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30:00 min    


WEBTVPLAY APRESENTA
RAÍZA


Série de
Cristina Ravela

Episódio 16 de 20




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FADE IN
CENA 1   APTº 403 – SALA  [INT./MANHÃ]
Close na porta.
Ouvimos a chave girar mais que roleta de cassino. Quando abre, Josué, com um saco de pães na mão, pára um pouco, faz uma expressão de cansaço. Sua cara entorpecente não nega sua condição; Não dormiu bem.
Bruno, sentado no sofá, espia a cena pelo lado do jornal que lê.
BRUNO: Pensei que fosse arrancar o trinco da porta...
Josué não entende.
JOSUÉ: Hã?
Bruno fecha o jornal e põe do seu lado. Aspira e depois faz cara de desagrado.
BRUNO: Cheiro de cerveja...Tá sentindo?
Josué joga a chave de qualquer jeito no sofá, mas cai no chão. Coça a testa com o polegar e faz expressão de dor de cabeça.
JOSUÉ: Ahn?...Ah, deve ser por que passei perto de um boteco...Aquele boteco, ‘cê’ sabe... (Ele explica sempre com a mania de achar que todos sabem do que ele falava) O cheiro deve ter impregnado na minha roupa...
RAÍZA: E como, hein! (ela sai da cozinha) Parece até que entrou no teu corpo...
Josué nota seu irmão a olhá-lo meio de canto. E Raíza levanta as sobrancelhas como a esperá-lo dizer algo. Ele entende o que aqueles comentários insinuam.
JOSUÉ: Eu não bebo, se é isso que estão pensando.
Entrega o saco de pães para Raíza e vai direto pro banheiro.
RAÍZA (murmura): Pai, o senhor num acha que ele anda meio estranho? Tipo, tem chegado cansado e de mau humor...Mal consegue preparar a pauta da próxima aula...
BRUNO: Eu não sei não (ele se levanta) Mas vai ver é muito trabalho. Seu tio sempre foi mais ponderado que eu.
Bruno vai à cozinha e deixa a filha pensativa.
RAÍZA (em OFF): Essas não parecem ser atitudes de um cara ponderado...
JOÃO (O.S): Já não basta você já ter me atacado, quer atacar o nosso tio também?
A garota leva um susto com a aproximidade dele.
RAÍZA: Do que você tá falando, garoto?
JOÃO: Você sabe muito bem do que eu tô falando. Ele deve tá assim, estranho como ‘tu’ falou, de decepção. Não deve ser nada fácil ter uma sobrinha feito você.
Bruno, à espreita da cozinha, escuta, pensativo. Mas não perplexo...
CORTA PARA
CENA 2   ED. CIRANDA DE PEDRA  [EXT./MANHÃ]
Raíza e Ari chegam no térreo em passos rápidos. Correm até o portão e dão de cara com Dcr.
DCR: Oi gente! Animadas pro passeio? A Rafaela deve tá chegando.
RAÍZA (tom irônico): Animadíssimas...
Dcr e Ari cruzam o olhar.
DCR: Aconteceu alguma coisa? Vocês não vão mais?
ARI: Não, Dc. É que ela não tá nos seus melhores dias.
DCR (entende errado): Ah...Sei.(pausa) Bom, mas...Vamos?
Os três caminham pela calçada, Dcr e Ari cruzam o olhar novamente.
DCR: E o João? Não veio dessa vez?
Ari faz aquela cara de ‘pra que perguntar isso...?’.
RAÍZA: É bom mesmo que ele não tenha vindo...Já amanheceu de olho virado comigo.
DCR: Vão ficar assim até quando? (ele faz uma breve pausa quando Ari faz um olhar pra ele não insistir) Não pense que tô querendo me intrometer, mas...(ele olha pra frente) Meu Deus do Céu! Mas o que é aquilo?
As duas olham pra direção que Dcr mira, de olhos arregalados.
Adiante, Rafaela vem em companhia de um cara visualmente extravagante. Traja camisa branca, calça preta e de couro, bem justa, um par de coturnos batido e um lenço azul, extremamente azul, enrolado ao pescoço. À medida que se aproximam, a imagem assusta mais o Dcr e encanta Ari, que não desgruda os olhos. O cabelo do rapaz é repicado com uma franja longa caído sobre os grandes e intensos olhos verde-água. Claríssimos, contrastava com sua pele pálida e em volta deles, um risco azul delineava-os. Mira nos negros olhos acesos de Raíza.
RAFAELA: Oi gente! Deixa eu apresentar: Esse é Johnny Land.
Raíza volta a cabeça um pouco pra trás ao ouvir aquele nome. O rapaz usa um piercing na sobrancelha.
RAÍZA: Johnny Land?
Os dois trocam olhares como se houvesse ali uma certa cumplicidade. Cumprimentam com as mãos e, assim que o toca, Raíza tem uma visão.
[VISÃO]
O ambiente é agitado. Ari está com umas fichas na mão e ao seu lado, Johnny Land entregando-a uma bebida.
[FIM DA VISÃO]
 Ela larga a mão e se esquiva. Os dois se fitam.


