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RAÍZA


Série de
Cristina Ravela

Episódio 11 de 20




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FADE IN
CENA 1 COLÉGIO FRANÇA [INT./INÍCIO DA TARDE]
A cena abre no pátio onde alunos estão. Ouvimos o som do sinal tocar.
A cena se aproxima pelas costas de Raíza, no bebedouro. Ela se volta, meio chateada.
RAÍZA: Lá vou eu recomeçar...
Ela caminha até a escada que dá num corredor.
Uma garota de cabelos lisos, loiros e escorridos pelos ombros sai do banheiro ao lado da escadaria no corredor.
Nesse momento, alguém esbarra na garota fazendo-a deixar cair seus cadernos.
RAÍZA (para a sujeita que empurrou): Caraca! A sala num vai fugir não...
Em seguida, se abaixa e apanha os cadernos da colega que a olha, agradecida.
GAROTA (sorri): Eu sempre fico meio tonta no primeiro dia...
RAÍZA: Nesse caso, você não é a única... (ela olha para o alto se referindo a quem a empurrou).
GAROTA 2: Eu não tenho culpa se ela é lerda pra andar! (ela sobe as escadas, batendo o pé).
RAÍZA: Cuidado pra não quebrar o piso...Não no primeiro dia ‘né’!
A garota loira ri. As duas se levantam.
GAROTA: Obrigada... Qual seu nome?
RAÍZA: Raíza. E o seu?
GAROTA: Érica (A cumprimenta dando as mãos).
Raíza se mostra estranha com o gesto formal.
ÉRICA (olhar melancólico): Lá onde eu morava a gente cumprimentava assim...Se alguém recusasse eles ficavam com raiva.
RAÍZA: Nossa! E tudo isso por causa de um cumprimento? Deus! Onde esse mundo vai parar?
Érica ri alto. Tem um semblante amargurado, mas ao mesmo tempo, forte. Seus olhos giram por todos os lados, inquieta.
ÉRICA (olhar fixo): Você senta ao meu lado hoje? É que não conheço ninguém...
RAÍZA: Então, vamos?
Raíza faz um gesto para o alto da escada e as duas sobem.
CORTA PARA
COLÉGIO FRANÇA [EXT./INÍCIO DA TARDE]
Na calçada, em frente ao colégio, há um homem, de costas.
HOMEM 1: Já cumpri a missão...Espero que não tenha outra dessas cabeludas pra mim, hein...
A cena se afasta das costas e revela Cipriano à frente.
CIPRIANO: Você sabe que nunca faço nada sem tirar vantagem, não?
CLOSE no rosto de Camilo
Camilo só balança a cabeça afirmativamente.
FADE OUT



