Os Pecados de Cada Um - 1x06 - Final de Temporada

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WEBTVPLAY APRESENTA
OS PECADOS DE CADA UM


Série de
Francisco Siqueira

Episódio 06 de 06
"Persona"



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Doutora,


Porque algumas pessoas têm tudo e outras, nada? Porque o destino é bom com alguns e ruins para outros? Porque algumas pessoas são abençoadas com a sanidade enquanto outras, por mais que tentem, não conseguem verem-se livres de seus conflitos interiores, dos dilemas de suas almas?

Sei que estou condenado pela justiça dos homens e também pela Divina. Mas isso não me incomoda mais. Já lutei bastante todas as lutas possíveis. Já esmoreci, me reergui, pelejei e pelejei e até hoje não consigo compreender o porquê dos deuses não me terem permitido o privilégio da luz da sanidade; aliás, me permitiram, sim, porém, apenas frestas, meras frestas. O que talvez seja pior. Esse vislumbre da normalidade, do equilíbrio. O benefício da dúvida, ao contrário do que pensam, é uma indulgência distribuída a poucos. E os privilegiados, sempre figuras paradoxais, réus sem culpa, não devem buscar por motivos, explicações, justificativas para tal merecimento, pois, talvez, não existam. Não a olho nu. E se existirem, eles, os privilegiados, correm o risco de se depararem com um buraco negro.

A dor nos induz a agir. Constrói o nosso destino. Converte-nos, consciente ou inconscientemente, para o bem ou para o mal, porque nunca a esquecemos... Portanto, cuidado: aquele que luta com monstros deve acautelar-se para não se tornar um deles. Quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo olha de volta para você.

Por favor, doutora, vá embora. Eu a trouxe para cá, para tentar... para tentar... para salvá-la, nos salvar, mas não consegui. O passado é passado. Não volta. Preciso me convencer disso. E luto para me convencer disso durante os rompantes de mera lucidez; durante os instantes... os instantes que os outros... os outros... os outros me deixam olhar através dos meus olhos e ouvir através dos meus ouvidos... durante os instan... os instan... durante os instantes... em... em que... durante... em que os gri... em que os grilhões magnéticos... eles me... eles me esquecem...

Ela, apenas ela, Laura, conseguirá me salvaaarrr. Ela prometeu... mesm... mesmo... mesmo diante de todos os obstáculos que eles... eles... eles colocaram e ainda colocam... ou ao menos durante o curioso fragmento de vida que for permitido a ela...

Se for, de fato, o meu destino permanecer neste lugar, tenho a esperança de ser notado como um indivíduo — e vou pensar numa maneira eficaz de isso acontecer — e não somente como mais um paciente passivo submetido às condições deste universo isolado do mundo.

Nós, loucos, temos muito a dizer...

Doutora, desc... descul...


(...) Que é a vida? Um frenesi,

Que é a vida? Uma ilusão,

uma sombra, uma ficção;

O maior bem é tristonho

porque toda vida é sonho

e os sonhos, sonhos são.


Calderón de la Barca



Por que eles não conseguem nos ouvir? Nós os amávamos... Ao menos por um tempo, nós os amávamos...


Vá embora, pelo amor daquilo que você mais acredita. Você não é bem-vinda aqui. Ailás, nunca foi. Se não fosse pela insistência dele... Enfim, não sei por que eu, nós, que seja, concordamos com isso.

Vá embora de uma vez por todas. A não ser que queira ajudar, caso contrário, se for pra atrapalhar, o que você já vem fazendo, DESAPAREÇA!





22 de fevereiro, 1977, terça-feira de carnaval


De olhos fechados, Ronaldo passou as mãos sobre o couro cabeludo, sobre as costelas, sobre as costas, a boca e o rosto enquanto a água do chuveiro caia sobre o seu corpo, sobre seus músculos retesados que lhe davam a impressão de que o sistema nervoso estava coberto por uma extensa e pesada camada de gelo. Cada gota parecia queimar-lhe a pele, elevando a sensação da dor em demasia, tornando, por conseguinte, tudo aquilo que estava acontecendo ao seu redor, de novo e novamente, ainda mais insuportável, como se fosse possível a abominação que o alimentava alcançar limites além do inconcebível.

Mas, não. Definitivamente, não!

Aqueles quatro anos, aqueles longos quatro anos já tinham deixado bem claro que nada mais aterrador poderia lhe acontecer... Os limites que os pais atravessaram logo após a partida de Laura...

Estou cansado de esperar. Por que esperei tanto tempo?, Ronaldo se questionou, um jato quente atingindo suas suas costas, sua região cervical ao mesmto tempo que lágrimas escorriam pelo rosto e ele constatava aquilo que já havia reconhecido quando decidira fugir de casa: o limite da sua resistência, o limite da sua resiliência já tinham chegado ao fundo do poço.

Eu devo suportar, eu devo resistir, eu serei mais forte que a escuridão, por você Bruna, somente por você.

Ronaldo encostou a cabeça à parede, pressionando-a. Seu crânio lhe pareceu estar carregado de uma porção de pregos afiadíssimos ao tempo que tentou abrir os olhos, porém as pálpebras deram-lhe a impressão de estarem sendo perfuradas por agulhas. Muitas delas. Mas não iria se entregar. Não iria se entregar. Bruna precisava ser salva. Era para isso que tinha regressado. Bruna previsava de sua ajuda.

Reconstou todo o corpo na parede atrás de si enquanto um cheiro repulsivo tomou conta de sua narina, enquanto uma dor irradiou, sem grandes alardes, de um ponto a outro em seu cérebro. Era a culpa, ele pensou, a culpa. Sim. Mesmo de olhos cerrados podia enxergar o visível fio que o ligava à sua culpabilidade, mergulhando-o num manto vazio, um abismo profundo de uma descrença enlouquecedora.

Você é muito branquinho, muito branquinho... Se tivesse nascido uma menina...”





1990...


Doutor... Eu... eu lembro... eu tive uma ereção... e depois...

Ronaldo, você foi abusado sexualmente e agredido por pessoas cuja função era te amar e proteger. Não foi sua culpa. Respostas fisiológicas são involuntárias. E os agressores, especialmente os adultos, usam essas respostas fisiológicas para manter, forçar o sigilo, usando frases do tipo “você sabe que gostou”. Essas reações não significam que tenha permitido a violência.

Mas eu continuo buscando por sexo, doutor... Outros homens... Eu não consigo evitar...

Ronaldo, já conversamos sobre isso. O que seu pai fez foi horrível, entretanto, a orientação sexual de uma pessoa não pode ser causada ou sequer modificada por abuso ou agressão sexual.. Você não deve acreditar nessa questão. É mais um sofrimento que você não precisa carregar...





22 de fevereiro, 1977, terça-feira de carnaval


Ronaldo desligou o chuveiro. Estava cansado, muito cansado. Mas também com raiva, uma raiva absurda se projetando em ondas furiosas, arraigando suas entranhas e tomado conta de cada espaço dentro de si numa velocidade atroz. Era uma energia intensa e ele tinha certeza que por mais que tentasse não conseguiria se desfazer dela. E também podia sentir o acúmulo. Sim, A arrebentação prestes a acontecer, modificando-o, transtornando-o...

Um soco, depois o segundo, o terceiro e por fim Ronaldo seguiu esmurrando a parede, querendo gritar, mas não conseguia, ou, talvez, não pretendia chamar ainda mais a atenção do pai.

Eu devo suportar, eu devo resistir, eu serei mais forte que a escuridão.

Mas o que estava querendo controlar e àquela altura do campeonato em que todas as cartas estavam na mesa, ao menos para ele?

Um desequilíbrio; uma sensação de tontura. Ronaldo respirou fundo, uma, duas, três vezes antes de se afastar da parede, antes de esticar o braço para abrir a cortina e sair de dentro do boxer conforme ia sentindo resquícios de gotas caindo do chuveiro sobre seus ombros.

Será que outros garotos, ou garotas, passavam pelo mesmo que ele? Será que falavam, conversavam com alguém? Ele tentou. Buscou o sacerdote Lucas acreditando que com sua relativa juventude, que não causou espanto ou incitou qualquer resistência aos moradores da cidade, poderia ser a pessoa certa para lhe ouvir, para lhe entender...

