no manual do seu amigo consta um botão de desliga.

Raíza faz que não entende.

CIPRIANO: Ele não é um herói de brinquedo? (Raíza bufa) Se ficar muito tempo ligado ele pode esquentar demais e acabar...(aproxima o rosto) Explodindo.

Cipriano ri.

RAÍZA: Deve tá sendo muito chato pra você ter que dividir as atenções com ele, né? Até a sua noiva se encantou pelo herói de brinquedo.

Cipriano fecha a cara, mas logo ri, superior.

CIPRIANO: Sabe qual é a vantagem de estar do lado de cá? É que eu posso ficar do lado que eu quiser. E desta vez não temos a Ari para me rogar uma praga. Praga alguma me derruba.

Raíza, diante do espelho, passa seu batom vermelho.

RAÍZA: Ninguém é invencível, Cipriano. Você não é Deus.

CIPRIANO: Você e o seu amigo me tornaram invencível. Não há nada que você possa fazer para mudar isso...Nada que esteja ao seu alcance. Portanto, apenas cuide das pessoas queridas que ainda lhe restam.

Close em Raíza, friccionando os lábios, com raiva. 

RAÍZA: Você não vai/

E ela dá com a mesma garota de sobretudo no início da cena que sai sorrindo, estranhamente.

Em Raíza, sem entender.

CENA 8 TOILLETE – SHOPPING [INT. / MANHÃ] 

Beto vem puxando Roger pelo ombro, muito atento ao seu redor.

BETO: Olha, eu não posso demorar.

ROGER: O que descobriu?

BETO: Eu peguei o Hans numa conversa muito estranha por telefone. Parecia que falava com mulher, sabe?

ROGER: Ele não percebeu não, né, amigo?

BETO: Deus me livre! Eu consegui parear nossos celulares e já tenho o telefone da bandida. Quero saber quem tentou me matar no metrô.

ROGER: Melhor deixar isso comigo, amigo. Você pode agir de cabeça quente e acabar no cadafalso como bandido.

BETO: O que pretende fazer?

ROGER: A primeira coisa é não deixar rastros. Quando eu tiver tudo na mão, te falo.

Em Beto, curioso.

CENA 9 PALÁCIO GUANABARA [INT. / TARDE]

Aimée e Dcr acabam de chegar e são recepcionados por uma moça bem vestida. Aimée segura firme no braço de Dcr, que se mostra incomodado.

AIMÉE: Dispensei meus seguranças. Sei que não deve ser confortável pra um herói ter gente te protegendo.

DCR: Também deve saber que não curto o rótulo de herói. Não vivemos dentro de um livro.

AIMÉE: Viu? Todo herói odeia ser chamado de herói.

Ambos sorriem e atravessam a tela.

CORTE DESCONTÍNUO

Dcr olha por todo ambiente admirado, repleto de belos detalhes, tudo na cor ocre. Candelabros, mesas de madeira, grandes poltronas em um largo corredor coberto por um tapete vermelho.

DCR: E isso tudo com a grana do povo...

AIMÉE: O que disse?

Dcr gagueja, sorri.

DCR: Que preciso do decorador daqui pro meu apê.

AIMÉE: Você tem bom gosto. Mas acho um visual meio retro pra um homem tão arrojado feito você.

Dcr disfarça, envergonhado.

Ouvimos um celular tocando “Rebel Heart – Madonna”.

Aiméé abre sua bolsa e apanha seu celular.

AIMÉE: Meu pai, aff...

DCR: Melhor atender.

AIMÉE: Já volto.

Aimée se afasta ao telefone. Dcr caminha, tranquilo, olhando tudo à volta e avista um corredor vazio.
Dcr se distancia de Aimée e OUVE uma conversaria por trás de uma das portas.

CIPRIANO (O.S): Chamei os senhores novamente, porque essa ideia me parece muito brilhante. Até eu me surpreendi com a minha inteligência.

WALTER (O.S): E você acha que esse moleque não vai sacar?

CIPRIANO (O.S): Quando se der conta, já terá acontecido.

Ouvimos risadas.