1X11 OBSESSÃO

FADE IN
CENA 2 COLÉGIO FRANÇA – SALA [INT.]
Érica copia a matéria do quadro, mas sua atenção é outra.
[POV de Érica]
Ela observa a cicatriz no pulso de Raíza; Agarra seu pulso, assustando a garota.
ÉRICA: Como foi?
RAÍZA: Ahn...(longa pausa) Foi cortando um melão...
Érica ri, incrédula e exibe os dois cortes nos pulsos.
ÉRICA: Então, eu tentei cortar um melão dos dois jeitos...Não consegui de nenhum...
Raíza ri meio sem graça.
RAÍZA (em OFF): Foi uma piada?
ÉRICA: Se fosse contigo, o que você faria se te fizessem um mal muito grande? Se fosse você, hoje, a empurrada?
RAÍZA: Bem...Eu...Eu daria logo um coice!
Érica ri.
ÉRICA: Sério?
RAÍZA: Não, olha eu deixaria pra lá...Nem vale a pena, viu.
ÉRICA: Por pouco eu não pensei que era sério...
Ouve-se o som de um celular tocar alto.
Raíza olha na direção do professor que faz o mesmo.
RAÍZA (murmura): Ai meu Pai...
O professor se levanta e caminha até ela.
Rapidamente, Érica toma o celular de suas mãos deixando a colega sem ação. O professor estende o braço.
PROFESSOR: Parece que a ligação é pra mim, não?
RAÍZA: Não, veja bem isso não vai mais...
PROFESSOR: Encobrindo a colega, hein. (ele toma o celular de Érica) Isso aqui vai ficar comigo até o fim da aula.
ÉRICA: Eu juro que não vai mais se repetir, mas eu ‘tava’ esperando uma ligação importante...
PROFESSOR: Pedisse permissão. Você não ‘tá’ na sua casa.
Os alunos zombam.
O professor volta à mesa e guarda o celular na bolsa.
ÉRICA: Por que você não vai lá dá um coice nele?
Raíza ri da pergunta da colega e Érica também ri. De repente, Raíza pára de rir diante daquele olhar fixo.
RAÍZA: Isso não é sério ‘né’?
ÉRICA: Você parece do tipo que faria isso.
RAÍZA: Credo, Érica! Eu não saio dando coice em ninguém, pelo amor de Deus...Aliás, por que você fingiu que o celular era seu?
ÉRICA: Você me ajudou, lembra? Era o mínimo que eu podia fazer...
RAÍZA: Mas por causa disso, ele te passou um sermão...
ÉRICA: ...E a turma me zoou... Eu odeio ser humilhada... (pausa / ela olha pro caderno e murmura) ‘Você não ‘tá’ na sua casa’...Sempre isso que ouço...
Raíza a observa com uma certa piedade. Segura um lápis enquanto rodava-o por entre os dedos.
ÉRICA: Se fosse com você, o que você faria?
RAÍZA: Hã? Quê?
ÉRICA: O que faria se fosse humilhada desse jeito?
Raíza hesita.
ÉRICA: Se alguém te desacreditasse, te fizesse sentir como uma mentirosa?
Ela muda seu semblante, parece com raiva.
RAÍZA: Ah... Se eu (ela quebra o lápis ao meio e pára, espantada) Ahn...Mais ou menos isso que eu faria...Acho.
Érica volta a esboçar o sorriso feliz, talvez meio sem jeito seguido do olhar fixo à colega.
ÉRICA: Acho que encontrei a amiga certa.
Raíza olha para ela, estranha.
RAÍZA (em OFF): Amiga certa?
CORTA PARA
CENA 3 COLÉGIO FRANÇA – SALA [INT./ FIM DE TARDE]
Ouve-se o sinal tocar.
Os alunos levantam e saem feitos tropa.
Raíza e Érica descem as escadas, Érica pára.
ÉRICA: ‘Cê’ pode ir na frente? Eu vou ali e já te encontro lá fora.
RAÍZA: Ah ‘tá’!
Érica caminha pelo corredor, bate na porta e entra em seguida.
O professor que confiscou o celular está sentado a uma mesa de comprido.
ÉRICA (sorri): Licença. (pausa) Eu vim pegar o meu celular.
PROFESSOR (surpreso): Ah é! Tinha me esquecido (ele põe a mão no bolso da camisa e tira o celular) Que isso não se repita, hein, mocinha.
ÉRICA: Pode deixar.
Ela pega, sorri e quando dá as costas, fecha o sorriso.
ÉRICA (em OFF): Imbecil!
Ela sai e depara-se com Rafaela e Josué.
JOSUÉ: Eu não dei aula de geografia hoje pra turma dela. E nem a vi sair.
ÉRICA: ‘Cês’ estão falando da Raíza?
RAFAELA (sorri): Sim, sabe dela? Eu marquei com ela de sairmos juntas.
ÉRICA: Ué, ela foi embora...Disse que queria chegar logo em casa...
Rafaela olha para Josué, frustrada.
RAFAELA: Nossa...Eu quase não tenho tido tempo de dar umas saídas e...
Josué põe a mão no bolso e apanha o celular. Disca.
JOSUÉ: De repente ela esqueceu, ‘né’. Primeiro dia de aula dela, não deve ‘tá’ sendo fácil...(pausa) Desligado.
RAFAELA (disfarçando a frustração): Não é de se estranhar...
ÉRICA: Bom...Tenho que ir...Tchau gente!
CORTA PARA
COLÉGIO FRANÇA [EXT.]
Érica corre, alcança o portão pelas costas de Raíza.
ÉRICA: Você pega ônibus?
RAÍZA: Às vezes. Mas hoje vou a pé. (ela aponta e Érica segura seu braço).
ÉRICA: Vamos comigo até o ponto? Que tal uma corrida?
COLÉGIO FRANÇA [INT.]
Rafaela e Josué saem juntos do colégio. Rafaela vê a cena no portão e corre.
[EXT.]
Érica puxa Raíza e as duas saem correndo pela calçada.
Rafaela atravessa o portão e, indignada observa as duas correrem.
CORTA PARA
CENA 4 RUAS DA CIDADE
As duas param de correr a certa altura e caminham pela calçada.
Um Toyota preto se aproxima pelas costas delas e pára um pouco à frente. Coloca a cabeça pra fora da janela. É Cael.
CAEL: As meninas não querem uma carona? (sorriso fechado e encantador).
RAÍZA: Ahn...
ÉRICA (murmura): Aceita, boba.
RAÍZA: Ahn...(hesita) Oi Cael...Eu ia levá-la até o ponto de ônibus e...
CAEL: Se é sua amiga eu posso levá-la em casa?
As duas se entreolham e, Érica não pestaneja.
ÉRICA: Se é amiga dela eu aceito!
Ela beija o rosto de Raíza. Após os carros passarem, Érica atravessa, a porta do carro é aberta e ela entra.