Como ousa? Um filho atribuir tais acusações covardes, sem qualquer sentido, gravíssimas e pueris, contra seus pais? E para quê? Por vingança? Não existem pais perfeitos, garoto, mas os seus, com toda certeza, não vão responder por esse pecado. Eles não tiveram culpa pela fuga da sua irmã, uma ingrata. E ainda assim irão sofrer, pagar com lágrimas num martírio sem fim. Nunca, garoto, se esqueça do quinto mandamento. Nunca: honrar teu pai e tua mãe para que se prolonguem os teus dias na terra, que o Senhor, Teu Deus, Te dá”.

Mas eles fizeram padre. E ainda fazem, Ronaldo gaguejou à medida que era assolado por uma dor pulsátil em sua cabeça que não demorou a ser transferida para um dos lados do crânio ao mesmo tempo que um súbito formigamento tomou conta do braço direito.

A cueca, a cueca sempre vermelha...

O cheiro de pele...

A gravata...

O cheiro de pele humana, quente e úmida...

Os beijos dele... Ela assistindo a tudo... As mãos dele rendendo-se diante de sua beleza, a beleza de um efebo proibido...

Aranhas! — Ronaldo balbuciou com os olhos fixos no chão — É o que vocês dois são. Duas aranhas lentas, cruéis e perversas...





1995...


Doutor, eu conheci essa pessoa, Gaby, é como ela gosta de ser chamada. Tem alguns meses. E acreditei, juro, que tudo não passaria de uma boa noite de sexo, ou, no frigir dos ovos, um caso fugaz, como tantos outros... Porém, alguma coisa vem acontecendo. Sinto necessidade de tê-la ao meu lado. Sinto saudades... Mas tenho medo. Sinto-me horrendo quase sempre quando vamos pra cama... Esse vínculo... Ele me trava... Lembro-me de quando comecei a sair, quando tentei pela primeira vez iniciar minha vida sexual... não queria ser tocado... Um turbilhão doutor, um turbilhão...





22 de fevereiro, 1977, terça-feira de carnaval


Ronaldo se confrontou com uma visão dupla, tripla do seu reflexo diante do espelho à medida que sentiu a garganta queimar conforme sua imagem foi se tornando única, sua visão foi retomando o foco. Ele queria se mexer, e não conseguia, por incrível que pudesse parecer; seu rosto, tenso e contorcido, com alguns hematomas, o mirando de volta.

Uma porcaria. Eu sou uma porcaria.

Ronaldo não conseguia, por mais que tentasse, esquecer o sorriso nos lábios úmidos do pai, as mãos... sua cara redonda... E ela, Norma, sua mãe, assistindo a tudo... Bruna... Ele precisa salvar Bruna.

Uma voz, uma voz familiar, ele pôde ouvir, dentro da sua cabeça, uma voz familiar começando a lhe dizer coisas terríveis, vulgaridades... De quem é esta voz?

Eles não merecem viver.

Ronaldo estremeceu.

É a única chance de você se ver livre desses dois e de salvar a sua Bruninha. A não ser que tenha gostado de tudo aquilo que já fizeram com você...

Não, Ronaldo meneou a cabeça com força ao passo que se agarrou firme à borda da pia, sentindo o estômago embrulhar, sentindo o gosto da bile e ouvindo tambores em seu crânio enquanto a intensidade da dor em sua cabeça ia se tornando forte, abrangendo tudo, conferindo-lhe uma sensação de peso, de pressão conforme a tal voz ecoava mais e mais, uma voz parecida com a sua, porém, mais determinada, destemida e satírica.

Eles não merecem viver.

Não. Eu vou pegar a Bruna... Nós iremos fugir...

E você acha que eles irão permitir? Não permitiram antes. Não permitirão agora e nem depois.

Não. Não...

A dor na cabeça... A maldita dor na cabeça e o maldito formigamento no braço direito.

Covarde! Você é um covarde. Um palerma. Um frouxo.

Um rugido... A voz tinha se transformado num rugido que parecia sacudir as paredes, e ele, Ronaldo, tentou gritar, mas não conseguiu, pois se viu afogado em palavras e ideias. O rugido, aquele rugido estava dentro de sua cabeça, dentro de sua alma até que por fim percebeu, sim, Ronaldo percebeu que estava começando a perder os sentidos, mas não, não podia, não devia... De repente, uma voz feminina, a voz de uma garota, parecida com aquela voz que tinha ouvido à porta de casa, começou a lhe pedir para respirar fundo, para orar, para firmar o pensamento... A voz feminina, a garota, estava afirmando que tudo iria ficar bem...

O rugido...

O rugido...

Alguma parte dentro dele ouviu aquele rugido se tornar insuportável e em seguida uma canção... uma canção... a mesma canção que ouvira depois da surra que o pai lhe dera...


Eu comecei uma piada

A qual fez o mundo inteiro começar a chorar





1990...


Ronaldo estava calmo, ao menos aparentemente calmo, sentado à frente do psicólogo que o atendia já há algumas sessões. Os olhos, vermelhos, resquícios de um rompante que tivera ali mesmo, minutos antes, ainda que, como uma criança valente, tivesse feito de tudo para não chorar.

É isso doutor? Estou ficando louco, não é?

Absolutamente, porém, reforço: vou lhe direcionar para um psiquiatra...

Então... Se o senhor está me encaminhando para um psiquiatra é por que acha realmente que estou ficando louco...

Ronaldo, um ataque de amnésia...

Não só um. E as mudanças cada vez mais frequentes de humores?

Sim. Sim. Correto. Mas ainda assim isso não significa que esteja ficando louco. É por essa razão que um colega especialista na área de psiquiatria precisa lhe atender, conversar, como eu venho fazendo. Esses rompantes de amnésia... Ele poderá solicitar testes neurológicos...

Ronaldo não conseguiu se conter, remexeu-se sobre a cadeira e deixou os ombros caírem enquanto a vontade de chorar voltou a sufocar a garganta.

Ele terá... — o psicólogo prosseguiu tratando de firmar os olhos sobre Ronaldo, porém, com condescendência, buscando tranquilizá-lo — Ele terá como diagnosticar, tratar e prevenir, se for o caso, veja bem, se for o caso, algum tipo de transtorno...

O senhor não quer me dizer.

Ronaldo...

O senhor não quer me dizer, mae eu sei que estou ficando louco...

E como você sabe?

Uma voz — Ronaldo estremeceu; o coração parecendo que ia lhe saltar à boca — Uma voz que já não ouvia há anos... Ela voltou...

O psicólogo olhou firme para Ronaldo, chegando mesmo a se inclinar um pouco para frente.

Que voz? Que tipo de voz?

Uma voz parecida com a minha... A mesma voz... A mesma voz...

Desde quando isso está acontecendo?

Há algumas semanas...

E por que não me contou?

Eu acreditei que fosse sumir, como sumiu anteriormente... Mas... — Ronaldo voltou a estremcer sentindo o corpo sacudido por um espasmo — Mas não adiantou... E as dores de cabeça também voltaram... Nenhum remédio, nenhuma droga consegue extirpá-las... E os desmaios... e a perda de memória, esses lapsos...

O que essa voz diz a você? Consegue identificar?

Ronaldo baixou os olhos e suspirou.

Coisas terríveis... Me pede para fazer coisas terríveis... E eu resisto... Resisto, doutor. Posso lhe garantir...

Ronaldo sentiu as lágrimas, a pressão na garganta, o desespero e então o choro rompendo mais uma vez.

Acalme-se, por favor, Ronaldo. Você não está louco. Pelo contrário. Você está reconhecendo a existência dessa voz, reconhecendo que há algo de errado...

Como me acalmar? Como? — Ronaldo questionou entredentes, o rosto totalmente coberto pelas mãos — O senhor não quer me dizer, não quer, mas eu sei... eu sei...

Ronaldo, de repente, reprimiu uma gargalhada. O psicólogo podia jurar que tinha ouvido aquele som abafado, entrecortado e então chamou por ele, seu nome, firme, um tanto hesitante, mas firme, recebendo de imediato outra gargalhada enquanto as mãos do paciente caiam sobre o colo.

Você está melhor, Ronaldo? — o psícólogo indagou, um pouco ressabiado, retornando para o encosto de sua poltrona.

Estou ótimo. E o senhor? — Ronaldo respondeu com um sorriso nos lábios repuxado para um dos lados do rosto ao mesmo tempo que abriu as pernas e passou a mão descaradamente sobre a virilha — Como o senhor tem passado?

O psicólogo estranhou aquela reação, óbvio.

Teve outra dor de cabeça?

Eu não — Ronaldo respondeu de pronto, cruzando e descruzando as pernas até que decidiu mantê-las abertas, bem abertas conforme ajeitou a postura, deixando os ombros alinhados — Quem sentiu a dor de cabeça foi “ele”, não eu.

