Gato Preto-Capítulo 02

    0:00 min       GATO PRETO     CAPÍTULO 2
32:00 min    


CYBERTV APRESENTA
GATO PRETO


Minissérie de
Cristina Ravela

Capítulo 2 de 13







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ATO DE ABERTURA
FADE IN
CENA 1 EXT. - CASARÃO / FAZENDA SANTOS – DIA
Pouquíssimos convidados fazendo buchicho, curiosos. Alguns até comendo os quitutes que sobraram.
CORTA PARA
CENA 2 INT. - CASARÃO / FAZENDA SANTOS / SALA – DIA
Ampla, com chão de taco, móveis rústicos, ambiente fechado, bem diferente da sala da fazenda Guerra.
Avelino sentado, nitidamente incomodado e impaciente; No canto, próximo ao corredor que leva à cozinha, estão Maria José e Cícero fofocando e olhando para Maria Alice, isolada no canto, perto da porta.
Corta imediatamente para o
SEGUNDO PISO, EM UM CORREDOR
Onde Alessandro e Mazinho, ao lado de uma porta, cochicham.
           MAZINHO
Tu tá achando também que isso teve o dedo da Alice?
           ALESSANDRO
Com toda a certeza, tio! Meu pai mandou a garota embora, e aí ela volta bem atrás da Catarina? Ela deve ter falado alguma coisa que a deixou perturbada, com certeza.
           MAZINHO
Vamos combinar que ela nunca soube cavalgar direito né? (imita)
Sempre meio capenga, meio pro lado (ri).
           ALESSANDRO
Não fala assim, tio. O João não ia dar um cavalo de puro sangue se ela não soubesse cavalgar né?
           MAZINHO
Sei lá. Acha que a queda foi grande?
           ALESSANDRO
Foi terrível. A propósito, onde o senhor tava hen? Precisava de um apoio moral e o senhor nada.
           MAZINHO
Ué, eu tava por aí. Festa chata e a certeza da sua desgraça. Ia tá lá pra quê?
Mazinho desvia o olhar, mas Alessandro não tem tempo de responder. A porta é aberta. Um médico encara ambos, desolado e SAI. Alessandro e Mazinho OUVEM o choro vindo lá de dentro.
CORTE DESCONTÍNUO
DE VOLTA À SALA
Alessandro desce as escadas, rápido, furioso. Mazinho atrás.
           ALESSANDRO
Isso não teria acontecido se ela não tivesse vindo.
TODOS em alerta.
           MAZINHO
Olha o que tu vai fazer, garoto!
Alessandro vai pra cima de Alice, muito alterado.
           ALESSANDRO
Tá satisfeita, garota? É pra isso que você voltou? Pra completar a desgraça?
           ALICE
Por que cê tá falando assim? Como tá a Catarina?
Alessandro agarra seu braço, ríspido.
           ALESSANDRO
Como você acha que ela tá? Ela tá morta! MORTA!
Baque em Alice. Ela cobre a boca, penalizada. Todos na sala se surpreendem.
           ALICE
Alguém atiçou o cavalo, eu vi.
           ALESSANDRO
Você viu, é? Viu? Você tem culpa nisso. Você tem culpa nisso!
Noel chega de surpresa já apontando o dedo.
           NOEL
Eu quero ver você provar isso!
Olho no olho. Cortes alternados entre os presentes.
           ALESSANDRO
Olha quem chegou! Tava onde? Dando um tempo pra ninguém desconfiar de nada?
           NOEL
Tá me acusando de alguma coisa?
Alessandro abre os braços, olha para todos.
           ALESSANDRO
Não parece óbvio? Os dois são escorraçados daqui, e de repente voltam justo no momento em que Catarina cai do cavalo? Que tipo de suspense vocês andam assistindo pra nem saberem disfarçar?
            ALICE
O mesmo que você deve ter usado para fingir tanto drama? Você não queria o casamento, aí a garota aparece morta?
            ALESSANDRO
Isso você não pode provar, mas todo mundo viu você chegando logo atrás dela. Isso é incontestável.
           AVELINO
CHEGA!
Avelino levantando-se, irado.
           AVELINO
A desgraça já foi feita. Vocês dois, fora! Quero os dois o mais longe possível daqui.
           NOEL
(debocha)
Mais longe? Como posso ir mais longe se meu coração aqui permanece?
Avelino se enfurece e avança sobre eles.
           AVELINO
Não me venha com essas frases feitas, anda, fora!
Ambos são enxotados para o
EXTERIOR DO CASARÃO
Onde são encarados pelos poucos convidados. Alice e Noel descem as escadas, quietos, sem olhar para trás.
           AVELINO
E saibam que desta vez eu não pretendo amenizar o lado de vocês com a polícia. Ouviram?
Alice e Noel apenas seguem até atravessarem a tela.
Em Avelino, Mazinho e Alessandro assistindo a cena.
FADE OUT
FIM DO ATO DE ABERTURA