TOYOTA [INT.]
Érica nota os olhares de Cael para Raíza.
RAÍZA: Tchau!
O carro acelera e Cael a olha pelo retrovisor.
Érica o observa, meio de canto. Ele nota e se mostra envergonhado.
CAEL: Você a conhece há muito tempo?
ÉRICA: Desde hoje... (sorri) Então você é o Cael?
CAEL: Como assim? Me conhece de onde?
ÉRICA: Raíza não falou de outra coisa que não fosse no tal Cael...
Cael engole a saliva, sem jeito. Olha pra outro lado sem querer encarar a garota. Torna a virar-se pra ela.
CAEL: Ela falou de mim?...O que ela disse?
ÉRICA (inventa): Ela falou que você é o cara mais bacana que já conheceu...Que não existe ninguém igual a você...
Ele sorri, nervoso.
CAEL: Isso é verdade.
Érica ri. Vira para o lado da janela e, em seguida, para ele.
ÉRICA: Ela ‘tá’ apaixonada por você, hein...
Cael dá uma freada e pára, de repente.
Érica ri irritantemente. Cael está estupefato.
FADE OUT
FADE IN
CENA 5 APTº 403 – COZINHA [INT./ MANHÃ SEGUINTE]
Raíza entra, apressada, joga sua bolsa na outra cadeira e senta.
Josué está sentado com uma pauta na mesa. João está tomando café.
RAÍZA: Meu pai já foi?
JOSUÉ: Já. (pausa) Pra quê essa pressa? Vai sair?
Raíza põe café no copo.
RAÍZA: Preciso resolver aquele mal entendido com a Rafaela.
Em seguida, põe o leite.
JOSUÉ: Por que não liga?
RAÍZA: Ah é, ‘né’?
Ela avança na bolsa e pára.
RAÍZA: Ai cabeça minha! Esqueci que meu celular foi confiscado.
JOÃO: Confiscado? Mal começou as aulas e já ‘tá’ dando aborrecimento...
RAÍZA (irritada): Foi sem querer! Antes eu não tinha celular e...
JOSUÉ: Olha a discussão! (pausa) Essa tal de Érica parecia tão segura do que dizia que nem contestei.
RAÍZA: Mal entendido é melhor resolver pessoalmente, viu.
Ela levanta.
JOSUÉ: ‘Cê’ não tomou seu café direito, menina!
Raíza sai.
CORTA PARA
CENA 6 APTº 303 – SALA [INT./MANHÃ]
Ouve-se a campainha tocar.
Rafaela abre e dá com Raíza.
RAFAELA (irônica): Ah, você? O que houve?
RAÍZA: Vim falar contigo sobre ontem...Acho que houve um mal entendido...
Rafaela a deixa entrar com cara de desagrado. Fecha a porta.
RAFAELA: Senta.
RAÍZA (senta e logo levanta): Ela inventou aquilo, Rafa...Eu apenas fui levá-la até o ponto de ônibus, só isso.
RAFAELA: E imagino que a corrida era pra chegar mais rápido, não?
Raíza está sem reação.
RAFAELA (cont.): Tudo bem. Eu não tô pedindo satisfação nenhuma. É normal você dá mais atenção às novas colegas ‘né’?
RAÍZA: Não é nada disso. Aquela garota grudou em mim feito carrapato! Acredita que quando tocou meu celular ela fingiu que era dela só pra levar o esporro por mim?
Rafaela observa o que ela vai dizendo.
RAÍZA: Além disso, ela ri mais do que deve e ainda inventa um troço desse? A gente se conhece há tanto tempo. Acha que eu daria as costas pra você por causa de uma nova amiga?
Rafaela se senta ao seu lado.
RAFAELA: Bem...Ela ‘tava’ meio inquieta...Quero dizer, muito inquieta. Talvez seja início das aulas, ‘né’?
RAÍZA: E recomeço para outros...
Rafaela toca suas mãos.
RAFAELA: Eu esqueci que deve ‘tá’ sendo difícil pra você. Eu sou uma boba mesmo. Pareço a namorada tirando satisfação.
As duas riem e se abraçam.
Rafaela esboça estranheza.
FADE OUT
FADE IN
CENA 7 APTº 403 – SALA [INT./MANHÃ]
A porta é aberta. Raíza entra, põe a chave do lado de dentro e fecha a porta.
João está no sofá arrumando sua bolsa.
JOÃO: Você se em turma fácil, hein...
RAÍZA: Por que diz isso?
JOÃO: Aquela sua colega, a Érica, esteve aqui pra te entregar o celular que ‘tu’ esqueceu de pegar.
RAÍZA (em OFF): Ué, mas como ela soube meu endereço?...
JOÃO: Eu vou nessa...Não a deixe mofar no seu quarto...
RAÍZA: O quê?
Raíza vai até o ...
QUARTO...
Érica está sentada na cama dela, olhando um porta–retrato onde aparece Raíza entre Ari, Rafaela e Dcr.
Ela sorri ao ver a amiga na porta olhando-a com ar de reprovação.
ÉRICA (se levanta): Vim trazer seu celular...
RAÍZA: Ah sim... ‘Tá’ entregue então...(pausa) Sua mãe deve ‘tá’ preocupada, não?
Érica abaixa a cabeça e mostra-se irritada.
ÉRICA: Eu moro com meus avós. Minha mãe não me atura mais.
RAÍZA: Como assim, não te atura mais?
Érica põe o porta retrato de volta ao lugar.
ÉRICA: Ela vivia me regulando, me vigiando, eu não podia isso ou aquilo. Eu não suportei e ela me mandou pra casa dos pais dela...(pausa) Ela não gosta de mim... (ela dá um arranco com a mão assustando a colega e muda o semblante, de repente) A gente pode ir pra escola juntas ‘né’?
Raíza hesita. A garota anda até ela e segura em seu braço. Raíza, assustada, volta-se para trás e cai no pequeno puff azul.
ÉRICA: Eu posso ficar aqui até a hora da gente ir pra escola?
RAÍZA: Ahn...E seus avós, Érica? Não vão se preocupar?
ÉRICA: Eles iriam adorar isso sim...Aliás, se eu morasse longe eles fariam até festa, aposto.
RAÍZA (tom baixo): Credo!
Érica aperta seu braço.
ÉRICA: ‘Cê’ deixa eu morar contigo?
RAÍZA (resmunga): Ai meu Pai eterno! (pausa) Olha...Escuta, acho que seus avós não iam gostar da idéia, sabe?
ÉRICA (alterada): Já disse! (ela se acalma) Eles não se importariam.
RAÍZA: Tá, mas...O problema é que, tipo...Seria muita responsabilidade pro meu pai cuidar de alguém...E...
ÉRICA: Mas essa tal de Ari não mora contigo? E ela é só sua amiga.
