0:00 min       OS PECADOS DE CADA UM     SÉRIE
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WEBTVPLAY APRESENTA
OS PECADOS DE CADA UM


Série de
Francisco Siqueira

Episódio 04 de 06
"Monstros Secretos"



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Diversas línguas, hórridos falares, palavras dolorosas e coléricas, vozes altas e roucas, sons de mãos faziam um tumulto que se expande na atmosfera sem tempo”. Assim descreveu Dante ao se deparar com o tumulto das almas condenadas, numa escuridão terrível, sem céu nem estrelas, depois que atravessou o limiar do inferno, em sua Divina Comédia.



Estou de frente para eles, mas, na verdade, sinto que não sou eu.

Sim. São meus olhos que os veem... Sim... É meu corpo quem está, de pé, sobre... sobre... sobre uma cama... E sim... São minhas mãos que exibem, pelo amor de Deus, uma gravata esticada entre elas...

MAS NÃO SOU EU!... NÃo... soU... eu.

Sinto meu peito se elevando num ritmo espantosamente lento...

Todo o meu corpo treme...

Como vim parar aqui? Sobre esta cama?...

Chuveiro... Eu estava no chuveiro... Isso... A água caía sobre mim... Eu estava com raiva...

Uma voz... Uma voz...

Eu queria gritar... Minhas mãos, minhas mãos sobre a pia... O gosto da bile...

Uma voz... Uma voz...

Minha cabeça... A dor... A dor latejante em um dos lados... A sensação de peso... A cabeça... Minha cabeça apertada...

Uma voz... Uma voz familiar... Ela me dizia vulgaridades...

NÃO. NÃO. É MEU CORPO. EU NÃO VOU SAIR...

Uma voz... Era uma voz parecida com a minha... Inchando minha garganta...

Preciso respirar. Preciso respirar...

Fecho e abro olhos. Fecho e abro os olhos. Fecho e abro olhos.

POR QUE ELES ESTÃO ME OLHANDO DESSA FORMA? Os olhos parecendo órbitas prestes a saltarem das cavidades?... Estão tentando dizer alguma coisa, mas algo em suas bocas, sim, algo não está deixando que falem.

Volto-me para o lado... Bruna... Bruna... Ela está sentada no chão com as pernas recolhidas e dobradas, envolvidas com extrema força por seus braços frágeis... Bruna... Bruna... Vamos sair... Vamos fugir...

Alguém está atrás dela... Alguém... Alguém está atrás de Bruna... Júlia Mathias! Doutora Júlia Mathias! Mas o que ela está fazendo ali, atrás da Bruna?... Tão próxima?...

Olho para os meus pés. Respiro fundo. Ouço o meu nome... Ronaldo... não... não estão chamando Ronaldo... A quem estão chamando?

Olho para eles. Estão se agitando. Mas por quê? Semicerro os olhos... Como assim?... Eles estão amarrados à cama? Suas mãos, seus tornozelos? Estão me encarando, desesperados, assombrados?

ELES ESTÃO COM MEDO... E DE MIM?

Os pecados da carne... Os pecados da carne...

Inclino a cabeça para trás e encho os pulmões. O teto está se rachando...


Eu comecei uma piada

A qual fez o mundo inteiro começar a chorar


Uma voz vibrando, golpeando meus ouvidos...

Fecho os olhos. Preciso sair. Preciso fugir.

Balanço a cabeça. Rápido. Abro os olhos. Bruna... Bruna... Me ajude!

Doutora Júlia Mathias sorri. Ainda atrás de Bruna. Suas mãos estão se torcendo como serpentes... Elas se parecem... As duas... Minha irmã e doutora Júlia Mathias se parecem... Elas estão se fundindo... Não... Não estão... Os limites entre elas se confundem, se combinam, se separam, se misturam...

Doutora Júlia Mathias olha para mim subitamente...

Por que eles não conseguem nos ouvir? Nós os amávamos... Ao menos por um tempo, nós os amávamos...

Laura... Por que você foi embora?


Mas eu não percebi

Que a piada era sobre mim


Abro os olhos...

Mas eles já estavam abertos. Tenho certeza!

Escuridão. Total. Estou pingando de suor, mas sinto algo, alguém se aproximando de mim... Sinto ondas de frio emanando desta pessoa...

Sim. É uma pessoa.

QUEM É VOCÊ? ME AJUDE!

Recebo como resposta um urro parecido com o de uma fera primitiva e mal tenho tempo de sentir medo, respirar. Sou jogado ao chão com muita, muita força e então grito, retorço o corpo, esforço-me para sair debaixo desse monstro. Sim. Um monstro está me obrigando a ficar no chão. Ele fede a suor...

Aproveite bem os seus últimos instantes, porque serei eu quem vai sobreviver. Eu irei predominar.”

A voz... Uma voz estridente... Meus músculos... Minha garganta... Minha nuca...

ME SOLTA!

Sinto uma pancada, surda, nas minhas costas antes de ser libertado... Mas não caio. Não. Não caio. ...

Abro os olhos...

Mas eles já estavam abertos. Tenho certeza!

Estou... Estou... Estou de volta à cama. Estou de pé novamente sobre ela... E não há mais nenhuma gravata esticada entre minhas mãos, graças a Deus... E também não há mais ninguém aqui, na minha frente...

Não. Não. Sim. Há alguém...

Semicerro os olhos... Uma pressão sobre eles... Minhas pálpebras...

Não se preocupe. Irei cuidar de você”.

Laura? Laura? Você voltou? Laura? É a voz de Laura!

Eu nunca fui embora”.

A voz de Laura, macia, mas vacilante…

Uma melancolia… Um desânimo profundo, doloroso...

Algumas vozes começam... Palavras mastigadas, sem pressa, desordenadas... Estão sendo atiradas contra mim... De quem são essas vozes?

Minha cabeça... Memórias... Sensações diversas... De quem são essas memórias? Essas sensações?

Esfrego os olhos. A parte interna das órbitas está coçando...

Quem são esses aí, deitados? Jovens? Sim. Jovens. Rapazes... Corpos perfeitos... A perfeição da beleza grega... Efebos... Sem as marcas do tempo... São vários... As imagens se sobrepõe... Rápidas... Eles, esses jovens... Estão se fundindo... Não... Não estão... Os limites entre eles se confundem, se combinam, se separam, se misturam...

Deitados... Todos estão deitados, aqui, diante de mim... Uma gravata sobre o torso nu de cada um deles... Mãos e línguas passeiam, ávidas, por seus corpos... Desejo... Um prazer imenso enquanto os assisto sendo vilipendiados, invadidos, usurpados...

NÃO. NÃO.

Mãos... As mãos deles...

Um vestido vermelho...

Este é novo. Compramos porque sabíamos que você voltaria”.

Mas nós os amávamos, ao menos por um tempo, nós os amávamos...”.

As mãos deles abrem minhas pernas, abrem as pernas desses rapazes... As mãos deles...

Um vestido vermelho...

Eles estão ajoelhados à minha frente, os dois... Não... Não... Estão ajoelhados, sim, mas na frente desses meninos, desses efebos, desses moços... Os olhares extravasando um desejo de cobiça demasiado perturbador.