Ele?

Um sorriso irônico e explosivo distendeu o rosto de Ronaldo, que pareceu ter adorado a expressão de surpresa e incompreensão estampada na face do psicólogo.

A cabeça dele sempre dói quando eu quero sair. Um verdadeiro idiota esse rapaz...

Desculpe. Mas de quem você está falando?

Como de quem? Do seu paciente, ora bolas.





22 de fevereiro, 1977, terça-feira de carnaval


Ronaldo subiu pé ante pé cada degrau rumo ao primeiro andar da casa dos pais enquanto murmurava a letra daquela canção ao mesmo tempo que acarinhava, com certa afetação, os corrimões que ladeavam a escadaria. O rosto, ele podia sentir, estava afogueado. Assim como também podia sentir a adrenalina sendo descarregada na sua corrente sanguínea, a excitação, o frenesi e até mesmo certa calma, sim, uma calma absurda transitando alinhada àquele coquetel químico ofertado pelo cérebro. Agora sim, “ele” pensou, risonho, estou no controle. E estava. Finalmente. Lucas era mais forte, mais ágil, mais firme, mais decidido. Tudo o que o idiota do Ronaldo não poderia ser. Nem se quisesse. E além do mais, era preciso ter colhões para fazer o que tinha de ser feito. Situações extremas, medidas extremas e ele, Lucas, bem que tentou manter o pamonha longe de todo aquele inferno, mas a Bruninha, a Bruninha...

Espero que essa garota não crie problemas. Já não basta a outra, Lucas concluiu, dando de ombros para tão logo deixar o último degrau para trás, atravessar um curto corredor e estacionar frente à porta entreaberta dos pais de Ronaldo, onde sussurrou, resmungando: sinceramente, o pamonha aguentou muita coisa desses dois porcos. Já estava mais do que na hora de alguém intervir. Para o bem ou para o mal. E nem bem terminou sua especulação, respirou fundo, ajeitou o sexo sob a toalha e abriu a porta da alcova, daquela infame alcova sem sequer se dar ao trabalho de relancear o entorno, encontrando Antoniel e Norma sentados à beira da cama. Ele, os cabelos grisalhos, uma barriga proeminente, olhos pretos e penetrantes, o rosto redondo crispado e vermelho mantendo uma expressão ligeiramente crítica. Ela, pálida e loura, cabelos maltratados, mal cuidados caindo sobre os ombros, os olhos esverdeados grandes e apáticos e a compleição de uma magreza absurda. Ambos seminus, de cueca vermelha e lingerie branco, respectivamente.

Os pecados da alma, esses sim, são vergonhosos e a alma desses dois estão chafurdadas na lama, Lucas repetiu uma, duas, três, quatro vezes dentro de sua mente, de sua consciência, dentro da mente de Ronaldo, da consciência de Ronaldo, ao passo que massageava a toalha, passando a mão descaradamente sobre a virilha, sobre o sexo...

Pelo jeito lavou até a alma, caralho.

Observou Antoniel, não deixando de medir o corpo do filho, de cima a baixo, mordiscando os lábios até lhe fazer um sinal para que se aproximasse e se sentasse entre ele e Norma, o que Lucas atendeu de pronto, caminhando a passos firmes, tratando de assegurar um sorriso cínico nos lábios repuxado para um dos lados do rosto. No entanto, antes de se sentar à cama, pôde vislumbrar um vestido estirado sobre o lençol, atrás dos pais de Ronaldo, um vestido da cor vermelha, o mesmo tom de vermelho da cueca que Antoniel usava. Nitidamente não era um vestido para uma mulher adulta, isso qualquer um podia perceber...

Tire isso.

Lucas mal teve tempo de voltar a atenção para o que estava acontecendo; a toalha que trazia envolta à cintura já havia sido arrancada, liberando o caminho para que as mãos dos dois, dos pais de Ronaldo, começassem a percorrer por todo o seu corpo, o corpo de Ronaldo, o corpo franzino do adolescente, ligeiramente curvado. Gestos que iam e vinham ora com serenidade, ora com violência, enquanto Antoniel e Norma trocavam olhares carregados de cumplicidade.

Lucas sentiu lábios alcançando seu pescoço longo, o pescoço de Ronaldo, onde foram depositados beijos, beijos úmidos, fedendo a cerveja, em seguida as orelhas sendo tocadas, acariciadas, as mãos daqueles dois depravados passeando pela boca meiga, bem traçada, passeando pelo nariz reto, massageando os ombros largos do corpo de Ronaldo... As línguas, de ambos, também não se mantinham inertes, pareciam duas serpentes exasperadas.

De repente toda aquela invasão cessou.

O vestido... — Antoniel virou-se para trás num átimo, apanhando a peça atrás de si e retornando para Lucas no instante seguinte, exibindo a vestimenta como um troféu — Coloque — na voz, o peculiar tom imperativo — Este é novo. Compramos porque sabíamos que você voltaria.

Lucas obedeceu. Um sorriso debochado no canto dos lábios. Sabia até onde queria ir. Talvez estivesse se divertindo, de uma forma bizarra, contudo, se divertindo. Enquanto se colocava de pé, teve a impressão, por um instante, de divisar Norma encarando-o, porém, de uma maneira perscrutadora. Que fosse. Deu de ombros e se ajeitou dentro da peça vermelha e quando mal terminou de atravessá-la ao pescoço e braços se deparou com a mão de Antoniel empunhando duas gravatas com os nós já preparados.

Hoje teremos duas delas. Uma brincadeira diferente, não é mesmo? — Antoniel dirigiu a pergunta à Norma.

Serviço completo. Pelo jei...

Lucas não teve tempo de terminar o que queria dizer. Sentiu o bofetão de Antoniel e as gravatas sendo encaixadas em seu pescoço e o seu corpo sendo lançado sobre a cama. Tudo de uma vez. Gestos ininterruptos para logo depois mãos lhe abrirem as pernas, os dois, os verdugos, como Ronaldo os chamava, ajoelhados à frente, aos seus pés, lhe fitando com olhares extravasando desejo, um desejo de cobiça demasiado perturbador. Lucas fez o impossível para se controlar e não empurrar aqueles dois malditos enquanto se deparava com os hematomas, com as manchas rochas nos braços e pernas, enquanto sentia fisgadas, puxões, mordidas em sua virilha lhe causando espasmos sobre o corpo, enquanto sentia mãos tocando, arranhando, beliscando suas pernas, sua barriga, seu peito...

Lucas respirou fundo, muito, muito fundo. A agonia irrompendo em suas veias e músculos; gritos em sua cabeça pedindo para que parasse, para que não fizesse o que estava prestes a fazer.

Os pecados da carne não são nada; tão somente doenças a curar pelos médicos se a cura for possível, ele sussurrou, a raiva incendiando o seu interior, fazendo-o mergulhar num estado de loucura completa, transformando-se numa forma de fúria potente e letal até fazê-lo gritar as palavras, fugindo de sua garganta, da garganta de Ronaldo, como um jato intermitente de cólera saindo pela boca : os pecados da alma, esses sim, são vergonhosos.





28 de fevereiro, 2017, terça-feira de carnaval: 15h10min.


A pressão do torpor sobre as pálpebras fechadas dificultam Ronaldo a abrir os olhos, entretanto, com algum esforço, consegue, por fim, descerrá-los, permanecendo, então, contemplativo por alguns instantes, absorvendo a energia do seu entorno, como se mais nada no mundo importasse; como se tudo e todas as coisas que lhe aconteceram, todas suas ações e reações o tivessem levado até ali, para aquele momento, sentado sobre o último degrau, ao final de uma escadaria.

Aliás, o que ele estava fazendo sentado naquela escadaria?

Súbito, Ronaldo estremece diante das imagens que invadem sua mente. Um pesadelo. Todo aquele horror tinha parecido um pesadelo. Os dois amarrados à cama, buscando desesperadamente se verem livres dos nós dos lençóis que estavam prendendo suas mãos e tornozelos, das fronhas enfiadas em suas bocas; os pares de olhos parecendo órbitas prestes a saltarem das cavidades; o desespero estampado nas faces; os gemidos abafados; a respiração acelerada; o estrangulamento, a garganta e os rostos ficando azuis... Sim. Sim. Ele sabia de todos os detalhes porque estava lá, olhando, sem nada fazer. Sem forças. Aprisionado.

Ronaldo levanta os olhos na direção do andar acima. Não consegue alcançar nada além do curto corredor que leva até à porta do quarto onde estão... onde estão... os corpos... onde estão os dois corpos...