Raíza olha o porta–retrato e, em seguida, engole a saliva.
RAÍZA: Mas acontece que ela...Ela teve problemas com a mãe e...Não tinha quem se responsabilizasse por ela, entende?
ÉRICA: Ah...É isso...
Érica balança a cabeça confirmando que entendeu. A abraça quase não querendo largá-la e depois sorri.
CORTA PARA
CENA 8 APTº 403 – SALA [INT./INÍCIO DA TARDE]
Ouve-se a campainha tocar.
Raíza sai do banheiro, passa para a sala e abre a porta.
RAÍZA (desapontada): Érica? (Ora olha para a visitante, ora para sua mala) Ma-Mas o que aconteceu?
Érica entra sem ser convidada.
ÉRICA: Tive problemas com meus avós e...Minha tia não quis nem saber...Será que agora posso ficar aqui com você?
RAÍZA (em OFF): Será que isso é o futuro? Isso não pode ‘tá’ acontecendo...
Raíza a toca em seus ombros e a leva até o sofá. Sentam.
RAÍZA: Escuta, Érica...Eu vou conversar com seus avós e você vai ver que não tem por que sair de casa...
ÉRICA: Você não quer me receber aqui, é isso?
Raíza solta de seus ombros e hesita um instante.
RAÍZA: Não é isso, é que...Como é o nome da sua tia mesmo? (finge já ter ouvido).
ÉRICA: Doutora Letícia Belmonte Simões.
RAÍZA: Então eu falo com ela direitinho tá? É só me dá o telefone e aí eu falo com meu pai também.
ÉRICA: Assim como foi com a Ari, ‘né’?
RAÍZA: É...(ela olha o relógio da cozinha e levanta) A gente vê isso mais tarde tá? Agora a gente tem que ir pro colégio.
Érica levanta, pega as malas e vai em direção do quarto da colega.
RAÍZA: Onde ‘tu’ vai com isso?
ÉRICA: Ué, vou deixar no seu quarto pra quando seu pai aprovar minha estada aqui. Se a Ari ele deixou...
RAÍZA: Mas acho melhor esperar...
ÉRICA: Então.
RAÍZA: Então o quê?
ÉRICA: Eu vou esperar e aí já deixo as malas aqui.
Raíza coça a cabeça, irritada.
CORTA PARA
CENA 9 APTº 403 – ESCADAS [INT.]
Raíza e Érica chegam na portaria e Raíza pára.
RAÍZA: Ih, esqueci do dinheiro. ‘Cê’ me espera aqui?
ÉRICA: Tá.
Raíza sobe as escadas, chega ao apartamento, abre a porta.
Entra, fecha a porta e tira da bolsa seu celular. Disca.
RAÍZA: Rafaela? Preciso de ajuda. (pausa)...A Érica, ela agora quer morar aqui, vê se pode? (pausa)...Já, já falei, mas ela alega que os avós dela não a querem.(pausa)...Sim, eu consegui o nome da tia dela: Letícia Belmonte Simões. É doutora (pausa) Você vê isso pra mim, então?(pausa)...É, porque preciso me livrar dela...
INSERT – ATRÁS DA PORTA
Érica fecha o semblante e os punhos.
A tela se fecha num baque.
FADE IN
CENA 10 RUAS DA CIDADE – próximo ao colégio França
Raíza olha adiante e vê Cael, de braços cruzados, encostado à porta do carro, aberta. Traja uma camisa de manga comprida branca e calça social preta. Érica abre um sorriso de canto a canto, algo que deixa Raíza desconfiada.
RAÍZA (em OFF): Será que rolou algo entre eles...No carro?...Ai que mente suja.
RAÍZA: Oi Cael... Num vai me dizer que essa menina te deu trabalho ontem e você veio me cobrar?
Ele ri e a colega também, mas com um sorriso mais azedo.
CAEL: Não, eu...Eu só vim te cumprimentar mesmo...A gente quase não tem se visto, não é?
Ele a encara, Raíza está sem graça. Ele lhe dá um beijo demorado no rosto, sorri um sorriso fechado.
CAEL: Tudo bem com você, Érica?
Ela apenas sorri.
Ele ainda encara Raíza, entra no carro e vai embora.
As duas entram no colégio e Raíza nota Érica animada. Aparenta não gostar mais de seus sorrisos.
CORTA PARA
CENA 11 COLÉGIO FRANÇA – SALA [INT./TARDE]
Raíza e Érica estão sentadas lado a lado. Raíza nota a expressão de medo no rosto da colega. Disfarça, finge não vê, mas não resiste.
RAÍZA: O que aconteceu? Desde que recebeu aquela ligação no pátio você tá assim.
ÉRICA: Você quer mesmo saber?
RAÍZA: Mas se eu tô perguntando...
A moça faz um suspiro desalentador.
ÉRICA: Meus avós me ligaram pra avisar que se eu pisar naquela casa eles não irão me receber de volta...
Raíza vira o rosto, inconformada. Abaixa a cabeça e torna a olhar para ela.
RAÍZA: Mas você é neta deles; Tenho certeza que se você falasse com jeitinho...
ÉRICA: Mas já tá tudo combinado ‘né’? Eu vou morar na sua casa...Você prometeu.
RAÍZA: Ei! Eu não prometi nada! Fiquei de falar com meu pai, mas ele só sai do serviço lá pras seis horas.
ÉRICA: Eu não quero ter que me humilhar pros meus avós...Não quero ter que ouvir um não.
RAÍZA: Olha, eu posso falar com eles, o que você acha?
ÉRICA: Eles vão achar que te obriguei a isso...Eles sempre acham que tô errada.
RAÍZA: Será que, de repente...Eles podem...
ÉRICA: Você também acha que tô errada? Justamente você? Depois de ter te ajudado ontem...
RAÍZA: Ontem? ‘Cê’ tá falando do celular que...
ÉRICA: Não. Do Cael...
RAÍZA: Como assim? O que tem ele?
ÉRICA: Ué, eu disse a verdade logo; Que você é apaixonada por ele.
RAÍZA (gagueja): Ma-Ma-Mas o quê? (alterada) Baseado em quê você inventou isso?
ÉRICA: Inventei, não. Eu percebi seus olhares ontem...(sorri de forma irritante).
Raíza se joga para trás na cadeira em estado de choque.
RAÍZA (em OFF): Isso não pode tá acontecendo...
Põe as mãos na cabeça.
RAÍZA (irritada): ‘Cê’ perdeu o juízo, foi? Como é que você inventa um lance desse? Ele é meu amigo. Como é que vou olhar pra cara dele agora?