1X16 AZAR

FADE IN
CENA 3   RUAS DA CIDADE  [MANHÃ]
Rafaela, Dcr, Ari, Raíza e Johnny caminham pela calçada. Johnny está com as mãos dentro dos bolsos do sobretudo, ora abaixa a cabeça, ora se ergue.
ARI: E onde foi que vocês se conheceram?
RAFAELA: Na Internet. Ele é vocalista da banda Blueberry.
Raíza olha para o rapaz que mira nela.
RAÍZA: Amigo virtual?...Hum...
Tanto Ari quanto Dcr se entreolham.
RAFAELA: Não liga não, Johnny. A Raíza tem problemas com amigos virtuais...
Dcr se mostra indiferente à banda do rapaz e acaba trocando as bolas.
DCR: “BlueDead”, né? E que música vocês cantam? Pra vê se eu lembro.
Rafaela lhe dá uma olhada e, em seguida, ri timidamente.
RAFAELA: Dc! É BlueBerry. Berry, entendeu?
Dcr olha para as garotas com cara de bobo, mas Johnny não dá importância. Ri daquela troca de nomes.
JOHNNY (sotaque americano): BlueDead não seria um nome ruim...E respondendo a sua pergunta, uma das músicas mais tocadas é O dia em que tentei viver.
Ari não disfarça o encantamento daqueles olhos verdes - água reluzente.
ARI: E conseguiu, ‘né’?
Johnny franze as sobrancelhas sem entender:
JOHNNY: Consegui o quê?
ARI: Viver. Você tentou e...( ela o olha de cima em baixo quase que suspirando)conseguiu viver.
Rafaela balança a cabeça negativamente e olha para Dcr que estranhamente se irrita com a cena. Mas controla-se.
ARI: Você não gostaria de nos mostrar sua música, Johnny?
O rapaz abre um sorrisinho e levemente alisa o lábio inferior com o dente.
CORTA PARA
CENA 4  ED. CIRANDA DE PEDRA  [EXT.]
APT º 403 – COZINHA  [INT.]
Bruno, sentado, espia pelo portal da cozinha Josué entrar no banheiro novamente. Vira-se e observa seu sobrinho limpar a mesa de farelo de pão.
João tem o semblante calmo, totalmente diferente da revolta logo cedo quando discutiu com a prima. É como se nada tivesse acontecido.
BRUNO: O que você achou do seu tio hoje?
João faz um tremelique.
JOÃO: Aaai! Que susto!...Faz um par de horas que ninguém fala nada nessa casa.
Depois, continua a limpar a mesa.
JOÃO (cont./tom de desdém): Meu tio? Tenho a impressão dele ter bebido...Não sei. Mas se ele diz que não...
BRUNO: Então por que não gostou do comentário da Raíza?
Ele vira para o tio, meio surpreso.
JOÃO: Ela não fez um comentário; Ela insinuou.
BRUNO: E que mal há nisso? Se ela insinuou ou não é por que se preocupa com o tio.
João pára de limpar a mesa e apóia-se nela com as mãos.
JOÃO: Ela deve achar que todos têm fraqueza por bebida que nem ela.
BRUNO: Eu queria muito que vocês se dessem bem. Eu e seu tio não vamos viver para sempre e eu não queria deixar vocês brigados.
João larga a toalha e senta ao seu lado.
JOÃO (falsa preocupação): Mas eu também não quero isso! O que depender de mim ficaremos unidos para sempre. Mas é ela que faz as acusações, aponta o dedo pra mim. O senhor tá de prova!
Bruno toca seu ombro e sorri sem muita fé no que ouve.
BRUNO: Se você ao menos tentasse compreendê-la...Ela tem passado por cada coisa...
João se levanta, dá as costas pondo as mãos na cintura.
JOÃO: Eu que o diga. Por causa ‘dessas coisas’ eu quase morri...
Bruno mostra-se irritado com o mesmo comentário de sempre.
BRUNO: Se vai começar com isso é melhor...
JOÃO: Não tá mais aqui quem falou!
BRUNO:...Nem louca ela faria isso...Nem...
João gira os olhos, pensativo e estranho quanto àquela afirmação.
CORTA PARA
CENA 5   ED. INGLESA  [EXT./MANHÃ]
Johnny dá um passo a frente e aponta para o prédio.
JOHNNY: É aqui que estou hospedado. No apartamento de um amigo.
O edifício de cor branca e detalhes vermelhos chamam atenção pela beleza. Seis andares, sacadas com grades pretas, janelas de vidro.
Eles entram.
Há interfone na entrada e até um elevador. As pessoas passam olhando meio enviesado para Johnny, mas como Ari e Raíza podem observar, ele não dá importância. Toda vez que alguém passa ele olha reto, firme e de cabeça erguida.
RAÍZA (em OFF): Não sei como ele consegue...Será que eu conseguiria fazer isso com o João?
Eles entram no elevador, chique, com um espelho atrás. Johnny aperta o botão ‘3’.
TERCEIRO ANDAR...
A porta se abre, eles saem e caminham pelo corredor. Pisos caramelo com listras brancas, balde de lixo em cada uma das três portas, luminária no teto.
RAÍZA: Nossa...Isso aqui perto de onde moro é um palácio.
JOHNNY: Você tem bom gosto, talvez eu não. Isso tudo é muito brega.
Raíza não gosta do comentário e se cala.
Ele põe a mão no bolso do sobretudo, tira a chave e coloca na fechadura da porta à esquerda.
Dcr e Raíza olham pra cima: APTº 30.
Raíza pisa naquele piso como se fosse um território inimigo. É um ambiente totalmente em preto e branco. Sofá preto com almofadas brancas. Lajotas grandes e em preto e branco. E até alguns objetos sobre os móveis tem a mesma tonalidade.
JOHNNY: Vamos pro quarto!
Dcr se espanta e Johnny levanta as sobrancelhas num ar sapeca.
JOHNNY (cont.): Conhecer meus cd’s...
CORTA PARA
CENA 6  APTº 30 – QUARTO  [INT./MANHÃ]
Há fotos espalhadas por tudo quanto é canto. Fotos de bandas de rock das mais pesadas que deixam Dcr assustado. Sobre a cama e um móvel há cd’s jogados, mala aberta, mas não desfeita. Johnny não demonstra incômodo.
Dcr apanha um livro cuja capa, vermelha tem um título branco e vermelho em degradê. Como se tivesse escorrido sangue.
DCR (lê): ‘À sangue frio’. (ele olha para as fotos na parede) É desse tipo de livro que você curte...
JOHNNY: Nem sempre as coisas são os que parecem.
Dcr torna a olhar para as fotos na parede com cantores magros até a morte, incluindo Johnny e sua banda.
DCR: Nem imagino...
