0:00 min       RAÍZA     SÉRIE
30:00 min    


       WEBTVPLAY APRESENTA
RAÍZA


Série de
Cristina Ravela

Episódio 5 de 20




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FADE IN
CENA 1 RUAS DA CIDADE [EXT./NOITE]
A cena mostra ao longe, Raíza, João Batista e Dcr caminhando numa calçada. Dcr carrega um pacote com muito cuidado, pois seu braço está enfaixado. Raíza está com uma nova bolsa azul xadrez e o primo tem uma sacola em mãos.
JOÃO (olhos arregalados): Caraca, Dc! ‘cê’ esqueceu do presente do seu pai!
Dcr olha para os dois e esboça um sorriso sem graça.
DCR: É que...O meu pai está viajando e como ele viaja de um lado pro outro, nem tem endereço fixo...
RAÍZA: Ah é verdade! Eu tinha me esquecido que seu pai é representante de vendas ‘né’?
Bate um silêncio de repente. Continuam andando até que João quebra o silêncio.
JOÃO: O que vou escrever no cartão?...
RAÍZA: Um Feliz 2009 será um bom começo (sorri).
JOÃO: Mas isso já...
Dcr recebe um estalo divino.
DCR (espantado): Meu Deus! O cartão! Esqueci o cartão! Como fui esquecer de comprar? ...Preciso voltar lá no shopping!
JOÃO: Calma aí, cara...Por que você não faz um? Entende pra caramba de computador...
DCR: É João, mas não vou ter tempo... Quero entregar hoje, na virada...
João coça a testa, olha o relógio. Marca 20:00 hs.
JOÃO: Olha só gente, já tá tarde...Se vocês quiserem ir vão, mas eu vou pra casa, falou?
DCR (para Raíza): Você vem comigo ‘né’? (ele faz um gesto com a cabeça) Não é?
Raíza olha adiante o caminho de onde vieram e suspira.
RAÍZA: Ai Senhor...Tudo bem, eu vou.
Dcr sorri.
JOÃO: Bom, então tchau. E boa sorte pra vocês.
João segue a estrada, Raíza e Dcr andam no sentido oposto em passos largos. A garota está nitidamente ofegante.
RAÍZA: Ás vezes... Eu acho que se eu olhar pra trás vou ver meu corpo estirado na estrada...
DCR: Credo! Meu Deus! Você me assusta, sabia? Você me assusta...
Atravessam a rua e Dcr olha à direita, puxa a amiga em seguida.
DCR: Vamos por aqui! Essa viela vai sair nos fundos do shopping.
RAÍZA: Tá maluco, Dc? Essa viela é perigosa!
A garota é puxada pelo amigo, correm e passam ao lado de um muro decadente.
Ouvem um som de algo queimando. Dcr pára.
RAÍZA: O que é agora, Dc? Vamos embora daqui!
DCR: Você não tá ouvindo isso?
Raíza pára, olha para o alto aparentemente captando o som.
RAÍZA: Não! (é a vez dela puxar o amigo) ‘vambora’!
Dcr estaca, mira em um vão no muro e vai até ele.
RAÍZA: Minha Nossa! É hoje!
Dcr olha pelo vão e volta-se assustado.
DCR: Tem um carro pegando fogo, Raíza!
RAÍZA: Ai meu Deus! Vamos dar o fora, Dc! Eles devem ter roubado as peças e resolveram queimar o que restou da lata...
Dcr olha novamente e vê um braço batendo na janela do carro.
DCR: Tem gente viva lá dentro!
Dcr se prepara para passar pelo vão e Raíza o puxa pela cintura.
RAÍZA: Vai fazer o quê?
DCR: Ora! Salvar uma vida.
RAÍZA: Tá doido? Você pode se machucar também!
Dcr está com o pé do outro lado.
DCR: Você não pensou nisso quando salvou a vida de Marco...Pensou?
Dcr passa para o outro lado deixando a amiga sem reação.
Em seguida, ela também passa pelo vão.
DCR: Vamos, Raíza! Vamos pedir ajuda! Sei lá...(ele mira em alguma coisa no chão) Olha! Um pedaço de ferro!
Raíza avança e pisa em falso em alguma coisa.
RAÍZA: Ai droga!
A garota pula com uma perna só até o pedaço de ferro enquanto tenta tirar o caco de vidro de seu pé.
DCR: Anda logo, menina! (ele se estressa) me dá isso aqui! (Dcr acaba pegando o ferro mesmo com dificuldade).
VOZ MASCULINA: EI! O QUE PENSAM QUE VÃO FAZER?
Há um aglomerado de gente na porta do terreno do outro lado.
RAÍZA (põe a mão na cabeça): Ai não...Estamos fritos!
O homem é um policial. Raíza e o amigo recuam o passo.
DCR: Seu polícia, tem alguém vivo nesse carro! Faça alguma coisa!
O policial arranca o ferro de suas mãos e os surpreende.
POLICIAL: Vocês foram pegos em flagrante. Agora querem dar uma de bons samaritanos?
Raíza e Dcr se entreolham.
RAÍZA: Como é que é? A gente ouviu um barulho e viemos ver o que era.
POLICIAL (tom desconfiado): E o que vocês fazem por essa viela?...Não sabem que é perigoso?
DCR (nervoso): A gente tá perdendo tempo! Quebra logo a porra dessa janela!
Raíza arregala os olhos por aquele palavrão.
POLICIAL: Olha como você fala, moleque!
DCR: QUEBRA LOGO ESSA JANELA!
O policial, nervoso, dá um soco com o ferro na janela, quebrando-a.
Há um homem inconsciente, mas Raíza não consegue ver direito quem é por causa da fumaça.
O policial olha para eles, desconfiado.
DCR: Tá vendo? Aposto como tá morto! A culpa é sua!
POLICIAL: Isso é desacato! (ele apanha um rádio-transmissor do bolso da farda).
Dcr muda o semblante.
DCR: O que vai fazer?
POLICIAL: Vou ligar pra viatura. Você tá preso por desacato a autoridade e...(ele olha para o carro) quem sabe, homicídio culposo.
DCR: Isso é um absurdo! Eu não fiz nada! O senhor que deixou esse cara morrer!
POLICIAL: Tá me desacatando de novo?
DCR: Seu polícia...Meu pai tá doente, eu tô levando uns remédios pra ele (ele abre a bolsa) ele não pode ficar sem tomar.
O policial estica o olho e vê pacotes de remédios com tarja preta. Raíza olha, sem entender.
POLICIAL: Eu mando alguém levar pra você, mas vocês dois virão comigo.
Ele liga o rádio-transmissor.
Raíza e Dcr se entreolham e, em seguida, olham para a saída do terreno e dão uma corrida.
POLICIAL: EI! (ele saca a arma).
Os dois fugitivos correm pela alta estrada. Raíza está mais a frente, olha para o lado e rapidamente para trás. Nem sinal de Dcr.
RAÍZA: Dc?
Quando se volta, o ambiente muda.
RUAS DA CIDADE [EXT./MANHÃ]
Ela vai freando os passos e uma buzina soa muito perto. Ela se volta e um carro pára bruscamente rente ao seu joelho.
A moça apóia as mãos sobre o Toyota e o motorista abre a porta do carro assustado.
Raíza olha pra Cael com o mesmo olhar de quando se esbarraram pela primeira vez há quatro anos...
A tela se fecha num baque.