ÉRICA: Com a mesma cara que olhou hoje...E gostou.
Raíza fecha os punhos. Apanha o celular, disca.
RAÍZA: Eu vou desfazer essa maluquice é agora viu!
De repente, ela pára e cancela a chamada. Olha para o professor e fecha os olhos.
O mesmo professor do dia anterior avança a mão no celular dela, confiscando-o.
RAÍZA: EI! Eu nem cheguei a discar porque logo lembrei...
PROFESSOR: Na próxima, você nem chega a tocar no seu celular.
RAÍZA: Mas eu preciso...
PROFESSOR: Você não tá na sua casa...
O professor dá as costas, enquanto Érica, de olhar fixo, resmunga, entre dentes.
ÉRICA: Aai...De novo ele repete isso...De novo...
RAÍZA: E agora? Eu não vou conseguir esperar até a saída, não vou...
ÉRICA: Não sei por que tanta aflição...
Raíza parece não ouvir.
RAÍZA: Me diz, com que cara eu vou olhar pro Cael, me diz!
ÉRICA: Com a mesma cara que tu olhou pra ele hoje.
Raíza trinca os dentes.
RAÍZA: Isso ‘tu’ já tinha falado.
ÉRICA: Então.
RAÍZA (soletra, irritada) En-tão-o-quê?
Alguém bate à porta. A porta é aberta e Cipriano olha para a turma.
CIPRIANO: Com licença.(pausa) Raíza?
RAÍZA: Cipriano?
CIPRIANO: Uma tal de Rafaela está ao telefone. Ela disse que é ’aquele assunto’.
SALA – Turma 3006 [EXT.]
RAÍZA: Você? Trabalha aqui?
CIPRIANO: Sou sub-diretor...Muito bom lhe ver novamente, mas...Não quer que sua amiga fique esperando não?
A garota sorri.
CORTA PARA
CENA 12 SECRETARIA [INT.]
Raíza puxa o telefone, ansiosa.
RAÍZA: Alô? Rafaela?
RAFAELA: O que aconteceu, Raíza? Tô tentando te ligar e dá desligado.
RAÍZA: Confiscaram meu celular, acredita? Mas o que você queria me dizer? Descobriu alguma coisa?
RAFAELA: Amiga... (tom vacilante) Eu busquei o nome dessa tal de Letícia num site de relacionamentos e...Acho melhor você ouvir isso...
INSERT - CORREDOR
Érica, com o celular nas mãos, se aproxima da porta da secretaria. Ouvimos vozes.
VOLTA À CENA
RAÍZA: Eu não acredito! A Érica já matou uma amiga? Meu Deus! Ela é louca!
Cipriano, sentado adiante, observa a cena, atento.
RAFAELA (V.O): E já esteve internada! Só Deus sabe porque a deram alta.
RAÍZA: Não acredito. E agora? Como me livrar dela?
RAFAELA (V.O): Amiga, não quero te assustar viu, mas...Eu não faço idéia...Eu não consegui entrar em contato com a tia dela...Olha, até tentar se matar ela já tentou...Cortou os pulsos, imagine só!
Raíza, estarrecida, deixa o fone deslizar pelo seu rosto.
Ouve um barulho e olha para a porta. Nada vê.
CORTA PARA
CENA 13 COLÉGIO FRANÇA – SALA [EXT.]
Josué está à soleira da porta diante de Raíza.
JOSUÉ: Você tem certeza? Você não tá...De repente...
RAÍZA: Eu espero que isso não tenha sido uma gozação viu...Isso é muito sério, tio! A Rafaela já confirmou pra mim: ela já foi tida como louca!
Josué apóia o braço direito no portal.
JOSUÉ: Mas se ela está aqui, é porque se recuperou.
RAÍZA: Se recuperou uma pinóia! (ora cruza os braços, ora coloca as mãos na cintura) Ela quer morar com a gente e insiste em dizer que se Ari pode, ela também! Ela matou uma amiga! A próxima pode ser eu!
JOSUÉ: A Ari foi acusada de matar o pai (pausa) Esteve internada e agora tá morando com a gente.
RAÍZA: O senhor quer comparar a Ari com essa desequilibrada?
JOSUÉ: Só quero que você veja que a situação é a mesma. Talvez você esteja exagerando.
RAÍZA: Não, não é a mesma! Hoje ela inventa uma coisa inocente, amanhã, sabe Deus o quê! Eu preciso dar um jeito nisso.
CORTA PARA
CENA 14 SALA [INT./ FIM DE TARDE]
Pela janela, vemos que o tempo vai escurecendo. Ouve-se o zunido dos ventos.
ÉRICA: Professor! (pausa) Posso ir ao banheiro? Não tô me sentindo bem.
PROFESSOR (tom áspero): Não pode esperar até acabar a aula? Falta pouco.
ÉRICA (tom irritado): Não, eu já disse que não tô me sentindo bem.
PROFESSOR: Vai, então.
Ela levanta, abre a porta e sai. Raíza a observa, intrigada.
SALA – Turma 3006 [EXT.]
Érica desce as escadas, meio de lado, atenta. Se aproxima da outra pequena escada que dá no pátio. Dá um giro com os olhos e certifica que não há ninguém por ali.
Volta, chega perto de um disjuntor.
Ouve-se o som do trovão. A garota se assusta.
Abre a caixa, mira e numa só vez, sorrindo, abaixa o disjuntor.
Ouve-se um estrondo, vozes alteradas vindas das salas. O rosto de Érica é iluminado pela penumbra que vem do pátio.
Érica sobe para o alto da escada e se esconde atrás de um coqueiro.
Ouvimos gritos e baderna.
Érica tem um semblante transtornado.
Alunos saem das salas correndo.
CORTA PARA
CENA 15 SALA - Turma 3006 [INT.]
Os alunos estão de pé, assustados, saem da sala.
PROFESSOR: VOLTEM AQUI! (tom normal) Esses alunos vão acabar se matando lá embaixo!
RAÍZA: Não sei que mania é essa desse povo sair gritando como se o grito fosse se transformar em luz!
PROFESSOR: Será que ninguém teve idéia de acender uma vela?
RAÍZA: ‘Peraí’ que vou até a janela ver se tem alguém na quadra...
Raíza apóia as mãos na base da janela e estica o pescoço, por causa de um pequeno telhado ali existente.
RAÍZA (murmura): Érica...Cadê ela?
Ela bate a mão no parapeito da janela.
RAÍZA: Droga! O jeito é...(ela vira-se para trás) EI! ESPERE!
O professor sai da sala e Raíza corre atrás.
Os alunos descem as escadas a galope.
O professor desce com a mão no corrimão.
