0:00 min       RAÍZA 2ª TEMPORADA     SÉRIE
0:36:00 min    


WEBTVPLAY APRESENTA
RAÍZA 2


Série de
Cristina Ravela

Episódio 02 de 23
"Abalos"



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FADE IN

= = Legenda: Dois meses depois... = =

= = Music fade in = =

CENA 1 RUAS DA CIDADE [FIM DE TARDE]

VISTA DE CIMA
CLOSE EM UMA PLACA AMARELA NA VERTICAL COM LETRAS AZUIS: SUPERMERCADOS IMPÉRIO

CORTA PARA
SETOR DO SACOLÃO [INT.]
O local está cheio, filas grandes, muitos burburinhos.
A mão de um homem apalpa um tomate e outra mão, dessa vez feminina, pega um estendendo-o. A cena revela Dcr que pega e olha de soslaio. Ele sorri sem graça.

DCR (segurando um saco plástico com tomates): Raíza!...Ari!...Os tomates hoje não estão tão bons; Tem que escolher a dedo.

RAÍZA: As desculpas também.

Dcr encara as duas com cara de juradas e torna a colocar o tomate no balcão.

DCR (fazendo graça): Eu sei o que vão dizer, mas antes que digam qualquer coisa eu tenho algo a dizer.

ARI: Diga.

DCR (justificando com toque de humor): Eu realmente estava doente, mas melhorei e me vi forçado a fazer sacolão...

RAÍZA: Também se viu forçado a não me dizer que Rafaela era a garota do blog do Dirce me disse?

Dcr emudece por instantes, fita Ari com olhar complacente e torna a encarar Raíza.

DCR: Como assim, Raíza?

Raíza olha para Ari e balança a cabeça afirmativamente.

RAÍZA: Parece que a Rafaela não contou...

DCR: Olha... Eu-eu não sei o que...O que está acontecendo, mas...

RAÍZA: Você sabia de tudo e preferiu ficar do lado dela.

DCR: Eu não queria que tivesse sido assim, Raíza. Eu pedi pra ela parar com aquilo, mas ela não me ouvia...

RAÍZA (gesto com a mão no peito): Mas nem me contou! Se foi amigo dela a ponto de não dedurá-la, não foi meu amigo pra me contar a verdade.

Notamos, em meio a discussão, que Ari está com olhar distante como a prestar atenção em outra coisa.

DCR: Eu não queria ser o fofoqueiro! (algumas pessoas observam atentas) Contar pra você seria o mesmo que traí-la...Era ela quem tinha que te contar!

RAÍZA: Eu não ia dizer que você me contou! Eu não sou traíra!

DCR: Ela ia saber. E mesmo que não soubesse, desconfiaria.

RAÍZA: Seu medo foi tanto em perder a amizade dela que nem se tocou que poderia perder a minha. (Dcr se mostra desconcertado) Eu estaria morta a essa hora por causa dos delírios da sua amiga e quem se importaria? Ela ia continuar filmando os outros, inventando histórias e eu estaria a sete palmos...Eu nem...

ARI: Gente, gente! ‘cês’ estão sentindo isso?

RAÍZA (nervosa): Sentindo o quê, menina?

ARI: O chão está tremendo...

DCR (nervoso): Esse chão treme todo santo dia por causa do estacionamento aqui embaixo. Fica nesse cai e não cai.
A imagem para no rosto de Raíza aflita que imediatamente encara Ari com a mesma expressão.
RAÍZA (voz quase não sai): Vamos sair daqui...
DCR: Quê?
Os tomates começam a cair e observa-se que os demais produtos também. Algumas pessoas param e se olham com desconfiança e medo. Os produtos começam a cair cada vez mais.
RAÍZA: Vamos sair daqui agora...
Dcr põe os tomates de volta ao balcão olhando para a garota.
DCR: É melhor a gente ir mesmo; O tomate aqui tá pela hora da morte.
VOZ MASCULINA: CUIDADO!
= = Music On – Suspense = =
Dcr é atingido por um pedaço de ferro na cabeça causando desespero total.
ARI e RAÍZA: DC!
Dcr está caído no chão com a cabeça ensanguentada. Ouve-se um estrondo e algumas pessoas, incluindo as garotas caem.
VOZES: CORREM! CORREM! ISSO VAI DESABAR!
Raíza se apoia no corpo de Dcr e passa as mãos em seu rosto sujando as mãos de sangue e de tomate que se misturam na cena.
RAÍZA (chorando): Dcr! Dcr!
HOMEM: VAMOS MENINAS! SE SALVEM, ESSE JÁ ERA!
Ari chora, segurando-se no balcão. Pega a amiga pelo braço tentando puxá-la. O tumulto é grande.
ARI: VAMOS, RAÍZA! VAMOS!
As duas são empurradas pelo povo e a cena que mostra Dcr morto vai se distanciando.
SUPERMERCADOS IMPÉRIO [EXT.]
A multidão de pessoas se aglomera na porta do mercado. Ari e Raíza são duas delas que descem a rampa e correm até a calçada.
Pelo ponto de vista delas, Rafaela aparece no alto da rampa quando esta despenca fazendo-se ecoar gritos, tanto de quem está lá, tanto de quem assiste.
Raíza tapa a boca, desesperada e Ari a puxa para um abraço.
ARI (voz embargada): Como você não viu isso? Como?
RAÍZA: Eu tenho que ver isso de perto...
Ela se solta.
ARI: Raíza!
Raíza corre até as ruínas da entrada do mercado e ouvimos pedidos de pessoas para recuarem.
Pelo seu ponto de vista, vemos Rafaela em torno de outras pessoas, caída com ferimentos na cabeça a aparentemente morta.
A tela se fecha num baque junto da música.


