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WEBTVPLAY APRESENTA
A CANDIDATA


Minissérie de
Luna Araújo

Episódio 08 de 08
"Grandes Poderes, Grandes Responsabilidades"



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*

CATORZE ANOS ANTES

– Saiba, minha neta, que grandes poderes se somam sempre a grandes responsabilidades.

O Coronel fechou a porta de seu escritório e caminhou até a poltrona em que Jurema havia se sentado. Sua neta, sua tão jovem neta, com um longo futuro pela frente.

– E eu sei que você conseguirá vencê-las, Jurema – ele sorriu. – Afinal de contas, não é todo dia que uma mulher com dezoito anos de idade é eleita vereadora com a maior quantidade de votos entre os candidatos.

Jurema respirou fundo. Sua felicidade era pujante, latente. Queria soltar fogos de artifício para avisar ao mundo todo que ela, Jurema Pinheiro, foi eleita vereadora para dar continuidade à tradição da sua família.

– Eu sinto tanto orgulho de você – o Coronel a olhou no fundo dos olhos.

– Obrigada, vô – respondeu, radiante, Jurema.

– Você é o futuro dessa família, minha neta. A única pessoa que será responsável por dar continuidade ao meu trabalho nesta cidade.

Outras pessoas talvez vacilassem com essa afirmação. O trabalho político, ainda mais em uma cidadezinha do interior, era perigoso, desgastante. Principalmente para uma mulher. A menos que essa mulher carregasse Pinheiro em seu nome. A força desse sobrenome energizava qualquer um, tornando-o incapaz de sentir medo ou de arredar diante de situações difíceis.

– Seu sangue pulsa por essa cidade e é seu dever fazer de tudo para protegê-la.

...

O reflexo de Jurema no espelho estava cansado, com olheiras profundas e um pouco pálido. Ela se questionou se seu corpo aguentaria outro impacto como aquele e temeu pensar que não. Até porque, ela sabia que não haveria nada pior do que encontrar seu avô, seu amado Juca, seu pai, morto. Assassinado. Cruelmente. Friamente. Não houve lágrimas suficientes para chorar a dor e o desespero que ela sentiu ao abrir a porta do quarto dele.

Aquela imagem iria persegui-la pelo resto da vida.

O sangue. A posição do corpo do Coronel. A sensação esquisita de que qualquer pressão faria os órgãos dele saltarem para fora. O fedor que impregnou o quarto. Jurema levou um tempo para perceber que estava gritando, na verdade só percebeu quando Silvero entrou no quarto a procurando, assustado.

O vice-prefeito vomitou ao notar o estado do quarto enquanto Jurema se aproximava do avô para fechar-lhe os olhos esbugalhados. Olhos vazios. Olhos sem vida.

Quando seu pai, Edmar, morreu anos antes, Jurema se sentiu triste. Era impossível não se sentir daquele jeito, como um peixe solitário vagando pela imensidão de um oceano. Logo passou. Ela amava o seu pai, muito, mas foi forte o suficiente para superar a morte dele e seguir em frente.

Porém, com o Coronel, ela sentiu, seria diferente. Ele foi uma presença forte, mais do que um avô ou um pai: um mestre. Seu guia. A pessoa que lhe ensinou a ser resiliente, a procurar novas maneiras de observar um mesmo fato. A governar e a amar Timbaúba como se a cidade se personificasse em um membro da sua família.

E ela o encontrou sentado em uma poltrona, morto.

Jurema apertou os lábios e tentou afastar aquela imagem de sua cabeça. Ninguém poderia desconfiar das reais circunstâncias e ela precisava cuidar para que Silvero não as revelasse. Para a população de Timbaúba, o Coronel Juca Pinheiro morreu de causas naturais. Já estava ficando velho, um pouco doente e, por descuidos com a saúde em nome de cuidar do seu povo, sofreu um infarto e se foi. Não seria preciso muito além da ajuda de um médico da cidade que, aliás, teria seu silêncio muito bem pago.

Jurema sabia que esse seria o plano do seu avô. Outro assassinato não faria bem para a campanha dela, muito menos se a vítima fosse o Coronel. Além do mais, as pessoas poderiam relacionar os dois crimes e, por dedução, culpar o seu avô pela morte do Henrique.

Infarto, causas naturais. Nenhuma ação externa. Apenas o envelhecimento do seu corpo. E a memória do Coronel será para sempre lembrada como um homem leal aos seus princípios e a sua cidade. Coronel Juca Pinheiro, uma das raízes de Timbaúba.