RAFAELA: Ai Johnny, não liga não. O Dc prefere romances policiais sem muito derramamento de sangue.
JOHNNY (debocha): É sensível...Entendo.
Dcr põe o livro de volta ao móvel, aborrecido.
Ari consegue ficar bem perto do cara, próximo da janela.
ARI: Onde você formou sua banda? Aliás, qual o estilo de música?
Dcr, com os olhos vidrados naquela imagem na parede onde era possível ver com mais nitidez, Johnny, no auge de sua magreza respondeu a Ari.
DCR: Sertanejo! (resmunga) Com esse visual o que mais seria?...
Rafaela cutuca o amigo, mas Dcr já tinha falado mesmo.
Johnny não se abala.
JOHNNY: Rock Alternativo. (Ele apanha o cd com capa igual ao do pôster e o coloca pra tocar) A banda surgiu na Califórnia.
O som era forte e agradável de se ouvir. O que dizia a letra Ari não prestou atenção.
Ari apanha o cd e olha atrás.
ARI: “O dia em que eu tentei viver”...Gostei dessa música.
JOHNNY (olhar malicioso): Depois eu canto pra você...
ARI (sorri sem graça): Sabe, quando eu era pequena lembro que o pastor da igreja que minha mãe frequentava abominava esse estilo de música. Chegou a dizer que rock é coisa do demo...
Johnny levanta a cabeça e desvia o olhar, por um instante. Balança a cabeça negativamente.
JOHNNY: Não me fale de pastor. Me faz lembrar de meu tio Jack...
ARI: Ele tem problemas com você?
JONNHY: Não. Ele tem problemas com ele mesmo. Você tinha que ver como ele sacode aquela mão quando está palestrando.
Ari solta uma gargalhada e logo disfarça.
ARI: É tão absurdo assim?
JOHNNY: É. Juro que se eu soubesse rezar eu até rezaria por ele.
Ari acha graça de novo do seu humor sarcástico, enquanto Dcr e Raíza trocam olhares quanto àquela frase.
Dcr visualiza a capa do cd dele.
DCR: As coisas não tem sido fáceis...Hum.
RAFAELA: O que é dessa vez, Dc?
Dcr vira o cd.
DCR: É o título dessa música aqui.
Raíza sorri.
RAÍZA: É, está claro que em suas músicas você desabafa.
Johnny coloca a mão dentro do sobretudo, apanha um cigarro.
JOHNNY: Ah! Você tá prestando atenção? (sarcasmo / Acende o cigarro) Pensei que tivesse mais atenta e horrorizada com as minhas fotos...
Os dois se encaram. Clima constrangedor.
JOHNNY (Antes de levar o cigarro à boca): Se incomodam?
RAÍZA: Não...Q...Quer dizer, a casa é do seu amigo ‘né’?
A fumaça faz Raíza abanar com a mão.
RAÍZA: Cigarro mata aos poucos.
Johnny traga e joga o ar pra fora da janela. Volta-se.
JOHNNY: Não tenho pressa de morrer...
Ari se espanta com a resposta do cara e, ao mesmo tempo, encantada com sua atitude.
RAÍZA (resmunga): Cada um cuida da saúde que lhe resta...
A porta do quarto é aberta vagarosamente.
JOHNNY (sonoramente): Ah, olha meu amigo aí! Chegou cedo.
Raíza volta os olhos para a porta e se surpreende. Ela e Marco se olham fixamente. Ele está com uma fina marca no rosto e ela desvia os olhos para Johnny olhando-a com desconfiança.
Os amigos de Raíza estão apreensivos como se algo de ruim pudesse acontecer.
RAÍZA: Então esse é seu amigo...Johnny?
JOHNNY: Sim. (ele dá uma baforada pra fora da janela e volta) Ele é o...
RAÍZA (para Rafaela): Você sabia disso, não é?
RAFAELA: Eu juro que não eu...
Raíza anda até a porta quando Marco põe o braço atravessado no portal.
MARCO: Vai sair só por que cheguei?
RAÍZA: Eu já ‘tava’ de saída...Eu não devia nem ter vindo...
MARCO: Mas por quê? A melhor amiga de meu irmão é bem-vinda aqui.
Raíza dá uma olhada em seu rosto onde ainda é possível ver uma leve marca da primeira vez em que o agrediu.
RAÍZA: Incomoda?...Espero que essa suma logo...
Devagar, ele solta o braço e ela sai. Johnny acaba deixando a ponta de cigarro cair devido a atenção prestada à cena. Esboça satisfação.
CORTA PARA
CENA 7  ED. INGLESA - CORREDOR [INT./MANHÃ]
Raíza desce as escadas a galope e atrás dela vem Dcr. Ele a alcança ao pé da escada.
DCR (indignado): Você perdeu o juízo foi? Vai dar chance pro inimigo de te ver irritada é?
Raíza fecha e abre as mãos, ainda aborrecida. Aponta para o alto.
RAÍZA: Você viu o cinismo dele? Aposto que se estivéssemos sozinhos ele me escorraçava dali a ponta pé!
Dcr levanta as mãos e balança em sinal pra ela se acalmar.
DCR: Tá certo, tá certo! Mas ele foi esperto. Você não queria que ele te sentasse a mão na frente dos outros ‘né’? Ainda mais com um amigo dele ali.
RAÍZA: Amigo...Um tipinho que só escreve letras depressivas. Tinha que ser amigo dele mesmo.
DCR: Só por que são amigos não quer dizer que são iguais. Se fosse assim você nem olharia mais na cara de Cael.
RAÍZA (argumentativa): Acontece que Cael está unido a ele pelo sangue. Agora, esses dois (ela aponta de novo o dedo pro alto da escada e gira) Esses dois são amigos. São unidos por afinidades, entende? Afinidades! Eu vou embora daqui!
Ao dar as costas para o amigo, um novo cenário se abre.
Se vê dentro do cassino, à noite. Estática e sem ação, Raíza vê Johnny entregando uma bebida a Ari.
JOHNNY: Você tem que acreditar na sua sorte.
A fumaça paira no ar, homens apostam até o que não tem e Ari segura as fichas.
Close em suas mãos. Ari lança uma ficha no número 8.
Roletas giram, giram, Raíza nota o prazer nos olhos do rapaz e o deslumbramento no de Ari. A roleta pára no número 9.
JOHNNY: Tenta de novo que você consegue.
RAÍZA: NÃO!
Alguém toca seu braço, ela se volta e dá com Dcr.
DCR (intrigado): O que foi, Raíza? ‘Não’ o quê?
Ela vira pro outro lado e vê que nada aconteceu.
A tela se fecha num baque.
FADE IN
CENA 8  APTº 30 – SALA  [INT./MANHÃ]
Marco está diante do bar, se serve de whisky. Atrás dele, em segundo plano, encostado na parede, está Johnny, mãos nos bolsos da calça.
JOHNNY: O que você andou aprontando pra ela ter arrancado seu coro, hein?