2x02

ABALOS


FADE IN
CENA 2 ED. CIRANDA DE PEDRA [EXT./MANHÃ DO MESMO DIA]
Ari, segurando um saco de pães, apoia Raíza, com roupa comum que caminha cambaleando até a portaria. Sua feição demonstra um choque e seus olhos estão lacrimejados.
ARI: Não é a primeira vez que você tem uma visão, Raíza. Você já devia estar acostumada.
RAÍZA: Não dá pra se acostumar com a morte de ninguém, Ari. Sinto como se eu segurasse uma corda e não pudesse afrouxar nem um pouquinho.
ARI: De conhecido só tinha ele?
Raíza a olha de canto e desvia rapidamente.
RAÍZA: Sim...
Ari a olha penalizada.
CORTA PARA
CENA 3 APTº 403 – COZINHA [INT./MANHÃ]
O café é despejado num copo e a imagem a frente, até então embaçada revela João Batista sentado.
O copo é entregue a ele.
JOSUÉ (irritado): Será que esse pão chega ou não chega?
BRUNO: Calma, Josué (Josué lhe entrega a cafeteira) Deve ter fila.
JOSUÉ (tom impaciente): Nunca tem fila a essa hora.
Ouvimos passos vindos da sala. Ari e Raíza passam pela janela e têm que ouvir gracinhas.
JOSUÉ: Foram plantar o trigo?
João segura o riso. Assim que as duas entram é notável a aparência carregada de Raíza, tanto que Bruno se mostra sem reação.
JOÃO: Que cara é essa? Parece que acabou de ter um pesadelo.
Os dois se encaram como a dizer que um ou outro é o próprio pesadelo.
== Passagem de Tempo ==
Todos estão à mesa tomando café, um olhando ressabiado para o outro. Josué arranca o miolo do pão e joga boca adentro olhando para Raíza; João faz o mesmo encarando Ari e Bruno balança o copo para misturar melhor o café no leite olhando de baixo sua filha.
BRUNO (para Josué): A Rafaela virá hoje?
Raíza olha para os demais, surpresa.
RAÍZA: A Rafaela? (pausa) Por quê?
JOÃO: Não sabia? (sonso)É ela quem irá estagiar como fisioterapeuta aqui.
JOSUÉ: Como é que ela ia saber se passa mais tempo fofocando com a Ari que outra coisa?
Ele sorri, mas Raíza não corresponde, por que é notável a ironia na fala dele.
BRUNO: Eu fiquei sabendo ontem e não deu pra te falar, Raíza. Ela foi recomendada (tom justificativo).
JOÃO (sonso): Não deve ter nenhum problema já que são amigas, não?
Ari e Raíza se entreolham.
CORTA PARA
CENA 4 MANSÃO DE CAEL – FACHADA
ESCRITÓRIO [INT./MANHÃ]
A cena mostra a porta fechada. Em seguida, se abre, Cael e outro homem entram.
HOMEM: Foi provado que o incêndio na boate foi criminoso. Com isso o seguro não cobrirá o prejuízo.
CAEL: Eu já esperava por isso. O que descobriu sobre o nosso elemento?
Cael contorna a mesa e senta.
HOMEM: Ele está galgando um lugar ao sol naquela empresa e...
Cael faz um sinal para ele se sentar. O homem se senta e o entrega uma pasta preta.
HOMEM (cont.): E já vi um homem se encontrar com ele três vezes durante duas semanas.
CAEL: Ainda é cedo para tentar um contato com esse cara.(ele abre a pasta) A princípio quero o Camilo. (a cena mostra o conteúdo da pasta com ênfase no nome grifado de Marco Bedlin) Quero reunir provas (ele olha na direção do homem) e nós vamos conseguir, doutor Silas.
Silas faz que sim.
CORTA PARA
CENA 5 UNIVERSIDADE [EXT./MANHÃ]
Há muitos alunos agrupados nas escadas, nos corredores e nos portões. Rafaela surge no alto da escada e ouvimos risos e deboches por parte dos outros. Ela desce rapidamente.
ALUNA: Tirou zero na aula particular?
Rafaela para. Mais risos.
ALUNA 2: Acho que não rolou química.
Rafaela continua a andar de cabeça baixa e uma aluna passa a acompanhá-la.
ALUNA: Não liga. Elas devem estar com inveja, por que você pegou o professor e elas não.
RAFAELA: Elas não devem estar com inveja agora.
ALUNA: O que vai fazer? Acha que terá chance em outra universidade?
RAFAELA: Só pagando...Duvido que alguém me dará bolsa sabendo que me envolvi com o reitor.
Ela para e pelo seu ponto de vista vemos um homem, perto do carro trocar olhares com ela. Ele entra no veículo e dispara.
ALUNA: Como ficará a situação de vocês agora?
Rafaela a olha com cara de quem não sabe.
RAFAELA: Acho que não ficará.
Ela desvia a atenção e vê Marco, no portão a encarando com um sorrisinho de canto.
Ela nem se despede da aluna e desce a galopes.
PORTÃO
MARCO: Bom dia, Rafaela!
RAFAELA (ríspida): Eu tô meio sem paciência pro seu deboche, viu.
MARCO: Que bom...(ele coloca a mão por dentro do paletó e retira uma carta) A outra metade você pode reservar para me ouvir.
RAFAELA: Hã?
Ele entrega a carta e ela pega, desconfiada.
RAFAELA: O que é isso? (ela abre e nota-se uma surpresa em seu rosto) Uma carta de recomendação? Mas eles agiram como...
Marco põe as mãos nos bolsos e se recosta na parede.
MARCO: Eles precisavam ser duros com você pela boa imagem da faculdade. Você tem sorte de eu existir pra você.
Rafaela, segurando a carta o encara com ar de sarcástica. Ela olha dentro do envelope e o vira de cabeça pra baixo fazendo cair em sua mão uma foto 3x4.
MARCO: Ele é um dos sócios da HDM.
RAFAELA (irônica): Veio de brinde?
Marco sorri com ar superior.
MARCO: Acho que ele odiaria ser brinde de alguém.
RAFAELA: Dá pra dizer logo? O que ele tem a ver com esse meu lance aqui da faculdade?
MARCO: Nada. Ele nem gosta de fazer doações(sarcástico). Mas se tem uma coisa que ele preza é a reputação. Imagine que para um homem íntegro, pagador de suas contas deveria ser horrível passar por algo parecido com o que aconteceu com você.
RAFAELA: Ele teria que deixar o cargo...
De repente ela arregala os olhos para ele aparentando ter entendido.
RAFAELA: Você não tá querendo que eu faça alguma coisa contra ele não, né?
MARCO: Eu não estou pedindo que você mate ou roube.
RAFAELA: Mas tá querendo que eu o faça perder o emprego. Eu passei por algo parecido; Não posso fazer isso com os outros!
Marco tira a mão do bolso e acaricia os lisos cabelos dela.
MARCO (calmo): Fizeram com você o que você fez durante todo o ano com a Raíza. Será que ela pensaria duas vezes antes de fazer o mesmo com você?
Rafaela não responde.
MARCO: Eu só quero que você me traga fotos...Comprometedoras de Armando Gouveia. Não irá fazer nada daquilo da qual não esteja acostumada.
Rafaela, acuada, olha a foto que tem em mãos. É um homem bem afeiçoado, aparentando uns 50 anos, moreno claro.
FADE TO BLACK
FADE IN
CENA 6 ED. CIRANDA DE PEDRA – FACHADA [MANHÃ]
APTº 403 – QUARTO DE RAÍZA [INT.]
Uma foto de Dcr sorrindo ao lado de Raíza, Ari e Rafaela preenche a tela e logo vai se afastando. Observa-se que Ari está na porta.
ARI: Por que você não conta pra ele?
Raíza a olha surpresa e guarda a foto na gaveta. A fecha lentamente como quem pensa numa resposta.
RAÍZA: Como você acha que ele vai reagir? Vai ter medo de mim como ele tem do pai, por que tem sonhos premonitórios. (ela se levanta da cadeira e põe as mãos nos bolsos do short) Além do mais, seria muito egoísmo pensar só nele quando...
ARI: Nem completa! Eu já te disse que você não é a heroína do mundo, não tem que estar...
RAÍZA (cont./faz coro com ela): Em todos os lugares ao mesmo tempo.
Ouvimos a campainha tocar.
Ari adentra o quarto.