PROFESSOR: NÃO PRECISAM SE PREOCUPAR! PAREM DE CORRER!
Ele chega na outra escada, Érica surge por trás, ergue a mão e lhe dá um soco de esquerda nas costas.
Ele se desequilibra, cai e rola pela escadaria abaixo.
Raíza põe as mãos na boca, paralisada. As duas se entreolham e, enquanto Raíza a olha com espanto, Érica sorri, fora de si.
ÉRICA: Acabou, Raíza...(ela mexe o dedo indicador) Ele não vai mais confiscar droga de celular nenhum...
Raíza se afasta, vai virando na direção da escada. Érica arregala os olhos, mirando-a fixamente.
RAÍZA: Como é que ‘cê’ faz uma coisa dessas? ‘Cê’ tá louca?
ÉRICA: Do que é que ‘cê’ me chamou? (alterada) Hein? Me chamou de louca?
RAÍZA (disfarça): Será que você não vê que não precisava ter feito isso?
ÉRICA: Mas eu só fiz isso por você...Se é minha amiga eu tenho que te defender...
RAÍZA: Mas eu não pedi que me defendesse! Pedi? (tom estressada) Pedi?
Érica, de um semblante fora de si, cala-se um instante. Mexe o dedo indicador pra frente e para trás e, em seguida, coça os cabelos da fronte até a nuca como se estivesse com um sério problema de caspa.
RAÍZA (irritada): E então? Não vai responder?
ÉRICA: O quê?
Érica continua a mexer os dedos, irritantemente.
Raíza segura em suas mãos e aperta para parar com aquilo.
RAÍZA: Pare com isso! Isso já tá me irritando!
ÉRICA: AI! ‘cê’ tá me machucando!
Érica a empurra, põe a mão na bolsa da calça e saca um canivete.
ÉRICA: Você é como os outros! Nunca foi minha amiga!
RAÍZA: ‘Peraí’, Érica...Não faz isso...
ÉRICA (voz alterada / ameaçadora): Você quer se livrar de mim, não é?
Raíza sai pulando os degraus e Érica corre atrás.
COLÉGIO FRANÇA [EXT./ FIM DE TARDE]
As duas correm pelas ruas, uma atrás da outra, debaixo de chuva e trovoada. Há um tumulto na saída, mas ninguém presta atenção.
ÉRICA: ‘Cê’ nunca foi minha amiga! VOLTA AQUI!
A noite escura dificulta a visão de Raíza. O vento esvoaça seus cabelos. Pisa numa poça d’água rasa e quase vai ao chão.
Érica pára de correr. Não mais a vê. Roda pela rua deserta, escura, procurando a moça, mas nada. Torna a correr.
CORTA PARA
CENA 16 ED. CIRANDA DE PEDRA - CORREDOR [INT.]
Raíza, visível, chega na porta do apartamento 403.
Ouve-se passos na portaria.
Aperta o pulso, franze as sobrancelhas. Dor.
Raíza puxa o molho de chaves do bolso da calça e, trêmula, tenta abrir a porta, sem sucesso.
O som dos passos está cada vez mais próximo.
Raíza gira a chave várias vezes.
RAÍZA (resmunga): Abre logo, droga!
CLOSE na fechadura.
RAÍZA (murmura): Será que o João já tá em casa?
Raíza bate na porta.
RAÍZA: ALGUÉM ABRA ESSA PORTA! ALGUÉM ABRA! (pausa/ respiração ofegante) O jeito é me arriscar...
Desesperada, ela fecha os olhos e passa invisível pela porta.
APTº 403 – SALA [INT.]
Ouve-se passos no corredor de fora. Em seguida, ouve-se a chave girar na fechadura.
RAÍZA (murmura): Não pode ser! Ela copiou a minha chave!
ÉRICA (V.O/tatibitati): Raíza! Eu sei que ‘cê’ tá aí...
Érica abre a porta e não vê ninguém. Tranca a porta e anda com o canivete.
ÉRICA: Raíza!
CORTA PARA
CENA 17 ED. CIRANDA DE PEDRA [EXT.]
João Batista e Ari caminham pela calçada com apenas um guarda-chuva.
Chegam na portaria, João fecha o guarda-chuva e sacode.
Entram no prédio. Três mulheres estão numa porta, assustadas.
MULHER 1: Você é primo daquela moça...De cabelos pretos, magrinha.
JOÃO: Sim, a Raíza. Por quê?
MULHER 2: Porque ouvimos gritos vindos do seu apartamento.
JOÃO: Caramba! (o rapaz olha pra Ari) Será que meu tio Josué tentou assar um frango, de novo?
Ari ri, mas as mulheres não.
MULHER 1: Não era voz de homem. Ouvimos quando sua prima bateu na porta, desesperada. Parece até que ‘tava’ sendo seguida...
João e Ari correm até lá.
APTº 403 [EXT.]
Ari bate na porta. João põe a mão nos bolsos da calça.
JOÃO: Droga! Esqueci a chave.
ARI: Raíza? Abre essa porta! O que tá havendo aí?
João soca a porta com o pé, mas pára em seguida.
JOÃO (em OFF): Se ela tem poderes por que não sai dessa sozinha?
ARI: Faça alguma coisa, João!
João corre pelas escadas até a...
PORTARIA...
Não há ninguém que possa ajudar.
Um carro pára em frente, João corre até a janela.
JOÃO: Alguém poderia me ajudar?
A janela é abaixada e Cael, olha surpreso pela abordagem.
CAEL: João?
CORTA PARA
CENA 18 APTº 403 - QUARTO [INT.]
Raíza é empurrada contra um quadro que cai. Érica mete o canivete, mas atinge a parede.
ÉRICA: ‘Cê’ num tá sentindo dor, não? Num tá sentindo dor, não? Hein? Hein?
Seu olhar é ensandecido, não nota que nem atinge a garota.
Raíza empurra a garota que cai sobre a cama.
RAÍZA: Olha, somos amigas, lembra?
ÉRICA: Não, não somos! Você não gosta de mim!
RAÍZA: Não, olha...Eu ‘tava’ errada. Seria ótimo ter você aqui.
Érica muda o semblante de repente. Mostra-se calma.
ÉRICA: É?...Mas então por que você brigou comigo?
RAÍZA: Mas eu não briguei contigo...Eu só não queria que você fizesse aquilo...
ÉRICA: Mas eu fiz por você, será que não entende?
RAÍZA: Sim, entendo...Vamos conversar, ‘né’? Vai ficar tudo bem, ‘cê’ vai ver...
Érica muda o olhar, de novo.
ÉRICA: Eu já ouvi isso antes...Eu já ouvi sim...E me mandaram pra lá!
RAÍZA: Num é nada disso que ‘cê’ tá pensando...
ÉRICA: Eu não vou deixar que me mandem pra lá de novo!