ISRAEL (O.S): E quando será?

CIPRIANO (O.S): O mais breve possível. Sinto falta de levar alguém para o cadafalso. Agora todo mundo resolveu seguir Jesus.

Mais risos.

CIPRIANO (O.S): Mas sempre há uma ovelha negra, não é?

Silêncio. Dcr estranha tudo muito quieto, quando  

A PORTA É ABERTA

Dcr se assusta ao encarar Cipriano, Walter e Israel.

CIPRIANO: A ovelha negra.

Aimée aparece ao lado de Dcr, curiosa.

AIMÉE: Quem é ovelha negra?

Cipriano se faz de surpreso e lhe dá um beijo na boca.

CIPRIANO: Aimée! Feliz que veio me visitar.

AIMÉE: E a ovelha negra?

Cipriano e Walter riem.

CIPRIANO: O Israel que anda defendendo a oposição. (olha para Dcr) Veja só com que eu tenho que lidar, não é?

DCR (alfineta): O povo anda fazendo a mesma pergunta para o governo.

Clima.

WALTER: Esse não é o garoto que salvou sua noiva, Zacarta? (Walter estende a mão / falso) Garoto corajoso, você hen.

Dcr cumprimenta e aperta sua mão com força. Notamos a cara de dor em Walter que se desvencilha, tenso.

WALTER: Bom, vou indo. Zacarta, senhorita Aimée...Com licença.

Walter e Israel saem.

AIMÉE: Não gosto desse Walter, Cipriano. Não me espanta se ele estiver te influenciando a provocar essa maldita pena de morte.

CIPRIANO: Ora, querida Aimée, se alguém lhe fizesse um mal terrível, não seria justo que pagasse na mesma moeda?

DCR: Se isso fosse aplicado a todos os assassinos, o Josué não seria pastor hoje.

AIMÉE (ingênua): E não teríamos a chance de ver uma pessoa se redimindo.

Dcr segura a raiva. Cipriano sorri, discreto.

CIPRIANO: É por isso que é tão importante seguir Jesus. (encarando Dcr) Nenhum mal, nem castigo será imputado àquele que segue os mandamentos de Cristo.

DCR: O que significa que se você comete um mal terrível, se frequentar a igreja, será salvo.

Dcr sorri forçado deixando Cipriano trincando os dentes. Aimée disfarça o riso.

CENA 10 PALÁCIO GUANABARA [EXT. / TARDE]

Aimée e Dcr vêm descendo as escadas, apressados.

AIMÉE: Nada me tira da cabeça que o Walter quer ser o presidente do país. Aquele atentado deve ter o dedo dele/

DCR (firme): Será que você não tá olhando pro lado errado?

Aimée olha para os lados, confusa.

AIMÉE: Como?

DCR: Quando eu achava quem era o assassino da minha esposa, Lila me disse que, talvez, eu estivesse olhando pro lado errado. Ela tava certa.

AIMÉE: O Walter quis namorar comigo e me garantiu que eu ainda ia me arrepender de ficar com o Cipriano. Tá bom pra você?

DCR: Talvez não fosse uma ameaça contra seu pai...E sim um aviso.

Aimée para e segura no ombro de Dcr.

AIMÉE: Um aviso de que ele ia tornar o Cipriano o ser mais odioso do país, pra ganhar a confiança do meu pai e depois dar o bote.

Dcr respira fundo, certo de que não vai convencê-la da verdade.

DCR: Certo...Ahn...Preciso voltar à redação.

Vista aérea da cidade / Redação Carioca News /

CENA 11 RUA DA CIDADE [TARDE]

Beto vem pela calçada, distraído com o seu celular e fone de ouvido. Quando faz que vai atravessar, ele volta, e muda a expressão ao ver alguém fora da tela.

Hans está ao volante de seu carro conversando com uma mulher do lado de fora, de peruca ruiva e sobretudo marrom. Ela se afasta e Hans arranca com o carro.

Beto retira o fone e segue cautelosamente a mulher.

CAM tremida logo atrás da suspeita. Ela para e olha para trás revelando ser Rafaela.