ARI (murmura): Por que você não vai jogar piada pro pai dele? De repente ele diz o que sonhou.
Ouvimos vozes, mas só identificamos Josué como um dos interlocutores.
Raíza se mostra inquieta.
ARI: Eu já perguntei, mas vou perguntar de novo...Tinha algum outro conhecido em sua visão?
As duas se encaram e por trás de Ari, no corredor, Rafaela, drª Letícia e Josué passam e param.
RAFAELA: Oi gente.
Todos se entreolham.
CORTA PARA
QUARTO DE JOÃO
A cena mostra João deitado na cama e tem sua perna levantada por drª Letícia sob a observação de Rafaela e Josué em pé.
LETÍCIA: O mais importante, Rafaela, é respeitar o limite do paciente.
A doutora abaixa a perna de João que demonstra dor.
LETÍCIA: No início você sentirá dor (ela volta a atenção para Josué) é normal.
JOÃO: Só espero que não seja perda de tempo, por que isso dói muito.
LETÍCIA: Nenhum esforço é perda de tempo. (pausa)Vou deixar você com a Rafaela; Ela já sabe tudo que tem que fazer.
JOSUÉ: Eu te levo até a porta.
Os dois saem.
Rafaela sorri para João que corresponde forçadamente. Ela se prepara para fazer o exercício nele quando é encarada.
JOÃO: Você parece abatida...
Ela levanta a perna dele e sorri sem graça.
RAFAELA: Não, é impressão sua...
Silêncio.
JOÃO: Eu assisti ao vídeo...
Rafaela, olhando para a perna dele, para com expressão acanhada.
JOÃO(cont./falso): Como que alguém faz um absurdo desse, não é? Gravar você com um professor, que horror...
RAFAELA (sem deixar de fazer o exercício): Aquilo foi um mau entendido...
JOÃO: Com certeza que foi, mas quem fez isso queria te prejudicar...Sabe quem poderia ter sido?
Rafaela engole a saliva, sem graça e balança a cabeça negativamente.
JOÃO (instigante): Parece coisa de quem quer se vingar...Se você tivesse feito algo parecido contra alguém...
Close no rosto de Rafaela com ar de quem se lembra de alguma coisa.
Logo atrás vemos Raíza a observar desconfiada.
CORTA PARA
CENA 7 APTº 215 [EXT.]
Daniel está debruçado na janela, a cena vai se aproximando e logo atrás surge Dcr tossindo.
DANIEL (olha para trás): Filho...Pensei que já tivesse saído.
Dcr o abraça e tosse de novo.
DCR: Eu ia falar com a Rafaela, mas vou deixar para outro dia.
DANIEL: A Rafaela?
DCR: Sim, lembra dela, né?
Daniel disfarça uma expressão estranha.
DANIEL: E por que deixar pra depois o que você pode fazer agora?
DCR: Ela foi trancar a matrícula...Quero dizer, trancaram pra ela. E quando ela fica triste ou aborrecida ela se tranca no quarto e usa o computador.
Daniel toca seu ombro, complacente.
DANIEL: Será? Talvez ela queira conversar.
DCR (desconfiado): Aconteceu alguma coisa? O senhor fala de um jeito...
Daniel se volta para a janela, mostra-se incomodado.
DCR: São os pesadelos, né? O senhor tem esses pesadelos desde que entrou naquela clínica. Dois meses é pouco pro senhor esquecer, né?
DANIEL: Nunca vou esquecer...(pausa) Filho, lembra de quando eu sonhei que você estava em perigo, mas que seria salvo?
DCR: Graças a Raíza!...Quero dizer, graças a Deus...(os dois se encaram) Peraí! O senhor por acaso não...?
DANIEL: Eu sonhei que a Rafaela morreu.
Dcr recebe aquilo como um choque. Tosse mais e põe a mão na cabeça.
DANIEL: Você deve tá ficando gripado, vou fazer um chá pra você.
Daniel faz que vai se retirar, mas Dcr o contém segurando em seu braço.
DCR: Tem alguma chance desse pesadelo não acontecer?
Daniel faz suspense.
DANIEL: Ela morria no mercado e...Você disse que quando triste ela se tranca no quarto. Vamos cuidar da sua tosse agora...
Close na expressão de preocupado de Dcr.
CORTA PARA
CENA 8 HDM CONSTRUTORA – FACHADA
CORREDOR [FIM DA MANHÃ]
Marco entrega uma papelada para a secretária que mal o encara.
MARCO (forçando o sorriso gentil): Imprima, por favor.
Um homem, aquele da foto que Marco houvera entregado a Rafaela, igualmente vestido de terno caminha em direção a Marco com um papel em mãos. Em seguida, põe em cima da papelada que Marco acabara de entregar a secretária.
ARMANDO: Imprima esse primeiro, mocinha; (olhando para Marco) É mais urgente.
A secretária não sabe pra quem olhar.
MARCO: Imprima o dele primeiro; (sarcástico) Ele deve estar muito nervoso em ter logo essa cópia.
A secretária assente e abre a impressora.
ARMANDO: (sorrindo ironicamente): Veio de alguma guerra, Marco?
MARCO: Ainda não, doutor Armando (sorri ironicamente também).
ARMANDO: Sua gravata está fora do lugar,(ele põe a mão na gravata fazendo um movimento rápido) ajeite.
Marco mantém a firmeza e sorri irônico.
A secretária entrega a cópia e o original do documento a Armando. Ele olha o papel e faz cara de asco.
ARMANDO: Saiu torto, hen mocinha.
Ele dá as costas sorrindo feito um idiota e Marco olha para a secretária que abaixa a cabeça.
Close no rosto dele com aparente raiva.
CORTA PARA
CENA 9 APTº 403 – QUARTO DE RAÍZA [INT.]
A cena mostra alguém escrevendo num caderno com equações matemáticas.
ARI(O.S): Raíza.
Raíza rabisca o caderno de susto.
RAÍZA: Menina, quer me matar do coração?
ARI: Seu tio convidou Rafaela pra almoçar.
Ari senta ao lado de Raíza na cama. Raíza, até então deitada, se levanta com cara de poucos amigos.
RAÍZA: Será que ela fica o dia todo aqui?
ARI: Melhor você não ter essa dúvida perto do Josué, se não ele vai pensar que você pouco se importa com o João.
As duas se olham.
ARI: Eu sei, ele já pensa isso.
RAÍZA: Tô mais preocupada com o que ouvi. Você sabe que eu não publiquei aquele vídeo em que ela estava aos beijos com o professor, né? Mas se ela sabe disso...
ARI: Não é melhor contar antes que ela descubra?
Josué surge da porta com um sorriso e logo desfaz, encarando as duas moças.
JOSUÉ: Raíza, será que você pode fazer companhia pra Rafaela na sala? Não fica nem bem ficar trancada aqui no quarto com visita aí, né?
RAÍZA: Mas eu não tô...
Josué faz um gesto ignorando-a e sai.
Ari olha para a amiga fazendo-a entender que é melhor ceder.
CORTA PARA
SALA
Rafaela põe a mão dentro da bolsa e tira o celular. Olha o visor e expressa desprezo, mas atende.
RAFAELA (impaciente): O que é?
MARCO(V.O): Você devia ter mais jeito pra falar;(sarcástico) Médicas costumam ser dóceis.
RAFAELA: O que você quer?
MARCO (V.O): Já esqueceu?
RAFAELA: Mas tem que ser agora?
Ao fundo, Raíza espia. Rafaela olha para trás e Raíza se esconde.
RAFAELA (murmura): O seu Josué me convidou pra almoçar.
MARCO(V.O/irônico): Ah e você está com dó de recusar? Você devia se preocupar com seu estágio...Sei de muitas pessoas que começam um estágio e nunca vão além disso...
Rafaela faz cara de desagrado, fecha os olhos numa expressão que faz entender sua vontade de esganar aquele homem.
RAFAELA (voz trincada): Eu já vou...
E desliga o celular quase o esmagando. Ao fundo, Raíza observa desconfiada e Rafaela sai de cena.
CORTA PARA
CENA 10 SHOPPING – ESTACIONAMENTO [EXT./INÍCIO DA TARDE]
Pela câmera de um vídeo, vemos Armando, sorrindo, se aproximar do carro acompanhado por uma bela loira. Ele para e a beija. A câmera faz zoom.
RAÍZA (O.S /séria): O que é isso, Rafaela?
Rafaela, tomada de susto a encara, apavorada.