CAPÍTULO 2
DOIS PESOS, DUAS MEDIDAS

PRIMEIRO ATO
FADE IN
Vista aérea da zona rural, muito verde, sítios e fazendas. Até encontrar a Fazenda Guerra/
CENA 3 EXT. - CASARÃO / FAZENDA GUERRA – DIA
Uma pickup preta estacionando alí. Paulo a postos, preocupado, observa Helô, Alice e Noel saindo do carro, desolados, expressão de choro.
Helô nem bate a porta.
           HELÔ
Paulo, pode deixar o carro aqui mesmo. Não vou demorar.
           PAULO
Sim, senhora.
Helô, Alice e Noel entram no casarão. Em Paulo, confuso.
CENA 4 INT. - CASARÃO / FAZENDA GUERRA / SALA – DIA
Helô sentando-se, angustiada. Noel ao seu lado, apoiando. Alice não para quieta.
           HELÔ
João não cansa de se culpar, coitado. Falei tanto pra ele não se precipitar, que a Catarina não tava preparada pra montar um puro sangue, mas /
           NOEL
(por cima) Mãe, a culpa não é do João. E de mais a mais, cavalo é cavalo quando é atiçado. A Alice garante ter visto alguém dar um soco de vara no lombo dele.
           ALICE
(agitada) Alguém conhecido, com certeza. Ela falava com ele normalmente, quando foi surpreendida. Aquilo não foi um acidente!
           HELÔ
Mas quem ia querer a morte dela? Ela sempre foi uma garota bacana, nunca mexeu com ninguém.
           NOEL
Pra algumas pessoas, basta a gente tá vivo pra sermos alvos. E eu não ponho minha mão no fogo por aquele Mazinho.
           ALICE
Eu ouvi muito bem esse Mazinho dizendo que se o casamento acontecesse, ele daria um jeito nela. O que não entendo é por que o Alessandro ameaçou dar a parte dele da herança para a Catarina, se pretendia não casar de verdade.
           NOEL
É porque foi apenas uma ameaça. Parece que tem jogo aí no meio.
           HELÔ
Vamos deixar que o João decida o que será feito. Se não foi acidente, a polícia vai ter que apurar.
No olhar de cada um, até a CAM BUSCAR Paulo, espreitando-se na janela, ouvindo a conversa. Ele SAI, rapidamente.
CENA 5 INT. - CASARÃO / FAZENDA SANTOS / QUARTO DE ALESSANDRO – DIA
Catarina, deitada na cama, ainda trajando o vestido de noiva, sujo. Nem parece morta. CAM revela Maria José a observando, de pé e roendo a unha.
O quarto é grande, arejado, com móveis modernos, mas de tonalidades rústicas. Janela dando para uma pequena varanda.
Maria José se aproxima, curiosa.
            MARIA JOSÉ
(murmura) Parece que tá dormindo. Aposto que morreu virgem (tapa a boca, controla o riso). Achou mesmo que ia ter o Sandrinho todo pra você, né? Bobinha. Daqui a pouco, só os vermes vão querer te comer.
BARULHO da porta abrindo. Maria José se recompõe, força a expressão sofrida. João e Cícero adentram.
            JOÃO
Muito obrigado por ter ficado com ela. Eu sei que parece estranho, mas não me sinto bem deixando minha filha sozinha neste lugar.
Maria José toca o ombro de João, se solidariza, falsamente.
            MARIA JOSÉ
Eu entendo, tio. Sinto muito.
Ela o abraça e dá as costas. Dá uma olhada de tédio para Cícero e este sorri, sacando a falsidade. João se senta na beirada da cama, segura na mão de Catarina.
            CÍCERO
O Avelino disse que tá providenciando o velório. Não vai trocar a roupinha dela?
            JOÃO
A Helô já foi ver isso.
(T) Perdi minha única filha, Cícero. (limpa as lágrimas)
Avelino deve tá rindo por dentro.
            CÍCERO
Não diga isso, irmão. Avelino é turrão daquele jeito, mas não ia rir de uma coisa dessas.
            JOÃO
Eu bem sei como ele é.
(close em sua expressão de rancor) Minha filha não merecia esse fim. Não merecia.
DESFOQUE para Cícero, lamentando.
CENA 6 EXT. - CASARÃO / FAZENDA GUERRA – DIA
Alice SAINDO com uma pequena mala, olha para a direção da porta.