NÃO. NÃO.

Uma música... Alguém está cantando uma música dentro da minha cabeça...


E eu comecei a chorar

O que fez o mundo inteiro começar a rir


Pensamentos mal formados... Estáticos... Dinâmicos... Complexos... Simples demais... Atraentes... Insuportáveis.

Uma tontura... A dor... A dor... O desespero beirando o insuportável, mais intenso a cada dia. Viver está se tornando um fardo pesado demais...

Olhos vidrados me observando. Olhos inumanos. Não é uma máscara. Não. Com certeza não é uma máscara.

Agora, em vez de tontura, sinto uma sensação devastadora de vertigem, quase como se estivesse caindo...

Um espelho... Estou defronte a um espelho... Alguém está sorrindo para mim... Não, não é o meu reflexo... Um sorriso debochado... Cínico...

Nós iremos te matar”.

A imagem, o reflexo do espelho tem veias saltadas nas têmporas e longas unhas, como garras... NÃO SOU EU!

Lágrimas... Impossível contê-las... Lágrimas, lágrimas...

A angústia... A angústia, o vazio...

Uma voz alta e raivosa...

Aproveite bem os seus últimos instantes, porque serei eu quem vai sobreviver. Eu irei predominar.”

Não... Não... Por favor... Não... Nós combinamos...

Porque eu não trouxe a porra dos meus remédios?

Viver está se tornando um fardo pesado demais...

Por favor, Gaby, me perdoe. Me perdoe...

Lágrimas… Choro… Lágrimas… Preciso acabar com tudo isso... Eu perdi a capacidade de amar...

Nós combinamos... Eu ia tentar... Eu ia tentar

Até você se tornar consciente o inconsciente irá dirigir sua vida e você vai chamá-lo de destino”.

Estou pingando de suor...

Preciso acabar com tudo isso... Eu perdi a capacidade de amar... Eu perdi a capacidade de ser quem eu sou... Só há uma maneira de acabar com tudo: é destruindo a mim mesmo. NÃO AGUENTO MAIS!

Sinto algo, alguém...

Sinto uma dor... Uma dor nos meus pulsos... Eles estão enfaixados... Mas o que houve com eles?

Espero poder ser útil a você, Ronaldo. De alguma forma. Ao menos enquanto este curioso fragmento de vida me for permitido”.





25 de Julho, 2017, terça-feira


Gabriela desperta um tanto esgotada; a cabeça parece extremamente pesada e só depois de um bom tempo consegue entender que está sobre o pequeno sofá, defronte à mesa, no pequeno escritório do seu pequeno apartamento. À medida que respira fundo, fechando e abrindo os olhos algumas vezes, começa a enumerar, arbitrariamente, as sensações que vem lhe fazendo companhia nestes últimos meses, mais exatamente nessas últimas semanas: cansaço físico; mudanças repentinas de humor; dificuldade de raciocínio; dificuldades no trabalho; dificuldades gástricas e intestinais... Dificuldades, dificuldades... Real e definitivamente está esgotada, acaba por concluir.

Enquanto seus olhos vasculham o entorno, talvez para convencer o cérebro que de fato está em casa, apura os ouvidos de modo a descobrir se Dorlan já chegou. O silêncio denuncia que ainda está só — graças aos céus.

Ah! Mais uma dificuldade: o distanciamento afetivo, ela arremata com a fisionomia tensa, uma reação quase inconsciente.

Num impulso elétrico, corre até o banheiro, joga um comprimido de Pondera na boca e o engole sem água. O gosto, amargo, lhe provoca uma careta e então, depois de um dar de ombros, retorna para o escritório, para a mesa de trabalho, onde alonga os músculos antes de começar a se dedicar aos arquivos dos poucos pacientes que atende num espaço paliativo, fornecido por um ex-professor da faculdade. Aos 32 anos, após dois anos do término de sua Residência Médica, Gabriela acreditava — mesmo reconhecendo a boa dose de otimismo e ingenuidade que depositara em sua meta — que ao menos teria um espaço decente para começar a montar sua carteira de pacientes.

Após um arqueio de sobrancelha e outro dar de ombros, Gabriela, por fim, apanha a primeira pasta do seu acervo, porém, ainda se sente um pouco alheia e então a deixa de lado, permitindo no instante seguinte que os ombros relaxem para, daí, fechar os olhos e começar a massagear as têmporas com a ponta dos dedos de ambas as mãos, em um movimento circular contínuo, sem pressa...

A cabeça ainda pesa... um pouco.

Sísifo foi condenado a rolar por toda a eternidade uma rocha montanha acima. E sua tarefa não terminava nunca, pois, uma vez colocada no alto da montanha, a pedra rolava novamente para a planície. Não há castigo mais terrível, doutora, do que um trabalho inútil e sem esperança”.

Filho de uma puta, Gabriela abre os olhos, esbraveja, uma raiva impotente tomando forma num fogo lento, surgindo em algum canto do seu cérebro, fazendo explodir em segundos a irritação e o incômodo por todo o corpo. Precisa se acalmar; caso contrário não vai conseguir passar da primeira linha da primeira pasta do primeiro paciente.

A vida é uma tempestade, meu amigo. Um dia você está tomando sol e no outro o mar te lança contra as rochas. O que faz você um homem é o que você faz quando a tempestade vem”, Gabriela se recorda de uma das passagens de O conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas, um dos poucos livros em sua vida que se permitiu ler mais de uma vez.

Um longo suspiro, forte, uma respiração profunda, uma contagem até dez e em seguida uma respiração diafragmática acompanhada de um cenho franzido suscita Gabriela a retornar à pasta abandonada, prosseguindo assim, decidida, concentrada, até o relatório do quarto paciente, quando, então, sua mente inicia um obstinado movimento para que deposite toda a atenção no caso “Eve”. Gabriela resiste. Não quer permanecer neste caso 24 horas, apesar da necessidade do paciente, apesar da urgência que a situação pede e apesar da possibilidade de projeção para sua carreira — esta parte final repete como um mantra, mas agora incluindo um adendo na meta estabelecida: se o diretor Orlando permitir que ela continue.

Não há castigo mais terrível, doutora, do que um trabalho inútil e sem esperança”.

Gabriela balança a cabeça buscando afastar para longe a hipótese, a princípio, descabida, retomando, no instante seguinte, sem mais delongas, os seus arquivos.

Quinto relatório.

Sexto relatório.

Eve”, por fim, fala mais alto e Gabriela então retira a pasta envelope do meio das outras e começa relendo o dossiê do caso, onde o paciente se queixa de fortes dores de cabeça, que não cediam à força de nenhuma droga e que exames de laboratório, raios-X e outros testes nada revelaram quanto às causas dessas dores. Relê o resultado do teste de Rorschach, os resultados dos exames de nível de consciência, estado cognitivo, pensamento, linguagem, psicomotricidade, sensopercepção, humor/afeto e avaliações de funções psicofisiológicas. Relê o relatório elaborado por Júlia Mathias. Também relê algumas de suas próprias anotações, folhas soltas, notas manuscritas, desenhos, círculos, traços e novamente suas anotações enquanto tenta fazer conexões, encontrar algum elo que a fará caminhar milagrosamente para o próximo patamar dentro dessas próximas duas semanas. Não acha. Então, mergulha pela segunda, terceira, quarta vez num ciclo aparentemente sem fim que a faz pensar e repensar em hipóteses sem encontrar respostas. Finalmente se levanta e caminha pelo escritório, a mente fervilhando com a mesma sequência de perguntas e observações se projetando, emaranhando-se até que retorna para a mesa e destaca uma a uma das questões com uma Lumicolor amarela após anotá-las usando uma caneta vermelha:


  1. O que aconteceu na noite de segunda-feira do último carnaval na chácara alugada onde estavam o desembargador e a família?