RAFAELA: Você me seguiu?
Raíza a encara seriamente e sem pestanejar, mantém a mesma postura.
RAÍZA: Eu perguntei o que você tá fazendo.
Rafaela ora olha para o casal, ora para Raíza.
RAFAELA (gagueja): Na-nada. E você? (tom irritado) Me seguiu por quê?
Raíza observa o tal casal.
RAÍZA: Por que filmava aquele casal? O que você tá aprontando, Rafaela?
RAFAELA (nervosa): Não muda de assunto, Raíza. Me seguiu por quê? Quem te falou que eu estaria aqui?
RAÍZA (impaciente): Tem mais alguém envolvido nisso? Rafaela, pelo amor de Deus! O mundo já sabe do seu vídeo com o professor. Você não quer fazer com os outros o que fizeram contigo, né?
RAFAELA (joga os ombros): E quem se importa? Você nem pensou que eu poderia estar ganhando dinheiro com isso (e aponta na direção do casal).
Rafaela faz que vai continuar filmando.
RAÍZA: Desrespeitando os outros?
Rafaela volta a filmar ignorando-a.
RAÍZA (segura seu ombro): ‘Cê’ tá me ouvindo?
Rafaela se volta com raiva.
RAFAELA: Que saco, Raíza! ‘Cê’ tá me atrapalhando!
Raíza faz que vai pegar a câmera e Rafaela recua.
RAÍZA: Me dá a câmera e vamos pra casa antes que alguém pense que você quer bancar a cineasta amadora e sair publicando por aí.
RAFAELA: Para com isso! Mas que saco! Como você acha que as revistas de celebridades sobrevivem, hen? Uns cometem deslizes e outros ganham revelando-os, é assim a vida.
RAÍZA (repete fingindo entender): Uns cometem deslizes e outros ganham revelando-os?
Rafaela, com olhos arregalados, confirma e Raíza tenta arrancar seu celular. As duas travam uma luta.
RAÍZA: Me dá isso aqui agora!
RAFAELA: Isso é meu! Você não tem o direito!
RAÍZA: Você que não tem o direito de invadir a privacidade dos outros!
RAFAELA: Em público não há privacidade!
CORTA PARA
TOYOTA [EXT.]
Cael e Valentina estão dentro do carro estacionado. Valentina retira os imensos óculos escuros e observa uma cena.
POV de Valentina:
Raíza e Rafaela disputam o celular enquanto discutem.
VALENTINA: Mas não é a Raíza?
Cael olha, força a vista como não acreditar no que vê. Ele abre a porta e outras pessoas observam a briga fazendo cara de reprovação.
A cena focaliza Armando e a loira entrando apressados no carro.
VOLTA À CENA DA BRIGA
Rafaela e Raíza estão cara a cara segurando o celular com afinco.
RAFAELA: Isso é problema meu!
E tenta puxar o celular sem sucesso.
RAÍZA: NÃO! Isso virou um problema pra minha vida! Você não se importa com ninguém, nem o que fizeram contigo te abala.
RAFAELA (levanta os ombros): E por que me importaria? (forçando o desprezo) Sou um sucesso na Internet. Quem não gosta de seus quinze minutos de fama?
RAÍZA: EU NÃO GOSTO! E você não perguntou isso quando me expôs pro mundo inteiro como a heroína que você acha que eu sou!
Rafaela emudece, para de medir força com Raíza e esta arranca o celular, joga-o no chão com toda a força fazendo-o quebrar.
Rafaela olha para o chão e para ela, assustada.
RAFAELA: Quem te contou isso? Foi o Dcr, né?
RAÍZA (surpresa): O quê?
CAEL: O que tá havendo aqui?
RAFAELA (disfarça): Olha o que você fez, Raíza! (ela se agacha e pega o que sobrou do aparelho).
Raíza fecha as mãos e demonstra raiva. Valentina chega logo atrás de Cael e ambos a encara.
CAEL: Tudo bem, Raíza? Por que você quebrou o celular dela?
Pelo ponto de vista de Raíza, vemos Rafaela, agachada, a encarando com medo no olhar dela contar o que houve.
RAÍZA: Foi sem querer...
Ela e Rafaela se fitam com ódio.
CORTA PARA
FADE IN
CENA 11 APTº 403 [INT./INÍCIO DA TARDE]
A porta é aberta abruptamente por uma Raíza enfurecida que bate a porta em seguida.
Josué olha pela janela da cozinha com uma toalha no ombro e vai para a porta.
JOSUÉ: Você sabe quanto custa só a porta deste apartamento?
RAÍZA (furiosa): Deve ser caríssimo, pela sua cara, né?
Josué tira a toalha do ombro, indignado.
JOSUÉ: Como é que é?
Raíza, aparentando tentar se acalmar, senta no sofá com as pernas abertas e os cotovelos sobre os joelhos.
RAÍZA: Tio, eu acabei de ter uma briga com a Rafaela. Eu não quero que ela volte pra cá.
Josué se aproxima e a olha com cara de reprovação.
JOSUÉ: E eu posso saber por quê?
RAÍZA: Eu a flagrei filmando um casal e certamente ela irá postar na Internet como fez comigo.
JOSUÉ: E?
RAÍZA: E? (ela levanta e se mostra inquieta) e que agora ela já sabe que eu sei e naquela briga eu quebrei o celular dela.
JOSUÉ: Você sempre agindo sem pensar, né? A garota mal começou o estágio e você já quer que eu a dispense?
RAÍZA: Já pensou que ela pode filmar o João nesse estado e exibir pro mundo?
JOSUÉ: O estado dele não é segredo pra ninguém.
Raíza se cala, põe as mãos na cintura, balança a cabeça afirmativamente e morde os lábios. Ari está escondida na sacada da sala.
RAÍZA: O senhor não se importa, né?
JOSUÉ: Mais do que você imagina. Em vez de se preocupar com o que Rafaela anda fazendo por aí, você devia se preocupar com o João. Trate de pedir desculpas pelo o que fez já que pagar um celular como a que ela tinha acho difícil. Ela é a única pessoa em quem confio para cuidar do João.
Ele sai da sala e a cena mostra a expressão de raiva em Raíza e, ao mesmo tempo, à frente, Ari observando preocupada.
FADE OUT
FADE IN
CENA 12 RUAS DA CIDADE [TARDE]
A cena focaliza a placa de um carro preto parado de costas que reconhecemos ser de Marco. Logo a cena se desloca lentamente para a esquerda e vemos Rafaela, com a bolsa de um lado e sacola de outro, andando apressada enquanto olha o edifício ao lado.
A janela do carro é aberta e no momento em que Rafaela passa, a mão de alguém de dentro do veículo segura seu braço.
RAFAELA (susto/tenta se desvencilhar): Ai que isso! (ela logo reconhece o sujeito) Quer me matar de susto?
A cena vai se deslocando lentamente para a janela.
MARCO (sorrisinho sacana): Conseguiu o que eu pedi? Ou não pôde resistir aos quitutes de Bruno e Josué?
Rafaela o encara e ele também enquanto exibe o sorriso sarcástico. Ela lhe entrega a sacola e ele pega sem entender.
Marco abre a sacola e pega o que restou do celular dela.
MARCO: Que brincadeira é essa?
RAFAELA: Pergunte a Raíza; Ela que quebrou na tentativa de evitar que eu filmasse seu mais novo inimigo.
Marco a fita com uma expressão de quem não gostou.
RAFAELA: Quero saber quem vai me pagar o prejuízo...
MARCO: Eu devia fazer você filmar a Faixa de Gaza.
Rafaela revira os olhos. Marco põe a mão por dentro do paletó e retira sua carteira. Rafaela espicha os olhos. Marco lança mão de um cheque e uma caneta. Rafaela o observa assinar o cheque.
MARCO (a entrega o cheque): Vê se dessa vez você não erre.
RAFAELA (pega e visualiza): Eu não posso prever os passos de Raíza...
MARCO: Mas devia ser mais forte que ela...
Marco liga o carro.
MARCO: Soube que ele estará no supermercado Império hoje, no final da tarde...(a olha de lado de maneira esnobe para o cheque em suas mãos) Aproveita e compra um com GPS.
Marco parte e Rafaela olha seu cheque. Foco na assinatura de Marco.
A tela se fecha num baque.
FADE IN
CENA 13 RUAS DA CIDADE [FIM DE TARDE]