PESSOAS TRANSITAM NORMALMENTE.

Rafaela segue seu rumo até entrar num prédio de portas de vidros escuros.

Beto escorado na parede, atônito. Ele observa a foto que tirou.
Rafaela, enquadrada ao longe, mas nitidamente percebe-se que é ela.

A tela se fecha

FIM DO SEGUNDO ATO

TERCEIRO ATO


FADE IN

Vista aérea da cidade/

CENA 12 COFFEE BREAK [INT. / TARDE]

TV ligada exibe a repercussão do atentado ao presidente e o heroísmo de Dcr.

Há pouca movimentação, Valentina está debruçada no balcão concentrada na matéria, esboçando lamento.

HOMEM #3: Por favor, um cappuccino pra viagem.

Valentina nem aí.

VALENTINA: Eu podia tá com ele...

HOMEM #3: O que disse? Moça?

Valentina desperta de seu sonho e encara um rapaz (30 anos, loiro, magro, olhos verdes; de barba mal feita e trajando terno cinza).

VALENTINA: Ah, desculpe, o que deseja?

O rapaz ri percebendo sua fixação na TV.

HOMEM #3: Um cappuccino, por favor. Pra viagem.

Valentina prepara o pedido, o rapaz a observa.

HOMEM #3: Parece que esse tal de Nilo virou herói nacional, né? (Valentina apenas assente) Você o conhece?

VALENTINA: Eu e o Brasil inteiro.

HOMEM #3: Digo, se você o conhecia antes de tudo isso.

Valentina acaba de preparar o cappuccino e entrega ao sujeito.

VALENTINA: Sim...Mas é passado.

HOMEM #3: Entendi. Ex-namorada, não é?

Valentina o olha com estranheza.

VALENTINA: Eu nunca tinha te visto por aqui. É novo no bairro?

HOMEM #3: Ah sim, (estende o braço) meu nome é Emerson Martins (os dois se cumprimentam). To fazendo estágio na HDM Construtora. Conhece?

VALENTINA: Parte do mesmo passado.

Ambos sorriem. Emerson entrega uma nota de 10 reais.

EMERSON: Confesso que sou fã desse super herói (enfatiza, brincando). Tem amigos meus achando que ele poderia salvar o Brasil da corrupção.

VALENTINA: Eu acho que ele não opera milagres.

Ele ri. Valentina entrega o troco a Emerson, que pega, encarando-a.

EMERSON: Obrigado. Até a próxima!

Valentina faz que sim, Emerson sai de cena.

CENA 13 REDAÇÃO CARIOCA NEWS – LANCHONETE [INT. / TARDE]

Dcr, Raíza, Marco e Lila ao redor de uma mesa. Os dois primeiros tomam chá mate, enquanto Marco toma café e Lila, cappuccino.

LILA: Não temos como saber se o Cipriano pretende algo contra você, Danilo. Fazer julgamento e matar já virou rotina nessa cidade.

RAÍZA: Mas mesmo que não for contra o Dcr, será contra alguém que o afetará. Perder o prestígio pro inimigo, não deve tá sendo fácil pro governador.

MARCO: Por que não fazemos como antigamente?

Ninguém entende.

MARCO (cont.): Uma sociedade secreta. (todos se entreolham) Só com pessoas especiais como você (ele olha para Raíza rapidamente, mas disfarça). Pessoas com um dom que podem fazer a diferença.

RAÍZA: Sociedades secretas sempre agiram com violência, não muito diferentes do que o povo fez há dois anos durante as manifestações.

MARCO: Mas esse seria um clã que agiria de forma oculta. Algo como o Zorro, que combatia o terror imposto pelo governo.

LILA (sarcasmo): Ok, Johnston McCulley, com essa mente brilhante, como o governo vai se sentir intimidado pro um grupo misterioso se o povo concorda com ele?

RAÍZA: Fazendo o inverso do Hans.

LILA: Como assim?

RAÍZA: Hans tentou matar o Beto por queima de arquivo, e de quebra, conseguiria a capa do jornal.