  2. Quem é “Lucas”, essa suposta identidade que Eve teoricamente assumiu, que por coincidência é o mesmo nome do filho do desembargador?

  3. O que esse suposto Lucas pretende? Porque sua existência se limita a apenas um fragmento? O que está omitindo? E se o faz, o desembargador está agindo conscientemente? O resultado do teste de Rorschach afirmou que sim, que o desembargador possui transtornos mentais, mas não acusou nenhuma discrepância da sua identidade.

  4. O que significam as alusões que o suposto Lucas faz relacionadas aos supostos pais? Elas se referem a alguma violência, a algum abuso sexual, não há dúvidas, e “ele” se culpa por isso... Como foi a infância, a adolescência do desembargador até a orfandade? POR QUÊ? PORQUE ARNOLDO JUSTUS DE AGUIAR SE TRANCOU SOB A SUPOSTA IDENTIDADE DESTE PSEUDOADOLESCENTE?

  5. E esse tal professor Márcio Antônio? Porque teria o número do telefone do suposto Lucas, ou melhor, o número do telefone do desembargador? E porque, partindo do relato desse suposto Lucas, o professor teria ligado para o desembargador e insistentemente EM PLENO FERIADO DE CARNAVAL? Que vínculo os unia?

  6. Como era a vida do Lucas, o real, o adolescente adotado pelo desembargador e a esposa?

  7. Quem matou Lucas e a sua mãe adotiva? O desembargador foi encontrado na casa, desacordado, e com uma lesão nas costas...

  8. Transtorno Dissociativo de Identidade é uma patologia incomum, que até hoje não encontra unanimidade em seu reconhecimento devido ao pequeníssimo número de casos no mundo todo. Então por que Júlia Mathias deu o seu veredicto depois de apenas, DE APENAS três entrevistas com o paciente? Sem comprovação de exames criteriosamente clínicos? Elaborando um diagnóstico agudamente evasivo? E porque o doutor Orlando surgiu, agora, do nada, me pressionando para que reafirme esse diagnóstico? A iminência da aproximação de uma data para a audiência inicial do desembargador não justifica um laudo médico feito por conveniência ou pressa.


Se atenha aos fatos existentes. Apenas isso”.

Gabriela recua até o encosto da cadeira sem deixar de espreitar suas anotações enquanto o conselho e a orientação que havia recebido de Júlia Mathias retumbam em seu cérebro, estimulando de imediato uma sensação recorrente, a de que enganou todas as pessoas ao seu redor, de alguma maneira, para estar no lugar em que se encontra, contudo, desta vez, agravada pela certeza inconveniente da sua inaptidão para enxergar, apesar de todos os esforços, o que sua antecessora talvez tenha enxergado.

Gabriela mergulha em si por alguns instantes, numa expressão ausente, hesitante, divisando à sua frente a incerteza se formando em meio às ideias, inclinações alheias, chegando mesmo a considerar o absurdo de que tudo isso que esteja vivenciando seja uma mentira e que talvez esteja dentro de um jogo onde ela, Gabriela, não passa de um mero peão em um tabuleiro de xadrez liderado por uma mão desconhecida. Todavia, não demora, no minuto seguinte, a jogar por terra esta teoria insana ao mesmo tempo que se permite um sorriso torto no canto dos lábios, atirando a Lumicolor sobre a mesa.

Sísifo... Sísifo... Não há castigo mais terrível, doutora, do que um trabalho inútil e sem esperança”.

Gabriela inspira e expira, fundo, conforme esfrega os olhos. A parte interna das órbitas está coçando.

Quem sabe a mesma falta de sintonia emocional de Júlia Mathias para com o paciente Eve, como afirmou o diretor Orlando, seja o mesmo obstáculo que ela esteja enfrentando?

Não. Não. Não. Gabriela não acredita que esteja se deixando levar tão longe por essa maneira contraprodutiva de pensar. A opinião de uma pessoa não pode e não deve defini-la. Chega de se autossabotar. Chega de dar créditos à síndrome do impostor. O diretor está sob pressão, ela está sob pressão...

Milhares de pensamentos começam a circular pela sua cabeça. Pensamentos velozes, efêmeros e todos aparentemente sem nexo, e ela não consegue fisgá-los, por mais que tente. Por fim, se levanta exausta, uma exaustão que lhe aguilhoa os membros como pesadas correntes de ferro...

Gabriela precisa chegar ao banheiro, porém, uma série de vertigens a obriga a cerrar os olhos. Com os músculos retesados, caminha lentamente, levantando as pálpebras bem devagar até alcançar seu destino, projetando, por fim, a massa de seu corpo no ar, agarrando-se à pia, esticando a mão e abrindo a torneira enquanto ouve o barulho familiar da água escorrer pelo ralo, enquanto sente sua garganta queimar, enquanto pondera que, segundo especialistas, o Transtorno Dissociativo de Identidade geralmente é causado por um grande trauma sofrido pela pessoa ainda na infância e, em muitos casos, esses eventos traumáticos são fruto de abusos sexuais, físicos ou psíquicos...

Não. Não. Foi surreal demais. Inacreditável demais. Em que mundo, em que realidade um pai e uma mãe tocariam seu filho de maneira tão voluptuosa?”.

O desembargador... Lucas... o paciente Eve...

Não. Não. Foi tudo minha culpa. Eles estavam bêbados. Os dois”.

Uma violenta descarga de adrenalina sobe à cabeça de Gabriela. Seus braços tremem de raiva. Seus punhos estão tão cerrados que chegam a doer. Com certo esforço decide e consegue se colocar de pé para encarar o seu reflexo no espelho... Merda. Merda. Por que ela sente pena do paciente Eve? Por que ela sente pena do doutor Orlando? Por que ela sente pena de Dorlan? Por que sente pena da porra do mundo todo?

Eu não perdi a esperança. Eu sou capaz, Gabriela balbucia, entredentes, meneando a cabeça sob uma pressão determinante enquanto sente uma raiva dura e brutal percorrer as linhas do seu rosto... Nesse ínterim, ouve a porta do apartamento sendo aberta e logo depois fechada, batida com força, muita força.





11 de fevereiro, 2017, sábado


Márcio Antônio está jogado sobre o sofá com uma garrafa de uísque e um copo vazio ao seu lado. Ele não se mexe. Não quer. Não pode. E se pudesse, parava de respirar, agora, neste exato momento enquanto os olhos vagam pelo pequeno apartamento, pelo mobiliário multifuncional, feito de madeira compensada, servindo de divisória entre os cômodos, sala, cozinha e quarto...