VISTA DE CIMA
CLOSE EM UMA PLACA AMARELA NA VERTICAL COM LETRAS AZUIS: SUPERMERCADOS IMPÉRIO

A cena se desloca lentamente para o lado e desce.
Ao longe, reconhecemos Ari e Raíza, esta uniformizada andando em passos rápidos e com cara de poucos amigos. Ouvimos suas conversas enquanto a cena se aproxima delas.
RAÍZA: Você viu só como ele é, né? O mundo pode tá desabando, mas o João é o único que importa.
ARI: Se eu não conhecesse essa história diria que você tá com ciúmes...
RAÍZA (indignada): O quê?
ARI: Nem todo mundo sabe o que se passa lá em casa e se mostrar que é a preterida não te ajuda muito.
RAÍZA: O meu tio é contra mim (ela movimenta as mãos em direção ao peito)A Rafaela é contra mim e até o Dcr também!
ARI: Ele tá doente, o pai dele que avisou. Nem ao trabalho ele foi. Tem certeza que é uma boa hora pra tirar satisfações dele?
RAÍZA: E será que ele tá doente mesmo? (olhar desafiador) A essa hora a Rafaela já bateu pra ele e agora ele deve tá ensaiando uma boa resposta.
Ari para e Raíza anda mais a frente.
ARI (série e magoada): Ele não é como o João.
Raíza a vê entrar no terreno do mercado e vai atrás.
CORTA PARA
SUPERMERCADO [INT.]
O local está cheio, filas grandes e ouvimos o locutor:
LOCUTOR: Agora você vai levar coxinha de frango a 1,99! É só passar aqui no setor do açougue e colar sua etiqueta.
De costas, vemos Ari atravessar os caixas e logo atrás, Raíza apressa o passo até alcançá-la.
RAÍZA: Ari! Ari! Eu também não queria pensar assim, mas...
Ari se volta e respira fundo.
ARI: Sabe o que é? O João já cometeu vários deslizes, mas você sempre dava uma chance, por que não queria aceitar o que estava claro; O Dcr comete UM e você já quer crucificá-lo.
RAÍZA: Acontece que não foi UM deslize; Foi O deslize que quase custou minha dignidade e a minha vida. Aqueles caras quase me matam queimada por causa de um vídeo.
ARI: Não muito diferente do que o seu primo tem feito, não?
Raíza se cala.
ARI (séria, mostra-se pensativa): É difícil acreditar que alguém da família faria isso com a gente. A gente fica procurando justificativas e nunca acha.
Raíza abaixa a cabeça mostrando ter lembrado que Ari não tem boa relação com a mãe que chegou a interná-la e sabendo que quem matou o pai dela foi a mãe de Ari.
RAÍZA (passa a mão no rosto): Ai Ari...’Cê’ tem razão eu...(respira cansada) Eu devia dar mais créditos a meus amigos, já que pro João...
ARI: Eu tenho certeza que o Dcr terá uma boa explicação.
Raíza assente e ao desviar seu olhar, algo chama sua atenção.
RAÍZA: E pelo visto será uma dupla explicação.
Raíza dá as costas e Ari, sem entender, vai atrás.
CORTA PARA
CENA 14 SUPERMERCADOS – CORREDORES [INT.]
Rafaela espreita pelo corredor, disfarça e se põe atrás de uma caixa repleta de latas. Pelo seu ponto de vista, vemos Armando na seção de vinhos, acompanhado pela bela loira.
A cena volta em Rafaela que mira, disfarçadamente o celular naquela direção.