1X05 O ÚLTIMO DIA

FADE IN
CENA 2 RUAS DA CIDADE [EXT./MANHÃ]
CAEL: Raíza?...(tom preocupado) Você precisa prestar mais atenção...Eu quase...
RAÍZA (olhar fixo): De novo...
CAEL: Como?
RAÍZA: Isso já aconteceu antes. Agora lembro...Eu estava indo pra escola quando você quase me atropelou (ela põe a mão na cabeça) Meu Deus...tô lembrando... (de repente, ela o olha estranhamente) você não parece surpreso.
Cael titubeia e mostra-se impressionado com a cena.
CAEL: Ahn...
Ele faz que vai dizer algo, mas desiste ao percebê-la inquieta demais para quem acabou de se lembrar do passado.
Ela anda até a calçada com as mãos na cabeça, confusa. Cael a observa.
CAEL: Mas de onde você vinha ou para onde você vai tão apressada?
RAÍZA: Eu estava agora mesmo...
VOZ MASCULINA: Raíza!
A garota se volta e dá com Dcr atrás dela, de braço são e sem sacola. Aquela cena a deixa mais confusa ainda.
RAÍZA: Dc?...(Ela passa as mãos nos braços dele) Tudo bem contigo?
DCR: Eu é que te pergunto, ‘né’?
RAÍZA: Comigo tá tudo bem, mas...Onde você estava?
DCR (estranha a pergunta): ...No mesmo lugar onde você deixou a mim e o João plantado quando disse que ia ao banheiro lá no shopping...Não voltou mais.
Raíza vira para Cael que a olha com a mesma cara de quem não entende nada.
DCR: Eu sei por que você resolveu sair à francesa...O João debochou de seus sonhos e você ficou chateada.
RAÍZA: Eu?
DCR: Não...Minha vó (ele ergue o braço e olha pra cima) que Deus a tenha em sua Santa Glória...Claro que é você!
Cael se põe a rir.
CAEL: Eu não estou entendendo nada, mas não podemos ficar aqui parados. Aceitam uma carona?
DCR: Ah como não...(ele se dirige à porta do carro).
Cael observa e sorri para Raíza.
CAEL: Vamos?
A garota sorri um sorriso fechado e incômodo. Seu rosto sua, o sol de quase meio-dia a cansa.
FADE OUT
FADE IN
CENA 3 APTº 403 – SALA [INT./INÍCIO DA TARDE]
João está sentado no sofá com o telefone nas mãos. A porta é aberta e quando Raíza entra, João larga o telefone e dá um pulo do sofá.
JOÃO: Pombas, Raíza! Onde é que você se meteu? Já ‘tava’ quase ligando pro seu pai.
A garota nem dá ouvidos.
RAÍZA (afobada): João, diz pra mim: você veio embora do shopping e eu e o Dcr voltamos lá pra comprar um cartão, não foi?
JOÃO: Quando foi isso?
RAÍZA (gagueja): Ahn...Ho...On-ontem...
JOÃO: Que eu lembre você foi ao banheiro e não deu mais notícias...
A garota suspira.
JOÃO: Você deve ter sonhado...Tá uma pilha por que ainda não comprou o presente pro seu pai ‘né’?
RAÍZA: (Pausa)...É...É isso...
JOÃO: Mas por onde esteve? Por que não esperou a gente?
Raíza desvia o olhar, inquieta-o.
RAÍZA: Eu me perdi...
JOÃO (dá as costas): Isso que dá não ter um celular...
A garota, confusa, caminha até o...
QUARTO...
Joga a bolsa sobre a cama e se a joga nela.
Mantém o olhar parado, totalmente absorta.
RAÍZA (Em OFF): Não dá pra acreditar...Isso não pode tá acontecendo de novo, não pode!...Primeiro foi a formatura do meu pai, depois a suposta morte de Marco, agora...(assim como Dcr ela recebe um estalo divino) É isso!...
FLASHBACK:
SHOPPING [INT.]
Raíza sai do banheiro e não encontra nem Dcr e nem João. Anda de um lado e de outro os procurando. Olha para a porta e vê que é noite. Sai do shopping, avista um telefone público e alguém toca seu ombro.
DCR: ‘Cê’ sai do banheiro e nem dá satisfação, ‘né’? Quando vi você já estava aqui.
JOÃO: Vamos, gente! Tá tarde.
FLASHS RÁPIDOS:
Raíza e Dcr diante do carro em chamas, o policial arrebentando a janela, alguém dentro do carro inconsciente e ela e Dcr fugindo.
FIM DO FLASHBACK
Raíza senta na cama com olhar assustado.
RAÍZA: Eu fui ao futuro de novo!
CENA 4 APTº 403 – SALA [INT./TARDE]
Bruno está entrando em casa com sacolas de supermercados, João ajuda-o a levar para a cozinha.
Raíza surge do corredor e atravessa a sala rumo à...
COZINHA...
O armário é branco e verde. Tem uma galinha de porcelana no balcão de granito e é possível ver as xícaras através da porta transparente do armário.
Bruno coloca as sacolas em cima da tampa de vidro da mesa verde.
BRUNO: Ela já chegou do shopping? Nossa, pensei que ia demorar mais...