E o piso...

Os olhos também esquadrinham o piso inspirado nos bistrôs parisienses, com tons e padrões marcantes.

Márcio Antônio fecha os olhos, balança a cabeça de um lado ao outro tendo o encosto do sofá como apoio, e depois abre os olhos, e os fecha, e os abre e repete esse movimento até começar a piscar, demasiado, e em seguida parar, consciente, decidido a não mais piscar, o que dura tão somente quatro segundos, pois o efeito rebote faz com que seus olhos voltem a piscar com uma frequência ainda maior, para compensar a perda, ao mesmo tempo que se recorda da ex-companheira, com quem viveu seu relacionamento hétero mais duradouro. Uma psiquiatra, que sempre que o via “brincando de piscar” lhe repetia que a frequência do pestanejar de olhos era um instrumento preciso e útil para o estudo de certas doenças do cérebro, e que a dinâmica deste movimento era mais elevada em pacientes esquizofrênicos ou com a síndrome de Tourette, ou ainda portadores de discinesia tardia...

Talvez você tivesse razão, Márcio Antônio conclui com um riso à socapa ao tempo que volta a percorrer todo o apartamento com os olhos bem abertos, arrematando, como sempre, que aquele nunca fora um lugar dos sonhos, mas era o mais apropriado, além de ser próximo ao metrô.

Mas por que mesmo estava esmiuçando os limites daquele lugar que odiava? Dando-lhe uma atenção que há muito deixara de dispensar? O desembargador, lá atrás, no início da relação, nos três, quatro primeiros meses, tentou persuadi-lo a se mudar. Iria pagar o seu aluguel para que residisse num local mais espaçoso, mais confortável... Na verdade, ele, O DESEMBARGADOR, estava preocupado em SE SENTIR confortável, isso sim. Ainda bem que não aceitou, Márcio Antônio completa enquanto o peito se eleva num ritmo espantosamente lento. Imagina a dor de cabeça em ter que reaver o apartamento, porque, se tivesse ousado aceitar aquele convite absurdo, iria alugá-lo, claro. Não venderia o único imóvel que conseguiu na vida com muito esforço e um financiamento gigantesco, por mais apaixonado que estivesse.

Será que o desembargador o achava tão ingênuo assim? Não. Ingênuo, não. Um idiota. Na verdade, ainda o acha um idiota, pois bastou estalar os dedos para que ele, Márcio, corresse ao seu encontro. E depois do quê? Duas, três semanas sem dar nenhuma notícia? E antes disso o gelo, as desculpas, milhares de desculpas esfarrapadas para não se encontrarem? Quando não muito, o silêncio, o perturbador silêncio, uma ação passivo-agressiva perfeita para deixar claro que tudo só tendia a piorar.

Dez meses... Apenas dez meses... Os amores que duram tornam os amantes exaustos e com ele e o desembargador não poderia ter sido diferente...

Márcio Antônio enche o copo e o entorna, de uma só vez, fechando os olhos. O uísque queima. E isso é muito bom. Queima sua aflição, seu desespero, sua raiva por se permitir agir e se comportar como um adolescente imaturo, embevecido com o primeiro amor. A paixão, em sua origem latina, significa sofrimento, todavia, Nietzsche a definiu como “uma disposição plena de saúde e vigor” enquanto Kant a descreveu como uma “inclinação emocional violenta, capaz de dominar completamente a conduta humana e afastá-la da desejável capacidade de autonomia e escolha racional”.

A promessa... ele fez uma promessa... Não continuaria, não se permitiria ser tratado, não mais, de forma insidiosa e cruel. Não se permitira ser um estepe... A porra da promessa que quebrou há 24 horas... Porque foi atender a ligação do desembargador?

Márcio Antônio abre os olhos. Sente dardos lhe trespassarem o corpo. A mão tremer... Recorda a noite anterior, o desembargador se despindo, pedindo para que ele, Márcio, fosse, fingisse ser um voyeur, já que o tinha proibido de despi-lo... O corpo dele, do desembargador, demonstrando em cada flacidez, além da barriga um tanto proeminente, apesar de não ser gordo, a falta de atividade física, a vida sedentária que levava, a ausência de uma disciplina alimentar, como se estivesse reforçando que sim, há muito deixara a juventude para trás, e daí? Um gritante contraste com ele, Márcio Antônio e sua silhueta musculosa e sem exageros, suas coxas bem torneadas, o corpo talhado, liso e esbelto, malhado por exercícios constantes na academia durante anos, e que sim, também há muito já havia deixado a juventude para trás...

O que tinha visto naquele homem? Justo ele? Márcio Antônio não se cansa e nunca se cansará de perguntar. Justo ele que sempre, sempre saudou a sublime beleza da juventude; que se extasiava... Não... Ainda se extasia admirando com delicado prazer a perfeição imberbe de um corpo delgado.

Márcio Antônio tenta ajeitar o corpo sobre o sofá, mas desiste... as lembranças da noite anterior permanecem vívidas... o desembargador deitando sobre ele, seu peso e solidez à medida que o beijava rudemente, as mãos dele apertando sua bunda, o sexo dele pressionando sua barriga... o sexo... o sexo avassalador, a sofreguidão do desembargador em possuí-lo e em também se deixar possuir... a ondulação dos quadris... o ventre do desembargador, do seu amante, roçando o seu corpo... ele os virando na cama de modo que engatassem num 69... o sexo diferente dos últimos encontros, dos muitos últimos e escassos encontros...

Márcio Antônio engole em seco. Fecha os olhos. Todos os gestos, os sorrisos, os carinhos do desembargador para com ele desde que se conheceram tomam de arroubo sua mente e em seguida a sensação, a terrível sensação do desparecimento da paixão dando lugar a um vazio, anunciando o fim, o anúncio do fim reverberando em cada canto do seu cérebro... Um fim que ainda não aconteceu, mas está batendo à sua porta!

O benefício da dúvida, ao contrário do que pensam, é uma indulgência distribuída a poucos.

Márcio Antônio abre os olhos. Mais um gole e o calor do uísque desce garganta abaixo e explode no estômago. A mão direita não para de tremer... Porque o cretino não se dignou a terminar? Por que não anunciou a porra do fim da relação e agora, do nada, reaparece depois de duas, três semanas e pronto, vamos trepar? E pronto, vamos viajar no carnaval? Estarei com minha família e fingimos que eu te encontro lá, em Guapimirim, e então te levo para a chácara e nos divertimos? Fingiremos surpresa, claro, nossa, você é professor do meu filho?

O filho de uma puta resolveu me tratar como se eu fosse um michê. Fingir. Fingir. Fingir... Estou cansado e desamparado. Sei muito bem o que é estar cansado e desamparado, sem ter a quem recorrer, Márcio Antônio pondera, os olhos como fendas de raiva, a terceira dose do uísque queimando...

Uma súbita dor torácica e palpitações o assaltam...

A´promessa, a porra da promessa que fez de não continuar, de não se permitir ser tratado, não mais, de forma insidiosa e cruel. POR NINGUÉM!