RAFAELA: Fazendo compras para a amante, hen...

A cena mostra o tal casal de dentro da câmera sendo filmados, mas em nenhum momento em situação comprometedora.

Close no rosto chateado de Rafaela.

RAFAELA: Saco!

CORTA PARA

A mão de um homem apalpa um tomate e outra mão, dessa vez feminina pega um estendendo-o. A cena revela Dcr que pega e olha de soslaio. Ele sorri sem graça.

DCR (segurando um saco plástico com tomates): Raíza!...Ari!...Os tomates hoje não estão tão bons; Tem que escolher a dedo.

RAÍZA: As desculpas também.

Dcr encara as duas com cara de juradas e torna a colocar o tomate no balcão.

DCR (fazendo graça): Eu sei o que vão dizer, mas antes que digam qualquer coisa eu tenho algo a dizer.

ARI: Diga.

DCR (justificando com toque de humor): Eu realmente estava doente, mas melhorei e me vi forçado a fazer sacolão...

RAÍZA: Também se viu forçado a não me dizer que Rafaela era a garota do blog do Dirce me disse?

Dcr emudece por instantes, fita Ari com olhar complacente e torna a encarar Raíza.

DCR: Como assim, Raíza?

Raíza olha para Ari e balança a cabeça afirmativamente.

RAÍZA: Parece que a Rafaela não contou...

DCR: Olha... Eu não sei... O que está acontecendo, mas...

RAÍZA: Você sabia de tudo e preferiu ficar do lado dela.

DCR: Eu não queria que tivesse sido assim, Raíza. Eu pedi pra ela parar com aquilo, mas ela não me ouvia...

RAÍZA (gesto com a mão no peito): Mas nem me contou! Se foi amigo dela a ponto de não dedurá-la, não foi meu amigo pra me contar a verdade.

Notamos, em meio a discussão, que Ari está com olhar distante como a prestar atenção em outra coisa.

DCR: Eu não queria ser o fofoqueiro! (algumas pessoas observam atentas) Contar pra você seria o mesmo que traí-la...Era ela quem tinha que te contar!

RAÍZA: Eu não ia dizer que você me contou! Eu não sou traíra!

DCR: Ela ia saber. E mesmo que não soubesse, desconfiaria.

RAÍZA: Seu medo foi tanto em perder a amizade dela que nem se tocou que poderia perder a minha. (Dcr se mostra desconcertado) Eu estaria morta a essa hora por causa dos delírios da sua amiga e quem se importaria? Ela ia continuar filmando os outros, inventando histórias e eu estaria a sete palmos...Eu nem...

ARI: Gente, gente! ‘cês’ estão sentindo isso?

RAÍZA (nervosa): Sentindo o quê, menina?

ARI: O chão está tremendo...

DCR (nervoso): Esse chão treme todo santo dia por causa do estacionamento aqui embaixo. Fica nesse cai e não cai.
A imagem para no rosto de Raíza aflita que imediatamente encara Ari com a mesma expressão.
RAÍZA (voz quase não sai): Vamos sair daqui...
DCR: Quê?
Os tomates começam a cair e observa-se que os demais produtos também. Algumas pessoas param e se olham com desconfiança e medo. Os produtos começam a cair cada vez mais.
RAÍZA: Vamos sair daqui agora...
Dcr põe os tomates de volta ao balcão olhando para a garota.
DCR: É melhor a gente ir mesmo; O tomate aqui tá pela hora da morte.
VOZ MASCULINA: CUIDADO!
= = Music On – Suspense = =
Imediatamente, Raíza e Ari olham para o teto. [efeito câmera lenta] Um pedaço de ferro se desprende.
Raíza agarra Dcr pelos ombros, dá um empurrão e os dois caem no chão. O ferro cai em seguida sem atingir as pessoas. [fim do efeito]

Começa um tumulto, pessoas com expressão de pavor, produtos sendo pisoteados. Gritos. Raíza e Dcr se levantam e logo ouvimos um estrondo. Algumas pessoas caem, incluindo Raíza e Dcr. Ari se apoia na bancada com expressão de medo. Inicia-se uma correria desenfreada, as pessoas largam suas compras, vão direto pra saída e acontece um congestionamento.

DCR: E AGORA? SE A GENTE NÃO MORRER SOTERRADO, MORREREMOS PISOTEADOS!

Raíza segura no braço dele e no de Ari e aperta o passo. Close na mão de Dcr que puxa Raíza.

DCR: Eu não quero morrer brigado com você.

RAÍZA: Não morreremos!...

Naquele tumulto, Raíza se separa dos amigos e eles correm de mãos dadas para a saída.

CORTA PARA

Rafaela, desnorteada, corre apressada enquanto fala ao celular. As pessoas esbarram violentamente uns aos outros e alguns caem sendo pisoteados.

RAFAELA (ao celular): EU NÃO QUERO MORRER AQUI!

Rafaela vai para a transversal do corredor e um carrinho de compras bate em sua barriga empurrando-a contra as prateleiras de garrafas. Ouve-se seu gemido de dor. As garrafas tombam e a mão de alguém evita que uma delas de vinho caia na cabeça de Rafaela. É Raíza.

RAÍZA: VAMOS SAIR DAQUI, RÁPIDO!

Raíza puxa o braço de Rafaela e as duas iniciam uma luta para sair dali. Pedaços do teto caem enquanto há a correria.
Rafaela olha insistentemente para o visor do celular aceso.

CORTA PARA

CENA 15 HDM CONSTRUTORA [INT.]