Marco, segurando o copo, vira e solta os ombros.
MARCO: Eu nada. Ela que cisma comigo. E você? (ele toca as fotos da banda do rapaz com certo asco do que vê) Soube que até incendiou uma igreja, o que você pensa da vida hen garoto?
Johnny se volta para trás, meio surpreso.
JOHNNY: EI! Quem andou me caluniando? Eu não fiz nada!
Marco lhe dá uma olhada de cima esperando que ele adivinhasse primeiro.
JOHNNY: Ah, claro! (Johnny dá um tapa na própria mão como quem mata a charada) Só pode ter sido a porra do meu tio Jack! Aquela porra não me deixa em paz nem do outro lado da fronteira!
Marco estende a bebida e Johnny pega.
MARCO: Vamos esquecer o seu tio Jack e o que ele significa em sua vida...
Marco volta pro bar e se serve de outra bebida.
MARCO: O que achou dos amigos da Rafaela?
Johnny bebe todo o whisky, contorna o sofá e se joga nele.
JOHNNY: Tirando a Ari e a Rafaela, os outros dois são estranhos, implicantes e inquietos. Mas juro que eu pensava que a Raíza fosse alta, forte dessas de espantar.
Marco vira pra ele com o copo na mão.
JOHNNY (cont.): Como você pôde se deixar vencer por ela? Você é um fiasco, sabia?
MARCO: Essa frase eu conheço; É do livro ‘À sangue frio’. Você não perde essa mania de misturar ficção com realidade, hein.
JOHNNY: Eu tenho que aproveitar as oportunidades.
Marco ignora, senta no sofá e Johnny senta direito.
MARCO: O que pensa em fazer hoje à noite?
JOHNNY: Eu não penso. Eu vou fazer. O cassino ainda funciona...Sem você?
Marco dá um sorrisinho de canto e seus olhos brilham.
MARCO: Sim, mas...Você não poderá entrar lá com a minha referência...
JOHNNY: Por que? Ela está suja?
MARCO: Não seja abusado!...(pausa) Mas não se preocupe; Tem um amigo que me ajudará nisso. Pretende ir sozinho?
Johnny meneia com a cabeça.
MARCO: A Ari me pareceu interessada em você...Uma moça de família gostar de você não é sempre, você sabe.
JOHNNY: Acha que ela ia querer?
MARCO: Se você não a convidar...
CORTA PARA
CENA 9  ED. CIRANDA DE PEDRA  [EXT./INÍCIO DA TARDE]
APTº 403 – SALA [INT.]
Ouve-se a campainha tocar. Josué abre a porta e é tomado de susto.
Johnny está com camisa preta de manga justa, calça na mesma cor e olhos pintados.
JOSUÉ: Ahn...Você...
João não sabe para o que olhar; Se pro seu tênis o qual tenta encaixar no calcanhar ou se pro rapaz extravagante.
JOÃO: Quem é, tio?
Raíza chega do corredor e nem pôde acreditar.    
RAÍZA: Tio, deixa ele entrar. É Johnny Land.
JOSUÉ (para Raíza): Você...(ele aponta discretamente para o rapaz com um certo desprezo pela figura) Você o conhece?
RAÍZA: Sim. Entra, Johnny!
JOHNNY (entra com as mãos voltadas pra trás): Oi, tudo bem com vocês?
Josué não consegue balbuciar um fonema.
JOHNNY: Eu queria falar com a Ari.
Ari entra na sala, encantada pela visita.
ARI (senta ao lado de João): Senta, Johnny! Senta!
Johnny senta também ao lado de João.
João Batista finge demorar mais a encaixar o tênis no pé apenas pra não sair da sala. Continua ali, empacado entre os dois no sofá. Até que não dá mais e levanta.
JOÃO (pra Ari): Não vai se atrasar pra aula, hein.
João sai e Raíza vai junto.
QUARTO DE RAÍZA...
JOÃO (indignado): Raíza, quem é esse maluco?
RAÍZA: Amigo da Rafaela.
JOÃO: Amigo da Rafaela? É só isso que ‘cê’ tem pra me dizer?
Raíza senta na cama com ar de desolada.
RAÍZA: Nos conhecemos essa manhã...(resmunga) Como me arrependo disso...
JOÃO: E por quê? Por que ele quis falar com a Ari e não com você?
RAÍZA: Deixa de besteira, garoto! Ele é amigo do Marco!
João se aproxima, ainda com o tênis mal encaixado.
JOÃO: Essa coisa é amigo do Marco e você vai deixar a Ari sozinha com ele?
Os dois se encaram.
SALA...
Raíza, entre o corredor e a sala, fita Johnny com as botas sobre a mesa central. 
RAÍZA: Botas bonitas...Mas prefiro vê-las no chão.
Johnny põe os pés no chão.
JOHNNY: Você não tá atrasada?
RAÍZA: Ela também.
Johnny se levanta com cara de cínico.
JOHNNY: Acho melhor eu ir antes que eu seja enxotado...
Ari leva o rapaz até a porta, abre e antes dele ir, a beija próximo da boca.
JOHNNY: Tchau! Até de noite!
Ari fecha a porta com um sorriso de canto a canto.
João atravessa a sala, joga a bolsa sobre o sofá e pára na frente dela.
JOÃO: Diz pra mim, Ari (ele toca em seus ombros) Isso...Esse...Aquela coisa que acabou de sair é amigo da Raíza ‘né’? Foi ela que te apresentou, ‘né’? ‘Cê’ pode dizer, sem problemas.
RAÍZA: Ô João Batista! Acho que você tá atrasado. Não é melhor você ir?
João larga Ari e faz um gesto com a mão próximo ao olho.
JOÃO: Eu tô de olho em você, hein Raíza.
Raíza ignora. João apanha a bolsa e sai.
Quando a porta fecha e os passos se afastam, Raíza mira em Ari.
RAÍZA: Você não o conhece. Ele pode sumir do mesmo jeito que apareceu. Fora que ele tem duas coisas que abomino em alguém...
Ari se mostra curiosa.
RAÍZA: É fumante e amigo do Marco.
ARI: Olha que você não tope com o Marco eu até entendo, mas não quer dizer que o Johnny seja igual, ‘né’?
RAÍZA: Mas ele é amigo do Marco! Que idéias você acha que ele tem?
ARI: Você é amiga do Cael e nunca pensou que ele pudesse ser igual ao irmão.
RAÍZA: Olha eu vou dizer o mesmo que disse pro Dcr...
ARI: Raíza...As pessoas têm o direito de serem diferentes do Marco, hã?
Raíza não reage.
FADE OUT
FADE IN
CENA 10   APTº 403 – SALA  [INT./INÍCIO DA NOITE]
A porta é aberta e Raíza entra olhando por toda a sala. Fecha a porta e põe a chave na estante ao lado.
Caminha até o...
QUARTO...
E vê a roupa intacta de Ari sobre a cama.
RAÍZA (em OFF): Ela ainda não chegou?