            ALICE
VOU ESPERAR NO CARRO!
Alice se aproxima do carro, coloca a mala na carroceria. Paulo se aproxima, sorrateiro.
            PAULO
Senhorita!
            ALICE
Paulo! Que susto...A gente tá voltando lá /
            PAULO
A senhorita acha que a dona Catarina foi assassinada mesmo?
Alice hesita, ajeita os cabelos, sem saber o que responder.
            PAULO
Pode falar. Mataram ela, né?
            ALICE
Olha, eu não sei o que você ouviu, mas ainda não posso afirmar nada. Não tenho provas /
Paulo dá um soco na lataria do carro, inconformado.
            PAULO
Bem que a dona Tina avisou! A dona Catarina não tinha nada que casar.
            ALICE
Dona Tina? Tá falando daquela cartomante que previu uma desgraça pra Catarina?
            PAULO
(interessado)
Então ela te contou? Dona Tina não erra uma, e mesmo a menina acreditando nela, não desistiu do casório.
            ALICE
É...Parece que só eu não fui com a cara dela. Mas ela acertou em cheio, né?...
            PAULO
Tomara que o patrão consiga pegar o culpado. A senhorita tem ideia de quem seja?
Alice olha para trás, pensativa.
            ALICE
Eu não. Mas talvez alguém saiba.
Ao fundo, Paulo ouve, atento.
CENA 7 EXT. - CABANA – DIA
Uma trilha estreita, cercada por arvoredos e pés de bambu. O feixe de luz solar adentrando pelas folhagens nos faz enxergar uma fina poeira levantando do chão. Adiante, no alto, a cabana de madeira coberta por sapê e sustentada por toras; Logo abaixo, espaço para algum carro.
Alice caminha com cuidado, mas seus passos fazem barulho ao pisar em folhas secas. Ela vai em direção a uma escada.
CORTA PARA
CENA 8 INT. - CABANA – DIA
Alice dá uma leve batida na porta. A CAM dá uma geral na SALA, paredes com belos quadros de pintura a óleo, sofá amarelo, até chegar numa mesa redonda na qual está uma mulher.
            MULHER #1
Eu sabia que tu voltaria, menina.
Alice vai até ela, uma mulher de 50 anos, branca, olhos castanhos, cabelos longos e loiros. Muito bonita, apesar dos trajes neutros, envolvido por um manto verde. Na mesa, baralho cigano já aberto com três cartas dispostas.
            MULHER #1
Sente-se.
Alice se senta, encarando a cigana.
            ALICE
(incisiva)
Já soube que a sua previsão deu certo, dona Tina?
            TINA
E recebi a notícia com muita tristeza, menina.
(olha para as cartas)
Mas estava no destino. Ninguém podia impedir.
            ALICE
(por cima / irada)
Ninguém nasce destinado a ser assassinado!
(as duas se encaram) Catarina era boa, amiga de todo mundo, só queria união e paz entre as famílias.
             TINA
Não há paz quando as pessoas não querem, Alice. Ninguém busca paz fazendo guerra. Em lugar algum.
             ALICE
Eu vim buscar a paz. Só me dizer quem matou Catarina. Prometo que não vou mencionar o seu nome.
Tina mexe nas cartas já dispostas.
             TINA
Não é assim que funciona, Maria Alice. As cartas não me revelam tudo.
             ALICE
(alterada) Entendi, a senhora só vê desgraça aí, né? Toca o terror, faz um drama, depois diz que não sabe de nada, entendi. O que tá vendo agora? O assassino sem rosto saindo impune?
             TINA
O que vejo é que você precisa partir. Você está no meio de um berço de lobos, menina. Vá, enquanto é tempo.
             ALICE
Como pode me pedir isso? Uma garota foi assassinada /
             TINA
(por cima) A ambição cairá por si só. Se você ficar, sofrerá muito. Aquele chão, há muito, está manchado de sangue.
Alice soca a mesa e se levanta, indo em direção à porta.
           TINA
É pro seu bem.
Alice para, mas nem olha. Vai embora.
Em Tina, ainda encarando as cartas.
FADE OUT
FIM DO PRIMEIRO ATO