É mostrado a tela de um computador com imagens de satélites e um ponto verde que se movimenta rapidamente. A câmera se desloca para quem está olhando a tela. Marco olha com ar de preocupado e mantém o celular no ouvido.

Ouvimos vozes vindo do celular. Muitos gritos, desespero total, som de coisas caindo.

RAFAELA (V.O/para Raíza): NÃO VAI DAR TEMPO, RAÍZA!

RAÍZA (V.O): CALA ESSA BOCA!

Ouvimos um estrondo muito forte e gritos das garotas. Em seguida, sinal agudo do celular.
A câmera se move para a tela do computador e o sinal verde se apaga.
Close em Marco paralisado.

A tela se fecha num baque.

FADE IN

CENA 16 SUPERMERCADOS IMPÉRIO [EXT.]
Ouvimos som de sirene de ambulância.
Há muita gente em volta do local, polícia cercando com fita e vítimas sendo atendidas.
A cena mostra Bruno, Ari, Dcr, Daniel e Cael olhando desconsolados para os médicos que vem puxando uma maca, mas o corpo deles esconde uma das vítimas.

CAEL: Ela vai ficar bem, não é?

Raíza surge atrás deles com os braços cruzados e expressão de lamentação.

RAÍZA: Se ela tivesse largado o celular por um instante ela não teria caído de mau jeito quando pulamos a rampa.

ARI: Em pensar que você tinha...

RAÍZA (disfarça): Dê licença pra eles.

Ari se afasta para deixar passar a maca onde está Rafaela. Enquanto vai passando ela, acordada, encara Raíza seriamente.
Bruno toca os ombros de Raíza e esta sorri. Os dois se abraçam fortemente.

BRUNO: Que susto você me deu, filha.

Dcr olha para Ari e a envolve num abraço.

RAÍZA: Só eu pra fazer o senhor vir correndo do trabalho, né?

Eles riem e assim que ele se afasta, Cael a abraça calorosamente sem pronunciar uma palavra.
Os dois se fitam e ele faz que dirá algo, mas é interrompido.

RAÍZA: Vocês são as únicas pessoas que se importam comigo.

Ela olha para Dcr e logo desvia o olhar.

Enquanto sorriem e conversam, a cena se afasta e Marco aparece de costas para a câmera observando adiante. Ele se vira, faz uma expressão de estranho alívio e sai.

FADE OUT

FADE IN

CENA 17 HOSPITAL CENTRAL-FACHADA [NOITE]
Ouvimos sons de sirene de ambulância.

Corta para o QUARTO [INT.]

A cena mostra Raíza de costas ao lado da cama de Rafaela e Dcr de frente para Raíza. A câmera vai se movendo lentamente envolta deles até focar em Rafaela com esparadrapo na testa.

RAFAELA: Eu já disse! Eu não trabalho pra ninguém especificamente. (ênfase)EU consigo o furo, (ênfase)EU tento vender para alguma revista.

RAÍZA: E nunca passou pela sua cabeça vender a minha imagem?

Rafaela fita Dcr com ar de reprovação.

RAFAELA: Eu já tinha parado com isso. Não tinha nada que falar.

DCR: Eu não falei nada e eu nunca concordei com isso, você sabe.

RAÍZA: Mas também nunca me contou, né? Enquanto eu estava com cara de imbecil achando que estranhos queriam acabar comigo, vocês, meus amigos, confabulavam contra mim.

DCR: Eu nunca confabulei com ninguém e também não era eu quem devia te contar isso. Era ela!

RAFAELA: AI CHEGA! Você fica se fazendo de vítima, Raíza, mas se não fosse você eu não estaria aqui.

DCR: Que absurdo!

RAFAELA: Você fez aquele escândalo à tarde. Se não fosse por isso eu não teria ido ao mercado.

DCR: Rafaela, ela salvou a nossa vida!

Rafaela olha Raíza, esnobe.

RAFAELA: Tá esperando o meu agradecimento? Hum?

Raíza contém a raiva.

RAÍZA: Tenho mais o que fazer.

Ela dá as costas e sai do quarto.

DCR: Raíza, espera!

Ele a segue e vai para o CORREDOR.

Raíza vem de frente e Dcr logo atrás.

DCR: Peraí, Raíza!

Raíza para e se volta com nítida cara de desolada. Os dois se fitam e ele se mostra sem graça.

DCR: Obrigado.

RAÍZA: Pelo o quê?

DCR: Por ter me salvado. Mesmo na hora da discussão você me ajudou.

Raíza faz um sinal com a cabeça assentindo e dá as costas.

Close em Dcr.

CORTA PARA

CENA 18 HOSPITAL CENTRAL – RECEPÇÃO [INT./NOITE]

De costas, vemos Marco no balcão falando alguma coisa com a atendente. Assim que ele vira, dá com Cael, mãos nos bolsos da calça e expressão de incrédulo.

CAEL: Você não veio por causa da...

MARCO: Armando Gouveia. Ele foi uma das vítimas fatais do desabamento.

Cael não entende.

MARCO: Um dos sócios da HDM. (pausa) E as suas amigas? Como vão?

CAEL: Não se esforce em parecer educado.

Ele faz que vai sair dali quando Raíza surge com as mãos nos bolsos e cabeça baixa.

CAEL: Raíza!

Ela para, olha para ele e para Marco.

MARCO (sarcástico): Tudo bem?

Raíza bufa e sai apressada. Close no rosto preocupado de Cael que olha para trás e encara Marco com um sorrisinho de canto.

FADE OUT

FADE IN

CENA 19 HOSPITAL CENTRAL [EXT.]

Raíza anda apressada até ao portão e Ari vem atrás correndo.

ARI: Raíza, espera!

Raíza se volta com ar de cansada.

ARI: Vai sair assim? Espera que a gente vai junto.

Raíza cruza os braços.

RAÍZA: Não aguento mais ficar aqui fazendo papel de idiota.

Ela faz que dará as costas.

ARI: Você sabia que a Rafaela estaria no mercado, né? (Raíza para) Por que não disse quando eu perguntei?

Raíza se volta, faz um suspense e a encara.

RAÍZA (mente): Talvez por que eu não queria escutar que não posso salvar a vida de todo mundo. (arredia/abre os braços) E você sempre está certa, não? Quem sabe não era pra ela estar sendo velada agora?

Ela dá as costas e vai embora. Ari observa desconfiada.

CORTA PARA

CENA 20 HOSPITAL CENTRAL - QUARTO DE RAFAELA [INT.]

A cena focaliza Rafaela na cama, pensativa. Corta para a maçaneta da porta que é aberta e alguém de terno entra.