JOÃO: Ela se perdeu, acredita? Daqui a pouco vou ter que ir com ela até no quintal...
A garota surge à soleira da porta e entra.
RAÍZA (olha enviesado para o primo): Oi, pai...Comprou tudo que precisava?
Bruno abre todas as sacolas e pára com ar de desolado.
BRUNO: Eu não acredito!...Esqueci o vinho.
RAÍZA: Vou ali na esquina comprar uma sidra e aí tá tudo...
BRUNO: ...Sidra? Não faça uma coisa dessas! Eu não trabalho todo santo dia pra chegar no reveillon e tomar sidra.
João ri com o peito de peru nas mãos, abre a geladeira e o guarda.
RAÍZA: Mas vinho é caro! E a gente não vai receber visitas.
BRUNO: Sabe se lá...Já pensou se o Cael aparece aqui? Vou servir sidra pro homem?
JOÃO (risos): Imagine só! O cara deve tá acostumado com Scotch da vida e tem que engolir uma sidra (risos).
Raíza esboça vontade de rir.
RAÍZA: E quem disse que ele virá?...O cara tem a família dele...Que motivo o faria vir?
João vira o pescoço.
JOÃO: Desejar pessoalmente um feliz ano novo?
Bruno ri e Raíza abaixa a cabeça.
RAÍZA: Vou comprar o vinho...
JOÃO: ‘Peraí’ que vou junto!...Vá que você se perde...
Raíza bate com a mão na soleira da porta e sai. João acha graça e o tio também.
CORTA PARA
CENA 5 PONTO DE ÔNIBUS [EXT./TARDE]
Assim que Raíza e o primo chegam no ponto, o ônibus aponta da esquina e eles fazem sinal. O ônibus pára.
ÔNIBUS [INT.]
...Eles entram e Raíza paga ao motorista. Passa pela roleta e vê Dcr ao fundo.
RAÍZA: Dc!...(ela pára de falar ao vê-lo de braço enfaixado)...Ma-mas o que houve? Até a pouco...
DCR: Caí da escada...Não foi nada de mais, mas sabe como é minha mãe, ‘né’?
Raíza senta ao seu lado e João ao lado da prima.
JOÃO: Eu não sei como é sua mãe...Nunca a vi...
Dcr e a amiga olham pra João com um sorriso.
RAÍZA (preocupada): Hoje em dia temos que ter cuidado com tudo...
JOÃO: Viver é perigoso, prima...
A garota olha para frente, pensativa.
CORTA PARA
CENA 6 MANSÃO – SALA [INT.]
Cael está de frente pro bar, coloca whisky em seu copo e duas pedras de gelo. Pára com o copo na mão e olhar perdido.
MARCO (O.S): Pensando naquela louca que atravessou seu caminho de novo?
Cael se volta e vê Marco, com as mãos nos bolsos da calça caminhando em sua direção.
MARCO (pega uma bebida): Essa garota está muito próxima de você...Daqui a pouco você a colocará pra dentro da boate como fez com o Paulo...Que Deus o tenha...
CAEL: Será que nem no último dia do ano você deixa de me azucrinar?
Marco se serve, põe uma pedra de gelo e o olha de lado.
MARCO: Vou pensar no seu caso ano que vem...E quem sabe você presta mais atenção nas amizades que faz...
Marco dá as costas e Cael põe o copo com força no balcão e o olha, tentando manter a calma.
CAEL: Você devia estar preocupado com a nossa mãe que ainda não chegou.
Marco se senta, coloca a perna por cima da outra e tomba o corpo para o lado.
MARCO: Você ainda acha que ela virá? Se eu bem a conheço deixará pra vir no dia dos Reis. Você sabe que ela odeia viradas de ano. Ela sempre diz...
VALENTINA (O.S): ‘Todo mundo fazendo de conta que o ano novo será melhor’. (eles vêem Valentina adentrar a sala) A mãe de vocês é hilária.
Valentina beija seu namorado e Marco se levanta com cara de insatisfeito.
MARCO: Com licença...Vou tomar meu whisky em outro lugar...
Assim que ele sobe as escadas, Valentina abraça Cael pelo pescoço.
VALENTINA: Vamos passar o reveillon na minha casa?
CAEL: Acho que o Marco não vai se sentir muito à vontade...
VALENTINA (desvia o olhar): Isso que dá ele não ter uma namorada...
CAEL: Não se incomoda de passar com a gente aqui, não ‘né’?
Valentina esboça um sorriso sem graça.
VALENTINA: Uma reunião somente eu, você e seu irmão?...Bom, espero que no próximo reveillon o Marco já tenha uma namorada...
CAEL: Acho pouco provável, mas se isso fizer parte de um de seus pedidos pro novo ano...
Valentina abre um sorriso falso.
CORTA PARA
CENA 7 SHOPPING [EXT./TARDE]
Raíza, João e Dcr estão na calçada e Dcr sobe um degrau da escada.
RAÍZA: A gente tem que entrar aí mesmo?
JOÃO: Como assim ‘a gente tem que entrar aí mesmo?’
RAÍZA (apreensiva): A gente pode encontrar o vinho em outro lugar, não?
DCR: A gente já rodou tudo. O shopping é a única salvação.