Agora uma quarta dose...

A opinião de uma pessoa não nos define. As decepções chegam e depois devem nos servir de aprendizagem.

Uma quinta dose...

É isso. Eu preciso voltar a ver o mundo. A sair. A caçar. Mas não esporadicamente. Necessito, como um vampiro, buscar sangue novo e me rejuvenescer. Abandonar de vez esse acentuado isolamento social onde me enfiei, Márcio Antônio continua a sentir a dor torácica, o coração bater forte, mal conseguindo respirar. Minha silhueta musculosa e sem exageros, meus olhares, meus gestos, minha linguagem corporal... Eu posso ter a porra do homem que eu quiser. Eu posso conquistar qualquer um desses rapazinhos ávidos por um tiozão encorpado... Eu sei que posso. É só ter disposição.

A raiva, débil, o sufoca, sufoca o seu temor, o seu desespero.

Márcio Antônio está decidido: não vai aceitar o tal convite para ir a Guapimirim, para a tal chácara. Vai ligar para o desembargador e gritar bem alto, mandá-lo para o quinto dos infernos. Aliás, ele devia ter feito isso frente a frente, na hora que recebeu aquela proposta insana, indecente. Pra tudo nessa vida existe um limite!

Uma sexta dose...

A dignidade. Precisa recuperar o que resta da sua vaidade.

O que ele vai fazer lá, nessa porra dessa chácara? Onde o desembargador está com a cabeça? Ele vai reunir a mulher e o filho e o amante para tomarem um chá? Assistirem aos desfiles juntos? Conversarem, rirem e sabe-se lá mais o quê?

Lucas... Lucas...

Márcio Antônio fecha e abre os olhos, fecha e abre olhos, fecha e abre os olhos...

Lucas e o pai... O desembargador e o filho... Eles se parecem, eles se fundem... Os limites entre eles se confundem, se combinam, se separam, se misturam.

Um incômodo... Um incômodo pressagiando-o.

Não. Não. Márcio Antônio não se sente culpado. Foi um erro, a merda de um erro, um grande erro aceitar o joguinho proposto por Lucas, porém, a culpa foi e é do pai dele. O desembargador tinha empurrado a ele, Márcio, para aquela armadilha com o seu distanciamento, com sua irritação, com sua intransigência e com seu desprezo... Segundo o poeta, o matemático, o gênio Omar Caiam, “em um ser amado, você gosta até dos defeitos, e em pessoas não amadas, até mesmo as virtudes o irritam”.

Não. Não. Eles não fizeram nada. Nem ele, e nem Lucas. Márcio Antônio não se permitiu, não se permitiria, por mais injustiçado, por mais ofendido que pudesse estar, que possa estar, não ser permitiria. Por mais que o desembargador merecesse, por mais que o desembargador mereça...

A vingança abre, reabre, endurece as feridas emocionais. É um círculo vicioso que ao invés de punir o culpado acaba nos punindo...

Márcio Antônio se retrai. A emoção ardente ao “avistar” Lucas. Sua beleza eterna. O pavor sagrado o dominando. Não. Não. Ele sempre sentiu atração pelos mais jovens, pelos rapazes, sim, inclusive acredita que pelo fato de não ter tido filhos subliminou seu desejo de paternidade com o magistério e com essas relações, mas nunca, nunca por garotos. Nunca. Lucas é um garoto. Ele só tem dezesseis anos... E FOI SEU ALUNO, e com certeza será neste novo ano letivo.

Márcio Antônio tenta organizar a mistura de impressões em sua mente... O sorriso de Lucas... Não há coisa mais arrebatadora que o sorriso demarcando os olhos, os lábios de Lucas... Tantas, tantas coisas que imaginou fazer com o filho do seu amante, mas não pode. Não deve. Jamais... Ainda bem que se controlou, ainda bem que o desprezou.

Mas o desembargador merece. Ele merece.

Márcio Antônio estremece e respira fundo. Sente a alma sofrer pelos pecados de seu corpo, pelos pecados que o seu corpo não irá cometer. Vira outra dose. Só para aliviar a tensão. Sente que talvez tenha dado certo. Sua mão direita não está mais tremendo. É isso. Não é o momento para autocrítica. Já tinha se penalizado demais. Precisa se acalmar, refrear seu medo, seus receios...

O céu e o inferno provêm do mesmo coração, Márcio Antônio considera e repete e repete de novo e de novo e de novo e de novo e, por fim, conclui: precisamos resolver nossos monstros secretos, nossas feridas clandestinas, nossa insanidade oculta.

Ele recosta a cabeça no sofá. Sente alguma coisa. Possivelmente a bebida roubando seus sentidos, deixando tudo suave, lento, num tênue silêncio... De repente uma calma, uma súbita calma toma conta de si... Sim. Sim. Seja lá o que isso possa significar, está se sentindo mortalmente calmo...

É preciso que eu diga a mim mesmo que fui o único responsável pela minha ruína e que ninguém, seja ele grande ou pequeno, pode ser arruinado exceto pelas próprias mãos. Estou pronto a afirmá-lo. Esta impiedosa acusação eu a faço sem piedade contra mim mesmo. Terrível foi sem dúvida o que o mundo fez comigo, mais terrível ainda foi o que eu fiz contra mim mesmo”. Márcio recita uma passagem de De Profundis, de Oscar Wilde, conforme mais uma dose de uísque, a oitava, desliza, queimando...

Inesperadamente, um som...

A merda de um som...

Um som que parece familiar, contudo, distante...

Não. Ele não vai sair dali. Não vai abandonar esse instante de quietude que a muito custo conseguiu impor à sua consciência, mas a porra do barulho segue e vai se tornando intenso, intenso...

Mas que merda!

Márcio Antônio dá um salto do sofá e em menos de cinco segundos alcança o interfone... A voz do zelador do outro lado pedindo desculpas pela insistência... Uma segunda voz, ao fundo, parece estar gargalhando... O zelador informando que há um rapaz na portaria, aparentemente alterado, com as roupas sujas e com alguns rasgos... Márcio Antônio está ficando irritado... O zelador completa: o tal rapaz diz se chamar Lucas e afirma ter sido seu aluno... Márcio Antônio bate o interfone: mas que porra é essa?





12 de fevereiro, 2017, domingo


Estou fazendo a coisa certa, sei que estou... E não é por mágoa... Ou talvez seja, mas com certeza não é por vingança. Não é, Lucas semicerra os olhos, tenso, sem se mexer e com os dois pés fincados ao chão, sem desviar um instante sequer a atenção dos carros, dos caminhões e das motos seguindo velozes a alguns metros de distância sob seus pés, enquanto fala baixinho, sussurrando, repetindo para si que não irá, não irá, não irá de jeito nenhum à chácara alugada por seus pais para passarem o carnaval. Não irá. Não irá. Até porque vai ser impossível essa viagem acontecer.

Mas por que razão ele está sussurrando? Quem vai escutá-lo, ali, onde está?