SEGUNDO ATO
FADE IN
CENA 9 INT. - FAZENDA SANTOS / ESTÁBULO – DIA
Alguns cavalos agitados, presos em seus cercados. A medida em que a CAM avança, COCHICHOS e RISOS se tornam mais próximos. Em um chão coberto por palhas, Mazinho e Maria José rolam, aos beijos.
           MARIA JOSÉ
Se nos pegam aqui…
           MAZINHO
Ah, tá todo mundo cuidando da defunta lá. Vamos aproveitar, porque amanhã temos que fingir drama no enterro.
Maria José dá a sua risadinha, safada. Os dois se agarram de novo.
CENA 10 INT. - CASARÃO / FAZENDA SANTOS / SALA – DIA
Helô entra, seguida por Noel, este segurando uma mala. Alessandro já chega apontando o dedo, Walter tenta contê-lo, mas não consegue.
            ALESSANDRO
Será que o meu pai não foi claro com vocês?
            HELÔ
Por favor, filho, ele só veio me ajudar.
            ALESSANDRO
E a Alice não veio junto? Ou tá à espreita?
            WALTER
Alessandro, não é hora pra brigas, por Deus!
Avelino sai de um corredor, de cara amarrada, como sempre.
            AVELINO
Será que eu vou ter que falar grego pra você entender?
            NOEL
Eu vou embora /
Helô segura seu braço.
            HELÔ
Você fica. (para Avelino) Ou será que você também tá me expulsando?
Na troca de olhares entre eles.
FADE OUT
FADE IN
CENA 11 EXT. - CASARÃO / FAZENDA SANTOS – NOITE
Alice vem caminhando, cansada. Noel aparece da porta e vai até ela, curioso.
            NOEL
Alice! Onde esteve?
            ALICE
Fui tentar resolver um assunto. Em vão.
           NOEL
Vem, vamos entrar.
            ALICE
Melhor não. Tá muito difícil ficar lá dentro quando você sabe que existe um culpado por essa morte e que não foi a gente.
           NOEL
E vai ficar aqui? Prometo que depois a gente vai dormir na outra fazenda, ok?
Alice faz a pensativa.
           ALICE
Cê vem comigo?
Em Noel.
CENA 12 INT. - FAZENDA SANTOS / ESTÁBULO – NOITE
ÂNGULO ALTO – Mazinho, sem camisa, deitado ao lado de Maria José, de calcinha e sutiã.
            MARIA JOSÉ
Que fofoca! Eu achava que a implicância do Avelino era só por conta do passado da Alice. Quer dizer que ele tem medo que ela descubra a verdade?
            MAZINHO
Avelino é um velho safado. Aposto contigo que foi ele que armou toda aquela papagaiada pra expulsar a garota daqui.
            MARIA JOSÉ
Mas e o Noel? Por que foi deserdado mesmo? Nunca entendi.
            MAZINHO
O moleque ficou do lado dela. O pai ameaçou deserdá-lo, se ele fosse atrás dela. Dito e feito.
            MARIA JOSÉ
Que desapegado hen.
            MAZINHO
Fui tomado pela emoção.
Ambos gargalham.
ALTERNA PARA
O EXT. DO ESTÁBULO
Onde Alice e Noel se aproximam.
           NOEL
Acha que pode encontrar algum vestígio do assassino aí?
           ALICE
Sei que parece besteira. Se for alguém da fazenda, vestígios é o que não vão faltar.
OUVIMOS risos.
Alice e Noel estranham, mas avançam até a porta.
ALTERNA PARA
O INTERIOR
Em Mazinho e Maria José, distraídos; Em segundo plano, Alice e Noel, afastados, mas atentos.
            MAZINHO
To dizendo. Se Alice descobre que o Avelino roubou os irmãos e que isso tudo aqui é fruto de uma herança que também pertence a Tarsila...Cara...Vai dar ruim, mas tão ruim, que tu não ia querer ver.
            MARIA JOSÉ
Mas ela ia poder fazer o quê? Avelino é mais influente aqui do que os políticos da cidade.
            MAZINHO
Ora, imagina o que é descobrir que o cara que te odeia tem o rabo preso? Prato cheio pra garota não sair daqui nunca mais.
            MARIA JOSÉ
(acha graça) Ai, que horror!
ZOOM IN em Alice, chocada.
FADE OUT
FADE IN
Sol surge no horizonte. Takes da praia, os bares próximos abrindo, pessoas entrando num ônibus, tudo com uma certa morbidez no ar /
CENA 13 INT. - CEMITÉRIO – DIA
ÂNGULO ALTO – Muita gente cerca o caixão sendo levado por João, Alessandro, Avelino e Walter, todos trajando luto.
CORTE DESCONTÍNUO
As pessoas diante do caixão, ao lado do jazigo de mármore cinza. O padre Batista com a bíblia, faz teu discurso.
            BATISTA