...

Camila não imaginou que uma cidade do tamanho de Timbaúba pudesse comportar tantas pessoas. Foi como se toda a população do lugar estivesse presente, junto a pessoas de cidades da região. Prefeitos, vereadores, magistrados, secretários municipais e até um representante do governo estadual. Não era um velório, era uma procissão, como se o Coronel Juca Pinheiro fosse canonizado, um santo sem pecados.

Isso causou confusão em Camila. Todos pareciam saber das malfeitorias e crimes cometidos pelo Coronel para manter a sua posição de prestígio. Ela chegou até a pensar que pouquíssimas pessoas compareceriam ao velório. Ou que muitos compareceriam para se certificar de que o velho seria enterrado a sete palmos e o túmulo fechado com uma pesada pedra de mármore – e esse era o intuito dela ali.

Mas não, não. As pessoas estavam realmente tristes, algumas até choravam. Um grupo de senhoras, todas usando um véu cinza, entoavam uma a Ladainha de Nossa Senhora em altos sussurros, em volta do caixão de madeira do Coronel que, estranhamente, estava fechado.

– Eu vim te dar um breve adeus – uma voz conhecida falou perto do ouvido de Camila.

Álvaro estava ao seu lado, iluminado pela luz que entrava pelas frestas da grade que cercava o Ginásio de Esportes do Colégio Estadual de Timbaúba, onde ocorria o velório.

– Vou retornar para Salvador daqui a pouco.

– Já?

– Acho que consegui o que eu queria – Álvaro deu um leve toque no bolso da sua calça.

– E agora?

Álvaro suspirou e sua expressão fechou-se.

– Eu não sei. De verdade, Cami, não sei – ele disse. – Há um tempo, com certeza eu correria para o editor-chefe do jornal e entregaria uma reportagem completa com base nessa gravação – Álvaro olhou para cima como se buscasse uma resposta. – Agora, eu não sei.

Camila arqueou uma sobrancelha.

– Por quê?

Álvaro olhou para o horizonte, para o espaço reservado à família Pinheiro, para Antônia, que fazia companhia a Jurema, como as duas únicas familiares do Coronel presentes. Camila entendeu.

– Eu temia que isso fosse acontecer – disse Camila.

– Ela não merece passar por tudo isso. A Antônia não é igual ao avô.

– Aparentemente, a Jurema também não.

Camila passara os últimos dias investigando os documentos que transferiu para seu pen-drive no notebook do gabinete de Jurema. Mais correto impossível. Nenhuma falha, nenhuma abertura para dúvidas ou contestações. Ou a prefeita tinha um senso moral forte ou era muito esperta. Camila ainda não sabia qual dos dois era a resposta.

– Você quer vir comigo?

– Não – Camila respondeu sem hesitação. – Sinto que o meu trabalho aqui só está começando.

– Cuidado, Cami, com o caminho que você está trilhando – alertou Álvaro. – Esse lugar é perigoso.

Camila lhe respondeu que entendia os perigos envolvidos na presença dela em Timbaúba. Uma jornalista em missão, uma pessoa com opinião própria, alguém que poderia, em questão de vinte e quatro horas, derrubar um império que levou mais de trinta anos para ser construído.

Álvaro lhe deu um abraço forte e rápido de despedida. E se foi, antes que alguém desconfiasse do envolvimento dos dois.

Camila ficou com a certeza de que a sua estadia em Timbaúba duraria muito mais tempo.

...

– Eu não queria ir embora sem te ver.

Foi uma surpresa para Antônia sair do banheiro e se deparar com Álvaro em seu quarto. O velório de seu avô estava prestes a começar e a casa estava cheia de prefeitos e vereadores de Barreiras e de Luís Eduardo Magalhães, era impossível que ele entrasse ali sem ser visto.

– Eu preferia que fosse assim, Álvaro – ela disse.

O cabelo de Antônia estava desgrenhado e, apesar de usar o mesmo vestido que lhe serviu no velório de Henrique, ela estava planejando trocá-lo antes de descer para entrar no carro que a levaria até o Ginásio do Estadual, onde o corpo frígido de seu avô aguardava para ser velado e enterrado.

– Nós não merecemos que aquela conversa fosse a nossa despedida.

– Vá embora, por favor, antes que alguém te veja aqui – ela respondeu. – Não será bom para mim, ainda mais nesse momento.

– Naquele dia eu não disse o que de fato queria dizer, Antônia. E não vou embora daqui dessa cidade sem te falar.