João e Dcr sobem as escadas e lá no alto, olham para baixo.
JOÃO e DCR: Você não vem?
Os dois se olham por terem perguntado junto.
Raíza solta os ombros e sobe.
RAÍZA: Bom, já que tô aqui vou comprar as canetas pro meu pai e pro meu tio...
DCR: ...Canetas?
JOÃO: Com nome gravado, é claro.(ele se dirige a prima em tom debochado) ‘cê’ já havia dito isso...Imagine se você não lembra? Seu sonho não teria valido de nada...
Raíza o olha de mau humor, mas se contém.
RAÍZA: Ainda bem que lembrei ‘né’? Não é incrível?
DCR: Foi uma piada? (indaga, totalmente por fora).
RAÍZA: Ahn...Aproveita Dc e compra o cartão.
DCR: Caraca, Raíza! Se ‘tu’ não lembra...Parece até que adivinhou que eu ia esquecer...
A moça olha pro primo em tom sarcástico, enquanto se dirige ao amigo Dcr:
RAÍZA: Sonhei, acredita?
CORTA PARA
CENA 8 LUGAR DESCONHECIDO [INT./FIM DE TARDE]
O ambiente é mal iluminado, janela de vidro sujo, piso de cimento colorido. Poucos móveis e desses poucos eram velhos e sujos também.
Ouve-se a voz de um homem vindo de alguma parte da casa.
No quarto há uma cama de solteiro no canto e um homem de costas para uma cômoda. Ele está ao telefone.
HOMEM: Pra hoje ainda ‘né’? Pena que assim você detona com meu reveillon (O cara rir).
Sua voz é meio arrastada, densa. Apenas sua boca é mostrada com seu cavanhaque mal aparado e logo alterna para os óculos. Notamos que se parece com o mesmo cara que atentou contra Bruno.
HOMEM: Eu sei como fazer...Sem armas, nem sangue...Vou dar uma chegada nele e...Tudo bem, cara! Não darei detalhes, não...Vou esperar sua ligação...Espero que ainda hoje pra que me deseje um feliz ano novo. (Ele desliga com um sorrisinho de sacana).
A tela se fecha num baque.
FADE IN
CENA 9 SHOPPING [EXT./NOITE]
Raíza, João e Dcr, de sacolas nas mãos, descem as escadas, apressados. Dcr dá um pulo e faz sinal para o ônibus, mas acaba perdendo-o.
DCR: Pior que só tem 1 que vai pra onde a gente mora.
RAÍZA: Decadência viu...
Dcr ri e olha o relógio. Marca 19:40 hs.
JOÃO: Se a gente for a pé...
RAÍZA: Nem pensar!
Tanto João quanto Dcr arregalam os olhos.
JOÃO: Calma, foi só uma sugestão...
João olha fixo para a condução que se aproxima e faz sinal.
RAÍZA: Ah que bom! Espero que tenha vaga.
JOÃO: Isso se for a condução que queremos...
RAÍZA: Mas...
JOÃO (cont.): Não tô enxergando nada...
A van pára e a placa a frente marca o bairro onde eles moram: Jardim Santo Graal.
COBRADOR: Só tem uma vaga!
Os três se entreolham.
RAÍZA, JOÃO e DCR (um para o outro): Se você quiser...
JOÃO: ...Vai você Dc.
DCR: Que falta de cavalheirismo, João. É ela quem deve ir.
RAÍZA: Ih gente! Melhor o João ir viu; meu tio já ligou não sei quantas vezes pra ele hoje...Daqui a pouco ele está...
O celular dele toca.
RAÍZA: Não disse?...Vai logo vai João!
João entra na van, acena e parte, em seguida.
CORTA PARA
CENA 10 CASA Nº 1210 - SALA [INT./NOITE]
De costas, um homem fala ao telefone de forma alterada.
HOMEM: Como?...Meu irmão sofreu um acidente?...Em que hospital ele tá?...(ele alcança uma caderneta e uma caneta) pronto! Já anotei...
O homem desliga, pega a chave sobre o móvel e vira. É Camilo.
É um rapaz de uns 28 anos, barba por fazer, moreno e físico malhado.
Abre a porta e sai batendo.
CASA Nº 1210 [EXT./NOITE]
Alguém observa Camilo abrir o portão de dentro de um carro. O rapaz caminha pela calçada na rua deserta e olha para trás rapidamente.
CARRO [INT.]
Há um celular na mão do motorista e logo o guarda no bolso da camisa. Sua outra mão está na marcha e pelo retrovisor vemos os óculos escuros da pessoa.
Camilo coloca o pé para fora da calçada, o sujeito do carro engata a marcha e Camilo faz que vai atravessar.
O sujeito acelera, os pneus cantam. Camilo olha de súbito para trás, tenta recuar, mas o carro bate do seu lado o fazendo girar. Camilo cai no chão.
O carro pára, o sujeito abre a porta, sai e caminha até Camilo.
Além dos óculos escuros, ele usa sobretudo, tem cavanhaque preto, é magro e franzino.
Camilo está de bruços e começa a se mexer. Quando se vira, vê a imagem de um homem embaçada e em seguida, recebe um soco.
FADE OUT
FADE IN
CENA 11 SHOPPING [EXT./NOITE]