Deus, Pai, todo Poderoso, estamos reunidos este dia para recordar a vida preciosa de Catarina Guerra dos Santos. Nos reunimos também para despedir-nos pela última vez e celebrar a vida que ela viveu aqui na terra e agradecer-te por todos os momentos e lembranças que temos dela. Oramos para que tua paz e presença esteja presente entre nós agora e oramos em nome de Cristo. Amém.
Cortes descontínuos em João, chorando ao discursar, sem que possamos ouvir; A vez de Helô, que mantém uma postura firme. João a abraça, desconsolado. Chega a vez de Cícero, com semblante de quem lamenta muito.
            CÍCERO
Catarina era uma menina muito doce, sabe? Super da paz, do tipo que sofria as dores do mundo e que não fazia questão de quase nada. Só queria paz. Que descanse em paz, minha flor.
Maria José, trajando um vestido curto e preto, bem provocante, esconde o riso; Alice, abraçada a Noel, faz cara feia para o discurso e vai até Cícero. O velho sai de perto, rapidinho.
           ALESSANDRO
O que tu vai falar aí, garota?
Walter o cutuca, Alessandro se chateia.
           ALICE
Catarina era quase como minha irmã. Passei dez anos fora porque fui expulsa daqui pela minha própria família.
Avelino resmunga; Alessandro e Mazinho debocham.
           ALICE
Mas resolvi atender ao pedido dela, e voltei. Voltei para vê-la pela última vez. Catarina realmente gostava do noivo (Alessandro abaixa a cabeça, sem graça) a ponto de ignorar uma previsão: Dona Tina, que muitos aqui conhecem, anunciou sua desgraça caso ela casasse.
Muitos BUCHICHOS, pessoas chocadas. O padre, sem ação.
           ALICE
A cartomante que ela mais confiava, e ela ignorou. Eu vi o cavalo dela sendo atiçado /
           ALESSANDRO
Você vai insistir nisso?
           ALICE
(corta / altera a voz) Dona Tina não previu um acidente, previu um crime! Um crime!
Em João e Helô, impressionados. Alessandro avança sobre Alice, Walter tenta conter.
           ALESSANDRO
Você vai parar de falar besteira, e vai ser agora!
O rapaz pega Alice pela nuca e vai empurrando-a.
           WALTER
Para com isso, seu moleque! Não te ensinei a tratar mulher nenhuma assim!
           ALICE
A verdade doeu, é Alessandro?
           NOEL
Solta ela!
Noel empurra o irmão. Ambos se encaram, com ódio.
           ALESSANDRO
(provoca) Tá defendendo sua amante, né irmãozinho? Quanto ela tá valendo pra você posar de galo pra cima de mim, hen? Ela dá quanto pra você?
Noel tenta dar um soco, mas Alessandro desvia e acerta uma JOELHADA em sua barriga. Noel vai ao chão, se contorcendo de dor.
Forte clima.
            ALESSANDRO
Você não pode comigo, garoto. Olha o seu tamanho e olha o meu.
            ALICE
Seu estúpido! Covarde!
Walter ajuda Noel a se levantar.
            NOEL
Você é tão pobre de caráter que já está exalando.
            JOÃO
(para Helô) Meu Deus, quanta baixaria. Minha filha não merecia isso.
            AVELINO
Quem tá exalando aqui são vocês. Respeitem a dor do nosso amigo João.
            ALICE
Amigo? (ri) Você ouviu isso, Noel?
            NOEL
(sarcástico / dor) Minha barriga dói sem eu precisar rir.
            WALTER
Por favor, vamos parar?
            AVELINO
(ignora) Vocês não tinham nem que tá aqui. Eu avisei que ia dar merda. Querem envergonhar minha família diante dos meus amigos.
            ALICE
Ué, seus amigos sabem que o senhor é ladrão?
BAQUE. Avelino chega a tremer o canto da boca, de ira. Walter, Mazinho e Alessandro cruzam olhares. Forte tensão.
            AVELINO
O que foi que você disse?
            ALICE
O senhor roubou a herança dos seus irmãos, roubou a minha mãe e vem dizer que eu e o seu filho envergonhamos a sua família que é a nossa família? Isso tudo que o senhor tem pertence a cada um dos seus irmãos, (bate no peito) pertence a mim, pertence a seus filhos. Se acha que fui bandida, tenho a quem puxar!
            AVELINO
(resmunga baixo) Vadia!
Avelino lhe dá um TAPA, Walter ampara a garota. Começa a confusão. Alessandro contém Avelino, mas este ainda tenta ir pra cima de Alice.
            AVELINO
Isso é falta de uma boa surra!
Mazinho segura, mas acaba empurrado, se desequilibra e CAI certeiro na COVA.
            NOEL
Ih olha lá! Coube direitinho.
Walter acaba rindo. Algumas pessoas também.
Ao fundo, o padre Batista observa. Em João e Helô pasmados com o escândalo.
FADE OUT
FIM DO SEGUNDO ATO