MARCO: Mas o nosso amigo Danilo agiu como um herói e salvou o garoto. E só não foi parar no cadafalso porque ele, agora, segue Jesus.

DCR (deboche): Interessante o seu raciocínio. Continue.

MARCO: Simples. Se antecipe ao Hans. Seja alvo da imprensa constantemente salvando as pessoas. O clã ajudaria a colocá-lo nos trendings topics.

RAÍZA: O povo não terá coragem de associar o heroísmo de um cristão a um bruxo ou suicida. 

DCR (ríspido): Vocês só podem tá de brincadeira comigo. Eu não sou Deus e não quero esse fardo pra mim.

LILA: Mas o Hans e o Cipriano estão agindo feito o diabo. 

ROGER (O.S): Não só eles.

Roger chega com a sua bolsa a tiracolo e um celular na mão.

LILA: Roger, por onde andou?

ROGER: O Beto conseguiu o número para o qual o Hans liga misteriosamente.

LILA: E aí?

ROGER: Vocês não vão acreditar.

Na expectativa de cada um.

CENA 14 CURTO-CIRCUITO [INT. / TARDE]

Cael está no balcão fazendo umas contas junto a um rapaz (branco, 25 anos, estatura média).

RAPAZ: A distribuidora ligou avisando que vai atrasar a entrega de uísque.

CAEL: Já estou no aguardo do próximo problema.

O rapaz sorri e olha para fora da tela. Faz sinal para Cael.

Rafaela está na porta, (cabelos soltos, usando um conjunto preto de couro, botas de couro e batom vermelho).

CAEL: Rafaela? Há quanto tempo! Pensei que nunca mais fosse te ver.

RAFAELA: Não morri, pra sua decepção, né Cael?

Cael faz cara de sacana e volta-se para o rapaz.

CAEL: Faça aquela ligação. Diga que tenho pressa...

Em Cael, encarando Rafaela.

CORTE DESCONTÍNUO

Rafaela se senta toda se achando, Cael apenas observa.

CAEL: Parece que o tal tratamento nos Estados Unidos surtiu efeito. Nem parece que você despencou de um prédio.

RAFAELA: Não fique chateado. A boa notícia é que um dia eu vou morrer.

CAEL: Veio fazer o que aqui?

RAFAELA (irônica): Matar as saudades, ué. (cantarola) Voltei, pra rever os amigos que um dia, eu deixei a chorar de alegria/

Cael ri, de deboche.

CAEL: De que amigos você fala? Você quase pôs um inocente na cadeia com a minha ajuda.

RAFAELA: Ah, Cael, pra que reviver o passado? Eu me salvei, você perdeu a Raíza, o Marco já saiu da cadeia e logo logo se casa com ela, o Josué tá solto e Cipriano no poder. Olha que maravilha!

CAEL: Você passou por tudo que passou e ainda tem a petulância de vir aqui debochar de mim?

RAFAELA: Se tivesse feito como eu planejei, a essa altura você e Raíza estariam no altar. 

CAEL: Negativo! A Raíza ama o Marco/

RAFAELA: Não amaria um assassino (T). Pelo amor de Deus, Cael! O Josué iria preso de qualquer maneira pela morte do irmão, e de qualquer maneira estaria livre por aí. Agora olhe bem ao seu redor e veja quem mais perdeu nessa história. O Bruno, Danilo, você. Os bonzinhos da trama.

CAEL: Por mais que eu quisesse ver o Marco na cadeia, eu jamais o faria pagar por um crime que ele não cometeu.

RAFAELA: Taí, um sentimental. Quer saber o que vim fazer aqui? Eu vim olhar pra tua cara de perdedor (em Cael, com raiva / ela se levanta). Eu vim saber se valeu a pena pagar de bom moço e entregar o Marco de bandeja pra Raíza. Seu otário! Otário!

Um TAPA e Rafaela quase vai ao chão.

Cael a segura pelos ombros e a prensa de contra a parede.

CAEL: Quem perdeu aqui foi você! Perdeu a chance de morrer e virar uma vaga lembrança pra todo mundo. Você não teve pena do Danilo em nenhum momento?