Antônia o contornou para ir até o seu guarda-roupa. O abriu e pegou uma caixinha prata.

– Fale.

Álvaro se sentia impulsivo, queria falar rápido, sem pausas, soltar para o universo o que estava em seu coração.

– Eu te amo. Nos conhecemos a três semanas, eu sei, mas foi tempo suficiente para entender que você é a mulher da minha vida.

Antônia congelou, segurando um brinco de ouro no ar. Álvaro podia sentir a confusão na cabeça dela.

– Por que você não disse isso quando teve a oportunidade? – ela se virou para ele enquanto repousava o brinco no veludo vermelho da caixinha prateada.

– Porque eu já sabia que nós dois não fomos feitos para ficar juntos.

O olhar de Antônia caiu e suas mãos se fecharam em punho. Ela respirou fundo e tornou a encarar Álvaro.

– Por quê?

– Eu não posso te contar agora, mas um dia você irá entender e eu te peço que, por favor, não me odeie.

O rosto de Antônia foi tomado por uma expressão de dúvida. Interrogações se formaram em suas íris.

– Me prometa que não vai me odiar – rogou Álvaro.

Antônia nada respondeu e ele se aproximou dela, se agachou em sua frente e lhe segurou o rosto com as mãos.

– Promete – ele disse gentilmente.

Antônia rompeu em um choro silencioso e Álvaro a beijou. Beijaram-se como uma maneira de despedida. Álvaro sentiu o corpo quente de Antônia contra o seu, as mãos dela tateando todo o seu corpo, as suas roupas deslizando para o chão. E se amaram na cama dela, uma última vez. Porque Álvaro sabia que ela iria odiá-lo. E eles nunca mais se veriam, nunca mais iriam se amar.

...

Três é o número da Santíssima Trindade: o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Número da luz, da criatividade, da expressão. São três as hierarquias dos anjos, três os juízes do inferno.

Três prováveis assassinos do Coronel Juca Pinheiro.

E Jurema não permitiria jamais que eles ficassem impunes pelo crime que cometeram.

Olavo Gusmão.

Miguel Sampaio.

Salete Pinheiro.

Ódio, vingança, vingança. Somente alguém com uma motivação muito forte conseguiria fazer algo tão cruel com o corpo do Coronel. Mas apenas dois deles tinham força suficiente para tal.

Alguém precisaria pagar pelo crime de Olavo Gusmão.

E infelizmente seria preciso que fosse Quim.

...

– É para o seu bem, Salete.

Os dois enfermeiros enviados pelo Hospital Psiquiátrico para levarem a pobre Salete para um internamento tentaram se aproximar dela, que se afastou com uma expressão de terror tomando conta de todo o seu corpo.

– Minha querida, você precisa ir – disse Jurema. – Assim que estiver melhor, a nossa casa estará de portas abertas.

Laurinda e Antônia observavam a cena do alto da escada. Elas discordavam, acreditavam que Jurema estava fora de si depois da morte do Coronel, mas o que podiam fazer? Qualquer ato contraditório poderia coloca-las em um Hospital Psiquiátrico também.

– Não é possível aplicar um calmante ou algo do tipo para leva-la? – Jurema falou aos enfermeiros. – É de partir o coração.

Laurinda admirava a frieza da filha. E temia também. Ela herdara os piores genes da família Pinheiro.

– Não quero que os vizinhos saibam mais do que o necessário.

Salete queria ter forças para gritar, espernear, fugir. Mostrar ao mundo tudo o que ela passou nas mãos do Coronel e iria passar nas mãos de Jurema. Queria chorar também. Sumir. Pensou, inocentemente, que a morte de Juca a livraria da condenação ao silêncio eterno. Pobre Salete. O Coronel havia preparado a sua substituta e ela era muito pior que o seu criador. Ela olhou para o alto da escada como se pedisse socorro, mas ninguém poderia impedir o destino de se concretizar. Então por que ela mesma tentaria impedir? A sua guerra já acabara há muito tempo e ela tinha perdido.

Laurinda a olhou, do alto da escada, e Salete sentiu a compaixão no olhar dela. E se surpreendeu quando sentiu os braços da cunhada envoltos no corpo dela, abraçando-a. Salete quis retribuir, uma vez na vida experimentar o amor, mas não conseguiu. O mal daquela casa já sugara tudo o que havia de bom nela.

Se aproximou os enfermeiros e lançou um olhar de maldição para Jurema e jurou ter visto a sombra de um sorriso nos lábios dela.

O mal encontrara um novo receptáculo.