Érica empunha o canivete e avança na moça que, diante dela, torna-se invisível.
Érica ultrapassa Raíza e vai direto pra sacada.
INSERT – sala.
A porta é arrombada com ajuda de Cael e ouve-se um grito desesperador.
VOLTA À CENA
QUARTO – SACADA [EXT.]
A cena mostra Érica suspensa.
Raíza, visível, segura em suas mãos e tenta erguê-la.
Cael, João e Ari entram no quarto e assistem à cena.
Raíza finge não ter força e Cael a ajuda a suspender Érica para a sacada.
Aparentemente, a menina está mais calma devido ao susto.
ÉRICA (aturdida): Eu quase caí...Eu quase caí...Ela (aponta pra Raíza) sumiu na minha frente...Culpa dela...Culpa dela!(altera-se)
Ela empurra Cael. A força é tanta que ele cai, de volta pro quarto e bate de costas contra uma pequena cômoda.
Érica tenta correr até o corredor, mas pára ao ver sua tia com Rafaela e dois enfermeiros na porta.
ÉRICA: Tia! Eles querem me fazer mal, eles querem me fazer mal...
Letícia tem no olhar uma compreensão e um desalento ao mesmo tempo. Acaricia suas mãos com cuidado.
Drª LETÍCIA: Vem querida...Vem descansar...Você parece tão cansada.
Érica olha para os enfermeiros e vai se afastando. Tenta correr de novo, mas os enfermeiros a detém e a levam arrastada.
ÉRICA (grita): Me soltem! Vocês não vão conseguir me prender! Não vão! (chora).
Rafaela se aproxima da Raíza, aliviada.
RAFAELA: Ai amiga, quando eu liguei pros avós dela eles me contaram que eles nunca brigaram e que ela saiu sem ser vista.
RAÍZA (cansada): Ela inventou aquilo pra vir morar aqui!
RAFAELA: Pois é, aí, já viu ‘né’? Como não consegui ligar pro colégio,liguei pro seu tio Josué...Quando eu soube do ocorrido achei melhor chamar a tia dela até aqui.
JOÃO (desconfiado): Ela te machucou muito, prima?
Ela simplesmente o olha.
FADE OUT
FADE IN
CENA 19 APTº 403 – SACADA [EXT./NOITE]
A cena vai se aproximando do alto. Cael e Raíza estão de frente para o outro. Ela o olha com admiração e curiosidade.
RAÍZA: Eu não acredito que o João te tirou da sua casa pra vir até aqui...O que você vai pensar de meus vizinhos?
CAEL: Na verdade, eu vinha até aqui pra...Pra...
RAÍZA: Para?
Ele sorri aquele sorriso fechado maravilhoso, abaixa a cabeça. Torna a encará-la.
CAEL: Somos amigos. Eu vinha te ver...
Silêncio.
RAÍZA: Eu não sei o que a Érica andou te falando...Bem...Pelo o que você pôde ver não dá pra levar em conta o que ela diz ‘né’?
CAEL (decepcionado): Ah...Claro, mas...Ela disse que você me acha bacana...Era mais um surto dela?
Os dois sorriem.
CORTA PARA
CENA 20 APTº 403 – QUARTO [INT./FIM DE NOITE]
A luz está acesa, Raíza e Ari estão sentadas na cama, ambas de pernas dobradas.
RAÍZA: Eu não consigo tirar aquela garota da cabeça...Parece que eu a ouço me chamar.
ARI: Igual aconteceu comigo?
RAÍZA: Ai nem compare! Ela matou uma pessoa...
ARI: Ué! E eu matei meu pai.
RAÍZA (disfarça): Ahn...Então? (pausa) Ai que horror! Tô falando que nem ela.
Ari toca suas mãos.
ARI: Isso vai passar, Raíza.
RAÍZA: Eu não sei qual foi o maior pesadelo da minha vida até hoje...(pausa) Não sei se foi quando eu parei no tempo...Quando me vi na clínica com você ou...Ter conhecido a Érica. Por que eu tive que conhecê-la? Por que eu tive que passar por isso?
ARI: Será mesmo que seu maior pesadelo já aconteceu?
As duas se encaram.
FUSÃO PARA
CENA 21 CLÍNICA NOVO HORIZONTE [EXT./DIA SEGUINTE]
A cena passeia pela calçada do jardim, adentra uma sala.
CONSULTÓRIO [INT.]
Há um homem de costas, sentado escondendo a imagem de outra pessoa de frente.
MARCO: Eu espero que a senhora não se sinta mal por isso...
A cena vira pro lado. CLOSE na mão de Marco entregando um cheque.
A cena sobe e revela doutora Letícia.
Drª LETÍCIA: É muito dinheiro...(pausa) Eu não queria que ela ficasse aqui toda a vida.
MARCO: Nós tentamos, não? Ela não pode voltar a ter uma vida social você sabe...
A doutora suspira, profundamente.
Drª LETÍCIA: Eu não sei de mais nada...Essa mania que ela tem de se apegar fácil a uma amizade...(voz fraqueja) Desde que assistiu uma amiga morrer de forma brutal, atropelada, que ela nunca mais foi a mesma...(uma lágrima escorre).
MARCO: Eu pensei que você tivesse dito que essa amiga morreu no hospital...Sua enteada, não é?
Ela o fita. Clima estranho.
Drª LETÍCIA: É...Ela morreu no hospital, mas...Pra Érica ela morreu ali, na hora do acidente...
Marco sorri irônico, apanha um lenço de sua camisa e a entrega.
Drª LETÍCIA: Obrigada...(pausa) Você sabe que eu só aceito esse dinheiro por ela ‘né’?
MARCO: Tenho certeza que sim...(sorri maliciosamente).
CORTA PARA
CLÍNICA NOVO HORIZONTE – CALÇADA [EXT.]
Marco, celular nas mãos, disca. Se afasta de algumas internas que tentam tocá-lo.
MARCO: Já está tudo resolvido...A doutora foi muito gentil em aceitar o presente.
CORTA PARA
CENA 22 ED. CIRANDA DE PEDRA [EXT.]
Cipriano, com a bolsa de Raíza e ao celular, pára perto do portão.
CIPRIANO: Muito bem, eu fiz a minha parte ao facilitar a matrícula dela...Satisfeito? O dia da Raíza foi um inferno.
MARCO (V.O): Teria ficado mais se a tal da Érica a tivesse ferido...
CIPRIANO: Humm...(tom irritado) Bom ver que você se esforça para conservar seus maus pensamentos...
Tocando: The Story – 30 Seconds To Mars ->