Volta e fecha a porta do quarto. Joga a bolsa na cama, tira o uniforme e abre o guarda-roupa. Pega uma blusa preta, de manga curta com paetês no peitilho e continua com a calça de jeans preta.
Anda até a porta, abre ao mesmo tempo em que solta os cabelos. Leva um susto com a cara de reprovação de João.
JOÃO: Não me diga que vai à boate?
Raíza demora um pouco pra responder. Passa por ele ainda ajeitando os cabelos.
RAÍZA: Sim, por quê? Não tô bem?
João Batista faz uma cara de poucos amigos.
JOÃO: Você vai se divertir? E a Ari? Pra onde ela foi com aquele cara? Você não se importa ‘né’?
RAÍZA: Eu tô indo lá justamente por isso...Aliás, ela não ligou?
JOÃO: Vocês duas têm a mania de não se darem bem com celulares... (ele exibe na mão o celular de Ari)
Raíza suspira profundamente.
RAÍZA: Mais essa!
JOÃO (irritado): Viu só! Agora a Ari pode tá correndo perigo de vida! O que pensa em fazer? Já que a meteu nisso...
RAÍZA: Mas como eu a meti nisso, garoto! Eu não sou amiga de Johnny Land! Eu...Eu...Nem devia ter ido ao apartamento dele...
JOÃO: Meteu ela nisso sim!
RAÍZA: Olha eu não posso ficar aqui discutindo contigo... (ela dá as costas, apanha a chave e abre a porta)
JOÃO: ‘Peraí’! Que eu tô falando contigo!
APTº 403 [EXT.]
E a garota desce as escadas com aquele burburio em seus ouvidos.
JOÃO: Se teu pai descobre que a Ari anda em má companhia, eu nem sei viu, nem sei!
Raíza pára bruscamente e João esbarra nela.
RAÍZA: Eu não tenho culpa se a Ari gostou dele, caramba!
JOÃO: Ela gostou dele por que ele é livre! Ele não tem limites! É só olhar pra aquele visual ridículo pra gente perceber.
RAÍZA: O que você tá querendo dizer com isso?
JOÃO: Você praticamente não deixa a Ari respirar desde que ela saiu da clínica! Chego a pensar que ela se arrependeu de ter saído de lá...
RAÍZA (extasiada): Você endoideceu?
JOÃO: Não, mas pensa! Quase que ela não sai sozinha, você sempre tá por perto. Aí aparece esse sujeito...Se você não tivesse prendido tanto a garota talvez ela não andasse com esse tipo.
Os dois se fitam. Raíza abre a bolsa, apanha o celular e disca.
RAÍZA: Alô? Rafaela? (pausa) Diz pra mim: Você sabe qual o telefone do Johnny? (pausa) Não, é que...Ele...(finge não saber) Ele saiu com a Ari e não sei pra onde foram...(pausa) Ele não gosta de celular? Um cara metido a moderninho feito ele?
JOÃO (resmunga): Outro com problemas com celulares...
RAÍZA (cont.): Ele te disse pra onde ia?(pausa / close em seu rosto) L.A House?
CORTA PARA
CENA 11  L.A HOUSE [EXT./NOITE]
Johnny, abraçado a Ari, a conduz para o beco mal iluminado, mas ela recua.
Ari está diferente; Cabelos amarrados, bata roxa e calça jeans, olhos pintados de preto.
ARI: Tá me levando pra onde?
JOHNNY: Pro cassino.
Ari se mostra surpresa.
JOHNNY: Vai me dizer que você não sabia que aqui também funciona um cassino?
ARI: Não...Eu só trabalho na chapelaria da boate... E se o Cael não gostar de me ver aí?
JOHNNY: Mas hoje não é sua noite de folga? Você escolhe aonde irá se divertir.
Ele sorri e ela corresponde, trêmula.
CORTA PARA
CENA 12   L.A HOUSE  [EXT.]
Raíza e João atravessam a calçada. As pessoas estacionam os carros, outras entram na boate, aquele burburio é incômodo para Raíza.
JOÃO: Vamos lá, Raíza! A gente pode entrar sem convite.
Raíza esboça raiva, olha para o tal beco e se volta, apressada.
RAÍZA: Melhor você ligar pro Cael...Vai ali por que aqui tá muito barulhento.
João, já com celular na mão, dá as costas e disca.
JOÃO: Seria mais fácil se falássemos com o segurança (ele se volta e não vê mais a prima) Ei!
CASSINO [INT.]
Ouvimos uma música tocar abafado. Vem da boate. Raíza está próxima do bar, Ninguém pode vê-la. A fumaça do cigarro paira no ar. Pigarreia.
O garçom que passa com a bandeja vira o rosto e, receosa, Raíza estaca. O garçom passa direto sem vê-la.
Raíza caminha com cuidado por entre as pessoas, observa, penalizada, alguns perderem na aposta e outros vibrarem com a vitória.
Pára ao ver alguém.
[POV de Raíza]
Avista Johnny entregando um copo para Ari na mesa do jogo. Se surpreende ao vê-la com estilo diferente. Aproxima e, de repente, ela mete a mão derrubando o copo. Ari se assusta.
JOHNNY: Tudo bem, Ari você deve tá nervosa...
ARI (olha a sua volta, desconfiada): Bem...Eu acho melhor não beber...
JOHNNY: Ninguém morre ao tomar uma ou outra ‘né’?
Raíza fecha a mão, nervosa.
RAÍZA (murmura): ‘Cê’ vai tomar uma daqui a pouco seu...Seu...
Raíza tenta cochichar no ouvido de Ari, mas o som da música, a conversaria tornava sua voz baixa demais.
CORTA PARA
CENA 13   L.A HOUSE [EXT.]
João está com o celular na orelha e caminhando de um lado e de outro como a procurar alguém. Quando se volta, dá com Cael prestes a tocar seu ombro.
CAEL: João? O que faz aí que não entrou?
JOÃO: Tô sem convite.
CAEL: Vem! A...(ele olha ao redor) A Raíza não veio contigo?
JOÃO: Pois é. Ela veio, mas sumiu. A verdade é que estamos atrás da Ari. Ficamos sabendo que um cara a levaria pra um cassino, mas...
CAEL (abismado): O que disse?
JOÃO: Cassino...Por quê? Algum problema?
CAEL: Não...(a resposta quase some da boca) Mas...Vocês vieram pra cá...
JOÃO: Pois então. Não sei por que, mas a Raíza cismou que eles estão aqui.
Cael, curioso, entra na boate.
João volta achando estranha a atitude de Cael. Direciona os olhos para a calçada adiante e, dentro de um carro, Marco espia.
João faz um sinal com a cabeça, para baixo.
CORTA PARA
CENA 14  L.A HOUSE – CASSINO  [INT.]
Johnny entrega outra bebida para Ari.
JOHNNY: Você tem que acreditar na sua sorte.
A fumaça paira no ar, homens apostam até o que não tem e Ari segura as fichas.
RAÍZA (cochicha): Número 9! Número 9!
Close ns mãos de Ari. Ela lança uma ficha no número 9.