Salete foi levada em uma ambulância discreta. Não se despediu da filha. Não havia porque se despedir. Seria melhor para Antônia que ela fosse para longe.

Naquela noite, Antônia sonhou com a mãe. Sonhou que ela falava que a amava e que nunca, nunca mais iria se calar. As duas estavam numa campina de grama verde e árvores altas, sentadas sobre uma esteira. Antônia lembra de ter se sentido criança, mas, no sonho, ela tinha o amor da sua mãe.

...

Passadas duas semanas do enterro do Coronel, a boutique de Teodora Sampaio amanheceu em chamas. Os olhos da pobre mulher refletiam o fogo e a sua dor. Seus anos de investimento perdidos. Sua vida perdida. Ela quis chorar, mas não conseguiu. Precisava ser forte. Miguel perdera o filho pouco tempo antes, a Ser-tão Elegante não significava nada diante disso.

Três dias depois, Miguel foi envolvido em um escândalo a nível estadual. A sua gestão enquanto Secretário de Comunicação foi acusada de desvios de dinheiro e, pasmem, a boutique de Teodora foi identificada como a empresa utilizada para fazer a lavagem do dinheiro.

– Você realmente fez isso? – Teodora perguntou ao marido enquanto a Polícia Civil cumpria um mandado de busca e apreensão na sua casa.

– Não, Teodora, você sabe que não.

E ela sabia que o marido não fez. Ele poderia ter sido corrupto, sim, mas dessa acusação ele era inocente. Esperou que Jurema fosse a casa deles demonstrar apoio. Enganou-se. No dia seguinte, Miguel foi exonerado do seu cargo. Sem a boutique, sem um emprego, sem dinheiro guardado. Perderam a casa, que era alugada. Em um mês, a vida deles se tornou um inferno.

Sem ter para onde ir, Teodora retornou à casa dos pais, em Serrinha, levando o marido consigo. Miguel foi, pouco a pouco, se transformando em um homem calado, fechado para si mesmo, amargurado com a vida. Já não amava mais Teodora. Não se cuidava. Teodora chorava todas as noites, como uma penitência, a perda do marido. E o culpava por ter se deixado levar pelos planos da família Pinheiro, que não incluíam outras pessoas se não eles próprios. Pensou em se vingar, em retornar à Timbaúba, em ir à programas de televisão e falar sobre os horrores que aconteciam na cidade. Mas, que fim ela teria? Provavelmente o mesmo do seu enteado.

...

A última vingança de Jurema. Talvez a que poderia tê-la feito mais se sentir mal, mas a fúria de punir os suspeitos pelo assassinato do seu avô a fez se sentir indiferente. Quim Gusmão com certeza assassinaria o Coronel Juca se assim Olavo Gusmão o pedisse. Não, Jurema não sentiria compaixão ou hesitaria em pender a balança da justiça para o lado dele.

E não foi difícil. Seu avô lhe contara, pouco antes de ser assassinado, o lugar em que o bastão de madeira utilizado para espancar Henrique. Uma ligação para a polícia e o objeto foi encontrado no guarda-roupa de Quim. Enquanto seu filho era levado em uma viatura, Olavo foi levado em uma ambulância. Infarto. Uma ironia do destino, do tipo que Jurema mais gostava.

Sua próxima anotação mental era se encarregar pessoalmente de fazer Joaquim Gusmão ser condenado pelo homicídio de Henrique Sampaio e assim fazer o velho Olavo experimentar o gosto de perder alguém. O Universo devolve tudo aquilo que oferecemos a ele.

Mas antes de qualquer outro passo, ela decidiu, precisava se igualar ao seu avô para ser respeitada. E o maior ato do Coronel foi modelar uma substituta a sua altura: Jurema Pinheiro. Ela se deliciava quando pensava que ninguém jamais desconfiaria que Jurema, a doce prefeita Jurema, mulher forte, mulher idônea, orquestrava junto ao Coronel Juca Pinheiro todos os planos para manter sólido o império da família. A sua substituta deveria ser tão forte quanto.

E moldá-la a sua imagem seria o maior ato de Jurema. Uma pessoa capaz de prosseguir com os projetos políticos da família, uma pessoa cujo coração batesse em compasso com Timbaúba e que fosse capaz e tudo, absolutamente tudo, para protegê-la.

Só havia uma pessoa na linha de sucessão ao trono de Timbaúba.

Não seria fácil, Jurema sabia. Mas grandes poderes sempre se somam a grandes responsabilidades.

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