A raiva que volta a sentir é forte demais.

Lucaaaasssssss, Ronaldo tem vontade de berrar, alto, extremamente alto, uma, duas, três, cem vezes até ficar sem voz, mas não consegue... ele precisa, mas não consegue... ele deve, mas não consegue... Assim como também não tem forças para subir aqueles degraus de volta ao quarto. Mas do que adiantaria? Estão mortos! Os dois. E ele não fez nada. Nada!

Seus olhos estão prontos para chorar, mas Ronaldo se recusa, respirando, inspirando e expirando fundo enquanto reflete, e sem qualquer pesar, sobre a plena consciência que tem dos demônios que o perseguem e o quanto demorou em conhecê-los, o quanto demorou a encará-los e o quanto interferem em sua vida... A terapia... a medicação... Nada...

Bruna... Ele a perdeu... Por quê?

Ronaldo respira fundo, mais uma vez, até sentir o peito suficientemente cheio para, daí, expelir todo o ar retesado, reciclando o seu interior, trocando e liberando energias.

O eu-ego Não é dono de sua própria casa. A consciência reina, mas não governa”.

Ronaldo baixa os olhos e agarra os joelhos, com força.

Você foi abusado sexualmente e agredido. Não é culpa sua. Respostas fisiológicas são involuntárias”.

Os verdugos... Não foi ele, não foi ele. Mas mereceram o que tiveram. Ao menos eles mereceram o que tiveram.

Precisamos resolver nossos monstros secretos, nossas feridas clandestinas, nossa insanidade oculta, Ronaldo repete e repete ao mesmo tempo que tenta lidar com a dor de cabeça, com a forte dor de cabeça e o barulho no ouvido...


E eu comecei a chorar

O que fez o mundo inteiro começar a rir


Ronaldo é tomado de sobressalto pela canção e logo não demora a parceber um celular ao seu lado, no degrau, a poucos centímetros de onde está sentado. É de onde vem o som, mas o aparelho não é dele, contudo, o nome que aparece no visor... ele reconhece...

Não vai atender. Não vai.

Ronaldo se recusa a olhar para o telefone e conforme tampa os ouvidos, se põe de pé e corre para o banheiro, invadindo porta adentro, arquejante, desesperado. Precisa acabar com aquilo. Sim. Precisa dar fim àquilo tudo.

Aproveite bem os seus últimos instantes, porque serei eu quem vai sobreviver. Eu irei predominar.”

A voz alta e raivosa subjulgando sua mente, seu cérebro...

Não. Não. Eu não vou ceder. Não vou, Ronaldo afirma entredentes já parado defronte o espelho, sobre a pia, contudo, a imagem que lhe é devolvida não é a sua, ou talvez seja, mas ele não se reconhece.

É um deles. É isso...

A imagem, o reflexo, o “Ronaldo” do espelho tem veias saltadas nas têmporas e longas unhas, como garras... É uma entidade...

A angústia... A angústia, o vazio... Porque eu não trouxe a porra dos meus remédios?

Nós iremos te matar”.

Lágrimas... Impossível contê-las... Lágrimas, lágrimas...

Preciso acabar com tudo isso... Eu perdi a capacidade de amar... Eu perdi a capacidade de ser quem eu sou... Só há uma maneira de acabar com tudo: é destruindo a mim mesmo. NÃO AGUENTO MAIS!

Ronaldo ainda consegue ouvir a música tocando no celular, anunciando, persistindo... Não vai atender. Não vai.

Então se apresente. Se mostre”.

Os pecados da alma... Os pecados da alma...”.

Ronaldo corre para a cozinha e apanha de imediato uma faca e fecha os olhos e em seguida sente uma pressão sobre as mãos, sobre os pulsos...

Lágrimas… Choro… Lágrimas…

Ele abre os olhos. Está na sala... de pé... uma fraqueza... um suor frio... sangue...

Escuridão. Total.

Espero poder ser útil a você, Ronaldo. De alguma forma. Ao menos enquanto este curioso fragmento de vida me for permitido”.





11 de fevereiro, 2017, sábado


O desembargador examina o visor do seu celular por mais alguns instantes até que, por fim, mesmo a contragosto, vê-se persuadido a aceitar a ideia de que Márcio Antônio não irá atendê-lo. Quatro chamadas perdidas e ainda nem é meia noite... Sabe muito bem que o amante não dorme cedo, ainda mais num sábado...

Que seja.

Ele dá de ombros enquanto coloca o aparelho na mesa de cabeceira do quarto de hóspedes, aonde vem dormindo já há alguns meses.





12 de fevereiro, 2017, madrugada de domingo


Lorde Henry examinava-o... Ele era, decerto, extraordinariamente belo, com os lábios escarlates finamente talhados, os claros olhos azuis, a cabeleira de cachos de ouro. Tudo na sua face atraía a confiança desde que nela não se descobrisse essa candura de mocidade aliada à pureza ardente da adolescência. Sentia-se que o mundo ainda não o havia poluído...”.

Márcio Antônio, nu, sentado à beira da cama, próximo à porta do quarto, se recorda de uma passagem de O retrato de Dorian Gray enquanto segue contemplando Lucas deitado, adormecido, também nu em pelo e pele. Assim como no célebre personagem criado por Oscar Wilde, nada, exatamente nada no corpo do filho de seu amante pode ser chamado de imperfeito, ainda que seja um corpo franzino, de pernas esguias, torneadas, mas esguias demais, ainda que tenha os braços longos, os poucos pelos...

A beleza grega com a qual está acostumado, os corpos perfeitos, a marca da sexualidade, os rapazes, sempre os mais jovens, nenhum deles, agora Márcio Antônio pode afirmar, convicto, depois do que ele e Lucas fizeram sobre esta cama, depois que o adolescente o surpreendeu com sua beleza não só admirável, mas também demoníaca, selvagem, nenhum deles o levou a dar e receber emocional e sexualmente o que Lucas lhe deu... Nem mesmo o desembargador.

Lucas! Lucas!

Não. Não está se vingando. Não está. A vingança, sem sombra de dúvidas, não proporciona o que foi a ele ofertado; ao contrário, a vendeta endurece as feridas emocionais.

Márcio Antônio sente lágrimas se formarem no canto dos olhos. Talvez pudesse ficar ali, eternamente, admirando aquela criatura humana tão primorosa; admirando seu corpo firme, descansando sobre o lençol emaranhado, com sua pele marmórea, cobrindo a cama como um manto, etéreo, com seu tórax, sua penugem, sua barriga exata e seu sexo, sua virilidade, perfeita, ainda que adormecida.

Não. Não. É claro que não pode. Já não poderia ter cedido a Lucas. Ele, Márcio Antônio, deveria ter chamado a porra de um táxi e enfiado o garoto dentro dele e adeus! Teria imposto limites; teria se imposto limites...

Gosta do que vê, pro-fes-sor?”.

Márcio Antônio meneia a cabeça, a consciência se contorcendo de inimagináveis torturas, esmagando-o.

A mão direita está tremendo... A quanto tempo?

Ele se dirige para a cozinha, passos rápidos. Precisa tomar sua medicação... Fodam-se as doses de uísque...

O acidente... Depois daquele acidente...

Mas por que está lembrando disso agora?...

A água, os comprimidos, um, dois, três goles e eles descem queimando, arranhando sua garganta.

Precisa se acalmar. Precisa se acalmar.

O celular? Onde está o celular?

Márcio Antônio se afasta da pia e, novamente, passos rápidos, alcança o sofá e mergulha sobre ele, tateando, buscando, tendo a certeza de que o telefone foi deixado ali... E foi: quatro ligações perdidas de JP...





12 de fevereiro, 2017, madrugada de domingo


O desembargador termina de olhar o visor do celular, mais uma vez, e nada de um retorno de Márcio Antônio. Não é possível, depois de tudo o que aconteceu na noite anterior, o reencontro, tudo aquilo, as concessões que precisou fazer só para deixar claro a Márcio sua disposição em dar seguimento à relação, não tenha afetado em nada o amante; o conhece bem demais e sem sombra de dúvida Márcio é um poço de ansiedade. Quantas e quantas ligações precisou dispensar, dele, de Márcio Antônio, com as desculpas mais esfarrapadas antes e durante o tempo que se manteve afastado, mesmo tendo deixado, ainda que nas entrelinhas, que precisava de um tempo para si?