Raíza respira aliviada.
Roletas giram, giram, Raíza nota o prazer nos olhos do rapaz e o deslumbramento no de Ari. A roleta pára no número 9.
JOHNNY: Sortuda você, hein! Estou vendo que essa noite promete! Vamos ganhar muito!
Raíza se desespera. Toca no ombro de Ari e quando esta se volta, dá de cara com Cael.
CAEL (ele a puxa pelo braço): Esse ambiente não é pra você.
ARI: Ma-mas Cael! Eu não sou mais criança pra ter ou deixar de ter ambiente pra mim. Eu sou maior de idade!
JOHNNY: Que isso, cara! Solta ela!
CAEL: Não se traz uma garota como ela pra um lugar como esse.
ARI: Cael, pelo amor de Deus assim ele vai pensar que sou careta!
Cael disfarça.
CAEL (murmura): Você se esquece que se algo te acontecer a responsabilidade é do Bruno?
ARI: Não, mas...
CAEL: Quer que ele pense que você é careta ou prefere que eu conte ao rapaz do por que o Bruno ser responsável por você apesar de você ser maior de idade?
Ari o encara, amedrontada.
Raíza sai na frente.
CORTA PARA
CENA 15  L.A HOUSE  [EXT.]
Cael ainda segura o braço de Ari, eles aparecem na entrada do beco. Ari, injuriada, se solta da mão de Cael e dá com Raíza, João, Dcr e Rafaela na calçada. Lança um olhar de raiva pra Raíza.
ARI: Foi você, não foi? Você contou pro Cael e pediu que ele me tirasse de lá?
Raíza vira para o primo, esperando que ele dissesse algo. Mas ele permanece quieto. Johnny abraça Ari que cruza os braços.
JOHNNY: Eu não entendo qual o problema de uma garota querer se divertir um pouquinho só...
RAÍZA (aponta-lhe o dedo): O que tem de mais? O que tem de mais? Eu vou dizer pra Ari o que tem de mais: O que tem é que ela é responsabilidade do meu pai e tudo o que acontecer a ela de ruim quem pagará é meu pai! Entendeu?
ARI (ressentida): É essa sua preocupação, não é? O seu pai pagar por minha culpa. Se não fosse isso você nem estaria aqui.
RAÍZA: Não diga besteira!
ARI: É isso sim! (ela desprende os braços e os abre, nervosa) Eu não a culpo por isso, mas é que às vezes você parece não querer me deixar sozinha. Como se tivesse medo que eu cometesse alguma loucura, entende? Loucura.
João faz cara de sabichão, mas Raíza nem o olha na cara.
RAÍZA: Se fosse assim eu não teria feito o que fiz por você. Você sabe e...Se meu pai perdesse a sua guarda você voltaria pra sua mãe, ‘né’...
Ari abaixa a cabeça.
JOHNNY: Papo de doido! Vamos embora daqui.
RAÍZA: É melhor não! Vai que ‘tu’ leva a garota pra algum outro lugar que não deve?
JOHNNY: Eu não obrigo ninguém a vir comigo, pára de achar que sou o culpado de tudo! Que merda!
RAFAELA: Por favor, Johnny!
RAÍZA (se altera): Depois de trazê-la pro cassino e quase embebedá-la não podemos esperar outra coisa ‘né’?
Johnny larga Ari e se aproxima de Raíza como a confrontá-la.
JOHNNY: Eu não faço nada que não queiram!
DCR: Mas influencia!
ARI: Gente pára com isso! Eu não me deixei influenciar. Eu que quis experimentar coisas novas.
RAÍZA: Coisas novas que poderiam fazer meu pai perder a sua guarda provisória se algo lhe acontecesse! Você tem idéia de onde ‘tu’ ia parar, Ari? Tem?
JOHNNY: Que papo é esse de guarda? Ari é maior de idade, caramba!
RAÍZA: Coisas de justiça, sabe Johnny? (deboche) Acho que você não ia querer entender. A coisa aqui é grave. Meu pai podia ir preso se a justiça souber que ele larga a Ari por aí. (ela se dirige a Ari) Imagine sua mãe, Ari! Imagine ela saber disso? Que prato cheio seria...
Ari se cala, envergonhada.
JOHNNY: Nossa eu não imaginava causar tanta confusão. (ele sorri com um sorrisinho no canto da boca)
RAÍZA (irritada): Claro que imaginava! Duvido que a idéia de trazer a Ari pra cá não tenha sido do Marco.
JOHNNY: Marco? Ele...(confuso) Ele...
RAÍZA: Você quer saber de uma coisa? Vá levar seu péssimo exemplo lá de volta de onde você veio!
CAEL: Raíza, leva sua amiga de volta pra casa...
JOHNNY: Pode deixar que eu levo, já disse. (ele dá as mãos a ela)
RAÍZA: E eu disse que não!
JOHNNY: Vem cá! Eu não sei que rolo é esse que vocês tem na justiça, mas vocês não acham que a sufocam com tanta proteção não?
JOÃO (resmunga): Foi o que eu disse a ela...
Raíza lhe dá uma olhada mortal.
JOÃO: Mas é verdade! ‘Cê’ mal deixa a garota respirar!
RAÍZA: Vai me dizer que ‘tu’ concorda com isso?
JOÃO: Não! A pessoa não precisa frequentar certos lugares pra ser livre. Se você falasse com jeito ‘né’...
Johnny ri. Raíza se irrita.
RAÍZA: Agora a culpa é minha é?
JOÃO: Minha é que não é.
JOHNNY: Estranho essa sua preocupação com ela, Raíza; Nem da família ela é...
JOÃO: Pra você ver só! Enquanto que eu você nem queira saber o que ela já...
Raíza lhe dá um safanão e ele faz que vai fazer o mesmo, mas é contido por Cael.
JOHNNY: Eu não sei o que tá havendo, mas eu ia odiar essa proteção toda.
RAÍZA (aborrecida): Você IA odiar por que você não TEM essa proteção ‘né’? Vai vê sua família nem se importa contigo e você acha que tem que ser assim com todo mundo.
Johnny arregala os olhos, aparenta ter se magoado. Entretanto, finge ignorar.
JOHNNY: Se ela tem mãe por que é seu pai que toma conta dela?
RAÍZA: Ela tem mãe, mas é como se não tivesse.
Johnny se cala por um instante. Olha para os outros e se revolta.
JOHNNY: Ah, mas que droga! Quanto sentimentalismo! Aposto que você não recebe nem 1/3 do que você faz pelos outros.
Raíza se cala. João sorri disfarçadamente enquanto Dcr e Rafaela se entreolham.
Adiante, há um carro preto estacionado.
CAEL: Ela é uma garota muito especial. (olha para Ari) Tenho certeza que ela não faz nada querendo algo em troca.
ARI (em relação a João): Mas ela sabe que não tem recebido nem a metade do que faz ‘né’?