Raíza anda de um lado e de outro. Numa de suas idas e vindas pára diante de Dcr.
RAÍZA: Não aguento mais!...Meu pai deve tá uma pilha e a gente não consegue uma (ela enfatiza) condução.
DCR: O jeito é ir a pé ou tentar um táxi lá trás.
Ele põe a mão nos bolsos da calça e apanha uns trocados.
RAÍZA: Maldita hora que meu pai foi esquecer esse vinho viu...
Dcr conta o dinheiro que tem nas mãos.
DCR: Não adianta, Raíza; Virar o ano aqui é que não vou ‘né’.
Dcr a puxa pelo braço.
DCR: ...’Vambora!’
Eles correm, atravessam a rua e Dcr olha à direita, puxa a amiga em seguida.
Raíza estaca.
RAÍZA (Em OFF): Essa viela...Essa viela...Ai meu Deus...
DCR: O que foi, garota?...Vamos logo!
Dcr a puxa novamente a arrastando pela viela. Atenta, vê um muro decadente e aperta o passo.
Ouve-se o som de algo queimando. A garota não consegue ignorar.
DCR: Tá ouvindo isso, Raíza?
A garota nada responde. Dcr vai até o canto do muro onde tem um vão e volta-se assustado.
DCR: Tem um carro pegando fogo! (ele olha novamente)...E tem gente viva lá dentro!
A garota vê Dcr passar pelo vão e mesmo confusa, corre.
RAÍZA: ‘Peraí!’...
Assim que atravessa o vão, ela pára e olha pro chão. Consegue enxergar um caco de vidro.
DCR: Vamos, Raíza! Vamos pedir ajuda! Sei lá...(ele tosse).
A garota desvia do caco de vidro e avança em uma barra de ferro.
RAÍZA: Olha aqui!
CORTA PARA
CENA 12 TOYOTA [INT.]
Cael dirige com dificuldade. Um grupo de pessoas se junta próximo ao terreno e acontece um engarrafamento.
Cael pára o carro. Impaciente, abre a porta, desce e com a porta aberta observa o grupo excitado. Fecha a porta e caminha na direção deles tentando ver o outro lado.
CORTA PARA
CENA 13 TERRENO [INT.]
Raíza faz um sinal para que a pessoa de dentro do carro se afaste.
Olha adiante. Nem sinal da polícia. Somente o aglomerado de gente na porta do terreno.
Dá o primeiro soco com a barra.
DCR: Vamos, Raíza! Você consegue!
A garota tenta de novo, sem sucesso.
VOZ MASCULINA: EI! O QUE ESTÃO FAZENDO?
RAÍZA (murmura): Rápido Dc! Não deixa ele chegar perto!
Dcr olha confuso para ela e para o carro, mas vai até o policial.
A garota toma impulso, (efeito câmera lenta) leva o braço para trás (fim do efeito)e manda mais um soco quebrando, enfim a janela.
RAÍZA (grita): Tente socar com o pé, moço!
O homem bate o pé na janela e desiste, vencido pelo calor.
Raíza, no impulso, mete a mão na porta ardida em chamas. Ela geme de dor ou de calor, fecha os olhos com força, mas abre.
O policial, Dcr e o grupo de pessoas se aproximam. Cael faz o mesmo e olha estagnado para a cena.
A moça, ofegante, abaixa-se e estende sua mão para o rapaz.
RAÍZA (tosse): Vem! Eu vim te ajudar.
Ele sai do carro e se agarra na moça, cambaleando. Ela, atônita, o reconhece. É Camilo.
O rapaz a olha, incrédulo. A ambulância chega logo.
CAMILO (espavorido): Obrigado...(pausa)...Obrigado...Eu pensei que eu fosse morrer...
A garota não fala nada, ainda atônita.
O policial olha aquela cena, surpreso:
POLICIAL: Esse carro é blindado...É preciso ,mais ou menos, três homens pra arrebentar uma janela dessa...
DCR: Deve ter sido a emoção...Nessas horas qualquer um se supera em forças.
Cael corre até ela.
RAÍZA: Cael? (ela ainda está sob efeito do susto)
CAEL (mais atônito ainda): Como é que você fez isso?!
DCR: Raíza, você precisa ir pro hospital, olha suas mãos!
Raíza olha e vê, não só suas mãos, mas também seu pulso esquerdo vermelhos.
Cael a olha, admirado. Muito admirado.
A garota o olha também com ar medonho.
FADE TO BLACK
FADE IN
CENA 14 APTº 403 [INT./NOITE]
A porta é aberta. Josué e João Batista recebem Raíza, de mãos enfaixadas, Bruno e Cael.
O primo olha as mãos da prima de forma estranha.
JOÃO: Nossa Raíza!... Você se machucou muito?...As suas mãos...
BRUNO: Ela se queimou, mas logo ficarão boas.
CAEL (olha para a moça que desvia o olhar): Foi a coisa mais surpreendente que já vi.
JOÃO: Deve ter sido mesmo...
Josué troca um olhar com Bruno que faz o mesmo para com o sobrinho.
JOSUÉ: Bom, vou ver como tá o assado...
BRUNO: Vou com você!
Os três saem da sala e vão para a cozinha.
Ela se volta e fica de frente para ele.
Ouve-se o barulho dos fogos lá fora.