Pelo amor de Deus, será que Márcio está fazendo birra? Decidiu criar uma rivalidade sem precedentes? Não tem cabimento, um homem da idade dele... Aliás, tem cabimento, sim. Márcio tem que rever sua estrutura emocional. Nesses dez meses em que os dois estão juntos, o professor, simplesmente, age, quando lhe convém, óbvio, como um adolescente, como um jovem adulto dando os primeiros passos na sua vida amorosa.

Essa é uma das conversas que teremos de ter, especula o desembargador conforme se vira na cama, de um lado para o outro, repetidas vezes, tentando encontrar alguma posição confortável enquanto luta para colocar em ordem todos os pensamentos que circulam, cravando garras dilacerantes em sua mente. Por Deus, Márcio tem que entender que eu precisava de um tempo para mim, que várias coisas estavam e continuam acontecendo. Meu casamento à beira do abismo, a intransigência e a incompreensão do Lucas diante disso, as metas processuais, no Ministério, precisando ser alcançadas e superadas a qualquer preço, alguns efeitos colaterais ainda presentes da nova medicação...

E o convite para viajar no carnaval? Ele se questiona, indignado, logo depois de levar os olhos, novamente, ao celular. Será que este imbecil não está percebendo o que estou fazendo? E por ele?

Com os olhos abertos na semiescuridão, o desembargador mira as sombras sinuosas que desfilam sob o teto até que a lembrança do instante em que esbarrou com Márcio Antônio, pela primeira vez, no saguão do Tribunal, toma sua mente. Recorda-se do exato instante em que foi abordado pelo futuro amante, que sorria um riso amigável, confortador, convidativo, lhe perguntando se podia ajudar, pois tivera a impressão de tê-lo visto um tanto desorientado, como se ele, o desembargador, pudesse estar perdido dentro do próprio local de trabalho.





12 de fevereiro, 2017, domingo


Lucas chega ao edifício, de frente para o mar, onde mora com os pais, no Leblon, Está cansado, extremamente cansado. Sente-se emocionalmente vazio. Oco. Não sabe como vai conseguir encarar a mãe para lhe contar o que precisa ser contado, por mais difícil e dolorido que possa parecer. Mas ele precisa. Deve.

Sim. Está com raiva, magoado. Enfurecido. Por que Márcio Antônio não lhe contou? Ok. Jamais revelaria o caso que está tendo com seu pai, pelo motivos óbvios, mas não podia ter deixado que ele, Lucas, alimentasse esperanças... Não poderia ter sucumbido à noite anterior...

Será que ele sabia de quem eu era filho? Será que ele sabia de quem eu era filho? Será que ele sabia... , Lucas segue repetindo, repetindo enquanto atravessa a guarita de Segurança, a portaria, enquanto sobe o elevador, onde mal cumprimenta os dois outros moradores que estão ali dentro, enquanto adentra no apartamento muito bem decorado com móveis antigos, obras de arte, bustos e lustres dos séculos XVIII e XIX e tetos altos com toques de mármore, o que sempre lhe deu a sensação de estar num antigo palácio italiano.

Lucas respira com dificuldades à medida que avança pelo apartamento, à medida que alcança o corredor onde ficam as três suítes espaçosas, a sua, a de seus pais e a destinada aos hóspedes, que vem sendo utilizada por seu pai nos últimos meses.

Seu pai. Seu pai... Será que ele não se cansa de mentir? Será que ele sente alguma angústia, algum arrependimento depois de trepar com o professor Márcio Antônio e voltar para casa, para a sua mãe, para ele, comportando-se como um leão, reinando absoluto na sua selva, exigindo respeito, defendendo a moral e os bons costumes...Vomitando descaradamente o seu preconceito sobre os homossexuais sem qualquer crise de consciência, pois, decerto, está convencido de que é hetero por não se identificar com nenhum estereótipo gay, se reprimindo e reprimindo a todos os outros, exigindo para que andem na linha, infernizando a vida do próprio filho, ordenando para que jamais se exponha a fim de preservar a família.

PRESERVAR O QUÊ?

Lucas começa a caminhar em direção ao quarto da mãe. Um nó no estômago e a culpa à flor da pele. Ele poderia confrontar o pai, antes de qualquer coisa, mas sabe, sim, sabe que o desembargador vai mentir, vai negar e com certeza irá providenciar para que Abigail acredite nele.

Nunca desacredite o que o seu inimigo afirma. Se dê ao trabalho de desacreditar a pessoa dele.

Lucas meneia a cabeça, uma, duas, três vezes até se ver parado à frente da porta do quarto da mãe. Ideias sombrias, medo, tensão, desespero e raiva... Sua mente trabalhando enquanto um silêncio, sorrateiro, a atravessa.

Édipo não se cegou por culpa, mas por excesso de informação.

Sede. Lucas começa a sentir sede ao mesmo tempo que dores trituram seus músculos e a região lombar grita desesperadamente por socorro conforme segue com a mão parada no ar, hesitante em bater na porta, que, subitamente, se abre e, por incrível que pareça, é o desembargador que surge diante de si.

Pai e filho se encaram, surpresos.

O desembargador lança um olhar penetrante na direção de Lucas, que sentindo o rosto flamejante, não se intimida.





27 de Julho, 2017, quinta-feira


Com passadas largas e pisando forte, Gabriela atravessa o pavilhão da ala vermelha do Hospital das Clínicas Juliano Pereira de Aguiar, até se deparar com o corredor em que está, entre outros, o quarto do seu paciente, do desembargador. A cólica e a enxaqueca persistem. O corpo implora para que ingira algo líquido. Em pé, olhando fixamente para a porta da câmara onde está Eve, procura, em vão, respostas para as milhares de perguntas que não consegue deixar para trás.

Impossível!

O enfermeiro alto, truculento, passa por ela, sem sequer se dar ao trabalho de cumprimentá-la e se dirige à porta do quarto de Eve, estacando, de pronto, tão logo a alcança para, só então, fitá-la, a ela, Gabriela, e em silêncio, em completo silêncio e sem demonstrar qualquer emoção, como sempre.

Talvez tenha decidido manter esta postura técnica e mecânica, o distanciamento emocional dentro do ambiente de trabalho, para evitar se sobrecarregar, o que é válido, Gabriela busca compreendê-lo enquanto vai se aproximando, porém, já se passaram a porra de quatro meses e este ser humano continua me tratando como se eu fosse uma completa desconhecida. EU NÃO SOU UMA PACIENTE!

A porta do quarto, por fim, é aberta e Gabriela encara o homem de branco, firme, circunspecta, conforme vai terminando de atravessar o batente, e por incrível que possa parecer acaba recebendo um sorriso polido por parte do enfermeiro, que logo em seguida fecha a porta, pouco se importando se está sendo confrontado, deixando em seu rastro surpresa e ofensa no semblante da psiquiatra.

Vá se foder!, Gabriela pensa. Vá se foder você e seu diretor, e daí aperta os punhos, respira fundo, expira, desaperta os punhos, se recompõe e então se vira para Eve, que está sentado sobre o pequeno sofá, os olhos bem abertos, fitando-a como se estivesse à sua espera, mesmo não sendo o dia de seu tratamento.

Está tudo bem, doutora?

O tom de voz preocupado e hesitante de Eve aliado a um meio tom de condescendência deixa Gabriela absorta por alguns instantes, fazendo-a agir quase que por impulso ao buscar a cadeira, que está no lado oposto à entrada do quarto, arrastá-la até próximo ao paciente, sentar, colocar as mãos nos olhos, apertando-os, forte, conforme vai deixando o ar entrar em seu corpo, contando lenta e mentalmente até três para, finalmente, decidir fitar o homem sentado diante de si.

Hoje não é nosso dia, não é mesmo?

A pergunta retórica de Eve obriga Gabriela a se desvencilhar, ou ao menos tentar começar a se desvencilhar do labirinto onde sua mente a colocou; da teia complicada que está permitindo envolvê-la mais e mais.

Não. Hoje não é o nosso dia — ela responde não deixando de examinar Eve um só instante e seu rosto grave e olheiras. Ambos estão esgotados, médica e paciente, Gabriela conclui — Mas acabei de participar de uma reunião com o diretor e então decidi...

Um silêncio, repentino, enche, transborda pelo quarto conforme Gabriela segue perscrutando Eve, ou Lucas, como ele sempre fez questão de se apresentar desde o início... Por um instante ela pensa em lhe questionar sobre a carta que encontrou em sua sala, contudo, não há qualquer razão plausível para isso, ao menos por enquanto.