RAFAELA: E alguém teve pena de mim? Se hoje desejam a minha morte é tudo culpa do teu irmão. Me usou, me chantageou, me pôs na toca do lobo. Tudo que fiz foi no desespero. Hoje, o que eu fizer, será muito bem feito.

Rafaela se solta dele e sai de cena. Cael observa, sem reação.

CORTA PARA

CENA 15 CURTO-CIRCUITO [EXT. / TARDE]

Rafaela sai com cara de poucos amigos, CAM se aproxima rapidamente de seu rosto, e ela mal tem tempo de desviar quando

DCR A PRENSA DE COSTAS NA PAREDE

DCR: A gente precisa conversar.

Na expressão de raiva em Rafaela.

FADE OUT

FADE IN

Dcr e Rafaela batendo boca.

RAFAELA (sarcasmo): Você devia ter mais cuidado. Se te pegam me agredindo, você amanhece no cadafalso. Tem curtido a pena de morte no Brasil?

DCR: Acho difícil o Governo fazer alguma coisa contra um herói nacional.

RAFAELA: Você se vale de um título que só existe nos quadrinhos. Os heróis reais sempre acabam no túmulo.

Dcr a vira de frente pra ele.

DCR: Olha o que você tá dizendo. Olha pra pessoa que você se tornou. Chegou ao ponto de se unir ao Hans.

Rafaela estranha, chateada.

RAFAELA: Tá falando do quê?

DCR: Você tentou matar o Beto pra conseguir uma matéria sensacionalista para a Novo Dia. E não tente negar!

Rafaela se desvencilha dele, revoltada.

RAFAELA (mente): Nunca tentei matar ninguém. Eu que sempre fui a vítima. Aliás, nós dois. (olho no olho) Puxa, Danilo, a gente não se vê há dois anos, e é assim que você me recebe?

Rafaela lhe dá um abraço, deixando Dcr, confuso.

RAFAELA: Eu podia ter morrido, tudo podia ter acabado ali. E eu nunca teria a chance de te pedir perdão.

Rafaela o encara, com os olhos lacrimejados.

RAFAELA: Me perdoe por ter pensado só em mim. Fiz tudo movida a ódio pelo Marco, e acabei destruindo a nossa amizade. Você me perdoa?

Dcr pensa um pouco, sentido.

DCR: Não trabalhe para o Hans e talvez a gente possa recomeçar. Ele não tem consciência de tudo que anda fazendo. Vai por mim.

Rafaela toca seu rosto, assente.

RAFAELA: Preciso ir agora. Foi bom te ver de novo.

Rafaela lhe dá um beijo no rosto e sai.

Dcr olha para a sua mão onde há um celular com a seguinte mensagem: “Compartilhado 100%”.

Dcr olha para

A PORTA DA BOATE

E Cael o encara, ambos desconfiados.

Vista aérea da cidade / Transição do dia para a noite/

CENA 16 FACHADA – DEPÓSITO DE EROM [EXT. / NOITE]

Mãos masculinas pousam sobre a mesa onde há um castiçal com três velas acesas. Cipriano está de pé, atrás do pequeno púlpito.

CIPRIANO: Danilo Rodrigues é apenas um cidadão comum tentando recuperar a fama de herói. Ele não está em pé de igualdade conosco.

Diante dele, um pequeno grupo sentado. Entre eles, Walter, Israel e Hans ouvindo atentamente.

WALTER: Mas ele ganhou a simpatia do presidente e será condecorado amanhã em praça pública. 

ISRAEL: Sem contar um grupo de fanáticos que não aceita a redenção de Josué.

HANS: O próximo passo será tomar a noiva do governador.

Clima.
Cipriano o encara. 

Hans esboça dor, põe a mão na gravata, e tenta evitar o enforcamento. Todos percebem.

CIPRIANO: Algum problema, Hans?

Hans se contorcendo, faz a negativa. Cipriano abre os braços, sem que alguém perceba a magia, 

e Hans respira, aliviado.

WALTER: Mas então, Zacarta? O nosso combinado ainda tá de pé?