Raíza se surpreende.
RAÍZA (interpreta mal): Eu já entendi...Já entendi. Eu nem devia ter vindo...Eu nem devia ter começado com isso tudo (ela frisa olhando pra Ari) Eu sou mesmo uma imbecil!
CARRO [INT.]
[POV de Marco]
Marco observa a cena, Raíza alterada, vira-se e faz que vai atravessar a rua.
Marco segura o freio de mão, engata e acelera. O carro se aproxima rápido.
JOHNNY: CUIDADO!
[POV de Marco]
Raíza olha em direção ao carro e se assusta.
Johnny corre para a pista, a abraça pela cintura e dá um giro de volta à calçada.
O carro passa zampado.
Cael, assustado, respira afobado. João olha para onde o carro vai.
Abraçada a Johnny, os dois se olham surpresos e ela, assustada por ter sido salva por ele.
Ele olha, estranhamente para a direção do carro que some na estrada.
FADE OUT
FADE IN
CENA 16  APTº 30 – SALA  [INT./NOITE]
A porta é aberta bruscamente e Johnny entra com cara de poucos amigos. Bate com a porta fazendo Marco sair da cozinha.
Seca as mãos na toalha.
MARCO: O que aconteceu? Não se deu bem com as roletas ou...
Johnny avança em seu colarinho e aperta deixando-o apreensivo. O rapaz está alterado com semblante medonho. Os olhos pintados saltam pra fora.
JOHNNY: Você tentou atropelar a Raíza, não foi?
MARCO: Do que você está falando?
O rapaz o sacode.
JOHNNY: Você avançou o carro pra cima dela, não tente negar! Eu vi tudo!
MARCO: Me solta! Está me machucando!
JOHNNY: Além de querer matá-la, também queria prejudicar o pai dela não é? Você queria me usar pra isso!
Marco, quase perdendo a voz.
MARCO (deboche / calmo): Acho que um tempo ao lado da Ari te deixou maluco.
JOHNNY: Não se faça de desentendido! A Raíza deu a entender que você sabia de tudo. O que tem a Ari pro pai da Raíza ter a guarda dela?
Marco tenta se soltar, se esforça, mas Johnny o sacode.
JOHNNY: Anda! Diga!
MARCO: Ela já esteve num hospício!
Johnny o larga, devagar, estarrecido. Marco ajeita a camisa.
MARCO: A Raíza a tirou da clínica por acreditar que ela nunca esteve louca. O Cael ajudou pra que o Bruno tivesse a guarda provisória da garota.
JOHNNY: E você quis prejudicar uma família tão boa quanto essa?...Espero que tenha tido uma boa razão pra isso.
Marco se cala. Depois, caminha por trás dele e enrola a toalha nas mãos.
MARCO: Eu não faço nada. Ela que já me fez perder o respeito de meu irmão, um amigo e até uma sociedade...
JOHNNY: Perdeu pouco. (ele se vira com ar de asco) Eu o faria perder mais.
MARCO (sonso): Você não entende! Ela prejudica a minha vida desde que apareceu.
JOHNNY: E por causa disso você quer tentar atingir a família dela? A Ari só tenta viver a vida dela, cara!
MARCO: Aquela lá pode tentar o que quiser já a Raíza...Ela tenta tudo, menos viver...A própria vida.
Johnny dá uma olhada séria pra ele. Um olhar de raiva.
FADE OUT
FADE IN
CENA 17  APTº 403 – SALA  [INT./MANHÃ]
Ouve-se a campainha tocar. Raíza sai da cozinha com uma toalha nas mãos.
RAÍZA: Deixa que eu atenda!
Olha pelo olho-mágico, sorri. Avança a mão na maçaneta e abre. Cael sorri um sorriso fechado e sem graça.
CAEL: Bom dia, Raíza... (ele dá uma olhada para a sala)
Raíza olha pra trás e vê Ari e Bruno à soleira da cozinha.
CAEL (cont.): Bom dia! Vim saber como vocês estão...Depois de ontem.
Raíza se afasta e faz um gesto pra ele entrar. Fecha a porta calmamente.
RAÍZA: Bem... Sobrevivemos.
Cael faz menção pra falar, hesita e Raíza se adianta.
RAÍZA: Não quer sentar?
CAEL: Ah...
Ele senta ainda com ar hesitante.
RAÍZA: É sobre o fato de eu saber do seu cassino?
Cael hesita mais uma vez.
CAEL: Não quero que você pense mal...
RAÍZA: Eu já sabia há um bom tempo e nem por isso mudei minha opinião sobre você.
CAEL: E...Qual a sua opinião sobre mim?
ARI: As piores possíveis.
Raíza ri e Cael sorri sem graça.
CAEL (para Raíza): Espirituosa essa sua amiga, hein.
Ouve-se a campainha tocar de novo. Raíza torna a olhar pelo olho-mágico e abre.
Johnny, com uma guitarra e Rafaela sorriem.
ARI: Johnny? Achei que tivesse ficado magoado por ontem à noite...
O rapaz olha para Raíza com um sorriso.
JOHNNY: Acho que já me redimi...Um pouco.
RAFAELA: E como, hein?
Raíza olha para baixo, sorri e os deixa entrar.
JOHNNY: Vim me despedir (Nisso, Ari faz uma expressão de desconsolo. O rapaz a abraça) Mas tem uma coisa que fiquei devendo.
João e Josué surgem na sala. Este, com um jornal nas mãos, observa primeiro o seu visual pra depois olhar na cara. Johnny está menos escandaloso, mas não menos exótico. Traja uma camiseta preta, calça jeans surrada, o mesmo sobretudo e o mesmo preto dos olhos.
JOSUÉ: Deve tá devendo mesmo (olha o jornal) Tá economizando nas roupas...
Johnny finge que não ouve.
JOHNNY: Cantar O dia em que tentei viver, lembra?
Ari corre pra sentar e Johnny faz o mesmo.
JOHNNY: Mas antes preciso dizer uma coisa para Raíza...
Raíza não entende.
JOHNNY: Quando fiz essa música eu pensava nas pessoas que só conseguiam criticar e julgar a escolha dos outros em serem como queriam ser. Pessoas que queriam que eu seguisse um modelo de vida, sabe?
João e Josué, de pé, escutam com má vontade.
ARI: O que quer dizer com isso?
Johnny sorri carinhoso sem o deboche que lhe era habitual.
JOHNNY: É que hoje eu percebo que nem todo mundo faz isso por preconceito...Mas por gostar muito. Existem pessoas que todo dia tentam salvar os outros e...Não tem poderes (ele ri e ouve-se risos também), são pessoas comuns que querem o bem e acabam mal interpretadas.
Ari se emociona e Raíza também. Olha para Cael ao seu lado que entende aquelas palavras com um sorriso.
RAÍZA: Não tenho nem o que dizer.
Tocando: Every Day - Stevie Nicks ->