Nós só temos duas semanas. O seu advogado... O advogado do desembargador acabou de confirmar... — Gabriela projeta o corpo para frente, debruçando-se na direção do paciente — Precisamos evoluir, um passo, uma vírgula, o que seja. Peço desculpas por tudo isso, pela forma como te pressionei na última sessão, mas sinto que agora, mais que nunca, estamos... estamos...

A senhora precisa ir embora, doutora. Deixar que outra pessoa cuide do meu tratamento.





1975...


Ronaldo se virou sobre a cama com dificuldade, tentando encontrar uma posição que permitisse sentir um pouco menos da dor que assolava todas as partes do seu corpo, dos pés à cabeça, transitando lenta, cruel, pelas pernas e braços e pela coluna... Cada movimento que tentasse, ousasse fazer, era uma tortura. Seus ossos doíam, seus membros, sua cabeça, seus pés pareciam pesar toneladas... E o frio... Um frio diferente. Um frio que queimava, encharcando o seu corpo de suor.

Porque razão Deus vinha permitindo que tudo aquilo acontecesse? Porque razão Deus permitiu que Laura fosse embora, fugisse, e não o levasse, não levasse Bruna? Porque razão Deus permitia que aqueles dois monstros continuassem vivos? Porque não os castigava como fez com Adão e Eva? Como fez com os habitantes de Sodoma e Gomorra?

Ronaldo fechou os olhos com muita, muita força. Não queria lembrar. Não queria. De certa forma se sentia culpado, se sentia sujo, errado... Um sonho ruim. Um sonho ruim, Ronaldo buscou se convencer ao tempo que apertou ainda mais os olhos, sentindo o peito arfar, a respiração acelerada...

Não. Não. Não ia se lembrar. Não ia.

Mas sua mente, seu cérebro, ou o que fosse, não quis deixá-lo esquecer o que tinha acabado de acontecer.

A cueca vermelha...

O cheiro de pele, pele humana, quente e úmida...

Seus braços e pernas e pés pesando toneladas...

O pai o jogou no chão... O pai foi pra cima dele como um animal e começou a esbofeteá-lo, apertar seu pescoço na tentativa de fazê-lo parar de espernear...

Ronaldo apertou mais e mais os olhos à medida que sentiu a raiva, a impotência e o desprezo por si mesmo cravarem garras em sua pele, seu coração, em sua alma por não ter tido coragem, forças para gritar, naquele momento, antes de ser calado, antes do pai lhe tapar a boca com uma gravata...

Antoniel nunca o havia tratado daquele jeito... a violência... quando tudo começou... Nós vamos brincar, tudo bem?... As mãos de Antoniel acariciando seus cabelos, seus ombros... Nós vamos brincar, tudo bem?... Rendendo-se diante da beleza, como ele mesmo dizia, a beleza de um efebo proibido...

Sim, sim. Sim. Ele, Ronaldo, era o culpado. De alguma maneira que ainda nao conseguia entender, ele era o culpado...

O peito de Ronaldo arfando, arfando... a respiração, demais, acelerada...

O pai o segurando para que a mãe amarrasse seus pés e tornozelos à cama...

A respiração acelerada... a respiração acelerada...

É isso. Eles, Antoniel e Norma, estavam enfurecidos porque Laura fugiu, conseguiu escapar de suas garras de verdugos, mas ele, Ronaldo, não participou dessa fuga; não foi cúmplice da irmã...

O cheiro de pele, pele humana, quente e úmida...

Seus braços e pernas e pés pesando toneladas...

A cueca vermelha...

A vergonha... A humilhação...

Sim, sim, sim. Ele, Ronaldo, era o culpado. De alguma maneira que ainda nao conseguia entender, ele era o culpado; só que jamais imaginou que os pais pudessem cruzar os limites que cruzaram...

Ronaldo começou a sentir a respiração a ficar entrecortada, pesada... Eu devo suportar, eu devo resistir, eu serei mais forte que a escuridão, por você Bruna, somente por você...

A negação e o esmorecimento talvez lhe proporcionassem um alívio temporário...

Mas as lágrimas vieram...

Densas...

Incontroláveis...

E ele chorou, muito, em silêncio até que já não houvesse mais nenhuma lágrima.

Faça a dor parar! Faça a dor parar!

Está tudo bem. Eu estou aqui, querido. Está tudo bem”.

Laura? A voz de Laura, macia…

Ronaldo sentiu a mão da irmã sobre sua testa. Uma mão fria, como o frio, como o suor que o queimava. Quis abrir os olhos, mas Laura não permitiu.

Descanse querido. Descanse”.

Eles foram horríveis comigo, Laura...

Sim. Eu sei... Descanse... Apenas descanse...”

Laura. Por quê? Por que você fugiu e nos deixou para trás? — Ronaldo balbuciou enquanto um súbito formigamento tomou conta do seu braço direito.

Eu nunca fui embora”...

A voz de Laura, macia, mas vacilante…

... E espero poder ser útil a você, Ronaldo. De alguma forma. Ao menos enquanto este curioso fragmento de vida me for permitido”.





Ronaldo, meu irmão, como você está?


Não sei ao certo se ainda se lembra de mim, de sua irmã Laura... Algum tempo se passou, acredito que muito tempo desde a última vez que nos vimos e infelizmente sem saber que seria a última.

Desculpe o pessimismo, mas não me resta quase nenhum motivo para ter esperança dentro deste lugar onde me encontro; na verdade o meu desejo de revê-lo é o que ainda me faz estar consciente no meio de todo esse mar de desespero, onde a degradação da sanidade humana está por toda parte.

Sim. Estou lutando para me manter dentro de um nível considerável de consciência. Preciso lembrar-me de quem eu sou para, quando enfim reencontrá-lo, poder reconhecê-lo e me fazer reconhecer, e a nossa querida Bruna também, que, imagino, deve estar uma bela mocinha.

Não sei ao certo há quanto tempo estou enterrada neste manicômio que eles chamam de casa de repouso e recuperação. Há muito perdi a noção de tempo e espaço.

Sem a devida exposição à luz do sol e o mínimo de contato com outro ser humano - só me é permitido interagir com os enfermeiros e médicos, e sempre recebo de cada um deles, quando recebo, apenas repostas lacônicas - acabo travando uma luta diária com a loucura.

Não sei se essa carta chegará até você. Perdi as contas das que te enviei praticamente com esse mesmo texto sem nunca ter recebido qualquer resposta. Não sei se minhas cartas foram interceptadas pelo nosso pai ou nossa mãe ou sequer conseguiram atravessar as paredes dessa prisão. Independente do motivo, cada vez mais eu me vejo mergulhada num desespero atroz por não ter lhe feito saber que nunca o abandonei, e nem sequer tive a intenção de deixá-lo pra trás, sob as garras de nossos pais...

Prometo continuar tentando contato, até não poder mais conseguir papel e lápis para escrever, até não ter mais forças para reunir minhas ideias e coloca-las em ordem...

Perdoe-me a ausência, mas tenha certeza de que estou aqui sem chance de escolha; fui trazida para cá da maneira mais torpe e covarde, e o que mais me dói é a certeza de que o nosso pai está por trás de tudo isso, tanto, que por aqui, sou taxada como louca, completamente alucinada, por me dizer ser filha de um desembargador...

O sono está chegando. Ele vem forte. É sempre assim depois da medicação...


Sua irmã que te ama muito, Laura.





27 de Julho, 2017, quinta-feira


Gabriela busca manter os olhos fixos, bem fixos sobre Eve. Não quer perder um instante, um segundo sequer de suas expressões, mas a pretensão se esvai no minuto seguinte quando o paciente resolve direcionar o olhar para o chão.

O que você quis dizer com “a senhora precisa ir embora”? — Gabriela indaga concisa, segurando o fôlego. O Rivotril agindo, ainda bem, sobre certas funções do sistema nervoso central.

A senhora leu a carta, doutora... — Eve replica, contudo, sem mover um músculo sequer.

Então foi você quem a escreveu? — Gabriela não consegue controlar o arfar, as ondulações do próprio peito enquanto retira o documento de um dos bolsos da calça — Como esta carta chegou até a mim?

Eve se mantém em silêncio. Os olhos ainda deitados ao chão.

Por que você não a assinou?

O paciente, por fim, ergue a cabeça, mas não encara a psiquiatra.

Há outras duas caligrafias... — Gabriela estende o papel na direção de Eve, mas ele se recusa a tocá-lo, se recusa a olhá-lo — Quem escreveu o final desta carta? Ou quem escreveu o seu início? E Laura? Quem é Laura?— ela não consegue disfarçar, conter a perplexidade, a impaciência...

Eve deixa os ombros caírem. Uma exaustão pungente toma conta de todo o seu rosto.