CAEL: Eu não sei, mas...Tenho a impressão de que você não está feliz pelo feito de hoje...
RAÍZA: Não, que isso...
CAEL: Modéstia? Se for isso juro que não conto pra ninguém...Fica entre mim, você, o Camilo...E também sua família, seus amigos, o policial...
RAÍZA (ri): Não é por isso, é que...É que...A gente nunca imagina que vai passar por isso...
CAEL: De novo?...
Ela não entende.
CAEL: Não é o primeiro que você salva...
RAÍZA: O mérito é todo do Dcr...Se ele não tivesse visto aquele carro pegando fogo...
CAEL: ...Você tirou o Camilo lá de dentro...Arriscou a própria vida. Quem hoje em dia faria isso?
RAÍZA: Você não faria?
Bate um silêncio. Só se ouve uma conversaria vindo da cozinha, o som do fogão sendo aberto, pratos na mesa.
CAEL: Talvez não. Eu pensaria se aquilo não fosse uma armadilha pra mim. Hoje em dia, a mão que se estende acaba nos levando pro fundo do buraco.
RAÍZA: É o que eu deveria ter pensado também.
Cael toca suas mãos enfaixadas.
CAEL: Não! Você fez o que todos deveriam fazer pelos outros. E graças a isso eu pude desfazer uma injustiça.
RAÍZA: Injustiça? Tá falando daquela...
CAEL: É, daquela vez que acusei o Camilo de roubar a empresa. Acredita que ele quis recusar minha oferta de voltar a trabalhar na boate?
RAÍZA(preocupada): Você ofereceu o cargo de volta?
CAEL: Você salvou a vida dele! Melhor que isso eu não posso fazer.
Os dois sorriem.
RAÍZA: Ele...(hesita) Aceitou?
CAEL: Ele hesitou um pouco, mas...Acabou aceitando.
RAÍZA (tom frustrante): Ah...Que bom...
RAÍZA (Em OFF): Eu não acredito que por minha culpa ele vai pôr o inimigo pra dentro da boate de novo...
CAEL: Parece que você não gostou muito...
RAÍZA: Ahn, não...É que...(ela engole a saliva) Dá um medo sabe...Ele podia ter...
CAEL: Você conseguiu. Isso que importa...
Ela sorri, abaixa a cabeça.
CAEL: Sabe, quando te vi forçando aquela porta tive a impressão de que você teve medo de não conseguir. Como se algo a impedisse de parar.
RAÍZA: Eu não tô...
CAEL: Você sonhou? Como daquela vez em que você sonhou ter visto seu pai...Morto.
Raíza molha os lábios, sem reação.
BRUNO (O.S): Você fica pro reveillon, Cael?
RAÍZA: Não pai, a família dele deve tá preocupada...(ela vira para Cael) Não é?
BRUNO: Liga pra eles e manda vir pra cá. O moço deve tá cansado de ficar dirigindo, não?
Cael e Raíza se olham.
CAEL: Se a Raíza quiser...
A garota sorri e olha pro pai que disfarça um sorriso também.
CORTA PARA
CENA 15 MANSÃO – SALA [INT./NOITE]
Marco, num canto, fala ao telefone, nervoso.
MARCO: Como é que você me deixa escapar aquele homem?
Do outro lado, o tal sujeito dono dos óculos escuros.
HOMEM: Eu não sei o que aconteceu direito! Parece que uma moça salvou o desgraçado.
MARCO (V.O): Não subestime a minha inteligência, Matias! O carro que você arrumou era blindado. Nem com a força de um só homem poderia arrebentá-lo!
MATIAS: Eu fiz tudo direitinho. Não tenho culpa se resolveram atrapalhar.
MARCO: Esse é o problema! Você faz tudo direitinho demais!
E desliga abruptamente.
O celular toca. Marco olha impaciente para o visor e vê o nome do irmão. Respira fundo e atende.
MARCO (falsa preocupação): Cael? Não me diga que resolveu ficar na casa da namorada?...(pausa) Como?...Você quer que eu busque a Valentina e a leve pro apartamento da Raíza? (nítido incômodo) Mas o que você faz aí?...Ela não vai gostar nem um pouco...Está bem! Vamos ver o que ela vai achar disso...
Ele desliga, olha pro celular meio insatisfeito e se vira. A empregada surge no corredor e pára diante dele. Ele se adianta.
MARCO: Não nos espere para o grande momento (tom sarcástico) jantem vocês.
Ele dá as costas, guarda o celular no bolso e pára.
MARCO: Ah...(ele se volta fingindo alguma importância) Feliz ano novo.
A empregada o vê sair.
CORTA PARA
CENA 16 APTº 403 [INT./NOITE]
Josué mostra para Cael um porta retrato onde estão os sobrinhos. Cael, com o copo de vinho na mão, observa a foto com ar criterioso.
CAEL: Eles não mudaram nada nesses últimos quatro anos...
Bruno passa por perto, pega educadamente o porta retrato, enquanto olha Cael.
BRUNO: É...Verdade...Essa juventude de hoje demora a amadurecer...