ATO FINAL

FADE IN
Em dois carros de polícia a frente do casarão da Fazenda Santos /
CENA 14 INT. - CASARÃO / FAZENDA SANTOS / ESCRITÓRIO – DIA
Estão reunidos Avelino, sentado atrás da mesa; João, Walter e Alessandro ouvindo, atentos, um policial (moreno, 40 anos, alto, boa pinta). Estes de pé.
            POLICIAL
Agilizamos a perícia a pedido do seu Avelino e constatamos que a cela do cavalo estava solta. Foi um lamentável acidente. Sinto muito.
            JOÃO
Acidente? Maria Alice afirma que viu alguém atiçar o cavalo. Isso não foi acidente.
            POLICIAL
Maria Alice…? Seria a mesma que /
            AVELINO
(pouco caso) Sim, Lucas. A mesma.
            LUCAS
Essa menina estava...Bem quando garante ter visto a cena?
            JOÃO
Maria Alice sempre esteve bem.
            LUCAS
O senhor garante que ela estava BEM quando VIU a cena?
            JOÃO
Eu acredito nela, poxa! Isso, pra mim, basta!
Lucas meneia a cabeça, olha para Avelino. Walter desconfia.
            LUCAS
Veja bem, seu João, a cela do cavalo estava solta e, pelo que foi relatado, dona Catarina não sabia conduzir muito bem, o que levou a essa fatalidade /
            JOÃO
(incisivo) O senhor tá insinuando que a culpa foi minha?
            WALTER
Calma, João, ele apenas tá repassando o que os peritos descobriram.
            JOÃO
Não, ele tá me acusando!
            LUCAS
Eu só quero que o senhor fique ciente de que, em caso de insistir que houve crime, a justiça vai considerar apenas o resultado da perícia, não as palavras de Maria Alice. E isso pode prejudicar muito o senhor.
            JOÃO
Isso é uma ultraje! (para Avelino) Isso é coisa tua, né? Minha filha morre nas suas terras, você manda adiantar a perícia e a polícia conclui rapidamente que foi um acidente, (bate palmas) Bravo!
            AVELINO
(falso) Não é bem assim, meu amigo /
João mete um soco na mesa, assustando a todos.
            JOÃO
Eu não sou teu amigo! Chega dessa farsa! Minha filha tá morta, enterrada e eu to sendo convidado a esquecer o assunto pra não ser preso.
Alessandro se aproxima, com calma.
           ALESSANDRO
João, por favor, a gente entende o que você tá sentindo /
João se afasta, arredio.
           JOÃO
O que eu to sentindo? E você não sente nada? (para geral) Olha a calma desse rapaz! Você enterrou a sua esposa, lembra? (faz a negativa) Aquilo não foi um acidente.
E João abre a porta com força e sai. Avelino e Lucas cruzam os olhares, cúmplices.
CENA 15 INT. - CASARÃO / FAZENDA SANTOS / SALA – DIA
Maria Alice e Noel perto da porta; Helô anda de um lado para o outro, angustiada; Mazinho, sentado, ao lado de Cícero; Maria José roendo as unhas, ao fundo.
João aparece, nervoso, cruzando o cenário. Os demais que estavam no escritório vêm atrás.
           JOÃO
Vamos embora, Helô!
           HELÔ
Mas então? O que a polícia concluiu?
           JOÃO
(nervoso) Foi um acidente, acredita?
           ALICE
Como assim “acidente”?
           JOÃO
Isso pra evitar que eu seja preso. Porque ficou muito claro pra polícia que quem matou minha filha fui eu.
TODOS pasmos, menos Avelino, Lucas, Walter e Alessandro.
           NOEL
Que absurdo! O senhor não merecia passar por isso.
           MAZINHO
Absurdo é a Alice plantar besteira na cabeça dele, isso sim.
           JOÃO
Já chega! Já me exauri. Quem me acompanha?
João SAI. Helô, Alice e Noel vão atrás.
FADE OUT
FADE IN
[MUSIC ON – Alive – SIA]
CENA 16 EXT. - CARRO DE POLÍCIA – DIA
Dentro do carro, Avelino troca algumas palavras com Lucas. Repassa um envelope pardo volumoso, e o policial apanha. Abre, puxa um bom maço de dinheiro. Ambos sorriem.