Doutora... — ele gagueja; seu tom de voz, uma variação extrema entre grave e agudo, como um instrumento musical desafinado; os olhos, ainda cravados num ponto imaginário ao lado de Gabriela — Eu tentei... Eu a trouxe para cá...

Gabriela retorna ao encosto da cadeira com um gesto violento ao tempo que devolve a carta para o bolso da calça enquanto a informação despejada por doutor Orlando ecoa, retumba em seus ouvidos:

Você não será substituída. Foi o paciente, o próprio desembargador quem fez questão de tê-la como sua médica após a desistência da doutora Júlia”.

Do que você está falando? — Gabriela questiona incisiva, não conseguindo evitar a considerável tensão, como se estivesse aguardando um estopim ser queimado.

Eve escuta uma voz lhe dizer “você é culpado” e daí balança a cabeça em negativa. Logo outra voz se junta à primeira, murmurando, assobiando e por fim repetindo o “você é culpado” uma, duas, três, várias, diversas vezes e então Eve volta a menear a cabeça sem conseguir afastá-las, nenhuma dessas vozes, sem conseguir mandá-las embora à medida que Gabriela o observa, um ricto nervoso trespassando seus lábios.

Não... Nós combinamos... — Eve continua balançando a cabeça e se dirigindo para o ponto imaginário — Nós combinamos... Eu ia tentar... Eu ia tentar...

Arnoldo — Gabriela decide chamar o paciente pelo nome, seu nome real — Acalme-se. O que está acontecendo? Me diga. O que é que foi combinado?

Eve sente as lágrimas, a pressão na garganta, na cabeça, sente o desespero até que as mãos cobrem seu rosto, cerrando por completo a face.

Vá embora! Vá embora!

Ele pede, suplica com a voz rouca, cavernosa, quase inaudível, enquanto sente a dor pulsátil na cabeça transferida de imediato para um dos lados do crânio, simultaneamente a um repentino formigamento no braço direito.

Nós combinamos... Este é meu terreno...

Gabriela se retrai.

Arnoldo... Lucas... São as dores de cabeça? As alucinações? — ela pergunta um tanto reticente.

Você devia ouvir o seu paciente — Eve, súbito, sugere, autoritário, ao mesmo tempo que deixa as mãos caírem ao lado do corpo. Em seu semblante, nitidamente estampado, Gabriela parece entrever uma expressão de desagradável surpresa.

Ouvir o meu paciente?

Sim — Eve responde de pronto, dando de ombros, cruzando e descruzando as pernas até decidir mantê-las abertas, bem abertas conforme ajeita a postura, deixando os ombros bem alinhados.

Mas você é meu paciente — Gabriela completa, um tanto hesitante.

Não mesmo — Eve, deixando de lado a expressão aborrecida, retruca às gargalhadas, distendendo o rosto o máximo possível, adorando enxergar a surpresa e a incompreensão estampadas na face da psiquiatra — “Ele” é seu paciente — arremata, passando a mão descaradamente sobre a virilha.

Ele? — Gabriela deixa escapar a pergunta quase que involuntariamente à medida que percebe mais e mais a transformação de Eve, tímido, recatado, complemente passivo numa criatura ousada, maliciosa e de uma vivacidade notável, que não deixa de fitá-la nos olhos um instante sequer.

Hello, doutora! — Eve acena, debochado e revirando os olhos — Terra chamando doutora Gabriela.

Você se refere... Você fala como se estivesse se referindo a uma terceira pessoa...

Sim — o paciente recolhe a mão inquieta — E estou.

Mas você não é o Sr. Arnoldo Justus de Aguiar?

Está me testando, doutora? Jura?

Creio ser você que esteja me testando. Você não é um desembargador?

Não me faça rir. A esta altura do campeonato você deveria estar mais bem informada, Gabriela

O paciente se inclina e de imediato estende a mão aberta num gesto de cumprimento.

Lucas! Prazer!





28 de fevereiro, 2017, madrugada de terça-feira de carnaval


Márcio Antônio abre os olhos, devagar. Está tudo escuro. Sua mente parece um pouco confusa e ele leva alguns instantes para emergir do torpor que a envolve enquanto pisca, diversas vezes, buscando acostumar a vista, porém, a escuridão, total, não cede. Ele inspira e expira à medida que meneia a cabeça, morosamente; parece que houve uma batalha épica dentro dela. Quando? Não se recorda?

Será que está em meio a um sonho? Definitivamente não lembra de ter se preparado para ir dormir; de ter se deitado à cama; de ter resistido ao sono como sempre fazia todas as noites...

Inspira e expira mais uma vez. As pernas parecem pesadas, assim como todo o corpo que dá sinais imediatos de uma repentina queda de temperatura seguida de tremores involuntários...

Márcio Antônio fecha e abre os olhos. Precisa acordar. Fecha e abre os olhos. Acordar. Sim. Acordar. Fecha e abre os olhos... A escuridão permanece ao seu redor e ele permanece onde está... Mas, afinal, onde ele está?

Inspira e expira.

Os tremores pelo corpo, agora, seguidos por uma sensação nauseante...

Inspira e expira de novo e novamente e tenta, por fim, se levantar... as pernas continuam pesadas... o corpo continua pesado... e... e... correntes? Seus pulsos e tornozelos estão travados por correntes, ele pode sentir o metal, ele pode ouvir o som...

O que está acontecendo? Precisa acordar. Já. Agora!

Os tremores... a náusea... a respiração ficando ofegante...

Márcio Antônio se põe de pé. As correntes permitem apenas uma reduzida margem de manobra...

A respiração, sim, sim, ofegante...

Ele desliza o pé pelo chão, duro. Há um muro atrás de si tomado por uma substância gosmenta, gelatinosa...

Respiração ainda mais ofegante...

Ficando curta...

As correntes...

Precisa se acalmar... precisa se acalmar...

Drogado... É isso. Ele foi drogado.

As correntes travam seus pulsos e tornozelos...

A respiração está cada vez mais deficiente...

Márcio Antônio grita. Alto. Muitas e diversas vezes até sua voz começar a falhar, fraca, alquebrada, rouca...

A mão direita, ele sente, está tremendo...

Uma tristeza arrasadora, um desespero sombrio, um nó no seu estômago, um nó crescente, comprimindo, comprimindo até transformar-se numa queimação e ficar insuportável, mal lhe dando tempo para se colocar de joelhos e vomitar.

O que fizeram comigo? O que eu fiz para estar aqui?, se pegunta depois de limpar a boca, com o dorso da mão, apesar da limitação imposta pelas correntes, pelas malditas correntes.

Merda!

Márcio Antônio tenta gritar. Não consegue. De joelhos, ainda de joelhos, se enfurece com as correntes, com as malditas correntes, e então se lembra, sim, se lembra, apesar da memória relativamente difusa, que estava... que estava... com quem ele estava? Sim... Sim... estava com o desembargador...

A chácara...

Na sala...

O mal estar...

A sala...

Ele, o desembargador e Lucas...

Abigail sendo gentil...

O mal estar...

Vinho... Uísque...

Lucas...

Lucas estava confrontando os dois, a ele e o desembargador...

Por que aceitou a porra do convite de ir para aquela maldita chácara?

A respiração curta... deficiente... Precisa inspirar, expirar...

Uma porta... de repente uma porta se abre... um retângulo de luminosidade que deixa Márcio Antônio praticamente cego logo de início, mas que no instante seguinte, após recuperar a visão, o permite distinguir uma silhueta... uma silhueta masculina...

Quem está ai? Por favor, quem está ai?, pergunta, a voz fraca, alquebrada, rouca...

A figura, masculina, está e permanece em silêncio, braços cruzados, parecendo observar, perscrutar Márcio Antônio para, só então, depois de um bom tempo, dar um passo à frente.

A confiança é a base para qualquer relacionamento — Eve dispara. A voz firme, fria, naturalmente fria.





27 de Julho, 2017, quinta-feira


Então, você não é o desembargador? Você não é meu paciente? — Gabriela questiona com genuíno interesse, mas ressabiada, parcialmente incrédula e ainda tentando colocar em ordem o pandemônio instaurado dentro e fora de sua mente.

O eu-ego não é dono da sua própria casa. A consciência reina, mas não governa, doutora — Lucas responde com um leve brilho de admiração em seus olhos — Freud. Você já ouviu falar, não é mesmo?

Lucas? Esse é o nome que você... Que ele... O nome pelo qual escolheu ser chamado desde que começamos o tratamento, correto?