CIPRIANO: Sim. Temos que dar ao povo a chance dele julgar o Danilo. E só depois, o governo toma uma providência.

WALTER: Como nas manifestações de 2012, né? Não foi fácil reunir metade do povo para pedir a cabeça do governador.

Risos.

ISRAEL: E a imprensa afirmando que o povo foi à luta por democracia.

Mais risadas.

CIPRIANO: O povo pede mudanças, só nos resta acatá-los.

Cipriano sorri, maldoso, diante de APLAUSOS.
Hans aplaude, encarando o líder, de forma estranha.

FADE OUT

FIM DO TERCEIRO ATO


QUARTO ATO


FADE IN

Vista aérea da Igreja

JOSUÉ (O.S): “Jesus morreu para nos redimir e resgatar-nos”. 

CENA 17 IGREJA EVANGÉLICA MÃO DIVINA [INT. / NOITE]

Diante de um povo cada vez com mais adeptos, entre eles, Dcr e Raíza, Josué ministra o culto, de voz imponente, com a bíblia na mão.

JOSUÉ: “Ele morreu para nos transformar das trevas à luz, e do poder de Satanás a Deus, para que pudéssemos receber o perdão pelos pecados e herança entre os que são santificados pela fé em Jesus Cristo. Ele morreu para nos salvar”.

APLAUSOS.

JOSUÉ: Você é como Jesus? Você se sente um herói quando salva a vida de alguém?

CENAS ALTERNADAS 

= = TOCANDO: Superheroes – The Script = =

CENA 18 PALÁCIO GUANABARA [INT. / MANHÃ]

Ouvimos aplausos, enquanto a CAM acompanha os sapatos masculinos.

Dcr, muito bem alinhado, usando terno cinza, vai passando por entre pessoas sentadas em poltronas pretas e chiques. 

Corte descontínuo em Dcr, ao lado do presidente, o vice Israel, Aimée e dois policiais militares. O presidente coloca o colar com uma medalha de ouro no pescoço de Dcr.

Muitos aplausos. Dcr segura a medalha e a beija, esboçando um sorriso debochado para alguém fora da tela.

Cipriano e Walter assistem, de cara amarrada.

FUSÃO PARA

CENA 19 APTº DE RAFAELA [INT. / MANHÃ]

JOSUÉ (V.O): Se sente um herói por tudo que enfrentou e acredita que todos deveriam te dar valor por isso?

Enquanto ouvimos suas palavras, CAM revela um chão com recortes de jornais riscados de caneta contendo 

  1. A imagem de Dcr recebendo a medalha

  2. Lila abraçando Dcr

  3. Roger em alguma coluna

Até chegar no colo de uma mulher segurando a foto de Marco e Raíza. De repente, a mão risca a imagem violentamente até cessar.
No sorriso estranho de Rafaela.

FUSÃO PARA

CENA 20 MANSÃO DOS BEDLIN [INT. / TARDE]

CAM passeia pelo ambiente. 

JOSUÉ (V.O): Ser herói é desistir de uma guerra, por saber que todos sairão perdedores?

Um copo de uísque vazio sobre a pequena mesa, uma foto de Cael e Marco mais jovens em mãos masculinas. Cael olha ao léu, pensativo.

VOLTA EM JOSUÉ NA

IGREJA

Que inflamado, aponta o dedo em diversas direções, enquanto palestra.

JOSUÉ: Pois eu vos digo: Herói de verdade só Jesus. Que mesmo sabendo que morreria, morreu por nós. Ele disse: “Você não terá outros deuses diante de mim”.

Algumas pessoas olham discretamente para Dcr, que entreolha Raíza.

FADE MUSIC

JOSUÉ: Se alguém aqui quer um herói, clame por Jesus, e Ele aqui estará. Amém!

Muitos aplausos.

Josué fecha a bíblia, satisfeito.

VOZ MASCULINA: POIS JESUS NÃO ERA SUICIDA?

Ouvimos um burburinho; expressões de horror. 

A voz é de Emerson Martins, de pé e firme ao encarar o pastor.