CAM BUSCA Maria José, escondida no canto do CASARÃO, filmando a cena com o seu celular.
FUSÃO PARA
CENA 17 INT. - CEMITÉRIO – DIA
ÂNGULO BAIXO – PASSOS podem ser ouvidos, se aproximando de um jazigo. A lápide revela a inscrição:
“Catarina Guerra dos Santos
12.09.1995 – 07.10.2016
Ótima filha e amiga de todos, sempre em busca de harmonia. Suas boas intenções não passarão.”
Uma rosa vermelha é jogada sobre o jazigo. CLOSE na rosa com seus vários espinhos, enquanto os PASSOS se distanciam.
FUSÃO PARA
Uma fotografia de Catarina, ainda criança, ao lado de Alice e Noel, adolescentes. Todos sorrindo /
CENA 18 INT. - CASARÃO / FAZENDA GUERRA / QUARTO DE CATARINA – NOITE
A foto é vista por Alice, próxima da janela. Ela deixa escorrer uma lágrima, mas limpa imediatamente e olha pelo vidro da janela. CAM SE AFASTA
Ganha o EXTERIOR DO CASARÃO
Até que a imagem de Alice esteja distante.
FUSÃO PARA
Cartas de tarô viradas sendo dispostas à mesa /
CENA 19 INT. - CABANA – NOITE
Duas cartas, de cada canto, são descobertas: A carta que revela uma figura masculina e a outra feminina. A terceira carta, do meio, é desvirada e revela a imagem de um rato. Tina cobre as cartas com a mão, não gostando nem um pouco.
FADE OUT
FADE IN
O sol se destaca no horizonte. Alguns takes das fazendas, da vegetação, do gado espalhado no campo /
CENA 20 EXT. - CASARÃO / FAZENDA GUERRA – DIA
[MUSIC OFF]
Um carro preto estaciona. Paulo, de prontidão, se aproxima quando a porta do carro é aberta. Um homem (branco, 60 anos, magro, de bigode, trajando terno cinza) desce segurando uma pasta e cumprimenta Paulo.
CORTA PARA
CENA 21 INT. - CASARÃO / FAZENDA GUERRA – DIA
João cumprimenta o tal homem, dando-se as mãos. Faz o mesmo com Helô.
           HOMEM #1
Meus pêsames. Não pude comparecer ao enterro, mas espero que minhas flores tenham chegado.
           HELÔ
Sim, chegaram. Nós agradecemos muito.
           JOÃO
Por favor, Rafael, vamos nos sentar. Você disse ao telefone que Catarina fez alterações no testamento?
           RAFAEL
Sim, mas acho melhor você se preparar, meu amigo. O documento envolve outras pessoas e, principalmente, outro local para a leitura do testamento.
           JOÃO
Outro local? Onde?
Em Rafael, receoso em responder.
CENA 22 INT. - CASARÃO / FAZENDA SANTOS / SALA - DIA
PLANO GERAL – Rafael sentado numa poltrona preta, munido de uma pasta aberta, cheia de papéis; No sofá, Avelino, Mazinho e Cícero, curiosos; João anda de um lado para outro, inconformado. Helô tenta acalmá-lo; Maria José mais atrás, roendo as unhas; Alessandro, sentado em outro sofá, de braços cruzados; Perto da porta, Walter está de pé, ao lado de Alice e Noel.
           RAFAEL