A campainha toca.
Raíza abre a porta e é encarada por Marco e Valentina.
RAÍZA: Entrem...
Na porta do lado de fora há uma guirlanda. Valentina dá um giro com os olhos pela sala; Há duas mesas unidas no centro no lugar da mesinha. Bolinhos de bacalhau, rabanada e alguns outros quitutes estão sobre ela.
RAÍZA: Não reparem...A casa é humilde...
MARCO (interrompe e sorri pra ela cinicamente): Não se preocupe; Não vamos reparar em nada.
A garota fecha a porta, pára, respira fundo e se volta.
Bruno, com a bandeja de copos de vinho, oferece às novas visitas a bebida. Marco pega o copo e Valentina também, com certa delicadeza. Assim que Bruno se afasta ela visualiza o copo.
VALENTINA (tom de desprezo): Pfff...Vinho em copo de cerveja...
Marco toma um gole, aprecia com experiência de quem entende do negócio.
MARCO: Pelo menos é de qualidade.
Bruno se aproxima de Raíza, ainda perto da porta e disfarça.
BRUNO (cochicha): Ainda bem que temos vinho, hein...
A garota sorri querendo rir.
JOSUÉ (para as novas visitas): Vamos sentar gente! Querem criar raízes aí?
Os outros riem. Marco se prepara para sentar quando o som de um celular o assusta. Ele senta e olha para o sofá.
Raíza vai até ele, os dois se encaram e ela sorri timidamente. Ele não retribui.
A garota pega o celular por detrás da almofada e vê no visor o nome ‘Dcr’.
RAÍZA: Licença...
MARCO: Toda...
Raíza caminha até a cozinha.
BRUNO: Mal ganha o celular e já deu o número pra alguém!
JOSUÉ: Aposto como é aquele...Aquele (ele estala os dedos tentando se lembrar)...Aquele lá!
JOÃO: Dcr! O senhor nunca consegue acertar o nome dele.
MARCO (tom de desprezo): Dcr é nome?
Os outros se entreolham com cara de quem não sabe responder.
Valentina cruza as pernas e sorri para Marco com vontade de rir.
CORTA PARA
CENA 17 APTº 403 – COZINHA [INT.]
RAÍZA (ao telefone): Pra você ver só; Tá todo mundo aqui...(pausa)...O seu pai ‘né’? Mas...Me diga uma coisa...Você...Enviou alguma coisa pra ele, digo, algum presente?...(pausa) Não?...Por quê?...
RAÍZA (flashback):
DCR: Seu polícia...Meu pai tá doente, eu tô levando uns remédios pra ele (ele abre a bolsa) ele não pode ficar sem tomar.
O policial estica o olho e vê pacotes de remédios com tarja preta. Raíza olha, sem entender.
FIM DO FLASHBACK
DCR (V.O): Raíza? Você ta aí?
RAÍZA (desperta da lembrança): Ah...É que... (João entra na cozinha e a olha meio de lado)
DCR (V.O): Você não me respondeu. Por que você perguntou isso?
RAÍZA: É que...Como ele não pode estar com vocês, você enviaria...Algum presente pra ele...
DCR: Ele não tem endereço fixo...’Cê’ sabe...(ele muda de assunto repentinamente) Ah você ligou pra Rafaela?
RAÍZA: Tentei, mas...Só dá ocupado. Amanhã eu tento de novo...(pausa)...Feliz ano novo pra você e sua família também.
CORTA PARA
CENA 18 APTº 215 – SALA [INT.]
Dcr desliga o celular, pára com o olhar fixo em alguma coisa.
VOZ FEMININA: O que houve?
Dcr vira o rosto para uma mulher loira, cabelos curtos na altura do pescoço, diante de uma mesa arrumada para o reveillon.
DCR: Nada não, mãe...É que às vezes a Raíza...Me surpreende...
FUSÃO PARA
CENA 19 APTº 303 – QUARTO [INT.]
A cena entra num quarto mal iluminado.
Ouvimos o som de teclado sendo digitado. O computador de costas esconde alguém.
É Rafaela que esboça um sorriso contemplativo e a tela é mostrada; Nele, um vídeo em que mostra Raíza salvando a vida de Camilo...
FUSÃO PARA
CENA 20 HOSPITAL – QUARTO [INT.]
Um médico examina o prontuário e olha para a cama ao lado.
MÉDICO: Você teve sorte, amigo. Não é qualquer um que se arrisca pra salvar um desconhecido...
O rosto do paciente é mostrado. Camilo aparenta medo.
MÉDICO: Você poderia estar morto, rapaz.
O médico se afasta até a porta e logo volta. Põe a mão no bolso do jaleco e tira um envelope branco.
MÉDICO: Já ia me esquecendo...Mandaram te entregar...Quem sabe não é de alguém da sua família?
Camilo pega a carta, olha e não vê remetente.
O médico sai e assim que fecha a porta, Camilo abre o envelope cuidadosamente.
Puxa a carta e há apenas uma frase digitada em letras maiúsculas:
HOJE VOCÊ TEVE SORTE...’
Tocando: A kind of Christmas Card – Morten Harket ->