Por que não contei pra ele? Por quê? — Lucas volta a balbuciar ao mesmo tempo que sente uma fisgada na altura do umbigo — Ele me deu todas as chances. O cretino sabia que eu queria falar... Na verdade, ele sabia O QUE EU QUERIA FALAR. Mas eu me perdi. E se uma coisa não for dita no momento certo, ela desaparece, irreversivelmente. A verdade se afasta, escapa...

Os dedos de Lucas se crispam na amurada do viaduto ao tempo que sente uma vertigem, forte, ao tempo que sente o ar lhe faltar... Neste instante o celular começa a vibrar no bolso da bermuda vermelha que está usando e ele sabe, tem certeza que é Márcio Antônio, mas não vai atender. Não vai. Ele irá para casa, é isso, irá para casa e vai correr para o banheiro, arrancar aquelas roupas, a camisa de Márcio, a bermuda de Márcio e depois de queimá-las tomará um bom e longo banho para lavar as impurezas da noite anterior.

Gosta do que vê, pro-fes-sor?”.

Vá para casa... Seus pais... Eles sabem onde você está?”.

O celular segue vibrando e, sem paciência, Lucas arranca o aparelho do bolso da bermuda; no visor, um número desconhecido, porém, não há dúvidas de que seja dele, do professor, Lucas conclui, conforme a dor e a raiva lhe engasga a garganta. Porque foi se esquecer da porra do papel onde havia anotado o número do seu telefone? Era a primeira coisa da qual deveria ter se lembrado quando saiu daquele maldito apartamento, ele lamenta, o peito arfando de cólera e indignação. Na verdade, tudo isso poderia ter sido evitado se não tivesse enchido a cara e tudo o mais e depois ido procurar o professor. Era óbvio que essa ideia insana não teria sucesso, Lucas completa mergulhado num silêncio enfurecido.

O celular emudece, contudo, apenas o tempo necessário para que o mesmo número desconhecido volte a surgir no visor deixando Lucas quase fora de si.

Será que Márcio Antônio tinha conhecimento de quem eu era filho? E há quanto tempo já sabia disso? Mas é claro que ele tinha conhecimento, Lucas murmura entredentes enquanto observa o número do professor, insistente, ao passo que uma raiva renovada emerge, a raiva do orgulho ferido, a raiva por ter sido tratado como um completo idiota, a raiva de si próprio e, principalmente, a raiva, uma indignação mortal em relação ao pai enquanto segue fitando o aparelho até decidir desligá-lo e jogá-lo dentro do bolso, gestos violentos, à medida que inspira e expira lenta e profundamente, alimentando cada vez mais a certeza de seguir para casa e revelar à mãe o que descobriu, pouco se importando com as consequências; pouco se importando em como o poderoso desembargador irá reagir... E depois... E depois... E depois vai precisar pensar, sabe que vai precisar pensar no que irá fazer com os sentimentos que tem por Márcio Antônio, sentimentos que o infeliz e traidor nunca os mereceu.

Sim. Está decepcionado com o professor, mas não consegue odiá-lo e isso lhe deixa ainda mais furioso.

PORQUE ESSA DOR?

Quanto tempo ela vai durar?

Com os dedos ainda mais crispados na amurada do viaduto, Lucas desata a chorar, lágrimas de pesar sendo alimentadas pelo orgulho ferido, pela desilusão e pelo ciúme.





25 de julho, 2017, terça-feira


O pavilhão da ala vermelha no hospital psiquiátrico está em completo silêncio. Nada fora da rotina. Todos os pacientes em seus quartos, com a ceia terminada e com suas doses de remédios devidamente aplicadas enquanto dois enfermeiros terminam de fazer a ronda das 20h, circulando pelo local, observando ora e outra, de novo e novamente, as paredes e corredores com flores pintadas como personagens deformados em muros de escolas infantis.

No espaço reservado para a Administração, a enfermeira chefe — responsável pelo plantão — segue com suas anotações precisas, necessárias.

O silêncio... O silêncio... Os mortos e os sobreviventes repartindo um só lugar, apenas separados por patologia, sexo, sem qualquer menção à política de gênero em um local onde nada é muito explicado.

Em seu quarto, completamente isolado, o paciente Eve, deitado, fixa o teto sob luzes baixas, bem, bem fracas; a intensidade permitida após as 20h. Seu semblante, aparentemente impassível, não demonstra as diversas hipóteses brotando de seu pensamento em ebulição. Contudo, permanece, e talvez precise, exercer controle sobre suas emoções se pretende que ela venha à tona para, finalmente, poder falar, esclarecer tudo à doutora...

Os olhos de Eve seguem totalmente abertos. As peles dos seus dedos estão ásperas, ele pode sentir enquanto os manuseia ao léu.

Estou passando por uma provação, sei disso muito bem, ele repete para si, trincando os dentes, como se as palavras pudessem lhe ferir a garganta, os ouvidos... Estou triste. É claro que estou triste, diz à enquanto lágrimas se formam nos cantos dos olhos, enquanto engasga antes de prosseguir... A imagem de Abigail e de Lucas, a visão dos dois corpos estrangulados, atados à cama... Não fui eu. Não fui eu... Eve sente falta de ar, tem vontade de gritar, pedir socorro...

A dor de cabeça. A maldita dor de cabeça. Não. Não...

Eve projeta o corpo até conseguir ficar sentado sobre a cama. Sente raiva. Demais. Inspira. Expira. Endireita-se obrigando o ar a entrar em seu peito.

Uma carta! É isso.

A ideia chega de mansinho assim como o torpor que se instaura cada vez mais sobre ele.

Sim. Sim. Vai escrever uma carta à doutora. Pela manhã irá pedir papel e lápis, ou caneta, ou o que seja. Ele precisa...

Lucas, aquele ordinário. Sim. Ele os provocou. Ele os seduziu, ou ao menos tentou. Ele é o culpado. Não... Não só ele: Lucas, os dois Lucas, os dois são os culpados...

Eve sente o sangue afluir ao cérebro ao mesmo tempo que começa a ver tudo vermelho. Lágrimas nos olhos que escorrem pela boca, a dor... a pressão em sua cabeça... Ele coloca as duas mãos, uma em cada lado do crânio e o comprime, com força, muita força.

Aproveite bem os seus últimos instantes, porque serei eu quem vai sobreviver. Eu irei predominar”.

Eve tem vontade de berrar, não, não fui eu, porém, não consegue, mais uma vez, e então espuma de raiva ao passo que sente o ventre queimando, a cabeça queimando, os músculos queimando...

Gaby, Gaby, me perdoe...

A aspereza na ponta dos dedos de Eve é substituída por um formigamento, que também toma conta dos lábios, assim como uma súbita dor torácica e palpitações o assaltam, a sudorese, a visão turva...

Nós combinamos... Esse é meu terreno...

Eve balbucia... As luzes seguem baixas ficando bem, bem fracas, até desaparecerem de vez, dando lugar à total escuridão.