Johnny e os demais riem, menos João que demonstra não gostar.
Johnny abraça Raíza e ela, meio sem graça com a situação, disfarça e levanta.
RAÍZA: Antes que a gente comece a chorar, vou buscar café pra vocês.
Todos riem, menos João que insiste naquela cara de quem comeu e não gostou.
Johnny se posiciona feito uma estrela do rock que é e a primeira nota é tocada. João ouve com cara de cansado.
A música dele é abafada pela música de fundo.
Raíza vai até a...
COZINHA...
Ari entra em seguida. Raíza abre a porta do armário e pega 4 xícaras. Põe na mesa. Em seguida, pega mais 4.
ARI (voz baixa): Agora você pensa diferente depois que ele te salvou?
Raíza põe as xícaras na mesa e olha pela janela o rapaz cantar.
RAÍZA: Me salvou...Estranho não?
ARI: Levando em conta que esse tem sido o seu papel ‘né’...
RAÍZA: É verdade, mas...Heróis podem existir e...Não precisam de poderes...E podem ser até bem estranhos...
Ari ri.
ARI: ‘Cê’ me desculpa por ontem? Eu não queria ter falado aquilo...
Raíza se aproxima dela, sorrindo, meiga.
RAÍZA: Você só falou a verdade. Às vezes eu faço as coisas sem me dar conta que posso estar impedindo a caminhada dos outros. E acho que é o que eu tenho feito ultimamente...
ARI: Não. Você só quer ajudar. Como disse Cael: Você é uma garota muito especial.
As duas riem e se abraçam.
Raíza, com o rosto sobre seu ombro, olha para o rapaz através da abertura.
RAÍZA (em OFF): É, Johnny salvou minha vida...(a cena volta a mostrar seu rosto e vai girando) Se eu tivesse previsto certamente eu não ia acreditar...
A cena vai intercalando entre as duas e mostrando o pensamento de cada uma.
ARI (em OFF): É, Johnny salvou a vida dela...Acho que nem se ela previsse ia acreditar...(sorri) Com isso, acho que ela descobriu que não pode salvar a vida de todo mundo...
RAÍZA (em OFF): Não posso salvar a vida de todo mundo...É pensando nos outros que as coisas acontecem comigo...Mas eu bem que tento...Tento...
ARI (em OFF): E não consegue ser diferente...Acho que essa música devia ser pra ela. Afinal, ontem, como todos esses dias, foi o dia em que ela tentou viver...
RAÍZA (em OFF): ...Em paz. (sorri).
FADE OUT
= = Music Off = =
FIM DO EPISÓDIO
 

Autora:

Cristina Ravela

Elenco:

Raíza (Maria Flor)
João Batista (Caio Blat)
Bruno (Juan Alba)
Josué (Caco Ciocler)
Cael (Michael Rosenbaum)
Marco (Pierre Kiwitt)
Rafaela (Fernanda Vasconscellos)
Ari (Nathália Dill)
Dcr (Aaron Ashmore)
Valentina (Alinne Moraes)
Cipriano (Thiago Rodrigues)

Participação Especial:

Johnny Land (Jared Leto)
* Da minissérie O Dia Em Que Tentei Viver (Tina Black Rose)

Trilha Sonora:

Every Day – Stevie Nicks


Produção:

Bruno Olsen
Cristina Ravela


Esta é uma obra de ficção virtual sem fins lucrativos. Qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência.


REALIZAÇÃO


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