Pra início de conversa, desde que você e “ele” começaram — Lucas retruca sem pestanejar — O seu querido paciente, Gabriela, decidiu usar esse nome como um fardo, possivelmente pra compensar o peso na consciência pela morte do garoto — Lucas faz um sinal no ar com uma das mãos como se estivesse tentando afastar algo que insistisse em se aproximar — Você sabe, o garoto, o filho adotivo que foi assassinado junto da mãe — ele recolhe a mão e volta a encarar Gabriela.

Peso na consciência? — Gabriela tenta manter uma fisionomia inescrutável enquanto segue examinando Lucas — Então ele, o desembargador, carrega um sentimento de culpa em decorrência a este crime... a estes crimes?

A suposta médica aqui é você.

Lucas se levanta, vai para trás do sofá, sem pressa, e daí, depois de correr os olhos por todo o quarto, se volta para a psiquiatra, arqueando uma das sobrancelhas. Gabriela decide ignorar a dupla afronta.

Certo... Lucas... — ela balança a cabeça lentamente — Já que você trouxe o assunto até nós, saberia me dizer o que aconteceu na noite de carnaval, naquela chácara, alugada pelo desembargador? Talvez eu consiga compreender esse sentimento de culpa...

Claro que sim. Mas não pense que eu tenho alguma coisa a ver com isso. Não mesmo.

Com o que? Com o crime?

Lucas encara Gabriela com uma calma enlouquecedora.

Óbvio... — seus os olhos brilham ao tempo que ele trata de fingir um bocejo — Ao menos uma parte.

Poderia ser mais específico?

Não. Não poderia.

E por quê?

Porque não quero. Simples assim.

Ok...

Gabriela sente uma dor fria no coração. Precisa entender o que está acontecendo. Decerto não é possível que esteja diante de uma manifestação de um transtorno de dissociativo de identidade. É claro que não... O teste de Rorschach.... Eve apresentou transtorno de pensamento subjacente ainda que sua autodefesa inconsciente tenha tentado camuflar. Ele possui transtornos mentais, porém, os aspectos inconscientes de sua personalidade não entregou qualquer discrepância da própria identidade...

Parece preocupada, doutora.

Gabriela volta a focar toda a atenção sobre Eve, sobre Lucas, sobre o desembargador... Chegou o momento, enfim, de começar a seguir o fio de Ariadne... Por ela e por Júlia Mathias.

Então, Lucas, você não é Arnoldo Justus de Aguiar?

Onde eu assino pra registrar essa informação?

Você não era casado com Abigail? ...

Lucas solta uma gargalhada bem, bem alta.

Pelo amor de God. Nunca fui casado. Aliás — ele joga a cabeça para trás num gesto bastante afetado — Que besteira se casar.

E quem se casou com a Sra. Abigail?

A pergunta é: quem teria paciência e coragem pra se casar com aquela pamonha.

Então, deduzo, que você não é, não era, o pai adotivo de Lucas, o Lucas, o garoto...

Nem que eu tivesse perdido todo meu juízo — Lucas enfatiza num tom de escarninho e logo em seguida começa a caminhar a esmo pelo pequeno quarto — Por que a maioria dos adolescentes são tão chatos?

Poderia me falar um pouco mais sobre você, Lucas?

Ele estaca. De repente. Os olhos, agora, derramados sobre a psquiatra, encarando-a com desprezo.

Você já sabe que não é bem-vinda aqui, então por que não pega suas coisas e vai embora?

E como você sabe que não sou bem-vinda?

Gabriela sabe que precisa manter toda a calma possível, custe o que custar e os comprimidos de Rivotril, graças aos céus, está ajudando. E muito. Em sua mente, a inevitável correlação de que está diante de alguns aspectos e sintomas da esquizofrenia: transtorno mental afetando o modo como uma pessoa pensa, sente e se comporta; pensamentos confusos; o paciente parecendo que perdeu contato com a realidade...

Vá embora, pelo amor daquilo que você mais acredita. Você não é bem vinda aqui. Aliás, nunca foi. Se não fosse pela insistência dele... Enfim, não sei por que eu, nós, que seja, concordamos com isso.

A carta. É o trecho final da carta. Gabriela não pode deixar de concluir.

Porque esta súbita agressividade, Lucas? Estou, estamos apenas conversando. Nos conhecendo...

Lucas nada responde, apenas ri, um riso à socapa.

E eu não posso seguir o seu conselho. Sinto muito. Não posso ir embora. Eu tenho um paciente para cuidar...

Não, não tem — ele se debruça sobre o encosto do sofá, passando a confrontar Gabriela com uma fisionomia flamejante — Olhe à sua volta, doutora. Pensei que você fosse mais inteligente.

Sinceramente, Lucas — Gabriela faz questão de frisar o nome sem pressa ao passo que se inclina para frente, devolvendo a acareação— O que eu poderia encontrar à minha volta?

Lucas se afasta do encosto do pequeno sofá e se apruma, cruzando os braços, como se quisesse parecer mais alto. Seus olhos parecem carregar algo, verdades que está proibido de contar. Um misto de confusão de alegria e fúria se alterna sobre seu semblante.

Quem tem olhos para ver e ouvidos para ouvir, se convence que os mortais não podem ocultar nenhum segredo. Aquele que não fala com os os lábios, fala com as pontas dos dedos: nós nos traímos por todos os poros.

Gabriela sente o celular vibrando e chega a se sobressaltar, quase saltando da cadeira, contudo, em questão se segundos, se recompõe, retira o aparelho do bolso da calça e após pedir desculpas ao paciente, atende a ligação: no visor, o número do telefone da doutora Júlia Mathias, entretanto, do outro lado da linha, uma voz masculina, grave, é quem responde.

Doutora Gabriela, não é isso? A Júlia me falou da senhora algumas vezes.

Olá... Sim...

Desculpe não ter retornado antes. Vi as ligações perdidas e ouvi suas mensagens somente agora...

Eu quem peço desculpas pela insistência...

Sou o marido da Júlia...

Gabriela acena com a cabeça mesmo estando ao telefone.

Infelizmente a senhora não poderá falar com minha esposa... Ela está na UTI.

Como? — a pergunta escapa de uma Gabriela surpresa e um tanto perturbada.

Júlia tentou o suicídio.

O coração de Gabriela parece ter parado de bater.





9 de março, 2017, quinta-feira


Também mudei de nome, Bruna. Também mudei de cidade... — o homem prossegue calmo, cauteloso, e, por que não, um tanto seco — Mas eu não estou ligando para matar saudades, minha irmã. Poderia ter feito isso quando localizei seu paradeiro, já há alguns anos, mas ainda bem que não fiz, não é mesmo? Bem, não quer dizer que eu não esteja com saudades de você. Iremos nos encontrar, sim, e tomar um café, óbvio. Precisamos nos rever. Mas de antemão confesso que o que motivou minha ligação não foi um rompante de nostalgia. Resolvi te contatar porque preciso de um favor de sua parte... Um grande favor.

Eu... Eu... — Júlia não consegue juntar sequer duas palavras ao passo que se vê incapaz de impedir a sucessão de imagens que se apossam de vez de sua mente. Arquivos escancarados, cujos lacres de segurança caem por terra sem qualquer resistência.

Bruna?

A voz grave e insistente do outro lado da linha finalmente resgata Júlia.

Você me deve um grande favor, afinal, eu a salvei das mãos daqueles verdugos, daqueles algozes que o destino nos presenteou como pais. Você se lembra, não é mesmo?

Vá para o inferno!

Doutor Orlando, com suas mãos cumpridas e perfeitamente manicuradas, coloca o telefone de volta ao gancho tão logo ouve a batida do aparelho de Júlia Mathias no outro lado da linha. Ato contínuo, ele retira de uma das gavetas revestida em cavalho com puxadores corroídos, uma pasta envelope preta, com estrutura reforçada, vinco e com a marca d’água do Hospital das Clínicas Juliano Pereira de Aguiar, depositando-a sobre a mesa logo em seguida, para abri-la, com certa cautela, retirando, sem demora, de entre alguns papéis, o laudo pericial inicial que encaminhou o paciente Eve para o tratamento psiquiátrico... ou melhor, dois deles: dois laudos periciais.

Após revisar o conteúdo dos documentos, Orlando, cabeça altiva, sobrancelhas aparadas e um terno impecável, aperta o nó da sua gravata, ajeitando-a rapidamente conforme ergue o olhar na direção de Claus, sentado à sua frente, com as costas totalmente apoiadas no encosto da cadeira, pernas cruzadas e uma das mãos sobre o joelho.

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