Rafaela dá uma olhada e revira os olhos, chateada. A cena revela Marco que anda com as mãos voltadas na direção da cama.

MARCO: Duas tentativas falhas num único dia (ele vai contornando a cama), uma garota no hospital e nosso alvo morto (ele para próximo dela) O que tem a me dizer?

RAFAELA (irônica): Ainda bem que não foi nossa culpa?

Ele avança e apoia as mãos na cama com força assustando-a.

MARCO (forçando a calma): Você não banca a irônica comigo, por que do mesmo jeito que te coloquei em outra universidade eu te tiro de lá!

RAFAELA: Eu não posso fazer nada se a Raíza se meteu ou se o mercado desabou. Não sou vidente, poxa!

MARCO (ele se afasta): Pois me parece que sua amiguinha é; Ela sempre está onde não devia.

RAFAELA (pensando alto): Como quando te salvou daquela vez...

Ele lhe dá uma olhada.

MARCO: Acho que vou sentir muito pelo fim prematuro de seu ano letivo...

RAFAELA: Eu não pedi que você fizesse isso por mim...

MARCO (ele vai saindo): Você que sabe...

Rafaela se mostra preocupada.

RAFAELA: Olha, eu quase morri nisso, viu? E você nem pra perguntar como eu tô!

Marco abre a porta e a olha de lado.

MARCO: Você está bem...Está viva.

Ele sai deixando Rafaela contendo a raiva e a angústia de perder a bolsa.

FADE OUT

FADE IN

CENA 21 HOSPITAL CENTRAL – CORREDOR

Valentina, de óculos escuros e tubinho cor rosa queimado olha para ambos os lados procurando alguém. Marco surge na frente da câmera e os dois se encontram.

VALENTINA: Marco, você viu o Cael por aí?

A câmera vai virando e fica entre os dois. Marco abre um lado do paletó e, em seguida, abre outro os deixando abertos.

MARCO (puro sarcasmo): Hmmm...Não está aqui.

Ele sorri, passa por ela esbarrando em seu ombro. Valentina resmunga e é mostrado o fundo, onde, rente a uma porta, Dcr observa estranhamente tudo.

FADE OUT

FADE IN

CENA 22 ED. CIRANDA DE PEDRA [EXT./NOITE]

= = MUSIC ON = =

A câmera focaliza a fachada, move-se mostrando o muro até chegar a Raíza, sentada na calçada, cabisbaixa, com as mãos sobre os joelhos. Ouvimos o som de um carro parando perto dela e em seguida, som de porta abrindo e fechando. Os passos se aproximam. Raíza levanta a cabeça e força um sorriso.

Cael se senta ao seu lado meio sem jeito.

CAEL (disfarça): Tudo bem?

RAÍZA: Vai se indo.

CAEL: Lembro de quando você sentou ao meu lado na calçada em frente ao que sobrou da L.A House. Você foi me dar apoio. Agora sou eu que vim ficar ao seu lado (a olha carinhoso).
RAÍZA: É...E eu lembro do que você disse. “De repente, descubro que ninguém era o que eu pensava ser...” ( o encara, sentida).
CAEL: Eu sei que é difícil fazer o bem a alguém que talvez nunca reconheça isso. Mas a Rafaela é sua amiga há muito tempo.
RAÍZA (arredia): O que te contaram? Ela já publicou no blog?
CAEL: O Dcr me contou (Raíza revira os olhos) Mas ele só contou, porque estava preocupado em perder sua amizade. Ele gosta muito de você.
Raíza lhe dá uma olhada.
RAÍZA: Ele mandou você aqui?
CAEL: Quase implorou.
Ele ri e Raíza não resiste; Ri também.
RAÍZA: Bobo.
CAEL: Você está bem mesmo? Hoje foi um dia muito tenso.
RAÍZA: Vou ficar bem...
CAEL: O que ainda te incomoda?
Raíza olha para o outro lado, hesita.
RAÍZA: Muita gente morreu naquele acidente e eu fiquei preocupada em ajudar meus amigos. (tom de lamentação) Eu poderia ter morrido...Eu poderia não ter conseguido ajudar e eu agora me pergunto: Será que era pra eu estar lá mesmo? Será que eu não estava na hora e no lugar errado fazendo a coisa errada? Quem sou eu pra interferir no futuro de alguém?
Cael toca suas mãos nos joelhos.
CAEL: Não diga isso! Como pode pensar que você fez a coisa errada? Só por que a Rafaela aparentemente queria morrer, não quer dizer que você fez a coisa errada.
RAÍZA: Mas quem sou eu pra interferir no futuro de alguém?
CAEL: Tenho certeza de que se você pudesse prevê-lo faria tudo igual (ele sorri).
Raíza o encara, engole a saliva expressando incerteza.
FUSÃO PARA
APTº 215 [INT.]
A cena abre no porta-retrato em cima da cômoda onde estão Ari, Raíza, Rafaela e Dcr no tempo do colegial.
DCR (O.S): O senhor tinha razão...(A mão de alguém pega o porta-retrato e vemos que se trata de Dcr) O mercado desabou...
A câmera move-se e mostra Daniel de frente para ele.
DANIEL: E Rafaela não morreu...
DCR: Porque Raíza estava lá.
A câmera fica entre os dois que se encaram e sorriem.
FUSÃO PARA
APTº 403 [INT.]
A cena abre nas costas de Josué, sentado na cama diante de João Batista. A cena vai se aproximando.
JOÃO: Me surpreende que ela não tenha salvado todos do mercado.
Josué o encara achando estranho sua observação.
JOÃO: Isso não foi uma crítica.
JOSUÉ: Devia ser; Em meio a tanta gente ela conseguiu salvar os amigos. Sabe se Deus em que grupo você estaria agora se estivesse no mercado.
JOÃO (falsa compreensão): A Raíza tentou me salvar, tio.
Josué apenas o fita com aquela cara de quem finge assentir.
A câmera revela o fundo, perto da porta, e Raíza está parada com uma expressão insegura, séria, dando a entender que escutou tudo.
FADE TO BLACK
== MUSIC OFF ==
= FIM DO EPISÓDIO =


Série escrita por:
Cristina Ravela
Elenco:
Raíza (Maria Flor)
João Batista (Caio Blat)
Bruno (Juan Alba)
Josué (Caco Ciocler)
Cael (Michael Rosenbaum)
Marco (Pierre Kiwitt)
Valentina (Alinne Moraes)
Rafaela (Fernanda Vasconcellos)
Ari (Nathália Dill)
Dcr (Aaron Ashmore)
Cipriano (Thiago Rodrigues)

Participação Especial:

Armando (José Rubens Chachá)
Silas (Rodrigo Veronese)
Daniel (Zé Carlos Machado)

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