Ele desliga.
Do outro lado da linha, Marco inclina a mão devagar para baixo. Olhar sério.
CORTA PARA
CENA 23 APTº 403 [EXT.]
Cipriano toca a campainha.
Josué abre e indignado, ele sai pro corredor e encosta a porta.
JOSUÉ: Como ‘cê’ tem a cara de pau de aparecer aqui, hein? Já não basta no colégio?
CIPRIANO: Eu não vim discutir...E pelo que eu sei eu e o Bruno já nos entendemos.
JOSUÉ: Eu não duvido nada como essa história de ontem tem o seu dedo.
CIPRIANO: Ora, não venha me dizer que ficou preocupado com sua sobrinha ‘né’? Nós dois (ele enfatiza) Nós dois sabemos que não é ela o motivo da sua preocupação...
Josué não reage.
Raíza chega da porta e, Cipriano sorri simpaticamente deixando Josué sem graça.
CIPRIANO: Raíza, Bom dia...Trouxe seu material da escola. Com toda aquela confusão você acabou esquecendo.
RAÍZA: Ah não precisava ter se incomodado. Entre!
CIPRIANO: Ahn...Obrigado, mas eu só vim pra isso e...(Ele levanta a aba do celular)...Eu tenho a mania de tirar fotos do primeiro dia de aula e...
Cipriano exibe uma imagem da Érica antes dela entrar no colégio.
CIPRIANO: Será que esse que ‘tá’ com ela seria um parente? (finge).
[POV de Raíza]
Raíza fixa o olhar no rapaz da imagem.
RAÍZA: Camilo?
A imagem aproxima e ela vê a placa do carro. As mesmas do carro de Marco. Mas ela parece não reconhecer.
Olha para Cipriano, surpresa.
FADE OUT
FIM DO EPISÓDIO

 

Autora:

Cristina Ravela

Elenco:

Raíza (Maria Flor)
João Batista (Caio Blat)
Bruno (Juan Alba)
Josué (Caco Ciocler)
Cael (Michael Rosenbaum)
Marco (Pierre Kiwitt)
Rafaela (Fernanda Vasconscellos)
Ari (Nathália Dill)
Cipriano (Thiago Rodrigues)

Participação Especial:
 
Camilo (Sérgio Marone)
Drª Letícia (Carolina Kasting)
Érica (Marisol Ribeiro)
Professor (Dalton Vigh)

Trilha Sonora:

The Story - 30 Seconds To Mars

Produção:

Bruno Olsen
Cristina Ravela

Esta é uma obra de ficção virtual sem fins lucrativos. Qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência.


REALIZAÇÃO


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