15 de fevereiro, 1977, terça-feira


Não demorou muito tempo, depois das 22, para que a rodoviária em que Ronaldo estava já há quatro dias, aguardando uma oportunidade de voltar para casa, por fim, ficasse a ermo. Apenas um pequeno grupo, que parecia ser uma família, ainda estava por lá, permanecendo sentadas, as cinco pessoas, em um dos bancos, de costas para ele, quatro fileiras à frente. Ronaldo bem que tentou ficar acordado até que fossem embora, mas o sono o estava derrotando sem grandes dificuldades e seria impossível manter aquela batalha. Cuidadosamente se recostou à parede atrás de si. Já sabia como se acomodar sem passar por tantas dores no dia seguinte devido o mau jeito e a falta de posição para dormir, todavia, o seu grande problema, naquele momento, seria o de tentar enganar o buraco que estava cada vez maior dentro do estômago...

Um barulho ensurdecedor de um trovão tomou conta do lugar e então Ronaldo fechou os olhos, contudo, após uma madorna que acreditava não ter durado mais do que dez minutos, despertou, acompanhado da sensação de que estava sendo observado. Abriu os olhos sem pressa e logo foi surpreendido com a imagem de um homem sentado, encarando-o sem melindres, na outra extremidade do mesmo banco que ocupava.

Quem seria?

Ronaldo não se deu ao trabalho de tentar reconhecer ou saber quem era o dito cujo, se esse fosse o caso. Apenas decidiu mudar de posição, virando-se para um dos cantos onde outra parede o faria companhia, mas desistiu da empreitada tão logo ouviu passos se aproximando. Conferiu somente para ter a certeza do que já sabia: era o tal homem que estava acabando de se sentar um pouco mais próximo, diminuindo a distância que havia entre os dois.

Você está aguardando alguém? — o homem, enquanto terminava de se acomodar, interpelou com certo nervosismo pontuando o tom da sua voz.

Ronaldo se perguntou um tanto impaciente qual seria o interesse daquele sujeito em querer saber se ele aguardava alguém. Entretanto, em questão de segundos, um calafrio quase que incontrolável começou a tomar conta de si e daí deduziu o óbvio: havia, finalmente, chegado a sua vez de ser repreendido, escorraçado da rodoviária por um dos seguranças do local... Dos males o menor: ao menos já passava das 22h, e sua humilhação não seria tão degradante, constatou depois de olhar o entorno, certificando-se que as cinco pessoas que estavam quatro bancos à sua frente, já haviam ido embora.

Respirou fundo, uma, duas, três vezes até que abandonou sua posição no mesmo momento que foi acometido pela sensação de completo desamparo. Cabisbaixo, remoeu a falta de perspectiva que tomara por completo conta de sua existência até decidir se colocar de pé para sair daquele lugar com dignidade, se é que ainda tinha alguma. Contudo, a dor de cabeça que lhe vinha assolando há dias, antes mesmo de fugir de casa, o assaltou novamente, somando-se naquele momento à sua falta de forças, ou coragem e então, sem escolha, voltou a se sentar, ereto, passando a fitar o tal homem, mesmo ciente que não devia fazer aquilo, já que todos sabiam não ser uma boa ideia encarar um dos seguranças da rodoviária.

O tal homem estava inquieto e olhava de soslaio para Ronaldo sempre após passar as mãos sobre o queixo. Ele tinha os cabelos grisalhos, uma barriga proeminente apesar de não ser gordo e cheirava a cigarro e devia ter a mesma idade de seu pai, Ronaldo deduziu, assim como também reparou, finalmente, que o homem não usava o uniforme característico dos seguranças que trabalhavam naquela rodoviária.

Está tudo bem com o senhor?

Ronaldo, ainda que reticente e também sentindo a leve intensidade da pressão dentro de sua cabeça tendendo a se tornar moderada, lançou a pergunta, apesar de constatar, com certa estranheza, que aquelas palavras haviam sido ditas involuntariamente... Talvez a necessidade de saber o que estava acontecendo, por pior que pudesse vir a ser a situação, estava lhe permitindo seguir adiante.

Sim. Por que não deveria estar? — o tal homem respondeu sem titubear, dando de ombros, um tanto desconfiado — Mas você ainda não me disse se está esperando alguém. Ou será que está aguardando o seu horário de embarque? — mal terminou sua suposição, olhou para o relógio que carregava no pulso — Mas a essa hora não tem mais ônibus. Se não me engano, as próximas saídas só vão acontecer pelo início da manhã — asseverou impetuoso, sem deixar de fitar Ronaldo um segundo sequer — Mineirinho... Gosto desse sotaque. É bem gostoso...

Obrigado! — Ronaldo limpou com um gesto rápido da mão direita a ponta do nariz que estava ficando gelada — Mas agora preciso ir...

Ir pra onde? — contra argumentou o tal homem, se aproximando ainda mais ao notar a menção de Ronaldo para se colocar de pé — Acho que estou te assustando, mineirinho. Fica calmo. Há quanto tempo você está aqui no Rio?

Ronaldo respirou fundo, mais uma vez, e fechou os punhos com força, muita força. Gostaria de responder aquela pergunta para si mesmo. Há quanto tempo estava no Rio? Decerto há quatro dias naquela rodoviária, mas como tinha chegado até ali, infelizmente, não conseguia se lembrar. Na verdade, não conseguia sustentar um mínimo de coerência dentro de sua mente em relação a fatos acontecidos após sua fuga; fatos concretos. O que lhe restava eram resquícios, fragmentos de memórias como se tivesse sobrevivendo dentro de um pesadelo... e estava fraco demais para lutar contra aquilo... Manhuaçu, sua cidade, ficava há pelo menos seis horas e meia de distância de onde estava... E Bruna... E Bruna...

Mas me diga. Que tipo de diversão te atrai? Futebol? Barzinho? Uma boa noitada? — o tal homem descarregou seu arsenal sem dar a Ronaldo qualquer chance de resposta — Curte outros homens?

Ronaldo engoliu em seco. Mesmo exasperado, desconfiado, aguardando o que quer que fosse daquele ser humano que insistia em estar lá, ao seu lado, não pôde deixar de se surpreender. Que pergunta mais sem cabimento era aquela?

O senhor... o senhor... o senhor realmente não sabe aonde quer chegar — Ronaldo gaguejou, baixando os olhos, sentindo a timidez e a reserva e a ansiedade avançarem por cada célula do corpo...

Você é muito bonito, mineirinho...

O indivíduo ao seu lado, tocando seu queixo ternamente, fez com que Ronaldo voltasse a encará-lo.

Tem certeza de que não aprecia outro homem? Com esse seu rosto, essa sua pele clara, esses olhos, esses ombros largos, cabelos castanhos... Qual a sua idade?

Cada uma daquelas observações era cuspida enquanto os ombros de Ronaldo estavam sendo afagados. Ato contínuo, ele foi se enrijecendo, buscando se desvencilhar...

Tem certeza de que não deixaria nenhum homem te tocar... te tocar lá embaixo?

O tal homem insistia e cada vez mais ousado, com a respiração forte, um riso cínico no canto dos lábios até conseguir que apenas poucos centímetros o separasse de Ronaldo, sobre aquele banco, para, sem qualquer aviso, começar a alisar sua perna, subir com a mão até alcançar sua virilha... Tudo em uma fração de segundos.

Não deixaria nenhum homem te chupar?

Um nanossegundo foi o suficiente para que a mente de Ronaldo fosse assaltada pela imagem dos pais, dos verdugos, aqueles dois verdugos...