Camilo se espanta e dobra a carta.
FUSÃO PARA
CENA 21 APTº 403 – SALA - varanda [INT.]
Diante dos risos de alguns e a cara amarrada de Marco e Valentina, está Raíza e o pai na janela.
Bruno tem em mãos um estojo aberto com uma caneta prateada. Tem o seu nome.
RAÍZA: Então acertei no presente, ‘né’?
BRUNO: É simples e ao mesmo tempo muito especial.
Os dois fazem silêncio. Ela olha para trás e vê Josué admirando uma caneta junto de Cael.
RAÍZA: Acho que meu tio também gostou da caneta...
Bruno sorri e nota Cael olhando para o lado dela.
Ela olha para o lado e a luz da explosão dos fogos de artifício ilumina seu rosto.
SALA...
Josué mexe a caneta e sorri meio sem graça para Cael. Observa que ele não presta atenção nele e sim, do outro lado.
JOSUÉ: Espero que este não esteja sendo o pior último dia do ano pra você...
Cael vira para ele e sorri mais sem graça que Josué.
CAEL: Pelo contrário. É o melhor dos últimos anos. (Ele faz uma expressão de pesar) A última vez que passei com tanta gente assim foi com meus pais...E tem muito tempo já.
JOSUÉ: Eles não moram aqui no Brasil, não?
CAEL: Não. Eles moram nos Estados Unidos.
JOSUÉ: Ah...Perguntei por causa do sotaque do seu irmão.
CAEL (sorrindo): Ele nunca conseguiu perder esse sotaque nesses oito anos que está no Brasil. Talvez por que ele nunca quis vir pra cá, quem sabe.
JOSUÉ: Deve ser muito difícil para alguém se acostumar num país diferente. Ele tem cara de quem adora um país de primeiro mundo.
Os dois riem.
CAEL: Na verdade ele nasceu na Alemanha assim como (ele aproxima o rosto e fala baixo) meu pai. Marco não gosta muito que eu chame o pai dele assim...
Josué se mostra surpreso.
JOSUÉ: São meio irmãos? Isso explica o porquê de você ser mais sociável que ele.
Eles riem alto e os outros observam.
VARANDA...
RAÍZA (olhando para o tio): Parece que o Josué tá se dando bem com ele, né?
BRUNO: Tanto quanto você gostaria?
RAÍZA: Hã?
BRUNO: Ahn...O Josué sempre gostou de receber bem as pessoas...
Raíza vira o rosto para o lado dos fogos, inquieta-se.
RAÍZA: Pai...(pausa)...Eu sabia o que ia acontecer com aquele cara...O Camilo...Eu vi tudo...Eu...(pausa)...Vivenciei.
BRUNO: Mas de novo, filha?...(pausa, olhar preocupado) Você tem certeza que não...
RAÍZA: Não, não foi um sonho!...Mas por incrível que pareça não foi isso que me chamou atenção. (ela murmura) Eu toquei no fogo e não sofri nada.
BRUNO: Como assim ‘nada’?
RAÍZA: Nada! Quero dizer...Só senti calor...Mas me queimar...Não me queimei. O que tá acontecendo, pai? Será que eu tô com alguma doença?
BRUNO (tom de dúvida): Se for é uma doença que te faz salvar vidas...
Os dois fazem uma longa pausa. Raíza olha para o céu e torna a olhar pro pai.
RAÍZA: Pai, se o senhor salvasse a vida de alguém, mas esse alguém não fosse uma boa pessoa? O que faria?
BRUNO: Salvar a vida de alguém é uma benção, filha. Não há razão no mundo que justifique deixar que alguém morra.
RAÍZA: Nem mesmo a própria vida?
Josué, com um copo de vinho, se aproxima sorrateiro.
JOSUÉ: Aí depende da pessoa ‘né’?
Eles riem.
SALA...
Marco, sentado e com o copo na mão, está com ar de curioso e atento para algo que João diz.
MARCO: Quer dizer que a Raíza salvou o Camilo?
JOÃO: E não é? Eu não entendo como da noite pro dia ela passou a dar uma de Clark kent, salvando gente desconhecida.
VALENTINA: Ela não era assim?
JOÃO: Não que eu saiba.
MARCO: Todos agora a vêem como a boa samaritana. Deve estar no sangue essa vontade de ajudar o próximo, não?
JOÃO: É verdade. Meu tio Josué ajuda os alunos a não serem burros e o outro ajuda a construir um bom lugar garantindo segurança aos moradores.
Valentina ri, mas Marco não acha graça. Sorri para não deixar transparecer seu descontentamento e se levanta.
MARCO: Com licença.
Marco põe o copo sobre a mesa, chega na varanda com um sorriso cínico e olhar imponente.
MARCO: Parabéns Bruno; O jantar estava maravilhoso.
RAÍZA: Ele é um ótimo cozinheiro.
BRUNO (sorri envergonhado): Que isso, filha; Eu só faço o que posso.
MARCO (falsa simpatia): Como sua filha...Ela sempre faz o que pode, não é?
Marco e Raíza se encaram rapidamente, de novo.
CAEL (com o copo na mão, mira na garota): Ele deve estar se referindo ao feito dela de hoje. (ele deixa escapar um tímido sorriso) Foi um grande dia. Aliás, (ele se volta para a direção da namorada e do João) Vamos fazer um brinde! Já está quase na hora.
Todos se reúnem na varanda. Marco pega seu copo sobre a mesa e junto aos demais ergue o copo.
BRUNO: Além de saúde, paz e dinheiro (ouve-se risos) Alguém quer fazer algum pedido especial pra esse ano?
Do silêncio que se faz resta o som dos fogos de artifício.
CAEL (sorri feliz): Que seja melhor do que esse que se vai.
MARCO: E você, Raíza? Não vai desejar continuar salvando vidas com seus super poderes? (sorriso sarcástico).
A garota engole a saliva e os dois se fitam por alguns segundos. Valentina disfarça um sorriso.
RAÍZA (sorri disfarçando o desconforto): Espero não ter que usá-los...
O silêncio é geral. Marco faz aquela cara de quem não entendeu.
RAÍZA (cont.): ...Meus super poderes!
Os outros riem e Valentina ri de deboche para Marco.
CAEL: Identidade secreta descoberta no último minuto!
Marco força o riso enquanto os outros riem com vontade e erguem as taças para brindarem. As taças tilintam ao mesmo tempo em que se ouve o som dos fogos que explodem a todo vapor.
A cena vai se afastando enquanto Marco e Raíza se fitam por instantes. Ela, sorrindo, vira-se para o lado de Cael.
Vistos de longe, a cena sobe e explosões dos fogos iluminam o céu.
FADE OUT
FIM DO EPISÓDIO
 

Autora:

Cristina Ravela

Elenco:

Raíza (Maria Flor)
João Batista (Caio Blat)
Bruno (Juan Alba)
Josué (Caco Ciocler)
Cael (Michael Rosenbaum)
Marco (Pierre Kiwitt)
Valentina (Alinne Moares)
Rafaela (Fernanda Vasconscellos)
Dcr (Aaron Ashmore)
Cipriano (Thiago Rodrigues)

Participação Especial:

Camilo (Sérgio Marone)
Matias (Ângelo Paes Leme)


Trilha Sonora:

A kind of Christmas Card – Morten Harket

Produção:

Bruno Olsen
Cristina Ravela


Esta é uma obra de ficção virtual sem fins lucrativos. Qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência.


REALIZAÇÃO


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