EMERSON: Não é verdade que na nova lei da cidade qualquer pessoa que arriscar a própria vida em prol de outro é visto como suicida? Por que Jesus seria um Mártir?

JOSUÉ: Como ousa blasfemar na Casa de Deus? Jesus fez tudo por nós.

EMERSON: Ou estava cansado da vida entediante que levava, porque é um porre convencer gente ignorante da verdade, né? (risos / Dcr e Raíza riem) Aí resolveu se entregar à cruz e sair de cena como um herói.

Josué o encara, transfigura-se em ódio.

JOSUÉ: Que Deus tenha misericórdia de você, meu rapaz. 

Dois guardas se aproximam de Emerson, o povo abre a passagem.

EMERSON: O que é isso? Seus seguranças? Você que merecia estar preso até morrer, seu assassino! (Os guardas o seguram de cada lado) Jesus te despreza! Te despreza!

Os guardas o levam dali, arrastado.

JOSUÉ: Perdoem-no. A palavra de Deus tem um peso muito forte, e poucos conseguem suportar. Obrigado pela presença, que todos possam ir na paz de Deus.

O povo se prepara para sair. Dcr encara Raíza como se fosse fazer algo.

CORTE DESCONTÍNUO

Josué acaba de colocar a bíblia dentro de uma gaveta, atrás do púlpito.

DCR (O.S): Eu achei muito coerente o que aquele cara disse.

Josué olha para Dcr e Raíza, aparentando humildade.

DCR: Vai mandar me prender, senhor pastor?

JOSUÉ: Não te condeno. Você tem motivos pra ter se afastado de Deus. 

DCR: Deus não tem culpa de nada. Não foi ele que matou a minha esposa, o meu filho (T), e o pai de Raíza.

Olhares marcantes entre eles.

JOSUÉ: Eu errei, Danilo. Meus dias no manicômio não foram fáceis. Eu tentei esconder um erro com outros erros. Perdi o controle.

Raíza segura as lágrimas.

JOSUÉ: Eu não tava em mim quando fiz aquilo.

RAÍZA (VOZ EMBARGADA): Fácil pra você pagar de santo agora. Eles estão mortos. Não tem mais volta.

JOSUÉ: Perdão. (No olhar incrédulo de Dcr) Não parece, mas sofro toda vez que vou pra casa do pastor...E não encontro minha família. (Em Raíza, sofrida) Vocês me perdoam?

Raíza não suporta o momento e abandona o local.

DCR: Manda soltar aquele cara. Você não é ninguém pra condenar.

Dcr dá as costas. Josué o vê partir, enquanto Dcr atravessa a tela.

FADE OUT

FADE IN

CENA 21 REDAÇÃO CARIOCA NEWS [INT. / MANHÃ SEGUINTE]

Dcr adentra ao lado de Raíza e Lila, que segura um jornal.

LILA: Condecoração na primeira página do jornal. Curtiu, Danilo?

DCR: Só a parte em que o Cipriano se mordia de inveja.

Risos.

Raíza pega o jornal e nele

CIPRIANO COM CARA DE POUCOS AMIGOS

RAÍZA: Melhor se preparar para uma revanche. Ele saiu péssimo na foto.

Mais risos.

Marco vem por trás, apressado.

MARCO: Danilo!

DCR: Marco, o que houve?

MARCO: Os contatos que você me passou de Rafaela. Consegui falar com o médico que a atendeu nos Estados Unidos.

RAÍZA: E então?

MARCO: Segundo ele, Rafaela já havia sofrido um traumatismo craniano frontal. 

RAÍZA: Por causa daquele acidente que você também sofreu, né Dcr?

DCR: Ela me pareceu muito bem.

MARCO: Mas não está, pelo menos não pra gente. O médico disse que casos como o dela, quase sempre, resultam em mudança de personalidade.

RAÍZA: Dizem que é temporário, mas já tem três anos.

MARCO: Pois então, o último acidente dela tornou tudo mais difícil. Será que algum dia ela volta ao normal?

LILA: Até lá ela já terá matado alguém.

Forte close em Dcr.

FADE TO BLACK

FIM DO EPISÓDIO


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