É claro que não! — Ronaldo respondeu de pronto, completamente ofendido, cerrando as pernas, alterando um pouco o tom da voz, quase chorando e se afastando, por fim, ao passo que olhava em volta, constatando que nenhuma viva alma realmente transitava mais por aquele canto da rodoviária.

Pois não sabe o que está perdendo, mineirinho. Não sei se alguém já te chupou antes, mas saiba que um homem faz isso melhor em outro do que qualquer mulher...

A mente de Ronaldo mais uma vez o assaltou: a imagem do pai, os lábios dele alcançando seu pescoço, beijando-o e depois subindo para as orelhas, descendo para o seu rosto até invadir sua boca... “Nós, eu e sua mãe, lhes demos tudo. Então, nada mais justo que nos retribua”...

Ronaldo sentiu o estômago embrulhar e ouviu tambores em seu crânio enquanto a intensidade da dor em sua cabeça ia se tornando forte, abrangendo tudo, conferindo-lhe uma sensação de peso, de pressão à medida que uma voz ecoava em sua cabeça, lhe parecendo, de início, um tanto familiar... A voz de seu pai? Não... Era uma voz parecida com a sua, porém, mais determinada, destemida... E não era a primeira vez que a escutava.

Mostra pra esse idiota quem é que manda.

Ronaldo sentiu-se nervoso demais, ansioso demais...

Esse cretino quer uma coisa e você sabe bem o que é. Melhor eu cuidar disso...

Comeu a língua, garoto?

Ronaldo olhou firme na direção do tal homem. Repulsa e nojo e medo... Uma visão dupla, tripla de seu pai se formou e desapareceu em instantes até ele, Ronaldo, começar a endireitar o corpo... Uma voz, a voz, continuando a ecoar em algum lugar na sua cabeça.

Não sou maricas, meu senhor — Ronaldo respondeu, enfim, se espremendo ainda mais para o canto do banco.

Sei... E o que isso me importa, garoto? Eu também não sou nenhum maricas — o tal indivíduo não demorou a retrucar, mostrando a aliança que mantinha na mão esquerda — O que conta é o que tá aí no meio das suas pernas.

Ronaldo não poderia mais aguentar. Novamente tentou se colocar de pé, mas o homem, num gesto violento, o impediu, segurando-o firme por um dos braços.

Se o problema for dinheiro, eu pago! A gente vai ao banheiro e eu te chupo rapidinho e te dou a grana. Ninguém vai ficar sabendo.

Revolta, surpresa, revolta, nojo. Uma disparidade imprevista ou quem podia saber já há muito conhecida corroeu a alma de Ronaldo enquanto cerrava os olhos... A dor de cabeça, intensa, absurda, irradiando de um ponto a outro em seu cérebro... Uma tontura... O que estava acontecendo?

Você não quer voltar pra casa? Salvar a Bruninha? Eu acho que é perda de tempo, mas enfim... Você não vai me deixar em paz, você não vai nos deixar em paz, então, fazer o quê?...

Ronaldo sentiu, ainda, os músculos retesarem, um calor nas palmas das mãos e náusea, uma forte náusea ao tempo que abriu os olhos para voltar a encarar, sem pressa, e com a visão ofuscada, o tal homem, que o media um tanto cismado...

Bruna. Preciso voltar para Bruna, Ronaldo murmurava à medida que engolia em seco enquanto observava impotente uma cortina negra baixar à sua frente.

Está tudo bem, garoto?

O tal homem lançou sua pergunta ao passo que Ronaldo lhe devolveu o olhar, sério, como se condicionando sua atitude à expressão do seu interpelador. O homem, claro, não pôde deixar de se preocupar com a inusitada cena que se desenrolou diante de si. Talvez fosse melhor ir embora, infelizmente, mas já lamentava de antemão ter que deixar para trás aquela beleza ousada e singular daquele rapazinho com o rosto fino, fechado, a boca meiga, o nariz reto, a suavidade e a divindade partilhando cada linha do seu semblante... Até onde podia lembrar, nunca havia encontrado nada parecido nas suas andanças pelas madrugadas em busca de prazeres e paixões orgiásticos jamais saciados...

Estou ótimo — Ronaldo respondeu de súbito — Nunca me senti tão bem. E você?

O tal homem permaneceu em silêncio, entre surpreso e deslumbrado, focando a atenção no garoto que passou a fitá-lo com um olhar repleto de uma vivacidade notável e um sorriso saborosamente franco.

Quanto? — Ronaldo indagou, num tom de voz extremamente ousado ao mesmo tempo que piscava um dos olhos e apertava o sexo sob a calça de tergal, arqueando uma das sobrancelhas, malicioso.

O homem não respondeu de imediato. Decidiu se deleitar um pouco mais sobre a vitória conquistada por ter conseguido, enfim, derrubar a última barreira que o estava impedindo de aproveitar seu prazer, seus desejos com avidez tamanha sobre aquele efebo de pele sem as marcas do tempo. Uma pena estarem numa rodoviária e ter que apelar para um banheiro público...

Desistiu? — Ronaldo voltou a perguntar um tanto impaciente.

Toma! — o tal homem empurrou uma quantia que com certeza ajudaria, ao menos, Ronaldo a comprar algo para comer — Vem. Me segue.

Não demoraram a chegar ao famigerado destino. Enquanto o tal homem pagava sua entrada para passar na roleta que dava acesso aos banheiros, tanto masculino, quanto feminino, olhou para trás de modo a se certificar de que sua presa ainda estava por lá. Ronaldo sustentou o olhar, firme, audacioso, intenso, alimentando um furor ainda maior no seu admirador à medida que atravessava a roleta sem pressa, para depois voltar a segui-lo, caminhando pé ante pé até cruzar o batente da porta do banheiro. O lugar, por sinal, estava abarrotado pelo cheiro de suor e urina que faziam arder as narinas quando se respirava. Não podia ser diferente, claro, e Ronaldo já sabia disso, pois já havia estado por lá, algumas vezes, naqueles últimos quatro dias.

O tal homem o aguardava no último reservado, com a porta semiaberta, Ronaldo percebeu assim que entrou, assim como também notou, através do reflexo no espelho, o quão agitado ele se encontrava. Ao passo que seguia o seu caminho, Ronaldo foi olhando para os outros reservados de modo a confirmar a presença de mais alguém, ainda que isso não o incomodasse em nada. Por fim, se deparou com ele, seu caçador, sentado sobre a tampa do vaso sanitário e mal teve tempo de respirar ou pensar, ou gesticular; foi puxado para dentro do reservado, sem qualquer cerimônia, enquanto observava com um sorriso entrecortado, debochado até, o cinto e a braguilha da calça de tergal sendo abertos numa voracidade sem tamanho.

Posso saber o seu nome, garoto? — o homem ainda se deu ao trabalho de questionar, mas sem esperar a resposta, indo de encontro à virilha de Ronaldo.

Mas é claro — Ronaldo disparou sem titubear, empurrando a cabeça grisalha contra seu sexo, inalando o odor do cigarro que emanava do tal homem — Lucas. Pode me chamar de Lucas.

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