Posso começar? (lendo) “Eu, Catarina Guerra, em plenas faculdades mentais, livre de qualquer coação, decidi fazer esse meu testamento particular, como efetivamente o faço, sem constrangimento.”
CORTE DESCONTÍNUO
No rosto de cada um, atento.
            RAFAEL
(lendo) “Deixo 50% da minha herança a cargo de meu pai, João Amado Guerra e peço que, os 50% restantes sejam entregues aos meus amigos Maria Alice Pimentel dos Santos e Noel Castro dos Santos, nomeando-os, portanto, os novos herdeiros da família Guerra.”
TODOS se mostram CHOCADOS. Avelino quase salta do sofá.
            RAFAEL
(lendo) “Salvo uma condição: Para que eles possam receber os 25% cada, faz-se necessário a permanência de Maria Alice Pimentel e Noel Santos à fazenda Santos por UM ano, nem mais nem menos, para que possam aprender a conviverem juntos e estreitarem os laços familiares.”
           AVELINO
Isso só pode ser piada!
           JOÃO
Você respeita a decisão da minha filha!
           RAFAEL
(lendo / aumenta o tom de voz) A convivência de ambos será monitorada pelo meu advogado, Rafael Campos e, caso não seja cumprido o acordo, Alessandro Castro dos Santos, então meu marido, passará a ter posse dos 50% da minha herança.
Em Alessandro, pasmo. Mazinho lhe dá uma olhada sacana. Em cada um, surpreso com a decisão, até chegar em Alice e Noel, entreolhando-se, tensos.
FADE OUT
FIM DO CAPÍTULO

APRESENTANDO

CHRISTIANA UBACK.......................Maria Alice Pimentel
JOÃO VÍTHOR OLIVEIRA........................…...Noel Santos
MARCO PIGOSSI.............................Alessandro Santos
OSVALDO MIL..................................Mazinho Santos
JULIANA LOHMANN...........................Maria José Guerra
LUCINHA LINS....................................Helô Castro
HERSON CAPRI…................................Avelino Santos
LUCCI FERREIRA................................Walter Santos
MURILO GROSSI............................…………...João Guerra
TONICO PEREIRA................................Cícero Guerra

PARTICIPAÇÃO ESPECIAL

BIA ARANTES.................................Catarina Guerra


ELENCO SECUNDÁRIO
RAPHAEL VIANA..................................Paulo Borges
CAIO BLAT.....................................Padre Batista
CLÁUDIA NETTO..............................………………Tina
DANI BARROS...................................Tarsila Santos
MARCO RICCA..................................Wagner Pimentel

ATORES CONVIDADOS NESSE CAPÍTULO

GENÉZIO DE BARROS..............................Rafael Campos
SÉRGIO MARONE.................................Policial Lucas




Essa obra não possui nenhum vínculo/contrato com os atores citados acima.




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